segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Não parece irónico


O comentário anónimo, apenso ao “toque madrugador” de Salles da Fonseca. Pelo contrário, parece discordar do “zelo” laborioso deste, tão matutino, exigindo, pelo contrário, uma concentração bajuladora sobre o PRR. Foi por isso que me dispus a consultar o Plano, exposto ao público, na Internet, e que transponho para aqui, para que o Dr. Salles se não limite aos chilreios dos passarinhos, como sugere o anónimo comentador, e se concentre no tal plano. Este parece, de facto, eficaz, o seu cumprimento exigindo os milhões da alavanca solidária com que nos embrutece a U E - e digo “embrutece” porque nos proporciona, além da inércia a que se refere S.F., os chilreios dos admiradores do tal “Homem” do enlevo partidário, quer seja o anónimo, quer o vibrantemente escancarado. Só que não esclarece sobre os efeitos na prática do tal PRR, e é sobre essa “prática” que Salles da Fonseca se debruça, de um povo também bastante dado ao chilreio, importando em excesso, e certamente que exportando com cada vez maior moderação, o que o não beneficiará para o ressarcimento de uma dívida de escândalo permanente, irremediável comprometedora do futuro nacional. Para além disso, a atribuição das quantias para os gastos, no PRR, parece pouco esclarecedora nas suas especificidades, dando azo a especulações perdulárias…

PELO TOQUE DA ALVORADA - 16

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 29.08.21

Hoje, a alvorada foi pelas 6,30 h, bem mais tarde do que a anterior. Não faltariam protestos nem talvez mesmo alguns «mimos» ao estilo da intifada se eu fizesse soar o clarim pelo que me deixei guiar pelo arrulho das rolas, as mais madrugadoras, logo seguido pelo chilrear da outra passarada. E assim foi que, entre arrulhos e chilreios, dei por mim a imaginar o modelo econométrico que nos poderia ajudar a medir a eficácia de uma política de substituição de importações capaz de transformar os nossos endémicos défices comerciais em superávites, mesmo que modestos. Tudo, claro está, no âmbito duma economia aberta como a nossa (para não lhe chamar desbragada) e de livre iniciativa. Então, «caí na real» quando me deparei com parâmetros dificilmente quantificáveis tais como a «mândria nacional», a elevada propensão para a «licenciatura em remanso de praia» e outros óbices de cariz estatístico de que os arrulhos e chilreios me distraíram. Concluo que o liberalismo em moda e em curso carece de uma mentalidade mais produtiva e muito menos esbanjadora. No meu modelo não entraram «casos de Polícia», que os há.

Agosto de 2o21

Henrique Salles da Fonseca

COMENTÁRIO:

Anónimo 29.08.2021: M/ Caro Dr. Salles da Fonseca, Está mais que provado que levantar com as galinhas faz mal, uma moléstia para a qual ainda não se descobriu vacina. Numa próxima recaída (ou deverei escrever "relevantada"), recomendo vivamente que medite nas inúmeras virtudes do PRR e no dilúvio de maravilhas que dele brotarão. Verá, então, que o chilrear dos passarinhos e o ar fresco da alvorada nunca poderão proporcionar-lhe igual felicidade. E sempre poderá elevar um pensamento de gratidão a quem nos governa com tamanha sageza. O homem merece.

DA INTERNET:

Plano de Recuperação e Resiliência

Na sequência dos graves impactos provocados pela pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2, o Conselho Europeu criou o Next Generation EU, um instrumento temporário de recuperação, a partir do qual se desenvolve o Mecanismo de Recuperação e Resiliência, onde se enquadra o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

O PRR português é um programa de aplicação nacional, com um período de execução até 2026, e vai implementar um conjunto de reformas e de investimentos que permitirá ao país retomar o crescimento económico sustentado. Será financiado por recursos totais de 16,6 mil M€, distribuídos por cerca de 14 mil M€ de subvenções e 2,7 mil M€ de empréstimos.

O Plano de Recuperação e Resiliência foi organizado em 20 Componentes que integram, por sua vez, um total de 37 Reformas e de 83 Investimentos. As vinte componentes e as respectivas reformas e investimentos estão agrupadas no PRR em torno de três dimensões estruturantes, a Resiliência, a Transição Climática e a Transição Digital:

COMPONENTES IAPMEI

Componentes com coordenação ou participação do IAPMEI (Tendo por base a informação que consta do PRR submetido à Comissão Europeia e sem prejuízo de outras intervenções que venham a ser definidas)
>> Componente 5 | Capitalização e Inovação Empresarial

Agendas/Alianças Mobilizadoras para a Inovação Empresarial

Agendas/Alianças Verdes para a Inovação Empresarial

Missão Interface - renovação da rede de suporte científico e tecnológico e orientação para tecido produtivo (186 M€)

>> Componente 11 | Descarbonização da Indústria (715 M€) >>Componente 12 | Bioeconomia sustentável (145 M€) >>Componente 16 |Empresas 4.0

Capacitação Digital das Empresas (100 M€)

Transição Digital das Empresas (450 M€)

Catalisação da Transição Digital das Empresas (100 M€)

AVISOS >> Consulte aqui o Convite à Manifestação de Interesse para Desenvolvimento de Projectos no âmbito das Agendas Mobilizadoras para a Inovação Empresarial.

 

 

domingo, 29 de agosto de 2021

E as extrapolações de Américo Silva

 

Mais um texto de Jaime Nogueira Pinto sobre a nossa História, belas páginas de que se podem tirar conclusões para comparação contraditória - entre o passado de coragem e sacrifício, embora de argúcia, também, e o presente de futilidade generalizada. Escolho o comentário de Américo Silva:

«Américo Silva: Saudações ao cronista. Podemos estabelecer um paralelismo entre o português de Aljubarrota e o homem branco europeu. Dum lado quatrocentos milhões, do outro mais de mil milhões. Nuno Álvares não queria castelhanos entre os portugueses, os europeus trazem árabes e africanos para a Europa. Nuno Álvares exigia disciplina, entre os europeus ninguém se entende, esquerda, direita, feminismo, marxismo, ecologia, direito, política, democracia, laicismo, multiculturalismo. Nuno Álvares proibia jogos de azar entre os seus, nós temos a bolsa, a exploração exacerbada através de alvarás, concessões, exclusividades, subsídios, vantagens de toda a ordem. Quem estudar a história em geral, não encontra desígnios morais, bons ou maus propósitos, o que sobressai entre os vencedores são as qualidades demonstradas e mantidas: humildade, resiliência, coragem, prudência, valentia, lealdade, esperança, solidariedade, exigência e outras.»

A batalha /premium

Lembrando Aljubarrota, lembremos também o que a falta de sensibilidade à História e à memória, a desatenção ao povo e a aceitação passiva da “legitimidade reinante” podem trazer.

JAIME NOGUEIRA PINTO, Colunista do Observador

OBSERVADOR,27 ago 2021

Toda a gente sabe que as identidades nacionais não são graníticas nem estão fechadas a interpretações e a reinterpretações; mas ninguém parece saber, ou querer saber, que o processo que está em curso não é a sua “reinterpretação”: é a sua estratégica desconstrução e diluição num tolerante todo transnacional, mediante o contrito cancelamento de um “passado de opressão e violência”. Ora, daqui, poderá vir tudo menos a anunciada “libertação do jugo das pertenças” e a insinuada paz na Terra entre “a população” de boa vontade.

Num tempo de leviandade e ignorância em que, em nome de grandes e fluidos princípios humanitários, se faz uma guerra silenciosa mas impiedosa à História e às identidades nacionais – um tempo particularmente permeável à ilusão de que as declarações universais das Nações Unidas ou o crescente rol de direitos da União Europeia são mais importantes para a defesa das liberdades e dos interesses dos cidadãos do que a independência das nações – a memória da História, da nossa História tornou-se num bem essencial.

Conhecer, reconhecer, recordar, os momentos de nascimento, de risco e de consolidação da nossa independência não será, por isso, um exercício fútil.

Para nós, Portugueses, Aljubarrota é um desses momentos fundacionais, um momento de risco e de consolidação do que somos, ou do que também somos e também nos determina. Ou do que não quisemos então ser.

Nos finais do século XIV, com a independência em risco depois da morte de D. Fernando, o momento era de crise.

Como quase todas as crises de poder medievais, a crise de 1383-1385 começava por ser uma crise de legitimidade e de sucessão dinástica. D. Fernando não tinha herdeiro varão, mas tinha, do seu casamento com Leonor Teles, uma filha, D. Beatriz, prometida ao rei de Castela, D. João I. O Tratado de Salvaterra de Magos, de 2 de Abril de 1383, ratificava a promessa e, numa série de cláusulas conformes com correcção político-jurídica do tempo, entregava Portugal a Castela.

E recomeçou a guerra entre Portugal e Castela, embora a guerra quase fosse o estado natural das coisas entre os Estados medievais e, dentro deles, entre feudos e clãs. A guerra que então começava era também um episódio da Guerra dos Cem Anos, entre franceses e ingleses, e nela também pesava a divisão da Igreja, com um Papa em Roma e outro em Avinhão.

No reinado de D. Fernando, as guerras com Castela tinham sido sucessivas e a terceira correra mal para Portugal; daí o Tratado de Salvaterra – uma tentativa de reequilíbrio, negociada na mó de baixo. D. Fernando morre em Outubro de 1383, pouco depois do Tratado, e Leonor Teles, a viúva, fica regente.

O Conde de Andeiro, principal conselheiro da Rainha-Regente e pró-castelhano, é então morto por D. João, Mestre de Aviz, e por outros patriotas. D. João de Castela volta a invadir Portugal em 1384 e Nun’Álvares derrota os castelhanos nos Atoleiros. E em 1385, nas segundas Cortes de Coimbra, João das Regras, depois de demonstrar a ilegitimidade de todos os pretendentes – D. João de Castela, os Infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Dona Inês de Castro, e D. João Mestre de Avis, filho natural de D. Pedro e de D. Teresa Lourenço –, persuade as Cortes a aclamar o Mestre, “de Pedro único herdeiro/ Ainda que bastardo, verdadeiro” (como depois dirá Camões). E fá-lo em nome de uma nova legitimidade identitária, numa decisão pioneira de reivindicação proto-nacional que se afasta do direito feudal, favorável ao Rei de Castela, e da legitimidade reinante, que levava a grande nobreza a apoiar Castela (aprendi com Martim de Albuquerque que em 1383-1385 a divisão das elites se dava entre os chefes das grandes casas e os bastardos e filhos segundos).

Em Coimbra – com o apoio político e jurídico de João das Regras – funcionou a dupla D. João Mestre de Avis/Nuno Álvares Pereira, dupla que vai ser decisiva para a vitória. De resto, Nun’Álvares terá também sido bastante persuasivo nas Cortes, apresentando-se em Coimbra com um séquito de homens armados, por via das dúvidas e dos duvidosos.

Quando o Rei de Castela vem reivindicar os seus direitos pela força, invadindo Portugal na Primavera de 1385, esta dupla já está consolidada. A avançada castelhana pela Beira Alta sofre a derrota de Trancoso, mas é em Aljubarrota que tudo se joga.

Da batalha, temos os relatos de dois cronistas da época – Froissart e Lopez de Ayala –, a Crónica do Condestabre e, algumas décadas depois, a de Fernão Lopes. Há também cartas de D. João de Castela a cidades de Espanha, a explicar a batalha e a derrota. Modernamente, sobretudo à volta das “covas do lobo” e das obras de defesa dos Portugueses, que teriam armadilhado a investida castelhana, há uma polémica – aberta por Afonso do Paço, com os contributos de Alcide de Oliveira, Gastão de Melo Matos, Salvador Arnault, Nuno Valdez dos Santos e outros – que, mais tarde, João Gouveia Monteiro veio esclarecer.

Mas o que mais aqui se destaca é a decisão de Nun’Álvares de dar batalha, e batalha decisiva, e de para isso fazer as preparações necessárias, que incluíam as tais disposições defensivas no terreno. Bem pelo contrário, e como conta Ayala, do lado castelhano dominou a arrogância, o menosprezo, ou mesmo o desprezo, pelos Portugueses, dos orgulhosos senhores castelhanos e dos muitos nobres portugueses passados para o lado castelhano.

E foi a batalha, com os resultados que se conhecem. Como em outras grandes batalhas antigas (Canas, por exemplo), a decisão foi rápida. Quebrada a linha da frente castelhana, começou a debandada e o massacre dos vencidos.

A estratégia seguida em Aljubarrota por Nun’Álvares não era original: tinha sido inaugurada por Eduardo III e pelos ingleses nas batalhas de Crécy e Poitiers na Guerra dos Cem Anos e era, fundamentalmente, uma adaptação inteligente e realista da táctica aos recursos humanos e materiais disponíveis. Os franceses eram mais numerosos e tinham uma cavalaria superior. Por isso, os ingleses escolheram uma batalha a pé, com os arqueiros a cobrir a infantaria, em posições vantajosas, e ganharam em Crécy, em 26 de Agosto de 1346. Dez anos depois, foi a vez do Príncipe Negro, filho de Eduardo III, vencer o rei de França, em Poitiers.

Nun’Álvares tinha, com certeza, conhecimento destes sucessos. Havia também uma colaboração próxima com os ingleses: as cidades marítimas de Lisboa e Porto eram ligadas comercialmente a Inglaterra e tinham tomado partido pelo Mestre. De Inglaterra tinham também vindo umas centenas de arqueiros, que alinharam em Aljubarrota e que foram decisivos.

Quando, ainda na instrução primária da “longa noite fascista”, estudei História de Portugal, os castelhanos eram 32 mil e os portugueses 7 mil. Depois li no Oliveira Martins que alguns desses castelhanos eram não-combatentes – parte do imenso trem logístico que seguia o exército e que, com a pilhagem, o abastecia –, o que baixava o número de inimigos no terreno para uns 20 mil, enquanto o dos portugueses subia ligeiramente para cerca dos 10 mil. Entretanto, João Gouveia Monteiro fez o estudo crítico da “Batalha Real” e a Fundação de Aljubarrota, instituída graças a um significativo legado de António Champalimaud, continua a estudar e a divulgar Aljubarrota às novas gerações.

Independentemente dos números e do ineditismo da estratégia, o mais importante, desde o início da crise, é a vontade de liberdade e de independência dos Portugueses (estimulada pelo tratamento que os castelhanos tinham dado ao povo nas invasões do reinado de D. Fernando); ou o facto de essa vontade colectiva de resistência ter sido bem interpretada, assumida, enquadrada e guiada por uma dupla de líderes – D. João, Mestre de Avis, e Nuno Álvares Pereira – com a assistência jurídica e institucional de João das Regras.

Aljubarrota foi o choque da determinação portuguesa com a ambição castelhana de unificar a Península. Ambição que, 200 anos depois, com Filipe II, triunfaria – mas que seria outra vez vencida em 1640 e nas campanhas da Guerra da Restauração. Até hoje.

E no entanto, há uns anos, em nome de considerações economicistas, cancelou-se o feriado que lembra esse 1º de Dezembro de 1640, o feriado em que se celebra ou devia celebrar a nossa secular vontade de independência. E não foi um governo de esquerda que o cancelou.

Lembrando hoje Aljubarrota, lembremos também que a falta de sensibilidade à memória e à História, a falta de coragem e de liderança e a aceitação passiva e acrítica da dependência, da “legitimidade reinante” e da “modernidade transnacional” costumam anteceder tudo o que é invasão, saque, ocupação, cancelamento.

A SEXTA COLUNA  CRÓNICA  OBSERVADOR  HISTÓRIA  CULTURA  ESTADO  POLÍTICA

COMENTÁRIOS:

José Luis Salema: Grande artigo mais uma vez! Um resumo formidável da nossa luta pela independência. No último parágrafo fica um aviso muito sério! Muito Obrigado Jaime Nogueira Pinto.            Meio Vazio: Creio que há uma pequena imprecisão no texto - comum, de resto, e talvez justificada por um favor histórico de cariz nacionalista: o tratado de Salvaterra só muito remotamente permitia que a coroa portuguesa viesse a pousar na cabeça de Juan de Castela; este não era herdeiro, ao contrário do que aconteceria em 1580 com Felipe. Juan de Castela defendia apenas a legitimidade de sua mulher (Beatriz) e de um eventual filho desta. Na verdade, só por má-fé se poderia sustentar (como o fez João das Regras) que com a morte de D Fernando o trono estava vago, podendo recorrer-se a aclamação: Beatriz não era bastarda, muito menos filha de mãe adúltera, e o seu casamento com um estrangeiro nunca beliscaria a legitimidade da sua coroação. Era só mulher (o que na época era pouco...). Foi de facto uma vitória portuguesa, mas os vencidos foram o direito e a tradição de fidelidade, estruturante na Idade Média.           João Alves > Meio Vazio: Embora fosse discutível que D Beatriz fosse filha ilegítima, João das Regras usou esse argumento por D. Leonor já ter sido casada. De resto, a sua estratégia jurídico-política nas Cortes de Coimbra foi demonstrar que todos os pretendentes ao trono português eram, falando bem e depressa, filhos da puta, e que cabia aos portugueses aclamar o filho da puta que mais lhes conviesse. Assim nasceu a dinastia de Aviz.             filipe mendes homem mendes: Crítica aos Socialistas entrevistados. De nada serve dizer que o passado, o Presente e o futuro são como Líderes do PS, capazes das mesmas coisas, e que sobre os quais nenhuma opção se consegue tomar, nenhuma escolha é passível de ser tomada. Nenhum Juízo prevalece por uma questão de Pluralidade que a delicadeza do presente cala, e que as múltiplas morais e éticas comportamentais perdem no Tempo qualquer sentido de serem julgadas a tempo...pela muita pluralidade de éticas que o Partido admite, pela Moral que no Passado, no presente e num futuro devir sempre servirão de argumento para desculpar alguma falta. Sempre haverá um Precedente que sirva de desculpa, espécie de estado De emergência que importa continuar, para que não se perca "a construção" da Obra socialista. Até que ponto, não havendo crispação entre grandes Grupos familiares/partidários, o Poder central não é colocado em Causa. O antigo Provedor da «Justiça era candidato a Grão Mestre da Maçonaria, mas o Grau de Provedor no Estado é diferente do grau que necessitaria para ser Grão Mestre de um Mundo diferente na sua concepção hierárquica. Só me faz lembrar o escritor Luís Sepúlveda que esteve gravemente infectado em Portugal durante uma semana, antes de ser declarado o 1ª caso oficial que nunca o elegeu para 1º ou 3º no Podium. Ora embora as Grandes Casas familiares estejam na génese dos Partidos, sempre o rei via a crispação entre elas uma forma de dividir para reinar, realidade que não ocorre quando o Rei admite que façam Geringonças capazes de alterar o modo como ele Rei é eleito, se directamente ou se por colégio dos 3 mais votados Candidatos a Presidente. Parece que o Rei ao admitir Geringonças admite que sobre a sua eleição se possa determinar por outra maioria de votos secundária...se tem apoio suficiente para presidir...já que nem todos votaram nele e havendo dois outros candidatos cujos votos excedam os votos das sua aparente vitória, seria legítimo à luz da representação com que os Presidentes devem representar a Maioria do Povo...haver um colégio que o elegesse como se elegem os Papas no Vaticano por colégio de inter-pares e não por eleição directa de gente muito crente que depois faz do eleito um Santinho e Santo Presidente, esquecendo que durante o antes eram claras as suas opções pela excelência de tipo espírito santo onde naquelas águas se movia antes de ser eleito o mais pobrezinho de todos, o primeiro a usar máscara e permitir Chamions league em pleno Agosto passado. Podem trazer 600 mortes estereis em dois meses, certamente. E basta lembrar o quanto uma pessoa de 70 anos que morre agora sobre a frieza dos números do Covid, poderia acrescentar escrevendo suas memórias, um Poema que a sua Vida fosse...para memória futura.          Liberal Assinante do Local: A única coisa com interesse hoje é a história do século XIV e da vitória de Aljubarrota. As significações actuais que Jaime Nogueira Pinto nelas encontra são ridículas, exceptuando no que respeita ao "querer" combater pela independência nacional. Se esta vier a estar em causa nos próximos tempos, receio bem que ninguém arrisque algo para a defender.        filipe mendes homem mendes > Liberal Assinante do Local: A única coisa com interesse hoje, somos nós mesmos, desde que o hoje nos interesse mais que o passado ou o futuro, ambos fantasias e vaidades de verdade sem consequência nos dias que correm perante os nossos olhos e mãos. De nada serve ao Poder que cada Media tem em mãos e no filtro que faz das inteligências que publicita...não usar esse poder para alterar o dia de amanhã, a cabeça com que amanhã mesmo qualquer um pode acordar pensando diferente porque leu algo num Media, que lhe tocou a maneira com que pensava o seu lugar no Mundo, naquele Tempo que sempre se dividiu em Passado, Presente e Futuro e onde todos devemos encontrar a coisa e vida comum num Presente que mais une que qualquer passado ou futuro que todos tenhamos. de nada serve dizer que o passado, o Presente e o futuro são como Líderes do PS capazes das mesmas coisas e sobre os quais nenhuma opção se consegue tomar, nenhuma escolha é passível de ser tomada. Nenhum Juízo prevalece.          José Luis Salema > Liberal Assinante do Local: Quanto ao ninguém estar disposto a lutar pela Pátria, o liberal fala por si. Faça o favor de não generalizar.          Francisco Tavares de Almeida: Mais um excelente e oportuno artigo. De facto a divisão das grande Casas foi assim. O chefe da então importante família de Vasconcellos, seguiu o direito de D. João de Castela e dois irmãos Vasconcellos comandaram em Aljubarrota a Ala dos Namorados. Na táctica da batalha, repetindo Crécy e Poitiers, aponto a falta (esquecimento?) de Azincourt, que precedeu a primeira de mais de 30 anos.               Ping PongYang > Francisco Tavares de Almeida: Pela qualidade de alguns comentários como o seu, fico quase tentado a subscrever o Obs só para poder ler este artigo.          Elvis WaynePing PongYang: Ah então o Pong admite de uma vez por todos que têm andado sempre a comentar artigos, como os do JNP, sem nunca ir além do título. Saúdo a sua franqueza.

Jaime Pinto > Francisco Tavares de Almeida: Azincourt foi depois em 1415         Francisco Tavares de Almeida > Jaime Pinto: Pois, errei um século. Partidas da memória que me inquietariam se a comparação com pessoas da minha idade não me tranquilizasse. Obrigado pela chamada de atenção e fico surpreendido que tenha tempo para ler a caixa de comentários e dar-se ao trabalho de corrigir um disparate. Bem haja.      Joaquim Almeida > Francisco Tavares de Almeida: 30 anos apenas

Ping PongYangElvis Wayne: Receio que seja um pouco mais complexo que isso: A partir do perfil do articulista, do título, da sinopse e dos comentários, faço o exercício mental de reconstrução do artigo. No fundo é como resolver um "puzzle" em que falta a maioria das peças: podem escapar alguns detalhes, mas o essencial está lá.          Jose Afonso: A batalha está perdida ,porque, simplesmente este povo estéril, nem sequer quer batalhar....já desistiu...apenas quer reforma e preguiça.          Francisco Garcia: Diga-se a verdade, a "assistência jurídica e institucional de João das Regras" .... não passava de uma grande aldrabice.             josé maria: Aqueles que aqui defendem um lusitanismo integralista são exactamente os mesmos que negam à Catalunha o direito à autodeterminação e à independência...        L. Perry: Se Portugal não tivesse recuperado a sua independência em 1640, hoje não se falaria português no Brasil e em Africa, e o Português não seria uma das 10 línguas mais faladas em todo o mundo, com 232 milhões de falantes. Outras línguas de países que foram incorporados em Espanha não tiveram tanta sorte: o Catalão tem 4 milhões de falantes, o Galego tem 2 milhões de falantes, o Basco 720.000, e o Aragonês 12.000. Portugal consegue ser um país grande quando se dá ao respeito. Se Portugal tivesse sido irreversivelmente assimilado em Espanha em 1580, hoje teríamos no máximo 5 milhões de falantes de Português em todo o mundo. A diferença entre 5 milhões e 232 milhões foi um dia, o 1° de Dezembro de 1640.         bento guerra: Talvez as novas portagens ecológicas em Espanha ,sejam o nosso garrote final e a tomada pelos espanhóis ,des ta"varanda sobre o Atlântico" que tanto desejam          klaus muller: Se pudéssemos escolher hoje, não sei se não preferiríamos bandearmo-nos para os lados de Castela.

Pelo menos seríamos melhor governados do que por este bando que nos controla. O único problema é que os espanhóis não deveriam aceitar semelhante tormento. Assim, como está, fica-lhes mais barato.          Maria Nunes > klaus muller: Se me permite, o governo de Sanchéz ainda é pior que o nosso.           Elvis Wayne > Maria Nunes: No meu modesto entender, tanto a raposa de Goa como o Sanches são muito ruins. Pena que esta infeliz Península se tenha tornado no último reduto da extrema-esquerda na Europa (não estão em mais nenhum governo a não ser aqui e em Espanha).              José Leandro: Prezado boa tarde. Alfarrabista militante fez-me chegar "Portugal os anos do fim". Dá imenso jeito para ajudar a compreender o presente. Obrigado. advoga diabo: "a falta de sensibilidade à História e à memória, a desatenção ao povo e a aceitação passiva da “legitimidade reinante” podem trazer." Para quê recuar até Aljubarrota, até pelo enorme distanciamento temporal que em muito prejudica o raciocínio, quando esta reflexão de JNP se adequa na perfeição ao efeito nefasto do Estado Novo?            Mario Silva > advoga diabo: Também se adequa na perfeição ao actual Estado, que a sustenta Simplesmente Maria: Às vezes, apesar das evidências, a história repete-se. Obrigada Hipo Tanso: É triste que os actuais autoproclamados detentores da verdade tenham enxovalhado o sentimento de patriotismo ao ponto de tornar perigosa a sua manifestação desassombrada. Não ficaria surpreendido se num futuro próximo o sentimento patriótico fosse incluído numa lista de "crimes de ódio" sujeitos a penalização legal.

Por todos os motivos e mais esse, o nosso obrigado, JNP!           bento guerra: A rapaziada de agora não vai além do último episódio. Não é que não tenham capacidade para conhecer mais do que os antigos, mas porque as prioridades são muitas e diversas. E depois, basta ir ao dr. Google              Carlos Quartel: A fugir um pouco para o patrioteiro, penso. O povo estava ausente, do que se tratava essencialmente, eram lutas pelo poder dos senhores da guerra, ao tempo designados reis. Ao povo competia ser arrebanhado, darem-lhe um chuço e mandarem-no para a batalha, com desprezo total pela sua segurança. Cada conde trazia as suas tropas e a noção de estado não existia. A lealdade era para o senhor feudal e a noção de pertença era bem mais de tribo local. Em 1640 quem queria a independência eram os nobres, afastados da corte e postos à margem. Ontem como hoje, a proximidade do poder é fundamental para as classes ociosas, que vivem de favores e de prebendas. As invasões francesas fizeram mais pela unidade nacional do que o episódios referidos. O ódio ao invasor juntou-nos      Nuno AS > Carlos Quartel: As invasões francesas "juntou-nos"? Sim, mas foi aos ingleses às ordens de quem andámos.             Carlos Quartel > Nuno AS: Já em Aljubarrota sem os arqueiros do Lencaster a coisa complicar-se-ia....         voando sobre um ninho de cucos > Carlos Quartel: Em termos de planeamento e execução a batalha de Aljubarrota é uma obra prima. Mas claro que tivemos também uma dose de sorte. Uma das estratégias fundamentais foram as tais covas dos lobos. A batalha de Aljubarrota foi extremamente rápida em termos medievais.          Ping PongYang > voando sobre um ninho de cucos: Hummmm... É uma pena a Dra.Voando ainda não ter conhecido um ilustre membro aqui desta nossa tertúlia chamado Dr. Cipião Numantino. Tenho quase a certeza que o grau de detalhe e erudição das análises históricas evidenciadas pelo caro Cipião, mereceriam o seu apreço.          voando sobre um ninho de cucosPing PongYang: Olá Ping Pong Eu chamo ao Cipião o cometa Haley: aparece só de vez em quando mas quando tal acontece o rasto é magnífico. Eu gosto imenso do Cipião. Só que ele aparece muito pouco. Se o Ping Pong conhecer o Cipião transmita-lhe a minha admiração e o gosto com que leio tudo aquilo que ele escreve.          Ping PongYang > voando sobre um ninho de cucos: Não tenho o prazer de conhecer pessoalmente Cipião, mas caso ele decida orbitar novamente estas paragens, fique a Sra certa que farei escrupulosamente o que me pede.          Dr. Feelgood > Ping PongYang: Apres......!! Vade de Retro, Mefistófeles ! Então andei eu anos e anos a fio desde o DN a mandá-lo pastar e agora vêm-me aqui os súbditos ajuramentados em odes e preces de retorno...!??! O tempora o mores ! O passado está nas prateleiras dos museus ou, em versão contemporânea, à distância dum click.! Clickem, pô ! E livrai-nos do mal, Insh Allah.          vitor gonçalves > Carlos Quartel: O Mestre era apoiado pelo Povo, nomeadamente pelo de Lisboa, segundo Fernão Lopes, estes queriam " alçá-lo como Rei"  e o Mestre " filhava-se a sorrir" .Penso que deveria existir algum apoio popular á figura do pretendente.          Ping PongYang > Dr. Feelgood: Não sei como ficaste com tal alergia ao Cipião: Não me digas que é por ele ser Lagarto... Até já me recomendou um livro sobre o Giraldo e tudo.          Maria Nunes: Ao ler esta crónica senti orgulho dos nossos antepassados e de ser portuguesa. Obrigada JNP, pois no presente só tenho vergonha de quem nos governa.          Jorge Carvalho: Mais uma lição sublime baseada em factos que nos inquietam neste triste e amargo presente. Estamos prontos!! Obrigado JNP

Américo Silva: Saudações ao cronista. Podemos estabelecer um paralelismo entre o português de Aljubarrota e o homem branco europeu. Dum lado quatrocentos milhões, do outro mais de mil milhões. Nuno Álvares não queria castelhanos entre os portugueses, os europeus trazem árabes e africanos para a Europa. Nuno Álvares exigia disciplina, entre os europeus ninguém se entende, esquerda, direita, feminismo, marxismo, ecologia, direito, política, democracia, laicismo, multiculturalismo. Nuno Álvares proibia jogos de azar entre os seus, nós temos a bolsa, a exploração exacerbada através de alvarás, concessões, exclusividades, subsídios, vantagens de toda a ordem. Quem estudar a história em geral, não encontra desígnios morais, bons ou maus propósitos, o que sobressai entre os vencedores são as qualidades demonstradas e mantidas: humildade, resiliência, coragem, prudência, valentia, lealdade, esperança, solidariedade, exigência e outras.

 Artur Dias: belíssimo artigo. Um verdadeiro prazer ler a nossa história. A única coisa que desejo é que as novas gerações tenham o mesmo sentido de identidade e orgulho que eu tenho. Honestamente, penso que sim. Pela Europa fora, sempre me disseram que se há povo orgulhoso da sua identidade, é o português.       Fernando Fernandes > Artur Dias: Infelizmente as nossas novas gerações de substituição nada terão a ver com a nossa identidade nem sequer quererão saber nada das nossas origens.           Maria Cordes > Artur Dias: Andava hoje pelos ares de Benfica, bem cosmopolitas, por acaso, mercado, feira, nacionalidades e etnias diferentes, e na pausa do café, longa e concentrada, li com imenso prazer o artigo de JNP, um abraço aconchegador de outras épocas. Quando retomei a caminhada, cruzei-me com gente variada, e interroguei-me, se alguém conheceria a batalha de Aljubarrota, para concluir da alta probabilidade de que ninguém soubesse. É nestas águas que assenta a vitória socialista. O Observador, há dias, censurou o meu comentário, sobre o ensino. Ficaram incomodados.

 

Persistência


Refiro-me à do Dr. Salles, que não desiste do seu papel de divulgador de tudo o que abone a favor da continuidade da língua portuguesa, mesmo em terras de estreiteza territorial, que foram inicialmente projecto ambicioso de descobrimento - do “caminho marítimo para a Índia” – ponto de partida para outras paragens, para “além da Taprobana” – além da costa africana, gradualmente abordada, antes dessa paragem ansiada - mas que teria o seu termo, nas contingências da História, e acima de tudo, pelo fraco peso dessa participação ao nível da economia, pese embora o relevo linguístico que parece estar a renascer um pouco, segundo o texto colocado por Henrique Salles da Fonseca, de Delfim Correia da Silva (prof.), Director do «Instituto Camões» em Goa - e bem o merece o pequeno povo português, que se fez escutar na imortalidade de uma curiosa epopeia a qual descreve essa chegada em estrofes de uma genialidade a merecer reconhecimento no mundo, e de que a Internet permite uma imediata transposição, para nossa gratidão:


LÍNGUA PORTUGUESA EM GOA

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 28.08.21

DELFIM CORREIA DA SILVA (PROF.), Director do «Instituto Camões» em Goa

Departamento de Estudos Portugueses - Universidade de Goa 16 August at 18:25 ·

Caros amigos, vem este meu texto a propósito da verdadeira "mise-en-scène" que constituiu a reportagem altamente difundida pela AFP e vertiginosamente transmitida, no último fim de semana, em várias línguas, através de diversos órgãos de comunicação social internacionais, sobre o rápido desaparecimento da herança lusófona em Goa e, muito em particular, a morte da língua portuguesa.

Dois factos curiosos a registar:

1-a matéria parece não ter sido muito valorizada pelos jornais locais.

2) a reportagem foi realizada em fevereiro/março de 2021, mas só agora divulgada.

A História é o que é. Não podemos reescrevê-la de acordo com aquilo que gostaríamos que tivesse sido. O copo para uns está meio cheio, e, para outros, meio vazio, ou até totalmente vazio! O que, relativamente à herança portuguesa em Goa, não é francamente o caso! Não vou discutir as razões sustentadas pelas aves necrófagas ou profetas da desgraça, nem tentar dourar a pílula, apenas apresentar neste meu espaço factos que contrariam essa narrativa e que tenho ouvido desde a minha chegada a Goa em 2008.

1-A herança cultural portuguesa não se reduz ao pastel de nata ou ao fado, a cujo ressurgimento tive o prazer de assistir, principalmente a partir de 2014, com a realização do concerto de Cuca Roseta na Kala Academy, o Concurso de Fado da Semana da Cultura Indo-Portuguesa, o projecto cultural “Fado de Goa” do Hotel Taj Vivanta, liderado por Ravi Nischal, ao qual Sónia Sirsat deu a melhor continuidade e mais recentemente a criação do CIPA onde os turistas afluem para sentir, a exemplo do icónico restaurante Alfama no Hotel Cidade de Goa, o ambiente de uma verdadeira casa de fado. Hoje em dia, começa a despontar um leque de entusiastas fadistas que seguem não só os passos da sua mentora e formadora, Sónia Sirsat, mas também da talentosa Nadia Rebelo. O fado é ainda objeto de estudo académico, pois integra desde o ano académico 2018-2019 o programa de uma disciplina curricular do B.A. em estudos portugueses, na Universidade de Goa.

Escusado será de referir a importância do rico património cultural de influência portuguesa existente em Goa, quer a nível da arquitectura, quer nas áreas da literatura, da música ou das artes em geral que atraem anualmente centenas de investigadores nacionais e estrangeiros, possivelmente tantos ou mais do que a Macau, território que serve muitas vezes para estabelecer uma errónea comparação com Goa, realidades muito distintas por razões que, por serem fastidiosas, me abstenho de desenvolver.

A peça jornalística, centrada na rápida perda da identidade cultural portuguesa, mereceu algum destaque no que diz respeito à língua, e o estado lastimoso em que se encontra neste território. E mais uma vez, não podemos tomar como referência o pujante crescimento verificado na China e em Macau, em particular, por se tratar de realidades muito diferentes.

Sei que este texto, poderá ser lido, na sua forma original, por pouco mais de 10,000 habitantes em Goa, número escasso se comparado com os potenciais leitores de há 60 anos. Mas ao contrário do apregoado declínio da língua portuguesa no território, nos programas escolares e académicos temos assistido a um lento, mas seguro progresso do português. Sim, é verdade, após 1961 a língua sobreviveu em ambiente familiar, em quase clandestinidade, a transmissão foi estabelecida dos pais para os filhos e mais tarde para os netos. Noutros casos, com a morte dos mais velhos, morreu também uma língua de herança.

O português, em contexto de ensino-aprendizagem, é uma língua estrangeira em Goa, a par do francês, havendo ainda a considerar alguns, poucos, aprendentes de alemão, italiano e espanhol.

A minha experiência em Goa, enquanto leitor do Camões na Universidade de Goa, responsável pelo Departamento de Português e Estudos Lusófonos de 2009 a 2018, coordenador da Cátedra Camões “Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara” e membro, até muito recentemente, do Board of Studies de Português permite-me assegurar que os estudos portugueses estão, contrariamente ao que pretendem fazer crer, de saúde, com resultados nunca antes alcançados.

O Departamento de Português esteve encerrado de 2001 a 2005. Até esse período, 39 alunos saíram formados com o M.A., registando-se apenas um doutorado, em 1995. Graças ao extraordinário trabalho do meu antecessor, foi possível reabrir o Departamento e reiniciar o programa de M.A. em 2006. Desde então, saíram da Universidade de Goa 95 mestres em Literatura e Cultura Portuguesas, muitos deles, hoje, docentes em universidades indianas, colégios e escolas secundárias. Hoje em dia, o Departamento de Português oferece um amplo programa de Estudos Portugueses. Para além do M.A. e do M.Phil, criado em 2014, os cursos de graduação contam também com os programas de B.A. Honors, inaugurado em 2019-2020, e do Doutoramento relançado em 2020-2021.

Se nos últimos dois anos, assistimos a uma redução no número de alunos inscritos nos cursos livres e opcionais, em grande parte devido à suspensão das aulas presenciais e dos cursos da Cátedra, consequência da pandemia, o número de inscritos nos cursos de graduação, afinal o que mais importa em termos académicos, aumentou substancialmente. E muito em breve, com o conhecimento exacto dos resultados das matrículas para o presente ano lectivo 2021-2022, haverá, estou certo, dados ainda mais animadores.

Há muito tempo que o Departamento de Português deixou de ser a “lanterna vermelha” na Universidade de Goa, considerando o número de alunos matriculados. O M.A. em português tem, desde 2006, funcionado ininterruptamente e nos programas até se verificou uma expansão.

Claro, o copo está apenas meio cheio! Falta desenvolver projectos academicamente mais ambiciosos. Estamos a dar, nesse sentido, alguns importantes passos. Para além da Cátedra Cunha Rivara que conta com conceituados investigadores e professores visitantes de prestigiadas universidades portuguesas, deu-se início no ano passado ao programa de Doutoramento em Português. Dos alunos formados com M.A. pelo Departamento após 2006, dois estão atualmente inscritos no PhD da Universidade de Goa, um inscrito no programa de PhD da Universidade de Delhi, dois encontram-se na fase da escrita da tese doutoral (um, pela Universidade Nova de Lisboa, e o outro, pela JNU/Universidade do Porto), e um outro, após ter concluído o M.A. em 2010, defendeu recentemente a sua tese de doutoramento na JNU.

Poderia, como bom indicador, mencionar ainda a procura que temos sentido no Centro de Língua Portuguesa do Camões em Pangim. Devido à pandemia encerramos os cursos presenciais em Março de 2019. Em Junho de 2019 reiniciamo-los na modalidade online com muito mais sucesso. Este ano já ultrapassámos a centena de inscritos. Em Janeiro de 2021 realizamos, a pedido da directora dos Arquivos e Arqueologia, um exame para a selecção de tradutores. Dos 20 candidatos, 19 foram aprovados com elevadas classificações. Estes são alguns dos factos, e poderia apresentar muitos mais, que, no mínimo, mostram que o rei não vai assim tão despido. Tirem as vossas conclusões!

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DA INTERNET: ESTROFES DO CANTO VII DE «OS LUSÍADAS»:

……………

14
Mas, entanto que cegos e sedentos
Andais de vosso sangue, ó gente insana,
Não faltarão Cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa Lusitana:
De África tem marítimos assentos;
É na Ásia mais que todas soberana;
Na quarta parte nova os campos ara;
E, se mais mundo houvera, lá chegara.

15
E vejamos, entanto, que acontece
Àqueles tão famosos navegantes,
Despois que a branda Vénus enfraquece
O furor vão dos ventos repugnantes;
Despois que a larga terra lhe aparece,
Fim de suas perfias tão constantes,
Onde vem samear de Cristo a lei
E dar novo costume e novo Rei.

16
Tanto que à nova terra se chegaram,
Leves embarcações de pescadores
Acharam, que o caminho lhe mostraram
De Calecu, onde eram moradores.
Pera lá logo as proas se inclinaram,
Porque esta era a cidade, das milhores
Do Malabar, milhor, onde vivia
O Rei que a terra toda possuía.

17
Além do Indo jaz e aquém do Gange
Um terreno mui grande e assaz famoso
Que pela parte Austral o mar abrange
E pera o Norte o Emódio cavernoso.
Jugo de Reis diversos o constrange
A várias leis: alguns o vicioso
Mahoma, alguns os Ídolos adoram,
Alguns os animais que entre eles moram.

18
Lá bem no grande monte que, cortando
Tão larga terra, toda Ásia discorre,
Que nomes tão diversos vai tomando
Segundo as regiões por onde corre,
As fontes saem donde vêm manando
Os rios cuja grão corrente morre
No mar Índico, e cercam todo o peso
Do terreno, fazendo-o quersoneso.

19
Entre um e o outro rio, em grande espaço
Sai da larga terra ũa longa ponta,
Quási piramidal, que, no regaço
Do mar, com Ceilão ínsula confronta;
E junto donde nasce o largo braço
Gangético, o rumor antigo conta
Que os vizinhos, da terra moradores,
Do cheiro se mantêm das finas flores.

20
Mas agora, de nomes e de usança
Novos e vários são os habitantes:
Os Deliis, os Patanes, que em possança
De terra e gente, são mais abundantes;
Decanis, Oriás, que a esperança
Têm de sua salvação nas ressonantes
Águas do Gange; e a terra de Bengala,
Fértil de sorte que outra não lhe iguala;

21
O Reino de Cambaia belicoso
(Dizem que foi de Poro, Rei potente);
O Reino de Narsinga, poderoso
Mais de ouro e pedras que de forte gente.
Aqui se enxerga, lá do mar undoso,
Um monte alto, que corre longamente,
Servindo ao Malabar de forte muro,
Com que do Canará vive seguro.

22
Da terra os naturais lhe chamam Gate,
Do pé do qual, pequena quantidade,
Se estende ũa fralda estreita, que combate
Do mar a natural ferocidade.
Aqui de outras cidades, sem debate,
Calecu tem a ilustre dignidade
De cabeça de Império, rica e bela;
Samorim se intitula o senhor dela.

23
Chegada a frota ao rico senhorio,
Um Português, mandado, logo parte
A fazer sabedor o Rei gentio
Da vinda sua a tão remota parte.
Entrando o mensageiro pelo rio
Que ali nas ondas entra, a não vista arte,
A cor, o gesto estranho, o trajo novo,
Fez concorrer a vê-lo todo o povo.

24
Entre a gente que a vê-lo concorria,
Se chega um Mahometa, que nascido
Fora na região da Berberia,
Lá onde fora Anteu obedecido.
(Ou, pela vezinhança, já teria
O Reino Lusitano conhecido,
Ou foi já assinalado de seu ferro;
Fortuna o trouxe a tão longo desterro).

25
Em vendo o mensageiro, com jocundo
Rosto, como quem sabe a língua Hispana,
Lhe disse: – «Quem te trouxe a estoutro mundo,
Tão longe da tua pátria Lusitana?»
– «Abrindo (lhe responde) o mar profundo
Por onde nunca veio gente humana;
Vimos buscar do Indo a grão corrente,
Por onde a Lei divina se acrecente.»

26
Espantado ficou da grão viagem
O Mouro, que Monçaide se chamava,
Ouvindo as opressões que na passagem
Do mar o Lusitano lhe contava.
Mas vendo, enfim, que a força da mensagem
Só pera o Rei da terra relevava,
Lhe diz que estava fora da cidade,
Mas de caminho pouca quantidade;

27
E que, entanto que a nova lhe chegasse
De sua estranha vinda, se queria,
Na sua pobre casa repousasse
E do manjar da terra comeria;
E despois que se um pouco recreasse,
Co ele pera a armada tornaria,
Que alegria não pode ser tamanha
Que achar gente vizinha em terra estranha.

28
O Português aceita de vontade
O que o ledo Monçaide lhe oferece;
Como se longa fora já a amizade,
Co ele come e bebe e lhe obedece.
Ambos se tornam logo da cidade
Pera a frota, que o Mouro bem conhece.
Sobem à capitaina, e toda a gente
Monçaide recebeu benignamente.

29
O Capitão o abraça, em cabo ledo,
Ouvindo clara a língua de Castela;
Junto de si o assenta e, pronto e quedo,
Pela terra pergunta e cousas dela.
Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,
Só por ouvir o amante da donzela
Eurídice, tocando a lira de ouro,
Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.

30
Ele começa: – «Ó gente, que a Natura
Vizinha fez de meu paterno ninho,
Que destino tão grande ou que ventura
Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
Não é sem causa, não, oculta e escura,
Vir do longinco Tejo e ignoto Minho,
Por mares nunca doutro lenho arados,
A Reinos tão remotos e apartados.

31
«Deus, por certo, vos traz, porque pretende
Algum serviço seu por vós obrado;
Por isso só vos guia e vos defende
Dos imigos, do mar, do vento irado.
Sabei que estais na Índia, onde se estende
Diverso povo, rico e prosperado
De ouro luzente e fina pedraria,
Cheiro suave, ardente especiaria.

32
«Esta província, cujo porto agora
Tomado tendes, Malabar se chama;
Do culto antigo os Ídolos adora,
Que cá por estas partes se derrama;

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