quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

TU


Mais um ano passou e já nós ambas
Somos mais velhas do que tu quando morreste.
Mas hoje é apenas festejada
A data do dia em que nasceste 
- Há cento e dezassete anos.
Da tua presença, contudo, só deixaste
Setenta e oito, não descontados
Os anos em que ainda não eras pai
E que recuperámos nas memórias
- Tuas, mas mais facilmente alheias -
Discreto que eras em saliência
Mas que a nossa mãe prodigalizava,
Na admiração que por ti tinha sem reserva.
E a saudade mantém-se, inalterada,
Da presença que em nós deixaste,
Nas conversas da ternura revivida,
Jovens nós, sempre, quando recordamos,
Os tempos do outrora em que o fomos,
Ignorando as tropelias que a idade
Sorrateiramente nos traria de presente.
De ti diremos sempre que vivo és
Nos nossos corações eternamente
Enquanto se mantiver eternidade
Na nossa vida consciente.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

«Livros são papéis pintados com tinta»


Disse-o Fernando Pessoa, que muito amou os livros, mas ironizava sobre as sentenças que tantas cabeças menos ilustradas poderiam dizer ou pensar, no espaço da sua incúria educativa ou na sua liberdade preguiçosa de não querer saber ler, nem escrever, nem contar - «quanto é melhor, quando há bruma, esperar por D. Sebastião, quer venha ou não.» Mas pode significar, também, uma relativização de tudo o que se passa neste mundo do efémero.
O certo é que as coisas evoluem, dantes houve o pergaminho, e se recuarmos mais, existiram o papiro e a caverna, e a pedra da roseta. Ainda bem que existiram, porque ajudaram a esclarecer. Mas passaram. E homens houve que os interpretaram. O trabalho de Pacheco Pereira e os seus amigos, de procurarem vestígios nos papéis de outrora deve ser fascinante, e certamente que ajuda a reconstituir factos da História e adjacentes.  E lembra, sobretudo, as versões excitantes dos enredos policiais, com Sherlock Holmes e as suas pistas materiais, Hercule Poirot usando, de preferência, as suas nobres “células cinzentas” na reconstituição da verdade criminal. Mas a recolha de pistas várias para a elaboração da verdade histórica, que Pacheco Pereira justifica como de maior importância, os meios electrónicos suplantaram-na, talvez, por ora. Na velocidade em que a “mudança”, hoje, se processa, dentro em pouco estes serão desvalorizados também por outros de outra magnitude. Assustador. E injusto para o estudioso.
OPINIÃO  Para que é preciso guardar esse papel? Está tudo na Internet... Não. Não está e não é a mesma coisa
O conhecimento da história é mais rápido e profundo quando se lida com as coisas reais.
JOSÉ PACHECO PEREIRA                          PÚBLICO, 20 de Janeiro de 2018
No trabalho que eu e mais de uma centena de voluntários e amigos fazemos de recolha de documentos, objectos, imagens, recortes, etc., etc., é vulgar ouvir pessoas que desvalorizam as coisas físicas, em detrimento das suas digitalizações. Na recente campanha eleitoral autárquica era muito comum pedirmos aos candidatos e candidaturas os seus materiais e receber a resposta: “Está tudo na Internet” ou no Facebook, ou em qualquer outro suporte electrónico. E nós dizíamos: “Não, não é verdade.” E mesmo que muita coisa estivesse, muita coisa faltava. Podia haver a imagem de outdoor, mas não havia a fotografia da sua colocação numa praça ou rotunda, e escapavam t-shirts, canetas, cinzeiros, caixas de medicamentos, e chapéus (a novidade nos “brindes” da última campanha), que mostram linhas de desenvolvimento da propaganda política e do seu público, para além de não se saber o que é que tinha sido efectivamente publicado em papel, o que mostra que alguém deu relevância àquele panfleto e não a outro que apareceu apenas como entrada no Facebook. Sim, é importante ter toda a informação digitalizada disponível (ela própria mais perecível do que se imagina, como mostra o esforço do Arquivo.pt em arquivar os sites mortos), mas é igualmente importante ter a dimensão física, real e não virtual, daquilo que representa a actividade política, cultural e social, que é um retrato importante do nosso espaço público.
A seguir a dizer “Não, não está tudo na Internet”, acrescentamos: “Não é a mesma coisa.” E este segundo elemento é talvez até mais importante do que o primeiro. Na verdade, nós homens (ainda) somos uma entidade física real e não virtual. O nosso mundo depende dos nossos sentidos e do seu alcance, e o corpo humano é naturalmente imperfeito e, mesmo com os aparelhos e instrumentos que alargam os nossos sentidos, continuamos a ter um mundo que depende do que vemos e do que ouvimos e das noções de espaço e tempo de cada época. Esta última afirmação remete já para a existência de um espaço social que é uma construção histórica e cultural — não temos a mesma noção de espaço se formos europeus ou se formos chineses, os limites do público e do privado são distintos e “civilizacionais”, com o “encolhimento” actual da privacidade, e com o tempo também se passa a mesma coisa.
O relógio, o device que todos temos acoplado ao nosso corpo, seja no pulso, seja no telemóvel, molda o nosso tempo pelo tempo da indústria, que tão arduamente teve de ser “imposto” às primeiras gerações de operários industriais que vinham do campo com outro tempo, o do sol a sol. E mesmo esse tempo e esse espaço estão a sofrer nos dias de hoje uma profunda mutação com o domínio de uma sociabilidade da contínua presença (gerada pelo telemóvel e pelo software de mensagens) e pela enorme aceleração do tempo, com a hegemonia do tempo rápido induzido, por exemplo, pelos jogos de vídeo e pela prevalência por todo o lado da imagem em movimento, com um enorme efeito de desatenção e dificuldade de pensar em tempo lento, assim como a percepção obsessiva dos seus sinais na moda, na publicidade, na apologia da juventude, da novidade, da rapidez, e na ausência de tempo lento.
Voltando ao que se guarda e ao que se arquiva, “não é a mesma coisa” o analógico e o digital, o real e o virtual. Um exemplo que eu e os meus amigos recolectores conhecemos bem é o efeito poderoso do “real” sobre o virtual quando se trata de fazer uma exposição. Podemos ter um ecrã a passar filmes e imagens digitalizados, podemos ter hologramas, mas é o objecto físico, seja uma faixa com as suas dimensões gigantescas — não é fácil transmitir a noção do tamanho, a não ser... pelo tamanho — ou uma pequena escultura de cerâmica, feita na Vista Alegre, com um trabalhador esmagado pelo saco que transporta e que é uma peça de reclame dos cimentos Liz, que atrai a atenção, essa preciosa e rara qualidade.
O “diálogo”, se assim se pode chamar, entre um visitante e o material que é exposto é de natureza muito diferente, porque são duas entidades reais que se confrontam. O mesmo se passa quando restauramos um antigo copiografo e o fazemos funcionar para uma plateia de jovens que não fazem nenhuma ideia do que era escrever à máquina num stencil, corrigir os erros com verniz das unhas, saber que há coisas que não se podem fazer num stencil, como seja o excesso de sublinhados que diminuem a vida útil da folha encerada que acaba por se rasgar. Não há nenhuma virtude nem mérito em ter de fazer as coisas assim para produzir um panfleto clandestino, nem temos um átomo de nostalgia. Hoje é muito mais fácil, mais rápido e melhor com um computador, um processador de texto e uma impressora a laser, mas o conhecimento da história é mais rápido e profundo quando se lida com as coisas reais. É o mesmo com as reconstituições de batalhas mais rigorosas, muito comuns nos EUA, e o conhecimento de como se matava com arco e flecha, ou a vantagem das formações militares gregas antigas, e tudo isso depende e muito da dimensão física das coisas e da sua percepção.
E voltando ao “está tudo na Internet”, dá-se um efeito perverso de distorção da memória. Primeiro, por muita coisa que já esteja na Internet, a esmagadora maioria não está. Uma das pragas, por exemplo, do jornalismo dos nossos dias é a preguiçosa utilização dos motores de busca, ou, pior ainda, da Wikipédia, para “despachar” um artigo, deixando de fora informação preciosa porque está no arquivo de recortes do jornal, mas não em linha. Uma das coisas em que insistimos em preservar, e que “salvamos”, são os arquivos de recortes que são muito comummente deitados ao lixo. Esta redução da memória àquilo que está em linha, e mesmo assim muitas vezes mal procurado, acelera a dominância de uma memória colectiva muito curta, escassa e pobre.
E mais uma vez pode-se acrescentar: e “também não é a mesma coisa”. “Folhear” continua a ser um método mais eficaz de trabalhar com documentos, como colecções de recortes, por exemplo, em que o tempo humano da atenção e a facilidade de andar para trás e para a frente, de forma “fuzzy”, é muito eficaz para encontrarmos as coisas que não sabíamos que existiam. “Folhear” não substitui “procurar”, em que os instrumentos digitais são muito mais eficazes para informação precisa, mas adequa-se mais a investigar, ou sequer a conhecer um meio ou um contexto, que a “procura” não dá.

As ameaças à memória, a destruição acelerada dos sinais físicos da história (considera-se apenas o património monumental e mesmo assim mal), a pseudomodernidade que reduz tudo o que “existe” ao que está acessível a um motor de busca são uma praga dos nossos dias. Não é um resultado de qualquer evolução tecnológica inevitável, é um processo social e cultural que vai a par com a ascensão da nova ignorância, o predomínio da superficialidade, a crise da atenção, a adolescente obsessão do “já” e a substituição da conversação pela emissão de uma forma de apitos que dizem “estou aqui”. Eu e os meus amigos recolectores combatemos tudo isto, usando como bandeira (também nós...) o dito que a “preservação da memória do passado é uma arma da democracia do presente”. E é. Ámen. 

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Do PÚBLICO de 19/1/18


Dois textos sobre as nossas preocupações de sobrevivência: A baixa natalidade actual, por Bagão Félix, condicionadora da nossa sobrevivência como nação; e uma vez mais, a defesa de uma representante de um estatuto de superioridade moral e de coragem, que poderia ser exemplo à nossa sobrevivência educacional, texto de David Dinis, na EDITORIAL.
Bagão Félix mostra-se preocupado com um problema, ao que parece, sempre adiado pelos governos, no imediatismo de outras premências, e sempre condicionados pelo espectro da nossa mediocridade económica, de “contagem de tostões”, para poder garantir o “bem-estar” económico das famílias, apesar dos meios auxiliares existentes, de “acompanhamento” das crianças, não só do ponto de vista dos cuidados de saúde, mas do ponto de vista dos infantários para acolhimento destas, na ausência laboral dos pais. Mas a carga para estes é pesada, e os egoísmos próprios também, impeditivos do aumento da natalidade para a sobrevivência das nações. E, todavia, se pensarmos no esgotamento dos recursos naturais, de que a água é o principal elemento, e que a explosão demográfica traz à Terra, nós até contribuímos, com o défice dos nossos nascimentos, para a salvaguarda do nosso planeta, sendo, assim, seus naturais benfeitores, não há que lamentar. Bagão Félix é que é dos antigos, que lembra a história pátria com emoção, naturalmente a esvair-se nas gerações mais desligadas de agora.
Um bonito texto também, o de David Dinis, sobre uma mulher bonita que, como serve de exemplo a comportamentos sadios, é posta de lado, talvez. Fica sempre o apoio e a simpatia dos bem formados, que a defendem.

I - O maior dos défices: o de nascimentos 
ANTÓNIO BAGÃO FÉLIX
Toda a gente admira a obra de um grande artista e ergue-lhe mesmo às vezes o monumento a confirmar. Mas nunca ninguém ergueu um monumento a um homem e a sua mulher por terem gerado um filho, que é obra infinitamente maior.
(Vergílio Ferreira, Pensar, 1992)
Não é demais falar no défice de nascimentos. Até porque o assunto dificilmente sobrevive a umas somíticas notícias, embora seja fundamental para o nosso futuro colectivo e para a sustentação geracional do Estado redistributivo. É um tema que passa praticamente ao lado de uma praxis política que se alimenta da táctica, do curto-prazo e da circunstância. E como aparentemente é um problema para “depois de amanhã”, não abre telejornais.
Em 2017, e segundo dados do Ministério da Justiça, terão nascido menos 2702 do que em 2016, podendo, assim, recuar-se a valores próximos do mínimo registado (82 367 nascimentos em 2014).
Este valor continua muito longe do que seria necessário para repor as gerações. Nascem agora pouco mais de 2/3 de crianças do que no princípio do século e menos de metade do que há 30 anos. Por força de sucessivas taxas de fecundidade muito baixas (1,3 filhos por mulher em idade fértil, um dos valores mais baixos do mundo), as mulheres que podem vir a ter filhos no futuro são cada vez menos em comparação com a geração anterior. Por outras palavras, a fertilidade até pode aumentar por mulher, mas o número de mulheres nessas condições é menor, logo os nascimentos são menos. Nos próximos 35 anos, a maior parte das mulheres que vão ser mães já nasceu.
Embora haja muitas e diversas causas para este brutal decréscimo de nascimentos, importa responder com políticas públicas, sobretudo quanto à partilha de tempos para a família e para o trabalho. Tal implica uma aceleração na cobertura nacional de creches e de infantários, incentivos para as empresas promoverem estes equipamentos em condições de proximidade, uma maior flexibilização dos seus horários, mais oportunidades e incentivos ao trabalho a tempo parcial, trabalho domiciliário e teletrabalho, novas formas de flexibilidade horária para os pais nos primeiros anos de vida dos filhos.
A política fiscal continua a secundarizar as famílias com mais filhos e sofreu um retrocesso com a abolição do quociente familiar. Por outro lado, deve analisar-se a possibilidade de criação de mecanismos de bonificação e de acesso à pensão de velhice para os pais de famílias numerosas (estava previsto na lei de bases da Segurança Social de 2003) ou de não se aplicar o factor de sustentabilidade nas pensões dos pais com mais de dois filhos assim favorecendo quem, pela via geracional, mais contribui para a sustentabilidade do sistema de pensões e para o equilíbrio geracional da Segurança Social.
Este problema, aliás, não é apenas português. É, em geral, de toda a Europa. Uma Europa adormecida, cheia de vícios e formalidades, onde se discutem até à náusea muitos “papers” e se estimula uma concepção de vida em sociedade feita só de euros e baseada em mínimos familiares. Onde, nas suas orientações programáticas, há, pelo menos implicitamente, um relativo desprezo pela vida nascente e uma secundarização da família. Em contraste, fala-se do número de abortos permitidos como se se estivessem a almejar objectivos nacionais. Agora que temos um continente que se deixa envelhecer e prefere certos afloramentos ainda que não explícitos de uma cultura da morte, que diferença em relação à Europa do pós-guerra que fez da natalidade e da renovação geracional os seus motores de esperança e de desenvolvimento!
II- EDITORIAL     
Joana Marques Vidal não é a Rainha de Inglaterra
DAVID DINIS                  
Chamaram-lhe “Joaninha sem medo”, mas pecaram por defeito. Joana Marques Vidal deixou ontem um testemunho vivo de que ser Procuradora-Geral da República não é, para ela, ser uma espécie de Rainha de Inglaterra - sem poderes, como uma vez se queixou o seu antecessor e como muitos preferiam que o PGR fosse. Joana tem poderes, sim, e usa o que mais faz a diferença: a palavra, para marcar posição.
O seu discurso de cerimónia de abertura é um tratado. Podíamos até dar-lhe um título: "Como lidar com os elefantes no meio da sala". E havia dois, bem grandes, na sala do Supremo Tribunal de Justiça. 
O primeiro era Angola. E Joana Marques Vidal, desafiada pelos políticos do mundo dos negócios para “explicar” porque é que não mandava para Luanda o processo de Manuel Vicente, disse tudo sem dizer a palavra: começou por valorizar a cooperação com outros países; lembrou os acordos de cooperação assinados; exigiu depois “respeito mútuo”; e fechou com uma referência simpática aos PALOP. Nunca se lhe ouviu a palavra Angola, nunca lhe poderão acusar de ter respondido à letra. Mas, não tenha dúvidas, toda a gente lá percebeu o recado: nós respeitamos a vossa soberania, façam o favor de respeitar a nossa.
O segundo elefante era o da sua continuidade na PGR. E, uma vez mais, de Joana Marques Vidal não ouvimos uma referência ao assunto. Mas registámos o balanço que ela deixou aos “últimos cinco anos” - precisamente os que correspondem ao seu mandato. Deixando um sinal: se não for reconduzida na Procuradoria, já deixou o seu legado. E fixando um tabu: até Outubro não saberemos se ela, “Joaninha sem medo”, quer ficar ou deixar o lugar ao próximo. O que é certo é que só assim poderia manter, até lá, intacta a sua independência - e a sua influência.
Joana Marques Vidal não deixará medo em ninguém, não é esse o seu papel, nem é assim o seu discurso. Mas impõe o respeito que o cargo exige. Por isso, já nos deixou uma herança: a quem se seguir a ela, exigiremos pelo menos o mesmo. Boa sorte a quem tiver de escolher.
P.S. Os agentes do sector demoraram um ano e três meses a chegar a um Pacto da Justiça, com 89 medidas. Os partidos demorariam sempre pelo menos o mesmo a traduzi-las num acordo que resultasse em leis. Por isso, não vale a pena ter muita expectativa: tirando as custas judiciais, não haverá nesta legislatura grande espaço para progressos - nem muito dinheiro para investir. Até por isso, Marques Vidal merece um elogio: fazer melhor com tão pouco é azar que ninguém merece, e tarefa que poucos cumprem.