quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Prazer em conhecer



Embora não seja difícil compreender o significado do termo “identitário” , desmontando o termo a partir da sua etimologia, transcrevo da Internet um breve excerto explicativo, para melhor identificar o conceito expresso, na lição de história recente americana que nos oferece Teresa de Sousa, em percurso que opõe governos e candidaturas, e motivos da aceitação ou de repúdio dos diversos participantes da escalada governativa americana:

«O Ideal Identitário representa uma corrente do nacionalismo europeísta que surgiu no final do século XX sob a influência de pensadores e ideólogos como Robert Steuckers, Guillaume Faye, Pierre Vial, entre outros, diferenciando-se em termos ideológicos e da doutrina política dos movimentos nacionalistas tradicionais, aproximando-se, porém, em termos comparativos, à corrente völkisch alemã do início do século XX. O Ideal Identitário é abertamente etnocentrista, rejeitando todavia o racismo primário. No seu lugar os identitários promovem o etno-diferencialismo, um conceito que recusa o universalismo homogeneizador e que visa a preservação dos povos e das suas respectivas culturas, com vista a um desenvolvimento assente no Direito à diferença e no direito dos povos a disporem de si mesmos. Para os identitários a existência das diferenças entre os povos é um facto inquestionável, seja desde a perspectiva da antropologia, da história, da cultura, das tradições, dos modos ou das mentalidades, sendo que qualquer tentativa de convívio sobre um mesmo território torna-se inevitavelmente gerador de racismo e, consequentemente, de conflitos.

Sendo os Estados Unidos uma nação de “comando”, as novéis políticas de um Trump decidido - e sem grandes escrúpulos diplomáticos - têm dado que falar e a cada passo ele surge como figura de charneira na condução dos destinos – do seu povo e de outros que lhe estão ligados. Teresa de Sousa explica, pois, ao seu modo sereno e cordato, alguns comentadores aprovam ou não os seus argumentos, eu gostei da lição, como luz aclarando pistas de um conhecimento pessoal modesto:
Os perigos das políticas identitárias
Trump recuperou as políticas identitárias, falando para homens brancos de rendimentos baixos.
TERESA DE SOUSA
PÚBLICO, 9 de Setembro de 2018
1. Há um outro lado da eleição de Donald Trump que está menos presente nas análises e nos debates, mas que é igualmente importante para explicar a sua vitória e ponderar o futuro da América. O que desarmou os liberais perante a ascensão do Tea Party e a vitória de um Presidente populista, nacionalista e nativista, e o que pode impedi-los de derrotá-lo nas urnas. A questão não é nova. O debate sobre o Partido Democrata permanece praticamente desde a era Reagan. Clinton e Obama alimentaram a ideia de que era possível conquistar a Casa Branca desde que se fosse excepcional. O choque da eleição de Trump foi também resultado do contraste absoluto entre ele e o seu antecessor, como se existissem duas Américas irreconciliáveis, ignorando-se uma à outra. Ainda hoje os índices de popularidade de Obama superam de longe o apoio ao actual Presidente, mostrando até que ponto a realidade é complexa. As eleições de meio de mandato, em Novembro, com a possibilidade de retirar o Congresso aos Republicanos, ainda escondem este debate fundamental. A leva de vitórias nas “primárias” democratas de gente nova e mais à esquerda, porventura inevitável diante do efeito Trump, continua a revelar que os Democratas não conseguem encontrar uma ideia para a América que seja inclusiva e capaz de voltar a fazer sonhar. Li recentemente um livro de pouco mais de 100 páginas que é, do meu ponto de vista, uma pequena pérola para tentar navegar através deste debate. O seu autor, Mark Lilla, é professor na Universidade de Colúmbia e, sendo um democrata, passou a ser o ódio de estimação de uma ampla facção de intelectuais liberais: “The Once and Future Liberal – after identity politics”. Resumindo, a obra de Lilla é sobre os perigos das políticas identitárias, à direita como à esquerda. Não poderia ser mais actual. Para se ficar a saber rapidamente ao que vêm, leia-se um pequeno trecho logo na introdução. “No momento em que escrevo, a página inicial do site do Partido Republicano apresenta um documento intitulado ‘Princípios da Revolução Americana’ (…) uma declaração em onze tópicos distintos. A lista abre com a Constituição (‘A nossa Constituição deve ser preservada, estimada e honrada’) e fecha com a questão da imigração (‘Precisamos de um sistema que proteja as nossas fronteiras, faça cumprir a lei e fomente a economia nacional’). Na página inicial do site do Partido Democrata não temos nenhum documento assim. Em vez disso, avançando até à base da página, encontramos uma lista de hiperligações encabeçada pelo título ‘Pessoas’ (…). Mulheres, hispânicos, norte-americanos étnicos, comunidade LGBT, norte-americanos nativos, afro-americanos, asiático-americanos, habitantes das Ilhas do Pacífico…  Estão lá 17 grupos distintos, para os quais existem 17 mensagens distintas”. Já se percebeu onde Lilla quer chegar.
2. O que aconteceu nas presidenciais de 2016? Trump recuperou as políticas identitárias, falando para os homens brancos, de rendimentos baixos, que vivem no imenso espaço que vai da Costa Leste à Costa Oeste, que viram os seus empregos esmagados pela globalização, que vêem nos imigrantes uma ameaça ao seu modo de vida e que se sentem abandonados pelas elites de Washington. No entanto, com uma simples frase, “Make America Great Again”, conseguiu dirigir-se a uma maioria de americanos. O que fez Hillary? Dirigiu-se a cada uma das “minorias”, incluindo a sua, apelando ao seu voto, e falou de uma classe média “espremida” pela globalização. Para além de todas as fraudes, onde estava a capacidade mobilizadora dos cidadãos americanos, para lá da sua identidade e da respectiva vitimização?
3.Lilla lembra as duas grandes narrativas americanas do século XX, que definiram durante décadas o rumo do país: a era Roosevelt e a era Reagan. FDR que, a partir da crise de 1929, construiu a América do New Deal, capaz de assumir a sua responsabilidade colectiva perante os que foram esmagados pela crise, criando pela primeira vez as bases de um Estado social. A II Guerra apenas contribuiu para reforçar a solidariedade interna da sociedade americana. Tudo era possível: “A única coisa de que temos de ter medo é do próprio medo”. A era que inaugurou sobreviveu até Lyndon Johnson, cuja Great Society alargou os direitos cívicos aos negros, numa luta violenta conta os Democratas do Sul. Carter foi um pequeno episódio de resistência já em tempo de mudança. Ronald Reagan operou a segunda revolução, desta vez conservadora, que haveria de marcar a política americana praticamente até à eleição de Obama, esmorecendo agora perante um Partido Republicano que cada vez tem menos a ver com o seu legado. Foi o regresso ao individualismo e à responsabilidade de cada um pela sua vida, a crítica ao “grande Governo” (ou melhor, “o Governo é o problema”), a desregulação de uma economia estagnada, a ode à eficácia dos mercados na distribuição dos recursos. Mas foi sobretudo a visão optimista de um país que tinha tudo para brilhar no alto da colina, como nenhum outro. “Good Morning America”. Os liberais riram-se dele – um actor de série B ignorante. Foi eleito com uma maioria esmagadora que cobriu de vermelho o mapa da América. Clinton e Obama não rompem totalmente com a sua herança, mas ambos conseguem responder a um momento de esperança. Clinton, com a vitória da democracia sobre o totalitarismo no fim da Guerra Fria, inaugurando um tempo em que tudo parecia possível. Virou os Democratas para uma visão da economia e da sociedade que integrava parte da herança de Reagan - do Welfare para o Workfare, influenciando a “terceira via” que haveria de conquistar a Europa. Obama era ele próprio a encarnação do sonho americano. Afastou-se da vitimização das minorias (incluindo a sua, aquela que mais razões tem para se considerar uma vítima) porque sabia que esse caminho nunca o levaria à Casa Branca. Não hesitou em reivindicar a herança optimista de Reagan, o que incomodou os Democratas, incluindo a família Clinton. Não deixou por isso de fazer do Obamacare a sua batalha mais emblemática, aquela pela qual os Democratas lutavam há décadas sem sucesso. Foi alvo da mais furiosa campanha identitária do Tea Party, que culminou na polémica sobre o seu local de nascimento. Hoje, exibe publicamente a sua improvável “cumplicidade” com George W. Bush, chocando os liberais e enfurecendo os fanáticos. Bush não esconde o seu horror ao nativismo identitário de Trump. Obama vê para além do somatório das múltiplas identidades que constituem a América.
4. As reivindicações das “minorias”, apesar de décadas de conquistas importantes, continuam tão legítimas como sempre. A defesa dos direitos das mulheres ainda faz sentido. Continua a ser revoltante a condição de negro, seja ele um jovem sem emprego de um subúrbio degradado, ou um professor de Harvard: a polícia teima em não os respeitar. Mas o “politicamente correcto” que aponta o dedo acusador a qualquer um que se atreva a pôr em causa a “identidade” própria e exclusiva de cada grupo e o seu estatuto de vítima tornou-se uma fórmula que não anda longe do nativismo identitário de Trump. A Economist resumiu recentemente este espírito “totalitário” com um exemplo da Universidade de Sussex onde uma professora levantou uma questão sobre a definição dos critérios para o reconhecimento do estatuto de transgénero, desencadeando uma guerra contra ela entre os alunos: “Não toleraremos o ódio no nosso campus. Trans e vidas não-binárias não são um debate”. Perdeu-se o sentido colectivo. O conceito de cidadania diluiu-se. Reduz-se drasticamente a capacidade de entender e aceitar aquilo que é diferente e, consequentemente, aquilo que é comum. No campo da justiça social, a recentragem de Clinton ou de Obama dá agora lugar a um “populismo económico” em que o alvo indiscriminado são os bancos, Wall Street, o capitalismo em geral e as multinacionais em particular, apelando às emoções, que afasta muita gente. É uma mistura explosiva que muito dificilmente ajudará a América a curar as suas feridas, a grande tarefa que o pós-Trump exigirá aos Democratas.
5. Obama acaba de entrar na campanha, saudado como a verdadeira “alternativa” a Trump. Ninguém, de Bernie Sanders a Elizabethe Warren, consegue perfilar-se como tal. Não desiludiu. Rejeitou “a noção disparatada de que os Democratas têm de escolher entre tentar apelar aos votos da classe branca trabalhadora ou os votos de cor, das mulheres, ou dos americanos LGBT”. “Ganhámos porque chegámos a toda a gente, competindo em toda a parte e combatendo por cada voto”. Puro Obama: “A ideia de que tudo vai ficar bem porque há gente na Casa Branca que secretamente não está a seguir as ordens do Presidente – isso não existe. Estou a falar muito a sério. Não é assim que a nossa democracia deve funcionar. Essas pessoas não foram eleitas.” Desmontou, de seguida, a política de Trump, sem deixar pedra sobre pedra.

COMENTÁRIOS:
João Macedo : Artigo extremamente interessante. Só que assenta numa pequena-grande inverdade, numa inexatidão na realidade arrasadora (V. ponto 3). Com efeito, com todo o seu discurso voltado para os "homens brancos, de rendimentos baixos, (...) que viram os seus empregos esmagados pela globalização [e] que vêem nos imigrantes uma ameaça ao seu modo de vida", Trump terá sido "eleito" (!), mas não "conseguiu dirigir-se a uma maioria de americanos". Quem conseguiu tal façanha, ao dirigir-se "a cada uma das 'minorias'", foi a Clinton. Hillary não foi oficialmente eleita, mas foi a vencedora, em termos universalmente considerados como normalmente, não aberrantemente, democráticos: obteve mais de dois milhões de votos a mais do que o sortudo do seu opositor. Não se submeteu às jiga-jogas do sistema, é tudo.
manuelserra72,  10.09.2018  Não deslegitimando as reivindicações das minorias seria na minha opinião útil distinguir reivindicações legitimas de concorrência vitimaria. A correria para a "inclusão" e "diversidade" de raças, géneros, etc, parece que se faz às custas da diversidade de opinião. Existe de facto um espírito totalitário e autoritário nas universidades e o caso de Sussex não é caso único. Veja-se o Evergreen State College e o Weistein / Laurier e Lindsay Shepherd / etc.... Parte do problema é a explicação fácil de problemas complexos. A lógica do oprimido e opressor, etc. Não estamos tão longe disso cá quando nos explicam que "um piropo é um exercício de poder". É a mesma génese.
A Teresa toca verdadeiramente num ponto importante ao falar de políticas identitárias. Na América são absolutamente delirantes mas já está cá na Europa... Tenho dificuldade em entender o "Trump recuperou" ...dir-se-ia que estavam adormecidas? Durante os mandatos do Obama a classe média americana desapareceu. Os tais "homens brancos" são os tais culpados de tudo... (white privilege, mansplaining, e outras "patologias"). é um bocado virar-se o feitiço contra o feiticeiro. Entretanto o pensamento de esquerda dominante continua a dar-lhe. Mas vejamos no que se torna o "black lives matter". Julgo que se tornou simplesmente num movimento racista. Curiosamente parte deste movimentos transformam-se naquilo que alegadamente combatem. É preocupante.
Sum Legend, Portugal 09.09.2018 : O ponto 4 deste artigo esclarece algumas coisas: estava tudo tão bem quando ninguém falava nos “homens brancos, de rendimentos baixos, que vivem no imenso espaço que vai da Costa Leste à Costa Oeste”, não estava? É uma chatice falar nesse “homem branco”, quase um crime de lesa-pátria. Acabem lá com esses “homens brancos”, que tudo fica mais fácil. Ainda há quem não perceba que estamos a falar de um país quase tão grande como a UE, com várias zonas horárias, com mais de 320 milhões de pessoas. Era a mesma coisa que acabar com os países na Europa (desejo orgásmico dos millenials mimados) e acharmos que os cidadãos que vivem na Lapónia têm a mesma visão política, os mesmos objectivos, meios e necessidades que quem vive, por exemplo, em Lisboa. Patético.
Wheeler Catarina, 9.09.2018: Mas há outro aspecto, outra parte do Ser-humano, para quem Trump falou (ele e todos os Identitaristas, Nacionalistas, Liberais, etc.). E que está na base da guerra fratricida entre as ideologias Esquerdista e Direitista (comunismo/socialismo vs liberalismo). E, sem falar dessa parte, jamais se sairá desse impasse binário-dicotómico. Há uma parte do Ser-humano irredutível a qualquer dissolução numa Comunhão. O Futuro imaginado pelo «Comunismo» é incompatível com o Futuro imaginado pelos «Identitários» (no sentido de Singularidade indecomponível e insolúvel). Cada facção fala para si própria sem conseguir comunicar com a outra. São duas línguas e dois universos que não conseguem traduzir o que dizem para o outro.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Um país a entristecer



Sempre traduzo o soneto de Hérédia, que coloquei no texto anterior, na versão original, para saborear em plenitude a magia do poema, na sua temática da conquista, do esforço e da ambição, retocados pelo colorido do descritivo exótico. Mas a tradução também faz, afinal, sentir, embora parcialmente, a força explosiva dos homens de outrora – espanhóis, estes, os homens de Cristóvão Colombo, a quem Hérédia, de origem cubana, de ascendência espanhola, rende homenagem. Por isso a coloco, para um paralelo de contraste, naturalmente, os nossos gerifaltes de trazer por casa, bem longe de se assemelharem aos gloriosos descobridores das Américas, figuras que Maria João Avillez, uma vez mais, primorosamente explora, na mascarada ridícula que impõem a este país “a entristecer”, conquanto só parcialmente.
Os Conquistadores
Como um voo de gerifaltes fora do ossário natal
Cansados de transportar as suas altivas misérias
De Palos de Moguer, soldados e capitães
Partiam ébrios de um sonho heróico e brutal.

Eles iam conquistar o fabuloso metal
Que Cipango amadurece nas suas minas longínquas,
E os ventos alísios inclinavam as antenas
Para as margens misteriosas do mundo ocidental.

Cada entardecer, esperando os amanhãs épicos
O azul fosforescente dos mares tropicais
Encantavam o seu sonho de douradas miragens;

Ou debruçados sobre a proa das brancas caravelas
Viam subir no céu desconhecido
Do fundo do Oceano, desconhecidas estrelas.

PRESIDENTE MARCELO   Contribuintes com número /premium
OBSERVADOR,26/9/2018
Marcelo selfizou o país, Costa “descontraiu-o” (disse ele) do “passismo”. A questão é se se faz um país que valha a pena só com gente descontraída e selfizada. E saber como e quem o paga, claro.
1. Eu não sei se já aconteceu ao leitor abrir um dia um frasco de doce que tenha em casa e observar uma espessa e suspeita camada de bolor à superfície. Sem vontade de o provar e reticente quanto à cor e textura, hesita entre deitá-lo fora; ressuscitá-lo, dando-lhe uma segunda oportunidade; voltar, sem dramatismo, a pôr o doce na torrada, continuando a sua vida (e a do doce) como se nada fosse. O PSD está igual a um frasco de doce com bolor: transformado numa memória, tornou se uma miragem do que era, não está apetecível nem comestível, hesita- e no que fazer com ele, avalia-se o seu prazo de validade, conjectura-se sobre o seu destino ou sequer se ele vale o empenho num destino. Se vale o combate novo – culturalmente novo, entenda-se — que isso exigiria, se vale a vontade da ruptura para produzir, consubstanciar e liderar esse combate, se vale o confronto com os continuam a comer o doce, esteja ele como estiver.
2. Falta qualquer coisa no ar político. Entre outras coisas não de somenos (seriedade e decência pelo menos), falta sentido e falta propósito: a quantas andamos e para quê? Que projecto estratégico norteia o país, que grande deia mobiliza os portugueses em Setembro de 2018? Como se pensa neles para além de se pensar neles como contribuintes com número?
Pouco: Marcelo garante-lhes selfies presidenciais (uma selfie, um voto) o que não é bem o mesmo que pensar neles a sério, e Costa governa para um sector, assegurando a suposta felicidade do funcionalismo público (um funcionário público feliz é um voto geringonçal). Enquanto isto, o Governo (com Belém sorrindo sempre) tudo faz para evitar que se perceba demasiado bem que a austeridade se chama hoje roubo fiscal e que Centeno usa as caras conforme os fóruns, sedes ou geografias onde actua, chapéus há muitos. Como destino parece pouco ambicioso.
Ninguém acredita em nada, os políticos não são capazes de motivação ou interpelação. Um destes dias, o malabarismo político, as cumplicidades indesejáveis, a proximidade que se esgota em si mesma e o uso de uma considerável quantidade de manha, transformarão o actual fastio político em repugnância. Os partidos estão gastos, muitos dos seus chefes envelhecidos e estas coisas contam e estas coisas pesam. Em Espanha os líderes do PP, Ciudadanos e Podemos têm trinta e tal anos e Pedro Sanchez tem pouco mais, mas sabe Deus como a idade também pode ser um fonte de sedução e estímulo de ruptura. Entre nós, porém, até esse combustível está em falta.
3. Se não se tiver por adquirido (e iremos a tempo?) que se consolida hoje uma larga soma de grupos que rejeitam a democracia como a conhecemos e vivemos, não se perceberá que entrámos numa nova era e num novo paradigma que embora ainda sem definição exacta, já não tem recuo. Face a ele, os nossos instrumentos estão caducos, os valores que costumávamos praticar caíram em desuso, as dantes confortáveis certezas que usávamos como guia de princípios, sumiram-se do mapa político. Das certezas, o óbvio: são incertas. Perante isto, não se têm visto avisos, ouvido alertas, testemunhado uma alusão vindo do alto: Marcelo selfizou o país, Costa “descontraiu-o” (disse ele) do “passismo”. A questão é saber se se faz um país que valha a pena só com gente descontraída e selfizada. (E saber como e quem o paga, claro.)
4. Exagero? Voltemos a nós: Marcelo que é o combustível de si mesmo, impede permanentemente o mínimo de distância e o quanto baste de reserva que tem de haver entre ele e o mundo, comentando até ao limite, promovendo abracinhos compulsivos, infantilizando plateias, enquanto incansavelmente aplaude, amplia e concorda a eito com tudo o resto – sempre o conheci a preferir concordar do que a ser capaz de enfrentar. A verdade é que é difícil descortinar o que de facto – e de sério – determina o Chefe de Estado para além da distribuição do afecto ao domicílio (com o olhar posto numa urna de voto).
Estando em “todas” omnipresentemente, sem que se alcance o critério ou a escala de prioridades com que o faz; beijando com o mesmíssimo afã uma idosa a quem roubaram o cão ou alguém que perdeu os seus num incêndio, tendo intervenção comentada em tudo e sobre tudo, o Presidente sinaliza-nos que fora do palco e da sua estonteante mediatização, as coisas da vida do país talvez não sejam a maior prioridade.
Consumindo-se afinal muito mais “nisto” – mesmo que muito legitimamente lhe importem os votos – do que “naquilo”. “Naquilo”? Nos militares, por exemplo. Até quando veremos o Comandante supremo das Forças Armadas continuar a adiar uma resposta sobre Tancos – humilhando assim um forte sector do Exército – ou fazer de conta que não vê o já indisfarçável mal-estar dessas mesmas Forças Armadas ou de grande parte delas? “Naquilo” que é o actual estado dos hospitais que deixará automaticamente de ser exclusivo do titular da Saúde quando prejudica assim milhares de pessoas, como tem sido o caso de norte a sul, não havendo ninguém que o ignore; “naquilo” da degradação de alguns serviços públicos quando ela se torna tão gritante que carece da “atenção” presidencial por lesar a vida de incontáveis (e indefesos) portugueses; “naquilo” que é a ficção de um crescimento económico, a medrar na árvore da insustentabilidade. São exemplos. Bons, porque são reais (e feios.)
5. Tudo isto que é pesado, passou porém a ser um pouco mais pesado nos últimos dias, quando subitamente alguma coisa mudou: o Presidente da República saiu-se mal desta história da substituição das senhoras procuradoras. Duplamente: tornou verosímeis algumas dúvidas (reparem que não digo suspeitas mas sim dúvidas) de que poderia estar a acautelar interesses ou circunstâncias pessoais. E saiu-se mal porque tudo, desde o estranhíssimo processo que antecedeu a sua decisão até ao seu “sim”, foi indisfarçável: ficou impresso no país.
6. Se acrescentarmos a este indigesto quadro interno a paisagem fora de portas com tanto que nos aflige na “Europa” – da louca escalada do Brexit aos diversos populismos, passando pela fictícia unidade dos 28 países que já originaram as duas europas sem que ninguém o assuma – era melhor nascer outra vez. Na lua preferivelmente, para onde começa  agora aliás a haver viagens.
7. Pedro Passos Coelho, ainda ele. Não direi sempre ele, não sei, o futuro (felizmente) a Deus pertence, mas foi o ex-primeiro-ministro quem ocupou politicamente e num ápice o imenso espaço que não se viu representado na noite das senhoras procuradoras. Ocupou-o por imperativo e não por impulso, alinhavando no telemóvel o texto que se conhece e enviando-o para o Observador. O acolhimento que teve e as inúmeras citações revelam um reconhecimento pela sua “diferença” na cena política actual, que vai bem mais além do fundo e da forma do seu escrito
COMENTÁRIO:
Miguel Bergano: A crónica é brutal. As bestas vão espernear e as outras bestas vão espernear de volta... pobres bestas que dentro do curral julgam que são diferentes só porque o sol a uns ilumina as nádegas enquanto às outras ilumina os cornos.

Os conquistadores de agora (hac hora)



Não, nada têm a ver com os que Camões descreveu, ou, mais recentemente, Hérédia, no seu belo soneto parnasiano, de sons e imagens de esplendor a pontuar ambições humanas em heróico esforço de conquista:

Les conquérants

Comme un vol de gerfauts hors du charnier natal,
Fatigués de porter leurs misères hautaines,
De Palos de Moguer, routiers et capitaines
Partaient, ivres d'un rêve héroïque et brutal.

Ils allaient conquérir le fabuleux métal
Que Cipango mûrit dans ses mines lointaines,
Et les vents alizés inclinaient leurs antennes
Aux bords mystérieux du monde Occidental.

Chaque soir, espérant des lendemains épiques,
L'azur phosphorescent de la mer des Tropiques
Enchantait leur sommeil d'un mirage doré ;

Ou penchés à l'avant des blanches caravelles,
Ils regardaient monter en un ciel ignoré
Du fond de l'Océan des étoiles nouvelles.
José-Maria de Heredia
Recordam antes todo um povo inerte do descritivo final de Pessoa, na sua Mensagem, contudo, com um apelo final à acção, no nevoeiro entoldante:
Fernando Pessoa
Quinto
NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!
Valete, Fratres.

Hoje os textos são de crítica. E mágoa também que nos entolda a alma, sem esperar mudança. São esses que Helena Matos descreve, ou esse outro das galhofas de João Miguel Tavares, o qual Santana decididamente não quer perder pitada do bolo que sempre ambicionou, e que ainda hoje ouvi, tu cá tu lá, com Carlos César, acérrimo protagonista das severidades socialistas… Não, não há pachorra. “A Hora” não será mais. “O povo é sereno”.
I - PGR   Manual de sobrevivência para um país sob a política dos dois emes: Marx e Marcelo /premium
OBSERVADOR, 23/9/2018
O PS manda. O PCP governa-se. O BE policia. O PR diverte-se. A democracia apodrece. E, sim, porque havemos de querer contrariar este estado de coisas? Não podemos deixar-nos ir simplesmente?
Há três anos o PS perdia as eleições. No dia 4 de outubro de 2015 António Costa era um derrotado. A 4 de Outubro de 2018 é um dominador. Como foi possível? Juntando Marx e Marcelo.
Essa dicotomia tornou possível ao PS governar sem oposição. Ao PCP blindar-se para vários anos no conglomerado dos funcionários públicos (ninguém investiga o que se esconde por trás da língua de pau dos sindicatos sobre as carreiras, as progressões, os congelamentos…) Ao BE em particular e à “esquerda caviar” em geral tornar-se num secretariado do politicamente correcto, determinando sobre quem vai cair a onda de indignação da semana: só nos últimos dias tivemos a questão do “acordão machista” e da exposição em Serralves a motivarem pedidos de explicações e justificações. Os factos em si não contam. O que vale é o adjectivo que a brigada da indignação lhe cola: uma agressão por exemplo só conta se a brigada a definir como racista ou machista.
Todos os dias à frente dos nossos olhos desenrola-se uma espécie de farsa. Viver num país sob a política dos dois emes – Marx e Marcelo – é possível mas obriga a um enorme esforço não apenas de contenção da indignação mas também e sobretudo de manutenção da lucidez. Afinal a política dos dois emes – Marx e Marcelo – será tão melhor sucedida quanto mais aceitarmos como normal o que antes considerávamos um escândalo; quanto mais justificarmos o que antes inquiríamos; quanto mais desviarmos o olhar daquilo que já quisemos olhar de frente.
Protagonista incontornável deste processo é esse Presidente que do fogo de Pedrogão ao assalto aos paióis de Tancos ou à substituição da PGR tudo banaliza. A começar pelas suas próprias palavras: os esclarecimentos que iam ser “cabais” nunca apareceram. Os “inquéritos integrais” não se sabe onde estão. A procuradora sobre cuja substituição o PR dizia não fazer a “mínima ideia” afinal já estava substituída.
Como se sai disto? No passado os militares resolviam o assunto. Ou melhor dizendo abriam um novo capítulo nesse declive agónico que é o da degradação dos regimes. Na democracia portuguesa as falências têm cumprido esse papel. E agora como vai ser? Esperamos que um novo pedido de resgate resolva o assunto? Quiçá um escândalo. Alguma coisa há-de ser, não é?
Mas vamos à pergunta que três resgates impõem: para quê? Sim, não vamos discutir o quando nem o como do próximo momento  de crise porque isso é apenas uma questão de calendário e de procedimentos já devidamente rotinados. O que o tempo tornou urgente é sim o porquê: sim, porque havemos de querer contrariar este estado de coisas? Não podemos deixar-nos ir simplesmente?
Esta pergunta tornou-se-me mais urgente após ler no Observador o texto assinado por Passos Coelho a propósito do afastamento de Joana Marques Vidal. Nesse texto houve quem visse um sinal de que a vida política do antigo primeiro-ministro não terminara. Talvez tenham razão. É certo que me conto entre aqueles que fazem uma avaliação positiva quer do mandato quer da personalidade de Passos Coelho mas por mais que deseje que a vida pessoal e política de Passos Coelho seja bem sucedida não posso deixar de perguntar: Passos Coelho voltaria para quê? Que projecto tem para os portugueses? Sim, porque 2011 não se pode repetir: Passos não está a pensar voltar para pedir aos mesmos do costume – os contribuntes – que façam mais um esforço? Muito menos para lutar por uma vitória que nunca o será enquanto o socialismo-estatismo se mantiver como o modelo ideal, moralmente superior e constitucionalmente inatacável a que regressamos assim que existe uma folga orçamental? É que se for para isso muito francamente, não vale a pena Passos Coelho dar-se ao trabalho de sair de casa.
Segundo o INE, Lisboa e Porto ganharam 1600 moradores no ano passado. Helena Roseta, coordenadora do grupo de trabalho da AR para a habitação, estranha. Ou seja Helena Roseta não estranha o seu desconhecimento de algo que devia ter percebido: afinal há anos e anos que Lisboa e Porto perdiam habitantes. Quando a tendência se inverte a coordenadora do grupo de trabalho da AR para a habitação não só não dá por nada como “estranha”. Durante décadas Lisboa perdeu habitantes. Prédios degradados e vazios sucediam-se nas ruas. Nos anos 80, as quedas de edifícios vazios eram uma tragédia mais que anunciada. Depois vieram os incêndios. Mas na propaganda que por aí anda Lisboa e Porto eram cidades onde cada um conseguia alugar a casa dos seus sonhos por um preço acessível. Algo me diz que estes dados agora apresentados pelo INE ou vão ser ignorados ou hostilizados pois não se pode deixar a realidade destruir o activismo.
Inebriado com a mobilização em torno da causa da moda escreve o PÚBLICO: «Em Lisboa, turistas ouviram residentes dizer: “A cidade é nossa!” Centenas de pessoas vindas dos bairros históricos e das periferias desfilaram na capital pelo  “direito à habitação” e o “fim da especulação”.» Substituam-se turistas por migrantes ou refugiados e estávamos a falar de racismo e xenofobia não era?
Lembram-se do AIMI (vulgo imposto Mortágua) que ia incidir sobre o património dos ricos muito ricos? Pois como os ricos em Portugal são poucos e o dinheiro dos impostos nunca chega, os impostos criados para incidir sobre os ricos acabam a ter de ser pagos pelos pobres. E assim não contentes em tributar como o AIMI os ditos ricos proprietários de valiosíssimos imóveis o fisco está a intimar as administrações de condomínio de prédios ricos e modestos a também elas pagarem esse imposto não se percebe com que legitimidade pois as administrações de condomínio não possuem património algum e pelos imóveis os proprietários já pagam AIMI.
COMENTÁRIO
Rui Jacinto: Começo por dizer do imenso alívio que sinto ao ler este excelente e corajoso trabalho de Helena Matos. Afinal não estou só, com outras palavras é isto que venho a dizer desde há muito. Não votei Costa nem Marcelo, não por ser contra esta nova versão do estado/patrão à velha e caduca maneira soviética, ou por ver em Marcelo um seguidor do outro Marcelo. Faço-o porque nasci em 1939 e tenho boa memória das más memórias desse tempo. Da vida dos meus pais e sobretudo da vida na cidade de província onde nasci, a apenas 69 Km de Lisboa. Tive a sorte do meu suor, da minha objectividade, do rumo que tracei a mim próprio de não ser ignorante e querer dar mais do que recebi. Mas não alcancei o que sou por jogadas de bastidor, subserviência ou golpadas. Perdoem-me a imodéstia, mas no caminho até alcançar no norte da Europa um lugar de direcção na então maior tecnológica mundial, encontrei muita escumalha mais bem intencionada do que a maioria dos nossos políticos. Portugal é único na indiferença do Povo perante a carneirada que lhes dita as leis e os explora. Só isso torna possível que um incompetente presidente do BdP seja colocado em posição de relevo no BCE, e que um PM abandone a governação por sentir que o país está um pântano para ser hoje secretário geral das NU. Com este Povo tão trabalhador mas que se contenta com tão pouco, percebe-se a razão por que quase todos anseiam ser funcionários públicos.   'Malhas que o império tece'! Não é Marx e Marcelo. É Costa Marcelo e Ghandi. A afinidade é indiana.
 II - Aliança: divorciar à direita para casar à esquerda?
Em termos ideológicos, aquilo que o Aliança vem acrescentar ao sistema político é zero. Há mais divergências ideológicas dentro do PS do que aquelas que irão existir entre o PSD de Rui Rio e o Aliança de Pedro Santana Lopes.
PÚBLICO,21 de Agosto de 2018,
Eu não votaria em Pedro Santana Lopes nem para delegado de turma, mas isso não significa que a sua intuição política deva ser desvalorizada. Santana foi esperto: esta era a altura certa para criar um novo partido à direita, aproveitando o descontentamento que reina no PSD, a apatia do CDS e a dificuldade que o PS sempre terá em chegar à maioria absoluta. Imaginem que António Costa fica a dois ou três deputados dos 116 e que o novo partido de Santana Lopes tem esses dois ou três deputados — de repente, o novo Aliança pode conseguir um protagonismo, e um poder, que jamais alcançaria noutra conjuntura política. Era agora ou nunca.
Dir-me-ão: se é para casar com António Costa, o que não falta são pretendentes. Desde logo, Rui Rio. Certo. Mas isso é pressupor que a formação do Aliança se justifica por razões ideológicas, e que Santana só decidiu avançar porque havia uma bonita horta da direita portuguesa que Rio tem deixado ao abandono. Não é nada disso. É tudo, e só, uma questão de influência e acesso ao poder, porque é precisamente a isso que está reduzida a mansa política portuguesa pós-Passos. Em termos ideológicos, aquilo que o Aliança vem acrescentar ao sistema político é zero. Há mais divergências ideológicas dentro do PS do que aquelas que irão existir entre o PSD de Rui Rio e o Aliança de Pedro Santana Lopes.
Leram a descrição do “espaço político” que o partido quer ocupar, segundo o Expresso? É o banalíssimo espaço do centro-direita português, onde cabe tudo aquilo que lá se queira enfiar, e que vai do CDS à direita do PS. O Aliança diz que vai ser “um partido personalista, liberalista e solidário”, o que significa coisa nenhuma. “Europeísta, mas sem dogmas”, o que dá para tudo. Disposto a enfrentar “a agenda moral da extrema-esquerda”, o que é banal como um bocejo. Preocupado com a “cultura”, a “inovação”, a “justiça”, a “desertificação” e o “mar” (juro). E, sobretudo — vade retro! — um partido desejoso de “evitar rótulos e preconceitos ideológicos infundados”. É típico cozido à portuguesa. Tudo para dentro da panela. Onde a cada momento soprar o vento, lá estará Santana Lopes a largar as velas.
Poupem-me, já agora, a comparações com o movimento que levou Macron ao Eliseu ou com o papel do Ciudadanos. Esses deram uma resposta inovadora a sistemas políticos em desagregação acelerada, e a sua mais-valia foi a apresentação de caras novas em regimes velhos. Ora, se Santana Lopes é uma cara nova, eu sou o Lourenço Ortigão. Ideologicamente falando, Santana não tem nada para oferecer, e é até ridículo a Iniciativa Liberal estar a acusá-lo de roubar as suas ideias. Santana nunca foi, e nunca será, um liberal — e até já deixou claro que o seu novo partido 
Aquilo que Santana tem, e pode ser proveitoso para certos descontentes do PSD que vão ficar fora das listas de Rio, é capacidade discursiva, reconhecimento público, palco mediático e tarimba política — e isso significa capacidade de colocar deputados em São Bento, que é mais do que qualquer novo partido tem para oferecer. Note-se ainda que há vários movimentos independentes pelo país surgidos via autárquicas (Rui Moreira, desde logo), e que se Santana conseguir agregar esses movimentos pode alcançar resultados surpreendentes fora de Lisboa. O momento era mesmo este — e Santana intuiu isso bem. Mas ponham de lado as reflexões ideológicas, se faz favor. É de poder puro e simples que estamos a falar.