sábado, 26 de maio de 2018

Última Página



Do Jornal Público de 19/4/18, já atrasado, portanto. (Não dou vasão aos jornais que a minha irmã me traz nos nossos encontros bissemanais). Li o texto de João Miguel Tavares sobre o seu confronto enérgico de justiças – portuguesa e brasileira. Como sempre, admirei-lhe a escrita desenxovalhada e o pensamento honesto, claro e destemido da sua diatribe.
E admirei o critério do Público de reunir esse texto com o do Bartoom de Luís Afonso na sua última página, em perfeita sintonia na visão humorística da política destes nossos tempos.
Acrescento, pois, ao artigo de João Miguel Tavares, a descrição do “cartoom” de Luís Afonso, para demonstrar o tal critério humorístico do Público de reunir os dois críticos na Última Página.

I - Cartoom
(Nós, os barmans apreciadores de doestos)

1ª Vinheta:
O freguês lê o jornal, compenetrado e pronto a disparar o seu doesto, os ossos das mãos, com os respectivos dedos, de cada lado das páginas abertas, em leque de curvas – mais simétricas as da mão direita, de postura desleixadamente inerte sobre esse lado, na página de momento não focalizada; já os ossos das falanges da mão esquerda no lugar respectivo e os dedos no comprimento adequado: o leque das curvas, portanto, mais realista, denotando tensão ao nível das ditas falanges, que acompanham o seu visual atento, onde a pupila não está visível, baixada sobre a notícia da sua leitura do instante.
O barman atento, visual assestado sobre a fala do freguês, os pêlos da cabeça no sítio do costume, quais radares, o braço esquerdo aconchegado no balcão, por trás do queixo.

Fala do freguês:
«O MINISTRO DAS FINANÇAS REJEITA O DESPESISMO…

2ª Vinheta:
Sem mudança perceptível, as pernas do freguês cruzadas, tal como na primeira vinheta, acompanhando com compostura tensa a sua reflexão à Zé Povinho:

«…E DIZ QUE NÃO SEGUIRÁ O CAMINHO QUE A ESQUERDA QUER.»

3ª Vinheta:
O barman na mesma pose, o freguês já descoberto, fechado o jornal, rematando a notícia, com a sua dedução esclarecida, a mão direita mais real agora, de dedos bem abertos, acompanhando o estado de alma, parte da camisa e gravata já visíveis, a cabeça contendo o redondo exaltado da boca, iniciando o seu argumento conclusivo:

«…E COMO É ELE QUE ESTÁ AO VOLANTE…»

4ª Vinheta                                                                                                               
Jornal pousado no banco seguinte, desta vez a mão direita do barman a esconder a boca visivelmente aberta da sua curiosidade e espanto, pelo atrevimento crítico, boca anteriormente reduzida a um ponto atento:

«BEM, RESTA À ESQUERDA TENTAR FURAR OS PNEUS.»                                                                                                                                         
II- OPINIÃO
A justiça portuguesa é melhor do que a brasileira?
Três anos após ter sido condenado, o senhor Vara continua livre como um passarinho a trabalhar como consultor em África. É esta a justiça de que nos devemos orgulhar? Não gozem comigo.
JOÃO MIGUEL TAVARES
OBSERVADOR, 14 de Abril de 2018
Acho extraordinário que tantos portugueses, que nunca conheceram na vida outra coisa senão um sistema de justiça profundamente disfuncional, considerem ainda assim estar possuídos de um estatuto cívico e moral que lhes permite olhar com sobranceria para a justiça brasileira, como se os juízes no Brasil fossem anjos exterminadores e nós os felizes inquilinos do paraíso dos tribunais. É preciso não ter a menor noção. É verdade que em Portugal não precisamos de temer os horrores da Operação Lava-Jato – mas isso é porque a justiça portuguesa jamais teria à sua disposição os meios, a vontade e as leis para desmontar uma rede de corrupção daquele calibre.
A famosa frase “mais vale um criminoso solto do que um inocente na prisão” não tem discussão possível, mas qualquer sistema penal procura um equilíbrio razoável entre as garantias da defesa e os instrumentos ao dispor da acusação. Uma acusação com força excessiva pode levar muitos inocentes à prisão. Mas uma defesa com garantias excessivas pode levar a que muitos criminosos nunca sejam presos. Aquilo que acontece em Portugal, no que diz respeito à corrupção e aos chamados crimes de colarinho branco, é que tudo está alinhado para dificultar ao máximo a obtenção de prova, e é tamanho o leque de artimanhas processuais a que os acusados podem recorrer que o sistema protege vergonhosamente quem tem o dinheiro necessário para interpor infindáveis recursos e contratar os melhores advogados.
Vestidos com o melhor smoking civilizacional, escondemos o estado miserável da nossa roupa interior enquanto torcemos o nariz à delação premiada (como se ela não exigisse ser corroborada por documentos), recusamos o enriquecimento ilícito agitando o fantasma da inversão do ónus da prova, e consideramos impensável que alguém possa ser preso após condenação em segunda instância. Enfim: não é propriamente “alguém” – é Lula da Silva, porque antes dele já milhares de brasileiros tinham ido parar à prisão nas mesmas condições sem que ninguém tivesse reparado.
O facto do plea bargain – em inglês talvez soe mais fino – existir em países como os Estados Unidos, a França ou a Itália, e ser considerado essencial para combater crimes onde sem um qualquer acordo de diminuição de pena nenhum criminoso tem incentivo para falar, parece impressionar ninguém. Tal como parece impressionar ninguém que a terrível prisão após condenação em segunda instância só peque por atraso em países como os Estados Unidos, o Canadá ou a Inglaterra – aí, a regra é prender-se logo após condenação em primeira instância, independentemente de um tribunal superior vir mais tarde a mudar de opinião.
Isto não é assim porque os americanos ou os ingleses são selvagens. É assim porque consideram que a suspensão de uma pena anos a fio põe em causa a confiança no cumprimento da justiça e dá origem a um sentimento de impunidade – precisamente aquilo que acontece em Portugal. Olhe-se, por exemplo, para o processo Face Oculta: Armando Vara foi condenado a cinco anos de prisão efectiva a 5 de Setembro de 2014; viu a pena confirmada pela Relação a 5 de Abril de 2017; e só agora, um ano depois, é que um novo recurso vai dar entrada no Tribunal Constitucional – não havendo qualquer previsão de quando a decisão final surgirá. Três anos após ter sido condenado, o senhor Vara continua livre como um passarinho a trabalhar como consultor em África. É esta a justiça de que nos devemos orgulhar? Não gozem comigo.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Povo errante



É claro que as opiniões divergem, mas, porque não hão-de os israelitas ter direito a uma pátria? Afinal eles até são um povo de eleição, que Deus amou, diz-se, mas que condenou simultaneamente a uma errância, que se traduziu, entre nós, portugueses, em personalidades da cultura que tanto contribuíram para a nossa valorização cultural como povo, pese embora perseguições que alguns sofreram, judeus que eram. O seu sofrimento atroz na segunda guerra, e como consequência a criação do Estado de Israel, por comiseração, talvez envergonhada pela hediondez do crime, parece-me das coisas mais justas que se fizeram, e lembro a garra da ministra Golda Meir, no orgulho e desenvolvimento que deu ao seu país. Outros movimentos se sucederam, o povo israelita, na sua superioridade orgulhosa, despreza e mata e esfola e arrasa, o povo palestiniano lesado, que teve que aceitar a sua redução territorial. Francisco Assis descreve os factos últimos, a seguir comentados, positivamente pelos da mesma facção política, que se sentiam defraudados pelas suas anteriores “fugas” de gentleman, ao espírito do partido. José Manuel Fernandes explica, em texto antigo, o tal conflito. Outros dados foram procurados na Internet, a tentar entender, lá das histórias do passado, também. Mas o mundo dá muita volta, não ficamos por aqui. “Vou continuar a procurar”, tal como fez António Variações, embora não durante muito tempo. Infelizmente para nós, pois foi um génio de todo o tamanho. O que virá a seguir? Que o Deus de Israel nos valha, e sobretudo aos palestinianos humilhados.

I - A tragédia de Israel
Com a cumplicidade dos Estados Unidos, Israel leva hoje a cabo uma política que ofende princípios fundamentais dos Direitos Humanos e contraria tudo o que de melhor o pensamento Ocidental se pode reclamar.
17 de Maio de 2018
Em 1963, a propósito de uma viagem ao Líbano, o então Presidente francês, Charles De Gaulle, terá confidenciado ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Couve de Murville, que voava “para o complexo Oriente com ideias simples”. Esta frase tornou-se célebre e foi várias vezes invocada ao longo das últimas décadas. De Gaulle era não só um génio militar e político como também um homem dotado de uma prodigiosa imaginação literária, que favorecia o culto do paradoxo. Com tal afirmação procurava certamente salientar simultaneamente a força e os limites da razão cartesiana — tipicamente francesa — aplicada à singularidade de um espaço mental, cultural e político profundamente diferenciado das referências canónicas ocidentais. De certa forma, esta afirmação revela uma grande incompreensão da especificidade do mundo oriental. Na verdade, não é possível compreender esse mundo com base num modelo interpretativo de natureza estritamente europeia.
Edward Said, provavelmente o intelectual palestiniano de maior projecção internacional, que viveu grande parte da sua existência em Nova Iorque, chama precisamente a atenção para a forma deturpada como o Ocidente percebeu historicamente o Oriente naquela que será a sua obra mais importante, Orientalism. Tudo isto vem a propósito dos últimos acontecimentos ocorridos em Israel.
Durante muitos anos obstinei-me em recusar a pertinência da tese de Said que assenta na ideia de que a instauração de um Estado judaico na Palestina comporta uma dimensão de natureza colonialista. Essa recusa mental radicava na adesão a uma certa apologética israelita associada à utopia da acção pioneira dos Kibutz, da reparação das injustiças historicamente cometidas sobre o povo judaico e do reconhecimento da singularidade regional da democracia israelita. Admitamos que estas razões não são de somenos importância e não devem ser levianamente espezinhadas.
David Grossman, um dos grandes escritores israelitas, lembrava recentemente duas coisas aparentemente contraditórias e, contudo, absolutamente respeitáveis: por um lado, o milagre que representava a criação de Israel; por outro, a circunstância de que a ocupação de um território habitado por outro povo conduz inevitavelmente à interiorização da ideia de que há dois tipos de Humanidade, uma representada por seres superiores e outra representada por seres inferiores. Essa é a tragédia genésica do Estado israelita. Ao aceder à condição de Estado-Nação, um povo que, como nenhum outro, foi objecto das mais ignóbeis perseguições históricas, metamorfoseou-se numa entidade política de natureza opressiva e mesmo, contra a sua vontade original, tendencialmente colonialista. Como se não bastasse, já pouco resta da fase inicial do Estado israelita. O actual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, descende ideológica e politicamente das correntes mais reaccionárias do movimento sionista, que tiveram na sinistra figura de Vladimir Jabotinsky a sua expressão mais conhecida. Infelizmente, Israel evoluiu historicamente num sentido profundamente negativo. Essa transformação, curiosamente, não obedece a um modelo facilmente inteligível. A extrema-direita israelita chegou ao poder - primeiro com Menachem Begin e mais tarde com o muito mais radical Netanyahu - devido ao apoio dos judeus da comunidade sefardita, que se considerava legitimamente vítima da discriminação imposta pela comunidade asquenaze, que teve grande preponderância na formação do Estado judaico. Os asquenazes são os judeus de origem centro-europeia, enquanto os sefarditas, provenientes, em épocas mais recentes, do mundo árabe, descendem das comunidades judaicas da Península Ibérica. A direita e a extrema-direita israelitas perceberam inteligentemente que os sefarditas estavam condenados a um estatuto de subalternidade na sociedade israelita e valorizaram a especificidade das suas práticas religiosas de modo a suscitar a respectiva adesão eleitoral. De certa maneira, a esquerda trabalhista representava uma elite incapaz de compreender os anseios de sectores religiosamente mais integristas, mas social e economicamente muito mais frágeis.
O resultado de tudo isto foi absolutamente deplorável. Israel, um Estado que é a vários títulos admirável, transporta consigo uma mancha verdadeiramente criminosa. Não tenhamos medo das palavras, por mais duras que elas sejam e por mais difíceis que se revelem de proferir em relação a um povo que suportou ignomínias históricas sem paralelo. Com a cumplicidade dos Estados Unidos, Israel leva hoje a cabo uma política que ofende princípios fundamentais dos Direitos Humanos e contraria tudo o que de melhor o pensamento Ocidental se pode reclamar. O primeiro-ministro israelita comporta-se como um serôdio líder colonialista. Nada justifica a sua acção, o seu estilo e o seu discurso. É um fanático que tem concorrido fortemente para a degradação política em todo o Médio-Oriente. É natural que encontre no narcisismo infantil do actual Presidente norte-americano um aliado para a sua tenebrosa causa. Lamentavelmente, esta associação de extremistas não augura nada de bom para o futuro do Estado israelita.
A União Europeia tem a obrigação histórica de prestar mais apoio às legítimas aspirações dos palestinianos. Por muito irónico que isso possa parecer, são essas aspirações que melhor correspondem ao espírito de uma Europa inspirada nos valores iluministas. Tal ocorre por uma simples razão: os palestinianos são vítimas de uma acção colonialista que ofende o que de melhor existe na cultura europeia.
Eurodeputado do PS
II - 5 COMENTÁRIOS
José Carvalho, 21.05.2018: Finalmente e sem reservas lhe dou os parabéns. Este artigo é exemplar.
Indalécio Avelino Nascimento, Mem Martins, 17.05.2018: Israel e o Sr. Netanyahu, só com sanções internacionais é que podem conter o seu ódio para com o Povo Palestiniano. Foram expulsos do seu território. Assassinados pelo exército e serviços secretos israelitas. Não contentes, ainda hoje, a sua aviação voltou a alvejar posições do Hamas, sem que se perceba a razão. Estou convencido que só terão algum juízo quando os seus aviões e drones começarem a ser abatidos. Espero que não venham depois com a tese de que estão a ser vítimas de ataque, deixando para trás todos os seus actos provocatórios. Haja alguém que forneça alguns mísseis terra-ar aos Palestinianos para se defenderem da impunidade que Israel goza, ou pensa gozar. Há momentos que os povos têm de resistir ao seu extermínio. Hitler foi-se, agora temos o Netanyahu.
Joao, Portugal 17.05.2018: Bom texto que resumidamente (e suavemente) relembra a sebentice criminosa dos colonialistas exterminadores judeus e a cumplicidade criminosa dos seus serviçais apoiantes… trauliteiros apoiantes incondicionais de todas as guerras e bombardeamentos e massacres da aliança saudita/USA/israelita pelo mundo fora.
Ontem lembrei-me da semelhança deste extermínio dos palestinianos com o extermínio dos índios americanos, enfim, o incumprimento de acordos, o terror, os massacres, o extermínio, e, claro, o roubo da terra e do sustento, confinando uma "sample" de indígenas que misericordiosamente foram poupados a um gueto ou jardim zoológico.
bento guerra, 17.05.2018: Presunção e ignorância da "esquerda". Preferem o medievalismo da barbárie islâmica
III- O essencial para entender o conflito israelo-palestiniano
OBSERVADOR, 13/6/2014
JOSÉ MANUEL FERNANDES
Como é que tudo começou?
Quase se pode dizer: no princípio era o verbo.
Os territórios reivindicados por israelitas e palestinianos encontram-se entre os que, historicamente, mais disputados foram. A isso não é indiferente o facto de no seu centro se encontrar Jerusalém, cidade-santa para três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
É em Jerusalém que está aquele que é actualmente o lugar mais sagrado para os judeus, o muro das lamentações, um troço do antigo Templo de Herodes. O muro delimita uma das faces da elevação a que os judeus chamam Monte do Templo, por aí se ter erguido o templo original, construído por Salomão e destruído por Nabucodonosor, e depois o Segundo Templo, erguido por Herodes e destruído durante a ocupação romana, no ano 70. O pequeno planalto no topo de Monte do Templo é, para os muçulmanos, a Esplanada das Mesquitas, onde se situa A Cúpula da Rocha, ou Mesquita de Omar, o santuário que foi erguido no local onde se acredita ter existido o altar de sacrifícios utilizado por Abraão, o profeta que o cristianismo e o islão partilham com o judaismo. Ao lado fica a mesquita de al-Aqsa, do século VIII, mandada construir pelo segundo califa, Omar. Este é o terceiro lugar sagrado do Islão, depois de Meca e Medina.
A proximidade destes dois lugares de culto é tão grande que houve alturas em que, do alto do Monte do Templo, palestinianos atiravam pedras ao judeus que rezavam junto à base do Muro das Lamentações. E foi quando Ariel Sharon, então líder da oposição, resolveu visitar a Esplanada das Mesquitas que, em reacção a um gesto que foi visto como uma provocação, se iniciou a revolta que viria a ser conhecida como “segunda Intifada”. A impossibilidade de se entenderem sobre este pedaço de Jerusalém, que não é maior do que um campo de futebol, foi um dos problemas que levou Ehud Barak, então primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat, o histórico líder palestiniano, a falharem em 2000 um acordo de paz que Bill Clinton tinha laboriosamente promovido.
A poucas centenas de metros destes locais fica, por sua vez, um dos lugares mais sagrados para os cristãos, a Basílica do Santo Sepulcro, construída no local onde se pensa que Jesus Cristo foi crucificado e, depois, sepultado, para ressuscitar ao terceiro dia. Esta concentração de lugares sagrados para várias religiões ajuda a explicar tensões que não nasceram apenas com o actual conflito, antes atravessaram os séculos e, a par com as ambições dos mais diferentes impérios, fizeram com que Jerusalém fosse inúmeras vezes cercada, ocupada, saqueada e incendiada, uma história trágica que está no centro dos dramas da Terra Prometida – uma terra que, afinal, foi demasiado prometida.
Mas se este é o pano de fundo de uma história agitada, o actual conflito tem as suas raízes no século XIX, altura em que surgiu o movimento sionista a reivindicar o direito do povo judeu a uma pátria, e no início do século XX, quando o desmoronar do Império Otomano criou um vazio de poder que levaria ao redesenhar das fronteiras de todo o Médio Oriente. Quando, no final desse processo, emergiu o Estado de Israel, nunca a sua simples existência foi aceite pelos estados árabes da região. Passou a viver-se num clima de guerra permanente.
IV -Acessórios culturais (Via Internet):
Pergunta: "O que é Sião? O que é o Monte Sião? Qual o significado Bíblico de Sião?"
Resposta: Salmo 87:2-3 diz: "o SENHOR ama as portas de Sião mais do que as habitações todas de Jacó. Gloriosas coisas se têm dito de ti, ó cidade de Deus!" Sendo citada mais de 150 vezes na Bíblia, a palavra “Sião” essencialmente significa “fortificação”. Na Bíblia, Sião é a cidade de Davi e a cidade de Deus. À medida que a Bíblia progride, a palavra Sião deixa de se referir à cidade física e passa a assumir um contexto espiritual.
A palavra “Sião” é mencionada pela primeira vez na Bíblia em 2 Samuel 5:7: "Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a Cidade de Davi." Sião, portanto, era originalmente o nome da fortaleza jebusita na cidade de Jerusalém. Sião passou a significar não só a fortaleza, mas também a cidade onde a fortaleza se encontrava. Depois que Davi capturou "a fortaleza de Sião", Sião passou a ser chamada de "a Cidade de Davi" (1 Reis 8:1; 1 Crônicas 11:5; 2 Crônicas 5:2).
Quando Salomão construiu o Templo de Jerusalém, a palavra Sião expandiu o seu significado para incluir também o Templo e a área ao seu redor (Salmo 2:6; 48:2,11-12; 132:13). Sião foi eventualmente usado como um nome para a cidade de Jerusalém, a terra de Judá e o povo de Israel como um todo (Isaías 40:9; Jeremias 31:12; Zacarias 9:13).
O uso mais importante da palavra Sião é em seu sentido teológico. Sião é usada figurativamente de Israel como o povo de Deus (Isaías 60:14). O significado espiritual de Sião continua pelo Novo Testamento, onde recebe o significado Cristão do reino espiritual de Deus, a Jerusalém celestial (Hebreus 12:22; Apocalipse 14:1). Primeiro Pedro 2:6: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado."
Outras definições: Monte Sião é o nome de uma das colinas de Jerusalém e que por extensão se tornou sinónimo da Terra de Israel[1] e que pela definição bíblica é a Cidade de David. Após a morte do rei David, o termo Sião passou a se referir ao monte em Jerusalém, o Monte Sião, onde se encontrava o Templo de Salomão. Mais tarde, Sião passou a se referir ao próprio templo e aos terrenos do templo. Depois disso, Sião foi usado para simbolizar Jerusalém e a Terra Prometida. Sião seria uma adequação geofónica, do idioma hebraico para o Português, referente ao nome de um acidente geográfico mencionado na Bíblia que ficava no centro de Jerusalém.Sião, para algumas denominações cristãs, será a última cidade possível de viver depois do Armagedom.
V - Como aconteceu?
Na época, a Palestina era concessão britânica e, portanto, os ingleses tentaram de muitas formas barrar o desembarque dos refugiados que precisavam de ajuda, o que sensibilizou a opinião pública mundial. A terra passou a ser chamada, para os judeus, como a Terra Prometida, para onde levaram todo seu potencial financeiro e tecnológico e passaram a construir seu país.
A terra, no entanto, já era habitada, e a partir disso, foi então revigorada a criação de um Estado judeu na Palestina e, durante uma assembleia da ONU, no ano de 1947, foi decretado que a Palestina seria dividida em dois estados, sendo que um seria Judeu e outro Árabe. Em 1948, foi, finalmente, fundado o Estado de Israel de forma oficial. O Estado árabe, também determinado pela ONU nesta reunião, no entanto, não foi criado até os dias atuais, o que torna essa luta presente até os dias atuais.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Dúvidas



Vi o filme, «O Labirinto da Saudade», um filme sobre o pensamento e o sentimento de Eduardo Lourenço que a RTP mostrou ontem. Um filme sobre Eduardo Lourenço, protagonizado por ele próprio e seus amigos, pessoas gradas da nossa política e cultura, que, naturalmente nele figuram como puras marionetes destinadas a destacar o pensamento e o sentimento do Homem e do escritor sábio, que nele actua também como marionete, em suposta despedida de uma vida cheia de estudo e realização, que o sentimento pátrio parece dominar, e o torna, por isso, simpático ao nosso parecer, que, para mais, lhe admira o pensamento de seriedade.
Visto que a morte é coisa certa, decidiu, pois, o cineasta Miguel Gonçalves Mendes, em homenagem a Eduardo Lourenço, ensaísta de pensamento elaborado e sério, a, ficcionalmente, o pôr a percorrer, não só as puerilidades ou os desajustes duma vida aparentemente já próxima do seu términus - com que, aliás, termina, na mistificação final da subida das escadas do paraíso - como a explorar, através de encontros pontuais que o texto seguinte refere, como, em exemplo, o seu posicionamento em relação à escravatura ou ao sentimento de mágoa dos brasileiros, por serem filhos de portugueses e não de outros povos conquistadores mais poderosos intelectualmente, e mais robustos e socialmente mais equipados, forma de repegar em temas do nosso prazer mórbido, de complexo de inferioridade, como esse do racismo – como se tivéssemos sido os mais cruéis - destacando uma vez mais as penúrias do nosso próprio autodesprezo, feito da consciência constante de um pecado de humildade e humilhação habilmente insinuados e contrastando com o orgulho do tal pioneirismo pátrio no mundo.
Notícias do filme e seus intervenientes, transcrevo-as a seguir, em textos do Público e da Ípsilon, obtidos na Internet.
Eu apenas refiro uma opinião, naturalmente subjectiva, sobre um certo espírito de exibicionismo glorificador,  que predomina na ficção criada – em duas semanas, ao que parece - e reduz um homem a evocações ou breves passagens de vida assentes na mulher amada, já morta e imprescindível, qual Beatriz de Dante, ou na transferência para breves encontros com figuras contestatárias, que aclaram – ou não – o seu próprio pensamento, ou outros breves encontros – com Ramalho Eanes e Jorge Sampaio, figuras inertes, inacessíveis à compreensão estrangeira, só para português entender, pois - ou mesmo Lídia Jorge, intermediária, qual pitonisa aclarando o destino, perante as dúvidas do sábio. E os ruídos do caos imaginário, já que tudo se passa no pensamento daquele, mais assimilando o universo da acção deste filme ao dos filmes da ficção infantil, labirínticos e ruidosos.
Gil Vicente já nos brindara com a Trilogia das Barcas, este filme parece um pouco na mesma linha de homenagem aos “Bons” – os “Grandes do Mundo” que vemos merecerem a Glória, no “Auto da Barca da Glória”, da alegoria vicentina.
Mas é uma opinião subjectiva, eu também não admirei a canção do Salvador Sobral e ela ganhou o festival. Será que, se lá fossem as “Ninfas do Atlântico”, que me encheram as medidas, estas teriam ganho?

I TEXTO
Um grupo de amigos de Eduardo Lourenço, que incluiu Ramalho Eanes, José Carlos Vasconcelos, Pilar del Río e o general Luís Sequeira, decidiu promover a realização de um filme que celebrasse a vida e a obra do ensaísta, mas que funcionasse também como instrumento de divulgação do seu pensamento. O resultado é O Labirinto da Saudade, um filme de Miguel Gonçalves Mendes que a RTP1 exibe esta quarta-feira à noite, pelas 21h00, assinalado o 95º aniversário de Eduardo Lourenço, e que chega no dia seguinte a várias salas do país.

Realizador de Autografia (2004), sobre Mário Cesariny, e de José e Pilar (2011), dedicado a Saramago e Pilar del Río, Miguel Gonçalves Mendes está habituado a trabalhar sem pressas. “Demorei três anos a fazer o filme do Cesariny, e com o Saramago foram quatro”, diz o cineasta. “Isto foi uma experiência completamente nova: teve de ser tudo filmado em 13 dias.” Uma das consequências de lidar com prazos apertados foi ter de alterar o seu método habitual de trabalho, que geralmente dispensa uma excessiva planificação prévia: “Aqui tive mesmo de escrever um argumento, porque tinha os dias contados.”
O filme abre com a voz off de Lourenço a explicar que nasceu a 23 de Maio de 1923, mas que só foi registado no dia 29. “De modo que estive seis dias fora do tempo, e assim fiquei sempre…”, conclui. E é de algum modo neste “fora do tempo” que vai decorrer a acção: Eduardo Lourenço parece dormitar na sua própria festa de aniversário, enquanto alguém interpreta Bach ao ar livre, e “acorda” num lugar onírico – filmado no palácio e na mata do Buçaco –, onde se vai cruzando, e dialogando, com figuras da cultura lusófona, de Lídia Jorge (que lhe passa, do outro mundo, uma chamada telefónica de Agostinho da Silva) a Gonçalo M. Tavares ou José Carlos de Vasconcelos, do psiquiatra Tiago Reis Marques ao astrofísico José Afonso, de Ricardo Araújo Pereira ao humorista brasileiro Gregorio Duvivier – que quer saber por que motivo o autor não incluiu a perda do Brasil entre os grandes traumas da História portuguesa inventariados n’O Labirinto da Saudade –, de José Ligna Nanafe, um especialista em história da escravatura que o confronta com os horrores da colonização portuguesa, a Álvaro Siza, candidato ao Óscar de melhor actor secundário pelo seu papel de barman-arquitecto interessado nas perplexidades da condição humana.
E falta ainda referir a provocadora sereia iberista a que Pilar del Río dá corpo, a cuja sedução este Ulisses mental português só resiste mercê de um estóico patriotismo. Ou os breves cameos de Ramalho Eanes e Jorge Sampaio. E, claro, a presença-ausência do fantasma que mais intensa e persistentemente assombrou a vida e a obra do protagonista deste filme: Fernando Pessoa. 
A opção de pôr Eduardo Lourenço – também ele deveras convincente na difícil tarefa de fazer de si próprio – a vaguear por salões e escadarias labirínticas enquanto vai pensando por sua conta a partir das interpelações de terceiros, comentando e aclarando as ideias que propôs há 40 anos n’O Labirinto da Saudade, mas também reflectindo sobre o Portugal de anos mais recentes ou a actual vaga populista que varre a Europa, não foi apenas um expediente astuto para a missão mais ou menos impossível de adaptar ao cinema um livro de ensaios. O próprio modo de pensar de Eduardo Lourenço – errante, dialógico, poético, paradoxal, enigmático – encontra aqui um eficaz equivalente visual.  
Mas este é também um filme sobre o devir do país que Lourenço sonda na sua Psicanálise mítica do destino português, subtítulo e ensaio inicial de O Labirinto da Saudade. E um dos problemas de Miguel Gonçalves Mendes era o de tornar inteligível, sobretudo para audiências estrangeiras, a sequência de momentos-chave da história portuguesa, muito distantes entre si, aos quais o ensaísta atribui uma dimensão traumática: a independência, a dominação filipina, o Ultimato inglês de 1890. E depois o salazarismo, a guerra colonial, o 25 de Abril, e todo o período que o livro de 1978 já não podia abarcar, do cavaquismo ao presente – uma dificuldade que o cineasta resolveu recorrendo a imagens do filme de animação Fado Lusitano(1995), de Abi Feijó, que criou ainda várias sequências novas, incluindo um divertido Cavaco Silva a fazer-se às auto-estradas em modo Velocidade Furiosa ou uma animação final ao estilo Monty Python Flying Circus, com Lourenço no labirinto da sua própria cabeça. 
E como o próprio homenageado assinala num belo texto integrado nos materiais de divulgação d’O Labirinto da Saudade, trata-se também de “uma espécie de requiem”, de uma despedida. “Somos seres nascidos para a morte, e, embora eu espere que o Eduardo Lourenço fique por cá muitos anos, não podemos ignorar que tem 95 anos”, diz o cineasta. Mas “a nossa própria morte é-nos tão hostil que nós nem em sonhos morremos”, argumenta o próprio Lourenço no final do filme, já ao balcão do Bar da Eternidade. E logo acrescenta: “Agora, a morte verdadeira é a do outro, a do outro que existiu para nós, que foi tudo para nós, que foi o absoluto para nós, e essa é que é a morte real.” E o espectador sente-se imediatamente transportado para uma das mais pungentes cenas iniciais, quando um Lourenço “a arrastar os pezinhos” (expressão dele) por um longo corredor fora e a queixar-se de que nunca se lembra onde põe as coisas, as chaves de casa, os papéis, se aproxima de uma fotografia emoldurada, que se adivinha ser do seu casamento com Annie Salomon, que perdeu em 2013, e pergunta: “Annie, onde estás?” 

II TEXTO:
Eduardo Lourenço na Disneylândia
Miguel Gonçalves Mendes traduz certeiramente o pensamento de Eduardo Lourenço, mas fá-lo pelo meio de uma parafernália digital que corre o risco de o trair.
O Labirinto da Saudade
  2 estrelas
23 de Maio de 2018
Caso estranho, este de um filme que, em pouco mais de uma hora, dá tantos tiros no pé e ao mesmo tempo acerta na mouche no essencial. À imagem do que fizera com Mário Cesariny em Autografia (2004) e com José Saramago em José e Pilar(2010), Miguel Gonçalves Mendes volta a contornar a lógica tradicional do documentário hagiográfico. Em O Labirinto da Saudade, é o próprio filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço, que completa 95 anos esta quarta-feira, a conduzir-nos por uma “encenação onírica” das ideias do livro que publicou pela primeira vez em 1978, assim protagonizando este projecto encomendado por um colectivo de amigos e admiradores (alguns dos quais participam no filme).
A ideia terá parecido irresistível a Gonçalves Mendes, cineasta que gosta de inventar e brincar com as formas, mas O Labirinto da Saudade quer ser demasiadas coisas para demasiada gente. Adaptação mais ou menos livre de um ensaio seminal sobre a identidade portuguesa, pequena introdução a uma das figuras seminais da cultura nacional do último século, celebração da sua vida, o filme acaba por ser melhor quando se concentra apenas em Lourenço e nas suas ideias.
Labirinto da Saudade
Realização:Miguel Gonçalves Mendes
Nas suas próprias palavras, o ensaísta é “um ser terrivelmente abstracto”, sem o magnetismo físico, performativo, de um Cesariny. A solução encontrada para contornar essa modéstia é o grande calcanhar de Aquiles do filme. Gonçalves Mendes coloca Lourenço a debater as suas ideias em diálogos “socráticos”, pedagógicos, com figuras públicas ali presentes como amigos ou admiradores do pensador mas também em representação de arquétipos referenciados no livro (“o escritor” Gonçalo M. Tavares, “a espanhola” Pilar del Río, “o psiquiatra” Tiago Marques, “o brasileiro” Gregório Duvivier, “o africano” José Nafafe...). Essa incapacidade de delimitar fronteiras entre personalidade e personagem abre as portas ao equívoco de uma récita amadora cheia de boas intenções mas algo canhestra, e que não é ajudada pelo recurso recorrente ao efeito de imagem. Algures entre o Darren Aronofsky de O Último Capítulo e um Terry Gilliam digital, fica a sensação de que Gonçalves Mendes está a criar uma “Disneylândia visual”, cujo barroquismo ostentatório parece espelhar (talvez inadvertidamente?) a descrição que Lourenço faz do Portugal “virtual” e idílico que Salazar criou.
A verdade é que esse “papel de embrulho” não era preciso. Bastaria a voz e a presença de espírito que Eduardo Lourenço (muito menos abstracto do que diz ser) ainda respira. Sempre que tudo se concentra no seu pensamento, na sua (brilhante) “psicanálise mítica” da portugalidade, no modo como a sua obra e a sua vida se ligam, o filme descola para lá do lastro institucional das expectativas, deixa antever o que O Labirinto da Saudade podia ter sido. Assim, fica aquém daquilo que Miguel Gonçalves Mendes já provou saber fazer — ao mesmo tempo que faz inteira justiça ao que Eduardo Lourenço é e representa. Parece contraditório, sim, mas faz todo o sentido pelo meio deste labirinto.