quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Cá vamos andando



Nos tempos de Júlio Dinis não havia SNS, por aquelas aldeias de ares lavados, onde João Semana praticava a sua ciência de acordo com as doenças caseiras de então, na mão que receitava levando, muitas vezes, a esmola escondida para a receita a aviar na botica da terra. Também Jules Romain nos mostra na sua peça Knock, um exemplar de médico ingénuo, le docteur Parpalaid, obrigado, para sobreviver, a passar a pasta a um dinâmico docteur Knock que, com truques propagandísticos de ordem vária, elege a medicina como disciplina indispensável para uma população de repente ofuscada pelo aparato das aparelhagens de cura com que se sujeita à doença, habilmente propagandeada. Excelente caricatura daquilo em que se tem tornado a medicina, que tem evoluído de tal modo que se organizou em indispensável Serviço Nacional de Saúde, de que estamos hoje todos dependentes. De facto, a evolução científica e tecnológica, em círculo vicioso, descobre a cura mas também um cada vez maior número de doenças, talvez em função de uma cada vez maior ânsia lucrativa…
Maria João Avillez refere os artifícios de um programa aparentemente de grande envergadura que é Prós e Contras mas que não faz mover o inamovível – precisamente, em relação ao último, passado na RTP, a estratificação de um status pré fixado, de oportunismo, inoperância e astúcia, por escassez de verba, também.
Quanto à relação médico-doente, nos Hospitais, esta é difícil, concordo, na avalanche, sobretudo, das urgências, as pessoas não passando de números que se sucedem, na rotina de dar lugar ao número seguinte, sem tempo para requintes de aprofundamento afectivo, como nos consultórios particulares…
Sociedade civil /premium
O que também fica desta obra é o excelente exemplo do que pode ser – e fazer – uma actuante e desinstalada sociedade civil e do lugar insubstituível que ela tem nas sociedades modernas.
MARIA JOÃO AVILLEZ
OBSERVADOR, 27 nov 2019, 00:19
1Ver para descrer. A encenação, os convidados, as perguntas artificialmente contundentes, os temas pré combinados, a plateia quase, quase toda escolhida a dedo, o tom, as palmas. E os ausentes, desde logo a Ordem dos Médicos (porque não estava?) e os proscritos (a Ordem dos Enfermeiros aflige assim tanto o Governo?). No meio, sorrindo, sorrindo muito com a confortável segurança que lhe advinha de estar a jogar em casa com o resultado previamente decidido na secretaria da RTP, a ministra da Saúde, faltando à verdade com o invejável à vontade de saber que ninguém ali a desmentiria. Foi o último “Prós e Contras” (Prós e quê?). Não fora a inverosimilhança de tudo e a encenação teria sido um insulto aos portugueses sem voz nem vez na Saúde (e aos outros, pensando bem). E não, não desdenho do Serviço Nacional de Saúde – pelo contrário já aqui o elogiei sonantemente há poucos meses, salvou só e mais nada o coração de um dos “meus”. Mas espanto-me sempre com a desenvoltura ágil com que o Governo nunca hesita em “usar” os portugueses para fazer deles parvos. E de caminho, demissionários. E também de caminho, ocupando todos os meios que aparentemente a isso se dispõem. O país testemunhou-o esta semana.
2Como Deus não dorme, poucas horas antes desta televisionada pequena comédia de costumes, houve um parto muito especial. Nascia um livro que celebra e consubstancia o contrário do que acima expus, no modo decente, sério, crítico, como não disfarça nem falseia a abordagem de um tema delicadíssimo na Saúde: a relação médico-doente.
Chama-se justamente “A Relação Médico-Doente” e é um cuidadíssimo e lindíssimo “tratado” (By the Book). Começou a ser pensado há três anos, nasceu de uma ideia do actual bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães (daí o subtítulo da obra “Um contributo” da Ordem dos Médicos) e trata da indispensabilidade de reflectir e reavivar a crucial importância dessa relação, como condição para uma boa Saúde. Foi este, aliás, um dos “objectivos centrais” que Miguel Guimarães colocou no seu programa de candidatura à Ordem. Esta semana ficou cumprido numa obra onde tema tão vital e central tem a felicidade de ser não só abordado com rara profundidade, como de diversas e muito enriquecedoras perspectivas. (Entre elas a de João Lobo Antunes com alguns textos tão notáveis que no-lo devolvem hoje, alguns anos após a sua partida, luminosamente inteiro, intacto e insubstituível.)
Não era fácil apresentar este livro. Sucede que o complexo desafio teve desafiado à altura: naquele silêncio das grandes ocasiões, a plateia que lotava o auditório da Torre do Tombo, ouviu António Barreto, deixar ali, em inspirado escrito, a melhor das garantias: a obra ficará como referência para a história da nossa medicina. (“A sessão ficaria incompleta sem a intervenção do António Barreto” havia de me dizer a seguir o próprio Bastonário.) Mas o que também fica – e perdurará impressivamente – é o exemplo. O revelador exemplo do que pode ser – e fazer – uma actuante e desinstalada sociedade civil e do lugar que ela tem nas sociedades modernas.
A nossa, semi adormecida e demasiado instalada, está a confundir-se com uma massa de gente amorfa e muda. Apesar de cada vez mais raras, há excepções que salvam a funesta regra.
Este livro é uma delas.
3. A relação médico-doente está hoje ela própria muito doente. Antes que se transfigure num corpo ferido de morte, os muitos autores deste livro (médicos, filósofos, advogados, cidadãos de outras áreas, escolhidos por uma Comissão Editorial, liderada por José Poças que também coordenou o volume ) desejariam curá-la. Separando o trigo do joio, ou seja distinguindo entre a normal evolução tecnológica e informática e os seus excessos, traduzidos por exemplo no uso e abuso do computador (habituámo-nos a eles para respirar e eles sabem…).
Estudos recentes norte americanos provaram que “aquilo que é hoje o espaço vital entre o médico e o seu doente está reduzido a 15%  20% no máximo” e que o resto “pode ser um écran, um agrafador, um monte de papéis…”, explica Miguel Guimarães. E depois há a maior ameaça, de índole politica esta, que é o factor “tempo”. A confiança do doente no médico reclama tempo para expor dúvidas, ser ouvido e olhado, conversar, desabafar mas o tempo é precioso, custa dinheiro. Prova: no nosso Serviço Nacional de Saúde – como ocorre aliás noutros países como a Espanha por exemplo – “há uma pressão exagerada” para a produção de números de consultas, cirurgias, exames – “esses números que os governos gostam apresentar ao público” – de onde resulta encavalitar o dobro, triplo ou quádruplo de consultas num espaço de tempo onde racionalmente caberia muitíssimo menos. Reduzindo o diálogo médico-doente a “uma duração inaceitável de cinco, sete minutos”, quebrando o elo fundamental da confiança que deve existir entre ambos e gerando ainda probabilidades de erro por parte de um clinico pressionado a agir mais depressa.
Não disse o Papa Francisco há tempos – lembra o Bastonário –, a propósito das relações humanas em geral, que “o último reduto das relações humanas se verifica nas Misericórdias e nos Hospitais, locais onde a fragilidade é sempre maior e a ajuda ainda mais necessária”?
Outros obstáculos e impedimentos haverá obviamente numa relação que se quer securizante, confiante e produtiva e o está cada vez menos. Da absoluta necessidade de a revalorizar nos fala superlativamente este livro, louve-se o facto. A Saúde, os médicos, os doentes, o público e o privado, o país, todos ganham. Não é pouco.
4Não é pouco mas talvez seja preciso mais nesta caminhada pelo reacender da “relação médico-doente” terá pensado a Ordem dos Médicos, após saber há três, quatro anos, que a Espanha iria apresentar a candidatura da “relação médico-doente” a Património Imaterial da Humanidade da Unesco. E António Barreto talvez também tenha pensado o mesmo. Ouçamo-lo, na segunda-feira, 25 Novembro, na Torre do Tombo:  “Por que diabo a relação entre o médico e o doente deve ou pode ser considerada «património imaterial da humanidade»? O que há de diferente entre esta relação e tantas outras? (…) Comparei com outras, tantas, de carácter profissional e funcional. Nada encontrei que se parecesse com esta. É antiga, a mais antiga. Compendiada. Tratada. Analisada. Com tradição. Sempre em mudança, sempre renovada, mas permanente. Com abordagens de toda a espécie, filosófica, moral, estética, religiosa, política, científica… Por isso tem o mais antigo juramento deontológico, a mais antiga profissão de fé. Por isso o médico é o profissional mais respeitado, mais venerado e mais temido. Creio que há motivos suficientes para que esta relação tenha sentido próprio e diferente, tenha existência especial e como tal seja recordada e respeitada. (…)”
5A Espanha avançou com a ideia de uma candidatura à Unesco, os seus Governos têm-lhe dado luz verde, a coisa caminha. Entre nós tem sido “imenso o empenho”, vindo de diversos sectores da sociedade civil, mas o Portugal “oficial” – à excepção de Adalberto Campos Fernandes que enquanto ministro deu “todo o apoio ” – tem hesitado entre o mutismo e o torcer o nariz.
“Não estamos a encontrar grande abertura, bem pelo contrário. Parecem achar que isto não tem interesse nenhum… A Ordem dos Médicos convidou aliás a titular da Saúde para integrar o painel dos autores da “Relação Médico-Doente” mas a carta enviada nunca até hoje obteve resposta.”
Tempos difíceis. E como a verdade é que são os países e só eles que propõem as candidaturas à Unesco será interessante observar que desfecho espera das “autoridades” políticas e do Estado português esta singularíssima iniciativa. MÉDICOS   SAÚDE

Um país progressista



Helena Garrido expõe bem as manobras empresariais em torno do aumento do salário mínimo, que, dada a fraca rendibilidade económica do país, terão os contribuintes que pagar, como alguns comentadores da articulista igualmente esclarecem. Entretanto, a figura diáfana que substituiu Francisco Louçã na liderança do BE vai expondo, imperturbável e doce, sobre o que tem feito no sentido desses acréscimos que o seu bom coração exige.
O país dos rentistas e o salário mínimo /premium
O aumento do salário mínimo e dos rendimentos corre o risco de ser pago pelos contribuintes, alargando a mais empresas e negócios o acesso a rendas, em auto-condenação ao subdesenvolvimento económico
HELENA GARRIDO
OBSERVADOR, 25 nov 2019
Esperemos que o primeiro-ministro nos venha dizer que é precipitada esta perspectiva, de os aumentos salariais no sector privado serem pagos às empresas privadas com dinheiro do Orçamento do Estado, tal como o fez sobre as análises ao que o Governo pretendia fazer em matéria fiscal – embora nesse domínio, a política de englobamento mereça mais elogios do que criticas. Mas pelas declarações que temos ouvido das associações patronais parece pouco provável. Fazem apenas questão que não se fale em “compensações” pelos aumentos salariais que poderão ser acordados em sede de Concertação Social.
É lamentável ver os empresários a quererem que seja o Orçamento do Estado a pagar os aumentos salariais, em vez de batalharem pela modernização, por aquilo que dará futuro aos seus negócios e empresas. E ainda mais grave é ver a abertura que os empresários estão a dar para condicionar a sua liberdade, aceitando estas “dádivas”, com riscos para a democracia.
Ponto prévio: não estamos aqui a criticar as decisões de aumento dos salários que, como veremos mais adiante, pode ser uma boa estratégia se for realizada com prudência e principalmente se não for o dinheiro dos contribuintes a subsidiar essa subida. Temos estado a actuar como se nunca mais fosse existir nenhuma crise com aumento do desemprego, esquecendo-nos que, se os aumentos forem imprudentes e completamente desligados da produtividade, o desemprego será maior do que no cenário alternativo de subidas mais prudentes. E que o Estado pode, em tempo de crise, ter de acabar com os subsídios salariais que parece agora preparar-se para dar ao sector privado.
Mas vamos ao que tem sido pedido pelas associações patronais para “compensarem” os aumentos do salário mínimo e dos rendimentos que se prevê que resultem do acordo de concertação social.
A Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), liderada por João Vieira Lopes, pediu ao Governo, logo na reunião da Concertação Social que se realizou a 6 de Novembro, que o aumento do salário mínimo seja compensado por via da actualização dos  contratos que o Estado tem com as empresas do sector. E quer que tal seja previsto no Orçamento do Estado. Já na fase em que estamos, de negociação da política global de rendimentos – a decorrer a 27 de Novembro –, o Governo não disse que não. Como se pode ler neste artigo do Público, fonte do Governo afirma que não será essa proposta que vai impedir as negociações, considerando que é uma reivindicação justa e que o encargo a ela associado não é elevado. Estamos a falar fundamentalmente de empresas de limpeza e de restauração.
Lemos isto e temos de ler duas vezes para ter a certeza que percebemos bem. Mas o Estado pode rever contratos que tem com as empresas privadas porque os seus encargos salariais aumentaram? Não existem regras de contratação pública que têm de ser respeitadas? E quando o salário mínimo voltar a aumentar em 2021, como está programado, os contratos vão ser de novo actualizados para compensar a subida? E quando outros custos aumentarem, o Estado também vai compensar as empresas? Se ao menos estivéssemos a falar de actualizações com base na inflação, mas não é isso que se passa.
Mas a CCP quer ainda a redução do IVA da electricidade, argumentando que isso permite aumentar o poder de compra das pessoas. Sem dúvida que sim, se isso se repercutir nos preços. Mas é também mais uma compensação para as empresas de um sector que, no caso da restauração, já beneficiou de uma irracional descida do IVA no início do primeiro Governo de António Costa, sem que isso tivesse aumentado o poder de compra. Resumindo, a CCP quer que os contribuintes portugueses subsidiem os aumentos salariais das empresas privadas de comércio e serviços.
A Confederação Empresarial de Portugal, liderada por António Saraiva, quer acabar ou reduzir as contribuições para os fundos para pagar as indemnizações por despedimento aos trabalhadores. Mais uma vez, o objectivo é compensar os aumentos salariais decididos em sede de concertação social.
São cerca de 370 milhões de euros que estão em dois fundos criados em 2013 por proposta de João Proença da UGT, na sequência das alterações das regras de despedimento e indemnização. O Fundo de Compensação do Trabalho (FCT), para onde as empresas têm de descontar 0,925% do salário dos trabalhadores, permite que as empresas vão lá buscar cerca de 50% do valor da indemnização paga em caso de despedimento. O Fundo de Garantia de Compensação do Trabalho tem como principal objectivo pagar as indemnizações dos trabalhadores quando a empresa entra em insolvência e, para isso, as empresas descontam 0,075%. Esperemos que os sindicatos não permitam que se acabe com estes contributos, recorrendo à memória do que se passa em tempos de crise. Muitos trabalhadores nunca receberam as indemnizações devidas porque as empresas faliram e este é um importante mecanismo para garantir que isso não acontece ou, pelo menos, é minorado. Não podemos ter memória curta e usar os tempos de crescimento para acabar com poupanças que podem amortecer os efeitos de uma crise, que um dia virá.
Pelo que estamos a perceber, os patrões querem que o Governo pague, com dinheiro dos contribuintes ou um risco acrescido dos trabalhadores, o aumento do salário mínimo e dos rendimentos em geral. Recusam-se a fazer aquilo que é a sua obrigação que é melhorar a produtividade das suas empresas. Aceitam ceder a sua liberdade por dinheiro dos cofres do Estado. Com a cumplicidade, incentivo e vantagens para o Governo. A estratégia do Governo baseia-se no Pacto para o Crescimento com três pilares: Investimento, Conhecimento e Rendimento. A política de rendimentos tinha (tem?) condições para, criados os incentivos certos, promover a modernização das empresas tendo em vista o mais importante desafio do país, que é o aumento da produtividade. Só assim conseguiremos um crescimento mais elevado do que o medíocre que temos obtido.
A política de rendimentos que o Governo defende tem como objectivo não só aumentar o salário mínimo como também subir todos os salários. Se tal for concretizado com prudência e obviamente sem subsidiar as empresas, esta política pode forçar as empresas a encontrarem soluções de maior eficiência, aumentando a sua produtividade. Seria uma estratégia, neste caso por via da política de rendimentos, semelhante à que foi seguida entre finais dos anos 80 e início da década de 90 do século XX, de valorizar o escudo (ou de o desvalorizar menos) para forçar as empresas exportadoras a procurarem outros factores de competitividade que não fossem os salários baixos.
Além disso, e neste domínio do trabalho, o Governo deveria concentrar-se no cumprimento da legislação laboral, sabendo, como com toda a certeza sabe, que há empresas, especialmente no sector do turismo, que não cumprem as leis laborais.
Esta fase do ciclo económico, de desemprego baixo, é especialmente adequada a estre tipo de políticas. O pior que nos pode acontecer é aplicar políticas que reduzem rendimentos e aumentam as falências e o desemprego quando a economia entrar em crise. Foi isso que nos aconteceu entre 2011 e 2013, quando a falta de dinheiro obrigou o Governo de Pedro Passos Coelho a adoptar medidas que agravaram ainda mais a crise. É nos tempos de prosperidade que nos preparamos para os tempos difíceis, mas não é isso que se parece querer fazer.
O livro “Crise e Castigo e o dia seguinte” de Fernando Alexandre, Luís Aguiar-Conraria e Pedro Bação é uma obra fundamental para todos aqueles que mantêm a liberdade de pensamento, sem as amarras do actual e lamentável radicalismo tribal, e querem perceber como desembocámos na maior crise da nossa história recente em 2011. E como (digo eu), o que não estamos a fazer pode condenar-nos a repetir os erros do passado. Vai na sua segunda edição, actualizado num capítulo aquilo que já é possível ler dos últimos quatro anos. A apresentação do livro foi feita por Francisco Assis e Hélder Reis. E Francisco Assis fez uma declaração lapidar e ao mesmo tempo arrepiante e que cito de memória: corremos o risco de viver num país de “capitalismo rentista e socialismo de miséria”.
Aquilo a que estamos a assistir em matéria de negociação da concertação social alimenta aterradoramente essa perspectiva de Francisco Assis. Depois de termos garantido rendas com as Parcerias Público-privadas e em alguns sectores como o da electricidade, preparamo-nos agora para alargar o capitalismo rentista às pequenas e médias empresas, subsidiando os aumentos salariais.
Claro que os empresários ficam agradecidos a António Costa. Claro que se olharmos para o que se está a fazer na perspectiva da conquista de eleitorado e manutenção do poder, a estratégia é muito inteligente. Depois das conquistas dos funcionários públicos e pensionistas, com dinheiro que não sabemos se teremos no futuro para lhes pagar e que agora nos falta nos serviços públicos, o novo grupo que se vai satisfazer é a dos empresários que querem viver à mesa do Orçamento. O PS consegue assim garantir mais e mais votos. Entretanto ficamos condenados ao subdesenvolvimento ditado pelo capitalismo rentista.
Esperemos que estas perspectivas venham a ser desmentidas durante esta semana de negociações na concertação social e que os empresários não venham a ser compensados com dinheiro dos contribuintes pelos aumentos salariais.
COMENTÁRIOS
Liberal Impenitente: Está perto de ser admirável que uma pessoa que goza do estatuto de colunista de um jornal importante (rir) não saiba que os socialismos são todos pagos pelos contribuintes. Por que haveria o salário mínimo de ser diferente? Os políticos brilham, os contribuintes pagam, mais algumas pessoas deixam de ter salário, importa-se mais e nada se produz. Sempre em frente, que o abismo já está perto e temos ganas de voar!
Portugal tem sofrido pouco aquilo que muitos outros países sofreram e sofrem em resultado dessa aberração socialista global que é o "salário mínimo". E porquê? Porque em Portugal o "salário mínimo" tem sido, quase desde a sua criação, de facto, mínimo. Portugal ainda não tem, ou tem pouco, um problema de alguns dos países mais ricos. Urge pois resolver essa situação, e trazer para Portugal um socialismo para ricos. É o que está a ser feito. Admirados? O que é o guterrismo afinal senão um gigantesco faz de conta que somos ricos?
Paulo Esteves: A nossa economia funciona assente numa montanha de dívida e na impressora do BCE, quando esta parar, temos novo resgate. Portugal e Europa varrem para debaixo do tapete, até um dia. HG sabe o que escreve e alerta, basta um percalço com o Brexit do Reino Unido  e a Europa desintegra-se como comunidade.
Eu só posso fazer uma pergunta a Helena Garrido....lembra-se de alguma previsão que tenha feito nos últimos cinco anos e que tenha acertado? Isto já é um caso de vergonha alheia, mas para si, deve ser humilhante e vergonhoso! Parece uma " zandinga" que não põe uma na caixa certa! Ou foi mal formada ou esqueceu a formação. E digo o com todo o respeito.
Paulo Guimarães: Na passada 4ª feira houve um debate na SICN sobre a corrupção no estado associada aos grandes negócios. O caso do lítio ocupou grande parte da discussão. Foi um ataque muito violento à forma como o estado em geral gere estes assuntos e muito em particular a este governo, nomeadamente ao ministério do ambiente e ao seu secretário de estado. Desde 4ª feira não ouvi, nem li, qualquer desmentido ou intervenção do governo a desmentir ou sequer esclarecer qualquer coisa sobre este assunto. Onde anda o PM? O problema não o atinge? Vi-o ontem na televisão precisamente com o ministro do ambiente ao lado, os dois muito risonhos... Onde anda o PR? O que anda a fazer? Parece que foi almoçar com o gen. Eanes... Sobre este assunto também "0". E o PSD e o CDS? Calados... E os partidos de esquerda? Comprometidos como estão, calados ficaram. É este o país onde vivemos!!!
Manuel Magalhães: Gosto da referência feita a Francisco de Assis, que me parece ser dos muito poucos socialistas decentes dentro do actual PS. Outro assunto, tenho pena que H. Garrido não tenha feito nenhuma referência à data de hoje, 25 de Novembro, a data mais importante para Portugal no pós revolução, deu-nos a democracia!!!
Combate aos BURROS e ANALFABETOS do Observador: Helena Garrido, Duas ou três ou notas.
1.- O comportamento mentecapto dos empresários portugueses que descreve é próprio do país terceiro-mundista em que vivemos. Continuamos a ser o único Estado-Membro da UE, em que os empresários e supostos gestores são detentores de habilitações escolares médias inferiores às dos respectivos empregados. E não sei se não seremos o único o Estado-Membro em que os ditos empresários e dirigentes continuam a não perceber que o único imposto que sai dos seus cofres, o IRC, é um custo, como a mão-de-obra, a carne no restaurante ou o cimento na construtora e não como uma redução da margem que tencionavam alcançar.
2.- A redução do IVA na restauração não fez baixar os preços dos bens fornecidos, porque foi usada para melhorar a situação financeira das empresas do sector e assim tirá-las da situação de falência ou de pré-falência em que se encontravam (as que ainda não tinham fechado portas desde 2012). Por um lado, o aumento do IVA na restauração de Passos Coelho de 13% para 23% não tinha feito subir os preços dada a enorme recessão que então se viveu, comprimindo as margens das empresas, mas isso não foi o pior. Passos Coelho, e bem, ao criar a obrigatoriedade de emissão de facturas e simultaneamente incentivando os consumidores a fazê-lo através de benefícios fiscais, fez aumentar o IVA, que não foi passado para os consumidores, não de 13% para 23%, mas sim de 0% para 23%, pois a esmagadora maioria dos restaurantes e cafés nunca passava factura, cobrando o IVA e ficando ilegalmente com o dinheiro.
3.- A redução do preço da electricidade só vai poder acontecer de forma significativa quando os tribunais resolverem os casos que se encontram em investigação no MP. Veja um artigo recente do Observador que dava conta de acto de corrupção do Mexia&friends ao ex-ministro Pinho no montante de 4,5 milhões, e que também noticiava que a EDP roubou/vai roubar 1.200 milhões aos portugueses como contrapartida desse acto. Como é que o preço da energia eléctrica pode descer com tantos corruptos e gatunos, sejam eles o ex-ministro ou o Mexia&friends
Aónio Eliphis > Combate aos BURROS e ANALFABETOS do Observador: "os ditos empresários e dirigentes continuam a não perceber que o único imposto que sai dos seus cofres, o IRC". Tecnicamente está correto, mas quem é que paga ao trabalhador para que este possa pagar IRS e Segurança Social? É como aquela tecnicalidade fiscal que refere que os profissionais liberais não pagam IVA, pois o IVA é pago pelos clientes.
Pedro Ferreira: Artigo assertivo e muito oportuno, mas como a HG sabe, Francisco Assis tem razão. O problema existe e é histórico, já no Estado Novo os ministros de Salazar se queixavam da qualidade das nossas empresas e dos  empresários. Só com a nossa adesão à EFTA  e a vinda de capital e empresários estrangeiros conseguimos taxas de crescimento  à volta de 10% ao ano, agora ficamos felizes com 2%. Existe um problema de ordem cultural, económico e financeiro. A nossa cultura (católica) de inveja e adversa ao lucro e à riqueza, a par de uma escola que elimina reprovações  e forma  ignorantes não desenvolve recursos humanos para com inovação, tecnologia e amor ao trabalho criarem empresas para competir a nível global. A nível  económico porque as empresas continuam a ser geridas como as empresas familiares que funcionavam no seculo XIX e XX ao lado do curral das vacas, como os meus avós começaram, só com uma pequena diferença, tudo era construído com capitais próprios e sem a carga fiscal dos dias de hoje.   Em simultâneo, temos empresas sem capitais próprios que funcionam com base nos empréstimos banca e o destino será novamente o mesmo,  os bancos estoiram com os créditos mal parados, como aconteceu recentemente. Estamos num ciclo vicioso. Sem reformas profundas (corte de estrutura, corte na despesa do Estado e baixa drástica de impostos) não sairemos disto, e os governos de turno farão todos a mesma política, com mais ou menos socialismo. 
Pérolas a porcos: O País está de RASTOS, ENDIVIDADO ATÉ ÀS ORELHAS, ENFEUDADO À UE E DOMINADO PELA DITADURA GLOBALISTA.
Os problemas do salário mínimo e dos benefícios a que chamam “rendimentos” é simplesmente que há CADA VEZ MAIS GENTE DEPENDENTE NUM PAÍS QUE PRODUZ CADA VEZ MENOS, tanto pelo PESO DAS DEPENDÊNCIAS INTERNAS E EXTERNAS, como devido à CONCORRÊNCIA QUER NO MERCADO DE TRABALHO (acabo de mudar de casa e quase toda a gente com quem tive de lidar e que TRABALHAVA era brasileira ou ucraniana) QUER DAS EMPRESAS ESTRANGEIRAS EM TODOS OS RAMOS.
Além disso existe um DÉFICE ENDÉMICO da balança de bens e serviços, que só pontualmente consegue ser positiva (e apenas desde 2012, pois de 1943 a 2012 foi SEMPRE NEGATIVA).
A UE é um “racket” que nos tornou dependentes dos produtos e das regulamentações europeias, concebidas para nos VENDER OS PRODUTOS de outros países, obrigando-nos a ENDIVIDAR-NOS JUNTO DESSES MESMOS PAÍSES.
E ao mesmo tempo que tudo isto se passa, QUE É DE ONDE VEM O DINHEIRO que gastamos e com que PAGAMOS SALÁRIOS E BENEFÍCIOS, estamos a ser TRAÍDOS, ROUBADOS e APUNHALADOS pelos “GLOBALISTAS” e os ABUTRES ESQUERDISTAS QUE QUEREM CADA VEZ MAIS DINHEIRO QUE NÃO LHES PERTENCE - eles próprios VICIADOS NOS RENDIMENTOS QUE SÓ LHES SÃO PROPORCIONADOS PELO CAPITALISMO!!!
António Vieira: Cara Helena Garrido, depois de ler o seu artigo fiquei a pensar: o nosso pais não avança porque tanta gente ambiciona ser como o Galamba e muito poucos a serem como Helena Garrido.
Pérolas a porcos: O que é lamentável é ver gente a escrever sem saber do que fala!!! As DÍVIDAS DAS EMPRESAS (sobretudo das PMEs) são MAIORES DO QUE A DÍVIDA PÚBLICA!!! 265.722 milhões!!!
Pérolas a porcos > Pérolas a porcos Dos quais 162.322 milhões das PME, e 82.833 (ou seja, metade), das GRANDES EMPRESAS!!!
(Isto por haver centenas de milhar de PMEs e apenas um milhar de grandes empresas).
Pérolas a porcos: "Rendimentos"???? Só faz sentido falar de "rendimentos", se houver BENS ou INVESTIMENTO.
SÃO ESMOLAS, SUBSÍDIOS, OU BENEFÍCIOS - NA MAIOR PARTE INDEVIDOS, dados a quem na maior parte dos casos nunca trabalhou !!!

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Raymond Aron





Um filósofo francês que todos deveríamos conhecer, como responsável pelo esclarecimento sobre os fenómenos políticos, económicos e sociais que foram surgindo e que merecem a nossa atenção para melhor entendermos o ponto a que chegámos de farfalheira gritante e perigosa, e que, frontalmente, homens mentalmente sãos, como Salles da Fonseca, ousam trazer a este nosso palco pátrio, que vai afundando, na inércia do nosso acomodamento. Bem hajam todos os que se debruçam sobre esse papel aclarador, como também o faz o Observador ao publicar o estudo crítico de Carlos Gaspar expressivo do papel intelectual de Raymond Aron no nosso mundo. 
 HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO,  26.11.19
                       ou
OS INTELECTUAIS E A MENTIRA 
Reformistas ou reformadores opõem-se aos revolucionários, aos que querem não melhorar o capitalismo mas sim suprimi-lo. O revolucionário esforça-se, destruindo o seu meio, para se reconciliar consigo próprio, visto que o homem só está de acordo consigo se estiver de acordo com as relações sociais de que é, quer queira quer não, prisioneiro… O revolucionário não tem outro programa a não ser o demagógico. Digamos que há uma “ideologia”, ou seja, a representação de outro sistema, transcendente ao presente e talvez irrealizável. Mas só o sucesso da revolução permite discernir entre a antecipação e a utopia. Por conseguinte, se ficássemos nas ideologias, juntar-nos-íamos espontaneamente aos revolucionários que normalmente prometem mais do que os outros. É forçoso que os recursos da imaginação levem a melhor à realidade, mesmo desfigurada ou transfigurada pela mentira. Assim se explica o preconceito favorável dos intelectuais a favor dos partidos avançados.
In “Memórias”, Raymond Aron, ed. GUERRA & PAZ, 1ª edição portuguesa, Fevereiro de 2018, pág. 129

2 - Biografia breve
https://www.wook.pt/autor/raymond-aron/22234
Antes do tempo ou não, Raymond Aron teve razão no seu tempo e continua a tê-la hoje. A sua obra está na primeira linha da denúncia de todas as formas de totalitarismos. Filósofo, sociólogo, jornalista, professor e politólogo, Aron nasceu em 1905, em Paris, no seio de uma família de origem judaica, tornando-se conhecido pelo seu cepticismo em relação à esquerda francesa. Estudou na École Normale Supérieure, onde conheceu Jean-Paul Sartre, de quem se tornou amigo e, mais tarde, forte oponente intelectual. Foi colunista no Le Figaro e no L’Express, e leccionou em instituições como a Sorbonne e o Collège de France, tendo tido por alunos figuras como Pierre Bourdieu, André Glucksmann ou Henry Kissinger. Publicou diversos livros influentes que consolidaram a sua posição de autoridade intelectual entre os conservadores franceses. Pensador de invulgar argúcia, é um dos grandes intelectuais do século XX, e autor de vasta obra da qual se destaca O Ópio dos Intelectuais (1957), um conhecido ataque contra Sartre, o marxismo e a intelectualidade francesa, desintoxicando o pensamento unilateral da esquerda e a denegação dos intelectuais marxista face à brutal repressão do comunismo. Em 1977, vítima de uma embolia, repensa a sua vida e decide então escrever suas memórias. Morre em 1983.

3 - Pré-publicação. Em "Raymond Aron e a Guerra Fria", Carlos Gaspar analisa o pós-Segunda Guerra visto por aquele que considera ser "o último dos grandes intelectuais que marcam a história do séc. XX".
OBSERVADOR, 25 nov 2018
Raymond Aron era filósofo, cientista, jornalista e professor universitário. É, segundo Carlos Gaspar, “o último dos grandes intelectuais que marcam a história do século XX”, um século que Aron descreveu como “o século das guerras totais e das revoluções totalitárias e como o princípio da história universal”. A Guerra Fria, fruto da divisão entre Estados Unidos e União Soviética, foi para o francês um marco que definiu como “paz impossível, guerra improvável”.
O Observador faz a pré-publicação do capítulo “A decadência da Europa”, do livro de Carlos Gaspar “Raymond Aron e a Guerra Fria”, publicado pela Alêtheia Editores. Na obra, o assessor do Instituto de Defesa Nacional aborda a vida e o pensamento do intelectual no pós-Segunda Guerra Mundial. “Para Aron, o fim da Europa é o seu princípio”.
“Raymond Aron e a Guerra Fria” é publicado pela Alêtheia Editores
A decadência da Europa
O declínio da Europa no século XX é evidente. Entre 1914 e 1945, a segunda «Guerra dos Trinta Anos» parece confirmar a profecia de Spengler sobre a morte da civilização, ou da cultura ocidental e acelera a emergência dos novos impérios – os Estados Unidos e a União Soviética – cuja linha de demarcação estratégica divide a Europa depois da destruição do III Reich. No fim da II Guerra Mundial, nenhum dos vencedores é uma potência europeia, ou exclusivamente europeia, e a vaga de descolonização do post‐Guerra confirma de que lado da história estão as novas super-potências e completa a retracção das velhas potências imperiais, que voltam ao seu ponto de partida no fim da «era gâmica».
Para Aron, o fim da Europa é o seu princípio. Pela primeira vez na história, os Estados europeus não podem fazer a guerra entre si, sob pena de cometerem suicídio. Em 1945, a alternativa é a união da Europa Ocidental – uma união incompleta, por definição, face à divisão da Alemanha e à separação entre a Europa Ocidental e a Europa de Leste. O fim da unidade alemã é o princípio da construção europeia, se não se perder a oportunidade histórica para reconciliar a França e a Alemanha, os «inimigos hereditários» cujas guerras destruíram a Europa.
Raymond Aron é um europeu — nenhum outro intelectual do seu tempo está igualmente à vontade na França, em Inglaterra, na Alemanha ou nos Estados Unidos: estudou em Paris, viveu em Berlim, esteve no exílio em Londres, fala e escreve nas três línguas, trouxe a sociologia weberiana para a universidade francesa, é o único europeu convidado pelo Comité das Relações Internacionais em Nova York, reconhecido como um par pela comunidade dos estrategas nucleares e cujos livros são imediatamente traduzidos e publicados em todas as línguas ocidentais e, até, circulados em samizdat na Europa de Leste.
Patriota francês, Aron é um defensor da Europa, sem ser um federalista. Na reconstrução europeia, a prioridade é a restauração dos Estados nacionais, das democracias pluralistas e da economia ocidental, necessária para travar a expansão soviética, a vaga comunista e o desespero dos Europeus. A Europa nunca foi uma entidade política, nem há um «patriotismo europeu» em que se possa fundar uma «Europa europeia». A nova Europa é, e não pode não ser, a velha Europa das nações, que tem de se reconfigurar como parte de uma «civilização atlântica», ou de uma «união ocidental», se não quiser ser absorvida pelo império soviético.
Contra os nacionalistas e os neutralistas, é partidário da aliança entre a França e a Grã‐Bretanha, assim como da reconstituição da Alemanha e da reconciliação entre os rivais europeus, tornada possível pelo resultado da guerra: «No dia em que todas as nações europeias foram vencidas, quando nenhuma delas pode escolher soberanamente o seu destino, o nacionalismo tornou‐se um anacronismo». No mesmo sentido, considera indispensável o alinhamento com os Estados Unidos e a intervenção norte‐americana na reconstituição das democracias europeias: é partidário do Plano Marshall e da concertação entre Washington, Londres e Paris para formar a República Federal — a divisão da Alemanha dura enquanto durar a divisão da Europa. O Tratado de Bruxelas e o Pacto do Atlântico consolidam a aliança ocidental, o Plano Schuman é um passo ousado e decisivo para a reconciliação entre a França e a Alemanha: o pool do carvão e do aço não pode falhar.
No princípio da Guerra Fria, descreve a contradição entre a fragmentação política da Europa e a necessidade de formação de um grande espaço económico como um «absurdo mortal». Nesse contexto, admite que os Europeus possam encontrar na vontade de resistir à União Soviética o élan necessário para realizar a sua unidade na organização do Ocidente, como defende a principal potência democrática: «Quer se queira, quer não, só os Estados Unidos dão à Europa uma hipótese de realizar o seu velho sonho de unidade». Porém, a unificação europeia no quadro das instituições do Plano Marshall não se vai realizar e o modelo alternativo, cujo artífice principal é Monnet, não entusiasma Aron, que não se revê nem na visão política de uma Europa unida para separar os dois blocos rivais, nem na estratégia que visa criar a união política como um resultado da interdependência económica entre os Estados europeus, nem no desígnio irrealista de entregar o comando da política europeia a uma burocracia iluminada, sem poder, nem legitimidade.
A Comunidade Europeia de Defesa (CED) marca a separação entre Aron e os europeístas. É partidário do rearmamento da Alemanha, mas, por um lado, não concebe a formação de forças armadas conjuntas sem a união política da Europa dos Seis, na ausência da qual serão os Estados Unidos a comandar o Exército europeu e, por outro lado, não percebe como se pode, simultaneamente, integrar o Exército francês no Exército comum e manter as missões de soberania nos territórios ultramarinos, que mobilizam a maior parte das tropas francesas. A CED é uma péssima alternativa à adesão da República Federal à NATO e, retrospectivamente, Aron considera que o seu fim marca o fracasso do projecto de integração comunitária.
Essa posição excessiva pode justificar a indiferença ostensiva no momento da assinatura do Tratado de Roma, mas não explica a defesa reiterada de uma arma nuclear e de uma force de frappe europeias, tão importantes para garantir a defesa da Europa Ocidental, como para assegurar o seu estatuto como o «Quarto Grande». No mesmo sentido, defende o alargamento das Comunidades Europeias à Grã-Bretanha sem ilusões sobre o europeísmo dos Britânicos, salvo excepção – e, mais tarde, à Grécia, a Portugal e à Espanha, na sequência das transições post‐autoritárias. Mas isso não o impede de escrever um ensaio sobre a Europa onde nunca se refere às instituições comunitárias, senão para afirmar que «a Europa dos Seis ou dos Nove não constitui uma entidade política e, até onde a vista pode alcançar, não vai constituir uma entidade política». Em 1977, reitera a sua análise inicial: «Os Estados Unidos da Europa podiam ter sido possíveis, mas essa possibilidade desapareceu com a Comunidade Europeia de Defesa».
Na mesma altura, numa conferência sobre o sionismo, exprime com frontalidade o que considera essencial: «Pessoalmente e como intelectual, estava fascinado e convencido pela ideia europeia. Teria sido uma obra histórica incomparável criar uma nação composta pelas nações europeias. Para dizer a verdade, nunca acreditei nisso, embora, em geral, tenha militado a favor. Nunca acreditei porque sempre tive o sentimento de que o que fazia a especificidade e a originalidade da Europa era a pluralidade das nacionalidades e das soberanias estatais. Para criar uma soberania estatal incluindo a diversidade das nações seria necessária uma ameaça urgente, ou um federador todo‐poderoso.»