domingo, 29 de dezembro de 2019

A nossa fibra



E aqui chegámos. Sem retorno.
OPINIÃO
O tecido económico e social português
“Ó Jaime, o chefe de gabinete do ministro não é aquele com quem passas férias no Algarve?”
JOSÉ PACHECO PEREIRA
PÚBLICO, 28 de Dezembro de 2019
1. “Manuel, sei que estás a organizar a Junta de Freguesia, agora que ganhámos. É preciso por esses tipos fora, que só nos vão sabotar. E não te esqueças de arranjar alguma coisa para a minha filha, que está a acabar o curso e é das nossas. Está já há um ano inscrita na Juventude e é de confiança. Diz-me alguma coisa”.
2. “Doutor, lembra-se do que falámos quando lhe estive a arranjar as janelas em casa? Fiz-lhe um preço de amigo. Estou agora a telefonar-lhe por que me dá jeito aquele trabalhinho no Centro de Saúde. E o senhor doutor podia falar de mim ao dr. Silveira.”
3. “O meu filho acabou o curso de Gestão, diga ao Eduardo da contabilidade para o pôr a trabalhar com ele, e que o coloque na folha dos pagamentos com um ordenado jeitoso. O rapaz merece e precisa de se endireitar”.
4. “Esse tipo é um lacaio do monhé e por onde passa rouba tudo. Os socialistas são todos assim.” (Comentário não moderado).
5. “A minha amiga não se esqueça de deixar uns dinheiritos para o Alfredo que nos arranjou a camioneta mais barata. Ele espera ganhar algum e como fez tudo sem recibo, ficou-nos mais barato”.
6. “O que nós precisávamos era de um Salazar para pôr todos estes políticos na ordem”.
7. “Sabes onde é que eu tenho arranjado algum dinheiro? A agência do Frederico, aquela na Estefânia, tem lá um informático que pede a pessoas para dizerem mal de uns restaurantes e bem dos outros e paga-me para pôr comentários no Facebook. Não é muito, mas dá para tomar umas bicas”.
8. “Ó sr. Doutor, aconselha-me a comprar umas antiguidades e ir a umas galerias comprar quadros? É que eu tenho aqui uns dinheiros em cash que queria usar sem problemas. É que agora os bancos fazem muitas perguntas. Como eu não conheço nada dessas coisas, o senhor doutor podia indicar-me aos seus amigos.
– Ó Diogo, tenho aqui um cliente que precisava de fazer uns investimentos em dinheiro vivo e não percebe nada de arte. Ainda tens uns daqueles Dalis com a assinatura? Pede-lhe bom dinheiro porque se ele vir o nome do Dali vai logo atrás e está com pressa de tirar o dinheiro do cofre da tia. Percebes?”.
9. “Olá, Simão. Tenho uma encomenda da vereadora da Câmara, sabes, aquela que viveu com a Simone, para organizar uma exposição e eu preciso de um curador. Eles têm dinheiro para pagar, não te acanhes.”
– Mas para essa exposição não é preciso nenhum trabalho de curadoria…
– Pois é, mas eles têm dinheiro e assim habituam-se a ter que pagar as artes.
– Está bem, mas aqueles quadros são uma merda e aquilo não presta para nada.
– Pões o teu nome em letras pequeninas na folha de sala.”
10. “O que é que você quer beber? Temos que comemorar o nosso negócio… Ó senhor Lima, uma garrafa de Moët & Chandon…
– Mas isso não é muito caro?
– Não te preocupes: o Estado paga, que é para isso que servem os impostos.”
11. “Não estás a pôr pouca camada de alcatrão?
– Não faz mal, é suficiente.
– E o engenheiro não vem cá verificar?
– Vir, vem, mas ele sabe que eu sou amigo do Presidente da Câmara e eu mando-lhe um cabaz de Natal.”
12. “Tenho as estufas cheias de nepaleses e se fosse preciso ainda trazia mais. Trabalham com quase 50º nas estufas e para a terra deles ganham muito.
– E não veio aí um grupo da Igreja ver as condições em que eles viviam?
– Vieram. É tudo do Bloco de Esquerda, mas eu disse-lhes que punham em risco a competitividade da agricultura alentejana. E eles não podem fazer nada porque o secretário de Estado pensa o mesmo.”
13. “Como é que te chamas?
– Maria Alberta.
– E de que é que te queixas?
– Faltei para levar o meu bebé ao hospital que estava com febre.~
– Mas não disseste nada ao supervisor.
– Não tive tempo.
– Pois é mas vais ter multa e põe-te a pau que houve quem te visse naquele ajuntamento à entrada a que os comunistas dos sindicatos chamam ‘concentração’. Não te concentres mas é no emprego que não vais ter sorte nesta casa.”
14. “Eu vou é votar no Chega, é metade a trabalhar e metade a roubar” (Comentário no Facebook).
15. “Estás como o Sócrates. Grande escola! Quanto é que eu tenho de pagar por fora?”
16. “Ó Jaime, o chefe de gabinete do ministro não é aquele com quem passas férias no Algarve? Organiza lá um almoço porque precisava de lhe dar uma palavrinha.”
Colunista
TÓPICOS  POLÍTICA  OPINIÃO  PORTUGAL
COMENTÁRIOS:
rafael.guerra, 28.12.2019:  Excelente texto, num estilo tecido em manta de retalhos... Quem é português e lê as linhas de JPP, sente-se logo em casa... E notavelmente, não faz uma única referência à UE!
Jose: É assim ou muito parecido em toda a parte do mundo Caro Rafael.guerra.
fernando jose silva, 28.12.2019: Muito bem visto, isto e muito pior é o dia a dia dos politiqueiros, não se lhes pode chamar politicos..... Qualquer dia somos obrigados a votar mesmo no Chega!!!!!! O saque está na rua.
Jose,  28.12.2019:  Está completamente errado, Caro fernando jose silva. O Estado português apenas gere cerca de 50 mil milhões de euros por ano para assegurar todas as funções do Estado desde pagar o serviço da dívida pública até pagar os serviços sociais. Os patrões privados mobilizam 5 vezes mais da riqueza natural acrescida do valor acrescentado pelo proletariado. De toda a riqueza 5 em cada 6 euros são geridos por patrões privados sem escrutínio nem delegação de poder. É pois totalmente falsa a ideia muito divulgada de que é o Estado a gastar a riqueza que os portugueses produzem. É ainda mais errado que o Estado gasta mal esse pouco dinheiro que gere. O patrão que é a entidade que recolhe 100% da riqueza é também quem distribuí para o Estado, os trabalhadores, os fornecedores e para si próprio.
Aónio Eliphis: O estado fica com mais de 1/3 do PIB (riqueza gerada pelos privados). O estado não gerou esse dinheiro mas gere-o através de impostos impostos à atividade produtiva privada.
DCM, 28.12.2019: “Eu nunca corrompi ninguém ." A frase mais cómica da década que tem sido repetida à exaustão pela SIC notícias. Neste País, a corrupção tem raízes profundas e está desde há muito generalizada .Todos nós -ressalvando os mais novos...- de uma forma ou outra já vivemos situações em que fomos forçados a corromper .Por isso , atendendo à sua posição e idade , o autor da frase merece uma distinção por a ter proferido sem se rir . Vivi num tempo que até para me divertir tinha que dar cinco coroas ao porteiro para poder ver filmes do Cantinflas , que eram interditos à minha faixa etária . O que era um paradoxo porque eu corrompia o porteiro com parte do salário que ganhava numa casa de "má fama" no Bairro Alto ,onde todos os dias assistia a cenas que fariam corar d/verg/ o M. Moreno.
Jose, 28.12.2019: "Uma mão lava a outra" é a expressão popular transnacional que PP aqui caracterizou com excessiva incidência sobre a acção do Estado. Isso pratica-se por todo o lado e em Portugal também. Quem fugir dessa prática paga um preço alto de exclusão nos negócios privados, públicos e da vida social. Falar de um estilo de vida isento do pecado da "cunha", do "jeitinho", da "lembrança e da cobrança"... é falar do sexo dos anjos. É uma entropia do funcionamento da sociedade decorrente da natureza humana e suas fraquezas. Pior que isso é o Estado estar capturado e ao mesmo tempo infiltrado de traficantes de armas e munições ou organizações secretas visando tomar, por dentro, o Estado todo. Pior é monopólios naturais estarem em mãos privadas e seu arbítrio. Pior é não existir concorrência sã, mas abuso
GMA, 28.12.2019: Portanto, os únicos impolutos que "lavam a cara com ambas as mãos" são o habitual "coro dos indignados de café" (o "coro dos tribunais" de outra maneira) que por aqui batem acriticamente palmas a tudo que seja dizer de políticos, empresários, escritores, trabalhadores,... Desde que, seriamente ou não, se diga mal de Portugal tem coro de indignados cativos garantido!...
GMA, 28.12.2019: Se bem conheço o Dr. Pacheco, o Anti-Populista, a próxima "Opinião" será dedicada a outras tantas situações pautadas pela Ética, certo Dr. Pacheco? Ou será que está iniciar uma nova fase da sua multifacetada carreira fazendo concorrência ao Dr. Valente, ou ao Dr. Sousa Tavares, ou ao Dr. Barreto? Ou a todos estes mestres da "banalidade intelectualoide", assim ao estilo brigão do Major Valentim (quantos são, quantos são?!...)? O Dr. Ventura é, por agora, o intocável líder!... Mas que maior prazer existe do que apear um líder?!...
Conde do Cruzeiro, apenas assinante., 28.12.2019: Assim funciona a oligarquia corrupta e cleptocrata, assim vivem os seus funcionários.
Jose Luis Malaquias, 28.12.2019:  E está aqui tudo.
Ceratioidei, 28.12.2019: Excelente, caro JPP. Retrata com precisão o tecido económico e social português. Dei um salto no tempo e senti-me em casa como há 40 anos. Mas ainda não mudou nada? Continua tudo na mesma? O Salazar deve estar muito feliz. A imortalidade tem muitas formas.
bento guerra, 28.12.2019: As malhas que o oportunismo politico tece
José Cruz Magalhaes, 28.12.2019: Talvez não baste para ser um retrato ficcionado do presente,mas é uma moldura que enquadra bem a espuma dos dias,de sempre.
Aónio Eliphis, 28.12.2019: Mas será que o Pacheco não sabe destrinçar o presente do indicativo do pretérito perfeito na primeira pessoa do plural? Ganhámos e não ganhamos, falámos e não falamos.
nelsonfari, 28.12.2019: Uma abordagem gramatical. Veja lá a definição dos tempos e dos modos numa boa gramática. Usualmente é como escreve, mas existem nuances. Pode ser a do Lindley Cintra. O laissez-faire, laissez-passer do pequeno favor, da pequena corrupção.Pois é, isto é o infinitésimo(infinitamente pequeno). Mas, temos também a caça grossa:Ricardo Salgado, José Sócrates and Company. É o infinitamente grande. E de muitas coisas pequenas se faz o grande, Muitos a comerem um pouco faz um grande banquete. É o Portugal dos pequeninos. Grão a grão enche a galinha o papo.


sábado, 28 de dezembro de 2019

Não, não é de estranhar


Os comentários ao Editorial de Manuel Carvalho são suficientemente explícitos, num país geralmente marcado pela impostura, a arrogância, a apatia  e a vigarice.
EDITORIAL
O país continua à venda
Quem julgava que o fim das restrições da troika, o crescimento económico dos últimos anos, o regresso da confiança ou o alívio da dívida das empresas iriam permitir uma nova vaga de ambição ao capitalismo português desengane-se: o país continua à venda.
PÚBLICO, 28 de Dezembro de 2019
A venda ao exterior de activos valiosos da economia portuguesa continua animada. Só este mês a Altice desfez-se de metade da sua rede de fibra óptica, vendida à Morgan Stanley Infraestructures Partners, o grupo Vasco de Mello e o seu parceiro Arcus vão alienar 80% dos direitos de voto na Brisa, a EDP fechou negócio com um consórcio de empresas francesas liderado pela Engie que lhes permitirá controlar seis barragens e, outra vez a Altice, transferiu para um grupo do Bahrein 85% da gestora dos fundos de pensões da TLP, Marconi e TDP. Quem julgava que o fim das restrições da troika, o crescimento económico dos últimos anos, o regresso da confiança ou o alívio da dívida das empresas iriam permitir uma nova vaga de ambição ao capitalismo português desengane-se: o país continua à venda.
Haverá quem, munindo-se da cartilha dos mercados abertos e da livre circulação de capitais, considere esta situação normal. Poder-se-á dizer que, entre o controlo francês ou americano da fibra óptica, ou entre o controlo chinês ou francês das barragens não há diferença de maior. Não é descaso afirmar-se também que as teorias dos centros de decisão que, em tempos, faziam parte do léxico corrente do empresariado serviam apenas para proteger a gula predatória ou a ineficiência de uma certa estirpe de negociantes da corte. Mas depois da terrível destruição de riqueza nacional na era da troika e dos exemplos de incúria e dos abusos que destruíram a PT, que expurgaram a EDP de capital nacional ou entregaram a banca nacional ao capital espanhol ou angolano seria de esperar uma leve pausa para se respirar. Não é isso que acontece.
Por muito que todos os Estados europeus façam a apologia da liberdade de negócios, na penumbra todos se esforçam por proteger os seus activos mais estratégicos e valiosos. O Estado português deve estar atento a essa sangria de recursos e olhar para a Espanha ou para a França como exemplo. Não se trata de impor barreiras proteccionistas em favor de tecido económico já de si demasiado submisso ao patrocínio do Estado. Nem de criar novas clientelas de protegidos que um dia darão origem a novos donos disto tudo. Trata-se, sim, de exigir contrapartidas duras. Que a exploração de recursos nacionais pague impostos nacionais. Que os quadros e demais trabalhadores que gerem os negócios se instalem em Portugal. Que haja abertura para que empresários portugueses tenham acesso a esses negócios. Medidas que afinal têm uma única finalidade: evitar que Portugal se torne ainda mais uma banal plataforma de negócios gerida e mantida a partir do exterior.
TÓPICOS
COMENTÁRIOS
Jose Vic: Compreendo a angústia deste artigo de opinião. Mas estas análises estão a descoberto há imensos anos. O rei vai nu há tanto tempo. O país desde que iniciou a privatização dos chamados “comandos da economia”, sabia que este era o destino/resultado. Os tais centros de decisão afinal não passaram de uma vontade teórica. O que mais aflige no nosso país, é a falta de visão de longo prazo para o bem comum dos portugueses. O centrão alimentou-se da falta de exigência e conhecimento dos portugueses.
Nelson Sousa: "O que mais aflige no nosso país, é a falta de visão de longo prazo para o bem comum dos portugueses" Completamente de acordo. Andamos à deriva. Navegação à vista.
Eleitor: O que o país precisava era de vender alguns jornalistas, tal e qual... Então este senhor defende o capitalismo, ou não?. Pura contradição existencial, pois ele que justifique o artigo que é aliás, sem qualidade. O que quer este senhor, afinal: Capitalismo ou comunismo, ou nada?
VJS: O artigo é pura conversa da treta. Teria alguma veracidade se quem vende fosse o capitalismo português, mas não é o caso. Quem vende já é o capitalismo estrangeiro.
agany: Mas o capitalismo estrangeiro adquiriu, a preços de banana, ao capitalismo português. Cobrava-se 40-50% por cada transação e acabava-se já com esta pouca vergonha!
GMA: Em boa verdade, este pedaço rectangular (em má hora) desanexado de Espanha apenas formalmente é País independente. De resto, sempre disponíveis para "negociar" a venda a qualquer preço. No caso das barragens, o Sr. Mexia, vulgar funcionário do CC do PC Chinês e afogado em endividamento, tem que garantir as rendas aos camaradas. E isso sobrepõe-se a qualquer a qualquer outro tipo de racionalidade. Imagina-se que o grande gestor de negócios sem risco, rentista portanto, já ande a pesquisar os melhores artistas de alteração facial, em particular de "pôr os olhos em bico" para não destoar dos camaradas quando for designado pelo Camarada Supremo, o sereníssimo Sr. Ji, para o Politburo. O que, felizmente não tardará; mais o Dr. Catroga, que até já tem estátua lá para os lados de Abrantes.
joane hou: Camaradas vermelhinhos, vindos do Cavaquismo; antes estes neoliberais eram como paladinos hoje são vassalos do comunismo chinês? O caro comentador merece salvés pela sua coerência, os comunistas são sempre maus, mesmo que vos atirem milhares de milhões de dólares para a gamela certo? Convém não falar da Morgan Stanley, Goldman Sachs (onde estão os amigos pessoais do Mexia), Lone Star Funds de Dallas ou a Black Rock...
GMA: Qual a "gamela" a que a camarada hou, por cognome a Coerente", se refere? Aquela onde pingam os milhões €€€ das rendas da EDP, da REN, da Fidelidade,...? Os "comunistas bonzinhos" atiraram 2,7MM pelo domínio da EDP; apenas seis barragens rendem 2,2MM. O Dr. Coelho e seus ajudantes foram mesmo bons amigos. Uns camaradas fixes!...
rafael.guerra: Rendas da EDP que beneficiam acionistas majoritariamente estrangeiros e um punhado de directores, mas que salgam as facturas dos consumidores portugueses... A EDP renovou-se e a sua energia é o Excesso de Défice de Patriotismo.
Jose Bernardes: O artigo é lúcido, e coloca "o dedo na ferida". Infelizmente a única coisa que tem sido garantida na alienação de empresas é a manutenção/institucionalização da "cunha", do compadrio e do nepotismo como canal principal de recrutamento para todos os níveis das empresas, desde a base até à administração de topo. Desde as empresas da área da energia até às telecomunicações será interessante fazer essa análise (por vezes basta ler os apelidos...) e constatar que as "elites" se vão regenerando, protegendo, reforçando e contratando.
rafael.guerra: Os portugueses vendem o país a americanos e a chineses e a culpa é da UE? Uhm... é preciso um PhD para nos explicar isso desde o outro lado do Atlântico, sempre sem fazer nada de concreto pela sua Terrinha.
PRO: O Manuel Carvalho não diz que a culpa é da UE! Quem o diz é o Americano ali em baixo!
rafael.guerra: É esse o PhD a quem me referia (Professor hiperbólico Demente)
Pedro Carvalho: Não tarda já não resta mais nada para vender, senão o nome Portugal. Como é possível deixar chegar um País ao ponto de não ter dinheiro nem para mandar cantar um cego, País esse que foi um dos maiores colonizadores mundiais. Noutros Países, se tivessem tido o gang pós 25 Abril que Portugal teve, que num espaço de 40 anos, conseguiram rebentar com o País todo e não aproveitaram a oportunidade de apanhar as carruagens da Europa Central, seriam julgados e condenados por toda a criminalidade que cometeram. Sim, eles foram uns autênticos criminosos ao se apropriarem dos impostos do contribuinte para orientarem suas vidinhas e a de suas familias e amigos.
Conde do Cruzeiro, apenas assinante.: Depois de venderem as empresas públicas em saldo, apoiados pelos defensores do mercado global privado, agora os mesmos desequilibrados contestam a legitimidade daqueles que defendiam de fazer negócios entre si. Orientem-se, se quiserem ser levados a sério.
JonasAlmeida: bem observado Conde! Estas elites políticas em que a mão esquerda diz não saber o que faz a direita são de uma hipocrisia estratosférica - todos sabemos que alimentam o mesmo bolso.
Um editorial para ler e reler e manter na biblioteca. A poucos dias do final do ano temos um editorial à altura do que foi a essência da década que encerra. O saque do contrato social pela conversão de obrigações contributivas em lucros em paraísos fiscais é hoje desabridamente a essência do modelo europeu - o da cleptocracia colonial.
Sandra: Jonas, a talhe de foice, deixo-lhe uma sugestão. Ainda não li. Estou a ver se arranjo tempo. No DN de hoje, uma entrevista com Yuval Noah Harari: "Como será Portugal daqui a 20 anos? Um país independente ou uma colónia de dados?". Comprei-o em papel, pelo que nem sei se dá para ler neste formato.
rafael.guerra: Está a falar do modelo Anglo-saxão cuja financeirização, bancos e moeda reinam no planeta. E do qual todos os demais, sem independência militar, são meros lacaios de diferentes categorias. O modelo social europeu é o que melhor resiste.
PRO: Sandra esse artigo apenas se refere ao impacto da tecnologia com a o facto de os governos poderem ter acesso a todos os dados dos cidadãos como já acontece com a China! Não fala de nenhuma relação com a UE ou a nível político.
joane hou: O problema é vermos abutres por aí como a Altice que não tem músculo financeiro para aguentar o barco parece, as vendas servem para cobrir e lucrar com o que acabaram de comprar, demasiado para manter... De resto caro Manuel Carvalho, quem anda no meio dos negócios bem vê, tudo funciona mais ou menos bem com clientes e investidores estrangeiros, já com os tugas enfim, os capitalistas tugas são filhos dedicados de um passado patriarcal, socialmente retrógado e economicamente familiar nos piores sentidos (pois existem empresas familiares em Portugal que operam muito bem), ou seja, acham que têm feudos e vassalos e nem reparam que muitas vezes estão a lidar com serviços e não com empregados, uma diferença de relevo não? LOL...
Sandra: Exacto, Joane. O Pacheco Pereira, na sua crónica de hoje, dá verdadeiros exemplos do funcionamento democrático, nesta nossa "Nação Valente".


Uma lição magistral



Que analisa um problema social a partir das suas raízes filosóficas e literárias mais próximas, que retomam em força, ao que se vê, como torrente de rio que ora seca ora explode em exuberância que tudo destrói. O certo é que Rousseau influenciou os séculos vindouros, mesmo na psicanálise, e, apesar das maldades que lhe imputam – sobretudo na questão dos filhos, que enviou para a “Assistência Pública” – é apreciado como génio criador que foi, de teorias sociais de vasta repercussão. O certo é que o seu espírito de ânsia conquistadora, contraposta a uma consciência rancorosa de proscrito social, são fenómenos que o levaram a uma originalidade criadora em vários domínios, mesmo no pedagógico, e a crónica da professora universitária Patrícia Fernandes é bem vinda, por retomar a questão do individualismo hodierno, de justificação literário-filosófica, aspecto que os seus comentadores igualmente apreciaram.
A epistemologia do eu
Amadurecer é encontrar um equilíbrio entre os desejos pessoais (a condição de infância, em que queremos tudo e já) e as regras sociais. Mas hoje parecemos presos a uma sociedade de eterna adolescência
OBSERVADOR, 27 DEZ 2019
«What you are suggesting is unthinkable. The order of succession to the throne is determined by the Act of Settlement of 1701, not the wild and irresponsible whims of young princesses. The principle of undisturbed hereditary descent is a pillar of stability and perpetuity for the nation. (…) I would urge you to accept your position in life and to dismiss forthwith any childish notions about rewriting the rule books that it might better suit your character. We all have a role to play.» The Crown

Uma das tentações mais perigosas da reflexão política é a da simplificação. O seu poder hipnótico passa por, apresentando causas e efeitos lineares, criar a ilusão de controlo, a ilusão de que podemos não só compreender, mas também condicionar tudo o que vai acontecendo à nossa volta. É este, por exemplo, o poder das ideologias. Enquanto narrativas simplificadas de termos e relações causais, elas parecem tornar o mundo mais inteligível. Trata-se, contudo, de uma fantasia, e a compreensão de um mundo cada vez mais complexo implica o esforço de, periodicamente, darmos um passo atrás e ganharmos distanciamento sobre os acontecimentos. Uma boa estratégia passa por revisitar os autores que ainda hoje influenciam o nosso modo de pensar e entender como os seus legados, muitas vezes contraditórios, se mantêm como discursos hegemónicos ou de resistência, ou como aparentes derrotados que vingam muito tempo depois.
Esta perspetiva permite, nomeadamente, iluminar os legados de John Locke e Jean-Jacques Rousseau. A vitória da democracia liberal significou a vitória de Locke e de um vocabulário centrado em direitos naturais, limitação do poder político, consentimento, representação, direito de resistência. E tal significou a derrota do modelo rousseauniano de participação, comunitarismo e poder político não limitado. Mas a segunda metade do século XX viu regressar o espírito de Rousseau, radicalizando o individualismo que caracteriza a modernidade e dando forma a fenómenos políticos radicados naquilo que podemos designar como a epistemologia do eu.
A epistemologia do eu resulta do legado de Rousseau que assenta no espírito de rebeldia de um eu interior que vive em permanente confronto com a sociedade exterior. Para o genebrino, o estado de absoluta liberdade e igualdade do ser humano – em linguagem contratualista, o estado de natureza – é o estado em que, vivendo sozinhos, somos autores das próprias leis e não dependemos dos outros. É quando passamos a viver em sociedade que perdemos, progressivamente, liberdade e igualdade naturais: não só deixamos de determinar as regras, como a vivência com o outro nos corrompe, destruindo a natureza do bom selvagem.
Há, nesse sentido, em Rousseau uma luta constante com a sociedade e com os outros – e a sua biografia pessoal, retratada nas deliciosas Confissões, revela precisamente esta luta, num confronto permanente com a sociedade que o rodeia, com amigos de sempre que deixam de o ser, com um mundo que conspira constantemente contra ele. Mas o sentimento de atracção que a sua leitura provoca é proporcional à sensação de desconforto que resulta do facto de Rousseau parecer um eterno adolescente, procurando a sua identidade na oposição constante aos outros. Permanecendo neste estado, nunca cresce, nunca amadurece, nunca aprende a viver num mundo que o antecede e que permanecerá após a sua morte.
É por esta razão que Rousseau é tão sedutor para aqueles que sentem desconforto com o mundo que os rodeia. E é este espírito rousseauniano que marca muito da política atual: a vontade de mudar o mundo de acordo com desejos pessoais, recuperando uma liberdade inicial à custa de impor aos outros uma vontade individual. A legitimidade dessa imposição residiria na experiência pessoal e individual que é superior à experiência colectiva – a epistemologia do eu prevaleceria sobre a epistemologia do nós.
Este modo de ver o mundo e a política apresenta, contudo, um sério problema: é que, ao centrar-se na ideia de que existe um eu interior que é puro e que se opõe a uma sociedade que deve ser alterada para servir as necessidades desse eu, leva-nos a desvalorizar as instituições, as regras, os consensos que nos antecedem. Se o mundo não respeita os nossos desejos interiores, então pior para o mundo, que se crie um mundo novo. Mas há algo de profundamente perverso na ideia de que as nossas vontades são moralmente superiores ou politicamente mais válidas do que instituições que sobreviveram durante séculos e que cumpriram, em sentido burkiano, a sua função. Há algo de perverso e infantil – mas também perigoso, porque nos impede de dar um sentido coletivo às decisões políticas, curiosamente em contradição com as próprias ideias de Rousseau. A vertigem do eu impede a prossecução de consensos em torno do nós.
Talvez faça sentido, por essa razão, recordar uma antiga lição: amadurecer significa encontrar um equilíbrio entre os nossos desejos pessoais (que marcam a condição de infância, em que queremos tudo e já) e as regras sociais. Mas hoje parecemos condenados a uma sociedade de eterna adolescência, centrada em dinâmicas de vitimização que procuram mudar o mundo e as suas regras para que se adaptem ao eu de cada um. Mas lembremo-nos de que Rousseau morreu sozinho, revoltado com o mundo e enlouquecido pela ideia de que todos lhe queriam mal – uma experiência que, pessoal e coletivamente, talvez não queiramos repetir.
Professora da Universidade da Beira Interior
COMENTÁRIOS
Pedro Ferreira: Excelente reflexão, Dra Patrícia. Precisamos de doutrina como este pequeno excerto, e faltou referir que a teoria de Rousseau inspirou o Marx e as bases do comunismo. Não sei se foi por acaso, mas as biografias de Marx e Rousseau têm um ponto em comum, um total desprezo pela família, os filhso de Rousseau foram todos para a roda e os de Marx passavam muita fome, além de ser um bêbado.
David Inácio: Excelente reflexão, gostei muito de a ler.
Jay Pi: Meter os filhos num orfanato e para sempre anulá-los da sua vida para poder andar nos salões da alta roda da sociedade, entre festas, banquetes e concertos, para ter animadas conversas sobre filosofia e política, diz muito do carácter delirante e incoerente de Rousseau. Mais umas décadas e teríamos o menino Marx na mesma linha abjecta de vida pessoal absurda e imoral a pregar contra as modas. 
Lourenço Marques > Jay Pi: : J.J. Rousseau era paranóico e mitómano, além de ser um imoralista convicto. Sabia-se que era maluco e indigno de confiança, mas como os seus livros faziam um sucesso de escândalo e provocavam a ira das autoridades, a sociedade elegante gostava de o convidar para o exibir nos seus salons como um bicho raro ou uma curiosidade exótica. Provou-se que a maior parte das suas Confissões são uma invenção pura e simples. Huizinga chamou-lhe "psicopata de génio".
Jay Pi: Relativamente a Rousseau, basta ter em conta como tratou os próprios filhos para ter a noção de como era um biltre e um poço de incoerência, frieza, egoísmo, maldade e imoralidade. 
Maria Mateus: Concordo. O “eu” puro (julga o dito “eu”) é que sabe e por isso a sociedade tem que se conformar a mim e às minhas convicções. Exemplo? A Gretinha que nada sabe mas está convencida de que só ela é que sabe. Loucos são os adultos que lhe dão ouvidos.
Miguel Cabral: Interessante, mas também não concordo. Há ideias consideradas aqui como opostas e contraditorias que podem viver juntas ou em sequência. 
Pérolas a porcos: Estás enganada, querida. Amadurecer não é "encontrar um equilíbrio entre os desejos pessoais (a condição de infância, em que queremos tudo e já) e as regras sociais". É já não querer tudo, nem já, nem mesmo as regras sociais. É perceber que os limites existem porque são necessários, e termos nós mesmos cosnciência disso, sem necessidade de seguir as "regras sociais" para saber onde eles estão (os limites). Essas regras existem para os jovens e para os idiotas que ainda não compreenderam que a única regra é saber onde estão, precisamente, os limites...
José Esteves-Pereira > Pérolas a porcos: Não percebo. Você afirma que amadurecer será "(...) perceber que os limites existem porque são necessários, e termos nós mesmos cosnciência disso, sem necessidade de seguir as "regras sociais" para saber onde eles estão (os limites).". De onde provirão então esses tais limites? Não serão exactamente as "regras sociais", que os definem?
pepe o azeri > José Esteves-Pereira: Penso que a ideia do Pérolas a porcos é que constatação ou consciência desses limites deve vir da própria experiência pessoal e não de regras impostas. E convenhamos, é mais eficiente aquilo que aprendemos do que aquilo que nos é imposto. As regras sociais existem para nos proteger daqueles que não conseguem chegar lá pela própria experiência.
José Esteves-Pereira > pepe o azeri: A sua resposta levanta mais problemas que soluções.Primeiro, a "experiência pessoal" não vive num limbo a-social pois é de todo a modo fruto do que o indivíduo é em cada momento num contexto social. Ou seja, dificilmente se poderá distinguir o que, numa "experiência pessoal" há de radicalmente pessoal e o que há de socialmente sobredeterminado.Segundo, você parte do princípio de que as regras são "impostas" no sentido de "forçado"; ignora o que em sociologia se designa por socialização.Terceiro, como aprendemos? A não ser que vivamos sós numa "ilha deserta" estamos sempre mergulhados na sociedade, suas regas, etc. Então toda a aprendizagem é ela também socialmente sobredeterminada. O conceito de "imposição" implica uma situação de conflito declarado e assumido entre o que no indivíduo ele se apercebe ser "exterior" e aquilo que acredita ser "interior". Mas nem sempre existe tal conflito. Diria mesmo, só ramente tal conflito se verifica mesmo no indivíduo "que consegue chegar lá pela própria experiência". Quarto: uma posição arrogante. Explico: alguns individuos teriam a capacidade superior de não necessitarem de se submeter a regras sociais pois a sua experiência bastaria para descobrirem os limites aos quais se devem voluntariamente submeter e que sejam definidos por si (esta é a ideia básica de J.J. Rousseau).
Pérolas a porcos > pepe o azeri: É exactamente isso.