domingo, 29 de outubro de 2023

Um texto duro


Que trata de extremismos, que bem gostaríamos fossem transformados em actuações feitas dos velhos conceitos de responsabilidade e respeito – próprio e alheio. Mas vamos virando num sentido de brutal discórdia… quer pela troça quer pela indiferença insensatas pelos velhos valores - em poluição dos tempos e dos espaços – físicos e morais. É o que dá a entender esta análise do Dr. Salles da Fonseca, centrada em conceitos, e em actuações extremistas, nestes nossos tempos de poder e engenho tecnológico, facilitadores dos desvios.

RADICAIS E PERMISSIVOS

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 27.10.23

 Ou

DA MILITÂNCIA E DA MÂNDRIA

 Do dicionário, extrai-se que radical tem o significado geral de «drástico» e que em política significa «aquele que quer reformas/alterações/mudanças completas» e que permissivo significa «indulgente» e/ou «ética e moralmente relaxado».

* * *

No Estado liberal, ocidental, a liberdade é conceito unicitário e integra facetas essenciais como sejam a liberdade de opinião e a liberdade e de iniciativa. Tudo condicionado pelo princípio de que a liberdade de cada um cessa onde começa a liberdade do próximo, a começar pelo valor supremo que é a vida. As condicionantes à liberdade têm a ver com o respeito pela propriedade, pelo ambiente e pela fiscalidade. Foi a partir deste conjunto de ideias maiores que nasceram diversos ideais de bem-comum, aqueles a que actualmente chamamos de Socialismo Democrático, Social Democracia, Democracia Cristã (não confessional) e Liberalismo (propriamente dito). Desta macroestrutura excluo os movimentos políticos de base étnico-regionais pois que podem assumir qualquer tipo de projecto acima referido e excluo o Conservadorismo britânico (misto de Democracia Cristã e de Liberalismo)

E o Trabalhismo britânico (misto de Socialismo Democrático e de Social Democracia).  Europa que é o berço das políticas de essência democrática.

Contudo, a prática inquestionável da liberdade permite a instalação de forças que, utilizando a liberdade instituída, preconizam modelos sociais em que essa mesma liberdade não existe. São modelos de génese autocrática que não permitem a liberdade de opinião nem a propriedade e não provaram até hoje qualquer respeito pelo ambiente.  À radical militância totalitária, a democracia liberal responde com permissividade na esperança de que, nas urnas, as propostas democraticamente absurdas chumbem rotundamente. O pior é se não o são rotundamente… Mas a luta é cansativa e os instalados no conforto do bem-estar padecem da mândria.

Confortavelmente instalada no progresso material que a democracia lhe tem proporcionado desde o final da II Guerra Mundial, a burguesia ocidental não tem encontrado tempo para ver o que se passa à sua volta. E o que é?

- Um paternalista Estado social super protector que desincentiva o desenrascanço dos menos habilitados que assim se entregam ao ócio;

- Um «neo-ocidentalismo» em que preponderam os direitos e escasseiam os deveres cívicos à mistura com uma tendência amoral do pós-modernismo, uma inequívoca afirmação hedonista e a ambição imediatista do «tudo JÁ!»,…

… fazem do moderno europeu (sobretudo) um ser a quem tudo é devido. Daqui à mândria dista um infinitésimo. Tudo agravado quando esse ocidental o é ao abrigo do Direito positivo, mas que, no plano cultural, se encontra vinculado a padrões forjados alhures. Intimamente desenraizados, entregam-se à reivindicação pela reivindicação, fazem das «poubelles flammantes» uma barricada e esperam que os tradicionalistas os temam e se agachem.   E estes, permissivos, esperam pela ronda eleitoral seguinte para dizerem que o caminho chegou ao fim.

Que caminho?

O da mândria, dos compadrios na gestão da «coisa» geral, da «liberté à outrance». E então, teremos que ser nós, novamente, a desentupir esgotos, a semear batatas, a deitarmo-nos cedo e a levantarmo-nos antes do Sol deixando as pranchas de surf arrumadas até ao fim de semana seguinte.

… era tão bom viver «à pala» do subsídio…

Outubro de 2023

Henrique Salles da Fonseca

 

Um cheiro de Eça

 A propósito da Turquia, e da sua história, com a qual temos dignas afinidades, segundo OS MAIAS:

«Cohen interveio, declarou que o soldado português era valente, à maneira dos turcos - sem disciplina, mas teso. O próprio Carlos disse, muito sério:

- Não senhor... Ninguém há de fugir, e há de se morrer bem.

Ega rugiu. Para quem estavam eles fazendo essa pose heróica? Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarías, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o musculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais covarde raça da Europa?...

- Isso são os lisboetas, disse Craft.

- Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...» (Cap. XVI)

 E a HISTÓRIA DA TURQUIA, com um Erdogan em plena volúpia de comando nesta actualidade que Jaime Nogueira Pinto tão expressivamente analisa – sem riso:

Os 100 anos da Turquia

Nos cem anos da República turca, Erdogan, que apostou na conciliação entre a religião e o nacionalismo dos Jovens Turcos e de Ataturk, enfrenta os efeitos da crise israelo-árabe. Logrará resistir-lhe?

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 out. 2023, 00:1919

Amanhã, dia 29 de Outubro, a Turquia faz cem anos como República independente. Habituados à etologia político-estatal da Europa do Ocidente, vemos a História sempre protagonizada por Estados nacionais, como se eles fossem a única forma de Estado soberano, ou o único actor na História.

A Turquia, ou melhor, os turcos otomanos, aparecem-nos de chofre, vitoriosos, em 1453, sob o mando do jovem Maomé II, conquistando Constantinopla, derrubando as muralhas tidas por inexpugnáveis depois de um breve cerco, graças a uma gigantesca peça de artilharia cujo conceito e montagem fora obra de engenheiros cristãos traidores. Antes disso, os turcos eram os ghazi, os cavaleiros predadores do Islão, que continuamente atacavam os bizantinos na Anatólia.

Grandeza e decadência

Foram também nossos arqui-inimigos no Índico, no Oriente. Afonso de Albuquerque gizou grandes planos contra eles e combateu-os encarniçadamente. Depois, pairaram continuadamente como ameaça à Europa, e só foram parados em Lepanto, em 1571, graças a D. João da Áustria, o filho bastardo de Carlos V, meio-irmão de Filipe II, e em 1683, em Viena, por obra do polaco João de Sobieski III, rei da Polónia e Grão-Duque da Lituânia. Venezianos, austríacos, russos, foram-nos combatendo, em nome da Cristandade. Os nossos cronistas e Camões, o nosso Poeta maior, reforçaram o seu carácter singular chamando-lhes só “o Turco”.

Porém, o império otomano entrou, como outros impérios, em decadência. Aparentemente, o gozo das conquistas, o luxo, a luxúria, a riqueza, trazem a decadência. Trouxeram-na a Roma e depois a outros impérios. O facto é que, chegados ao século XIX, temos a sensação de que os turcos estão em crise e decadência; e a História confirma-o. A Sublime Porta já não era tão sublime e havia províncias do império em revolta e agitação entre as minorias cristãs.

Perante a crise do Império Turco, os poderes europeus procuraram equilibrar-se e franceses e alemães vigiavam ingleses e russos. Para grande cólera de Dostoievski, na Guerra da Crimeia, os cristãos franceses e ingleses iriam aliar-se aos muçulmanos turcos contra os cristãos russos ortodoxos.

Os Jovens Turcos e o Kemalismo

A influência europeia, política e cultural, estava viva entre as elites militares revolucionárias turcas e os “Jovens turcos” iriam ser fortemente influenciados pela Europa no modus operandi e conspirandi. Tanto que, inspirados no radicalismo laico e republicano francês, escolheram para data fundacional do seu movimento o 14 de Julho de 1889, o primeiro centenário da tomada da Bastilha, e a iniciação dos Jovens seguia rituais de tipo maçónico.

A partir de 1908, o Império Otomano sofre várias derrotas e perde territórios para os austríacos, para os italianos, para os sérvios, para os gregos, para os búlgaros. Em 1913, aproveitando a circunstância e a crise, os Jovens Turcos do Comité da União e Progresso derrubam o governo do Sultão e tomam o poder sob um triunvirato – Enver Pasha, Talaat Pasha e Djemal Pasha.

A derrota de 1918, o Império partilhado pelos vencedores anglo-franceses, a guerra contra a Grécia ganha por Mustafa Kemal (1919-1922), que já se distinguira em Galipolli contra o corpo expedicionário australiano, são episódios que precedem e preparam a fundação oficial da República Turca em 1923 – há cem anos.

A partir daí, a Turquia tem a sua história na História; uma história que oscila a tradição islâmica e o laicismo kemalista, com lutas pelo poder, como as tentativas de Enver Pasha de derrubar Ataturk em 1921, e a procura de uma linha política realista, entre os conflitos europeus e mundiais.

Ataturk morre em 1938; sucede-lhe o seu amigo, camarada de armas e colaborador próximo, Mustafa Ismet Inönü, que prossegue o nacionalismo autoritário e laico kemalista até ao fim da guerra. O regime é de partido único e recusa envolver-se ao lado do Eixo. No pós-guerra, inicia uma liberalização e o Partido Republicano do Povo entrega o poder à oposição democrática em 1950, quando a oposição ganha as eleições.

O papel dos militares

Desde os tempos conspiratórios dos Jovens Turcos que os militares tiveram um papel importante de tutela do Estado e da segurança nacional contra “ameaças internas e externas”. Três das quatro constituições do país – a de 1924, a de 1961 e a de 1982 – cobriram juridicamente essa leitura e entendimento da defesa dos valores republicanos do Kemalismo, contra diversos e sucessivos inimigos – comunistas, separatistas curdos e reaccionários islâmicos.

Os golpes de Estado militares não foram muitos – o de 27 de Maio de 1960, o de 12 de Março de 1971, o de 12 de Setembro de 1980 e, mais tarde, a 28 de Fevereiro de 1997, o chamado “golpe militar pós-moderno”. Os inimigos foram-se sucedendo, mas entre o final dos anos 50 e o início dos anos 80 do século XX, os militares criaram uma certa autonomia em relação ao poder e às instituições político-partidárias civis.

Em 1960, o chefe do governo, Adnan Menderes, personificou uma deriva autoritária que se afastou dos princípios do laicismo kemalista, com uma maciça reabertura de mesquitas e uma política de “mão dura” em relação à oposição. Foram fechados jornais e restringidas liberdades públicas. O golpe de Maio de 60 levou ao poder o general Cemal Gursel, e Menderes foi preso, julgado, condenado à morte e enforcado em Setembro de 1961. Os militares ficaram no poder até 1965.

Em 1971, num quadro de violência social e confrontação entre forças opostas da esquerda e da direita, o chefe do Estado Maior, general Memduh Tağmaç, acusou o governo de Süleyman Demirel de mergulhar o país na anarquia. Demirel demitiu-se e os militares, embora não ocupando directamente o poder, impuseram uma série de governos, num tempo de grande instabilidade.

Em Setembro de 1980 veio um novo golpe, desta vez mais violento, com a proclamação da lei marcial e uma dura repressão, com milhares de prisões e algumas execuções. Os governos impostos pelos militares, como o de Turgut Ozal, levaram por diante uma campanha de privatizações e conseguiram controlar a inflação e restabelecer o emprego. Em 1982 foi redigida uma nova Constituição, aprovada por referendo.

Nestes anos, as intervenções militares e a influência das forças armadas no poder foram justificadas pela contenção da esquerda comunista e socialista. Mas nos anos 90, a prevenção voltou-se contra um novo inimigo interno: o Islão político-religioso, que ganhou as eleições em 1995 como Partido do Bem-Estar. Contra este novo inimigo deu-se o chamado “golpe pós-moderno” de 1997.

Erdogan e o AKP

Em 1994, nas eleições municipais, Recep Tayyip Erdogan é eleito presidente da Câmara de Istambul. Erdogan nasceu em 1954 e começou como militante do Partido do Bem-Estar, um partido religioso, defensor de uma moral tradicional, crítico dos costumes ocidentais e partidário do solidarismo social. Este partido e a sua agenda, considerados incompatíveis com o laicismo kemalista, levaram ao “Memorando militar de 28 de Fevereiro de 1997” e à abdicação do primeiro-ministro Necmettin Erbakan, líder do Partido.

O chamado “golpe pós-moderno” – o quarto movimento de intervenção militar – ­afastou Erbakan, um político religioso e conservador que pretendeu representar os sectores da sociedade que se consideravam vítimas do “secularismo republicano”. A linha político-religiosa de Erbakan aparecia, para muitos muçulmanos, como uma via moderna entre o shiismo iraniano e o wahhabismo saudita. Mas o poder militar, depois do golpe de 1997, orientou-se pelo “Plano de Acção Contra as Forças Reaccionárias”, reprimindo as manifestações externas de fé, como o uso de véus, e procedendo a purgas no serviço público e na magistratura. O Partido do Bem Estar foi proibido e outro partido religioso, o Partido da Virtude, foi também perseguido.

É neste contexto de ruptura entre o secularismo kemalista e os partidos religiosos que Erdogan vai inaugurar uma nova via política, procurando uma síntese entre os valores do Islão, profundamente enraizados no povo, e a cultura da modernidade. Para isso funda o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que vence as eleições de 2002 com grande maioria. Depois da interdição dos partidos religiosos do Bem-Estar e da Virtude, o AKP aparecia como um partido nacionalista, conservador, democrático e não confessional. A partir da maioria absoluta, em 2002, num Parlamento de 550 lugares, e entre vicissitudes várias, Erdogan domina a vida política turca: como primeiro-ministro, até 2013; e a partir de 2014, como Presidente da República, sendo que, em Abril de 2017, é aprovada por referendo uma nova Constituição de cariz presidencialista.

Em Julho de 2016, um golpe político-militar falhado acaba por contribuir para a popularidade e autoridade do Presidente. E neste ano de 2023, apesar das sequelas do grande terramoto de Fevereiro, Erdogan venceu outra vez as eleições presidenciais, sendo reeleito à segunda volta, em 28 de Maio.

A chave do sucesso de Erdogan está em fazer a ponte entre aquilo que, até ele, eram terrenos distintos e opostos da política turca. Citamos um seu discurso na campanha presidencial de 2014:

“Somos povo. […] Somos os herdeiros de Maomé, o Conquistador, e de Selim II. Somos aqueles que cultivam a memória de Mustafa Kemal, de Menderes, de Ozal, de Erbakan. Somos os fiéis de mártires que criaram uma lenda, sacrificando o seu sangue”.

Erdogan e o AKP apostaram na conciliação entre a religião popular das massas e o nacionalismo dos Jovens Turcos e de Ataturk, na evocação das glórias do Império Otomano e no enfoque popular e solidarista da Turquia moderna, não deixando de apelar à unidade nacional contra os inimigos externos e internos.

Erdogan representa como que uma terceira via no mundo islâmico entre as facções reaccionárias do shiismo iraniano e do sufismo saudita; uma síntese político-religiosa, conservadora e democrática, nacionalista e otomana, que, nos cem anos da República turca, enfrenta os efeitos colaterais da crise israelo-árabe. Será capaz de lhes resistir?

A SEXTA COLUNA    HISTÓRIA    CULTURA    TURQUIA    MÉDIO ORIENTE    MUNDO

COMENTÁRIOS (de 19)

João Floriano: Julgo perceber que Jaime Nogueira Pinto vê Erdogan como uma via aceitável para a Turquia. À semelhança do nosso amigo klaus também penso que Erdogan é muito melhor do que os ayatollas. A última vez que pus os pés em território turco foi em 2018, se não me engano e na república Turca de Chipre do Norte (1983). Não aparece referência na crónica de JNP mas a divisão de Chipre entre administração grega e turca é interessante. Os turcos ocuparam o norte da ilha sob pretexto de proteger os seus cidadãos da perseguição grega, embora muitos turcos tenham preferido passar para o lado grego. E por lá estão até ao dia (segundo se diz) que restituam a área ocupada em troca de algo do seu interesse. Nunca consigo imaginar a Turquia como membro da UE. Se as coisas já estão bem complicadas para Bruxelas, não imagino como ficariam com Ursula e amigos a darem ordens a Erdogan e este a mandá-los passear. De acordo com JNP, Erdogan vai-se equilibrando entre o tradicionalismo e o modernismo. Não é certamente uma personalidade simpática, sobretudo quando pensamos na questão curda. Mas compreende-se o equilibrista e como europeus é muito melhor ter na Turquia alguém como ele do que um governo de fanáticos e psicopatas teocratas como no Irão.                     Klaus muller: É claro que, entre o islamismo iraniano e o turco, qualquer pessoa de bom senso prefere o turco. Mas que ninguém tenha dúvidas de que também estes nos odeiam apenas porque somos "infiéis". Talvez haja uma elite que pensa como nós, ocidentais. Mas são uma minoria muito mínima. Donde, acho absurdo que sejam autorizados a entrar na UE.                    Francisco Almeida: Li há anos uma enorme biografia de Ataturk e confesso que fiquei a admirá-lo. Miltar prestigiado que se demite e forma um partido, não enveredando pelo golpe de Estado como seria expectável e, aparentemente mais fácil. Consegue afastar o poder religioso e finalmente depor o sultão. Trouxe em poucas dezenas de anos um país medieval para a modernidade, sendo para mim admirável como secularizou o ensino lutando contra as escolas islâmicas. Também admirável como resistiu à pressão soviética quer externa, quer interna. Tragicamente morreu novo e não teve tempo para consolidar a escolha europeia, que era claramente  a sua; e morreu quando a democracia era ainda muito imperfeita, mas acredito que era também o seu desígnio. Alemanha e França, portaram-se pessimamente com a Turquia, tergiversando, adiando e mentindo no processo de adesão à CEE, aparentemente com medo da imigração turca. Creio que foi esse o principal motivo da deriva da opinião pública turca de um pró-europeísmo incitado por Ataturk, para a actual situação em que é já quase negligenciável e a Turquia procura o seu novo rumo no Médio Oriente e no Cáucaso, sendo mais visíveis as intervenções na Líbia e no Nagorno-Karabakh. Não creio que, sem essa aversão franco-alemã, Erdogan alguma vez chegasse ao poder. Uma coisa é para mim clara. Erdogan não é um estadista. É um político de navegação à vista, negociando vantagens imediatas em todas as situações, seja no alargamento da NATO ou na crise dos refugiados.  E as recentes declarações de que o Hamas não é uma organização terrorista mas uma organização libertadora, significam sem sombra de dúvida que a opinião pública turca, está perdida para o Ocidente. Não vou desenvolver mais mas não são boas notícias.              José Ramos > Hás De Cá Vir: A "ganância do ocidente" - sempre o Ocidente, quando a Cultura Ocidental foi a que mais benefícios trouxe a toda a Humanidade! - não ficou nada a dever à ganância do Império Otomano, para não falar na mais extrema crueldade, no sadismo puro. Em contrapartida, a era pós-Império em golpes, contra-golpes e "revoluções" faz lembrar a I República em Portugal, embora mais estendida no tempo. Se "em Tunes há sempre um bei", porque não há-de haver sempre um sultão em Constantinopla?!...              Maria Melo: Muito obrigada por este artigo da História da Turquia! Seria bom que o ambiente na Turquia fosse mais coeso e pacífico e o Governo voltasse a ser laico. Religião e Política não se deveriam misturar.              Rui Lima: JMN faz uma descrição em poucas linhas  da história turca com qualidade e economia de tempo , não me lembro de ter lido que o poder actual é de seguidor  da  Irmandade Muçulmana  que é um facto  importante , fico na dúvida se foi esquecimento ou intencional . Relembra “cujo conceito e montagem fora obra de engenheiros cristãos traidores” nos nossos dias os  traidores não são engenheiros é malta de esquerda que odeia o Ocidente .

sábado, 28 de outubro de 2023

Mais uma vez


O inteligente humor de Alberto Gonçalves, que não se coíbe de corajosamente o expor, com os dados precisos da sua elasticidade de saber e de julgar, que nos fazem rir pela precisão condenatória destes tempos de cinismo e de laracha nos afectos.

Minúsculo glossário da guerra Israel-Hamas

Há quase vinte anos que Israel retirou de Gaza, mas Gaza permanece “ocupada”. E, pior, vítima de um bloqueio que limita o acesso a todos os bens essenciais excepto material para produzir “rockets”.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 out. 2023, 00:2111

“Anti-sionismo”. O sionismo moderno nasceu no século XIX e foi popularizado por Theodore Herzl. Este defendia a necessidade de os judeus da Diáspora regressarem ao lugar histórico de origem, de modo a escaparem de uma vez das crescentes, ou no mínimo, recorrentes perseguições de que eram alvo na Europa e não só. Literalmente, ser contra o sionismo é ser contra a existência de Israel, um obstáculo a que os judeus, esses marotos, se deixem caçar com a facilidade que vigorou durante milénios. E é uma confissão pouco subtil de ódio: os que proclamam “Eu não sou anti-semita: sou anti-sionista” são anti-semitas dissimulados. Mas dissimulam muito mal.

Antissemitismo. Está vivo e em determinados meios recomenda-se. Dizem que a moda é cíclica, e isso nota-se. A tendência da estação, fortíssima na Europa e na América, é reciclar o estilo ousado dos anos 1930, mediante a agressão a judeus e a destruição das propriedades de judeus. A vandalização de sinagogas é imprescindível. A título de acessórios, não podiam faltar as estrelas de David e os insultos pintados na entrada das casas.

“Apartheid”. Cerca de 21% da população israelita é árabe e tem cidadania plena. Cerca de 0% da população de Gaza é judia e, por definição, não tem grande coisa. Pergunta para queijinho, kosher ou halal: em qual dos territórios se pratica o apartheid?

“Causa palestiniana”. Costumo perguntar a quem calha qual é, afinal, a famosa “causa palestiniana”. Não costumo obter respostas, excepto a de que consiste na aniquilação de Israel.

“Genocídio”. É consabido que Israel pratica genocídio em Gaza. Os números não mentem. Em 1970, o território tinha 300 mil habitantes. Em 2000, um milhão e pouco. Hoje, dois milhões e tal. É um genocídio peculiar, mas um genocídio sem sombra de dúvida. O Hamas, o sr. Varoufakis e a rapaziada do Bloco não iam mentir.

Guterres. Ao que consta, o Homem do Pântano é um “humanista”. É capaz, é. Enquanto nosso primeiro-ministro, o seu “humanismo” deixou marcas profundas e um legado de cujas metástases ainda hoje beneficiamos. Enquanto secretário-geral da prestimosa ONU, mantém-se um portento de carácter: não há opressão de povos que escape à vigilância do engenheiro, tirando a cometida pela China. E pela Rússia. E pela Turquia. E pelo Irão. E pela Venezuela. E um longo etc. Pensando melhor, todas as opressões sanguinárias escapam à vigilância do engenheiro. Mas Israel não.

Homossexuais. Não é raro ver homossexuais berrarem “pela” Palestina, leia-se pelo direito a serem presos, torturados e executados. Também é possível que o exercício se deva à ignorância do que lhes sucederia em semelhante caldo, digamos, “cultural”. Em qualquer dos casos, a verdade é que a exibição pública de masoquismo terminal ou de boçalidade irrecuperável não faz maravilhas pela causa LGBTEtc.

“Inocentes”. Incontáveis pessoas, algumas de boa-fé, sentem-se na obrigação de repetir a cada dez minutos que o Hamas não representa os palestinianos. É uma meia-verdade e uma meia mentira. A julgar por sondagens, um terço, talvez metade dos moradores em Gaza e na Cisjordânia apoia o Hamas e os seus propósitos. E uma larga maioria apoia certamente os propósitos no que tocam à eliminação de Israel, sonho aliás partilhado por uma percentagem considerável dos árabes em geral – e, diga-se, pela totalidade dos “activistas” da esquerda ocidental. Uns e outros marcham assiduamente a favor da barbárie. Já os viram marchar contra?

Manifestações. Não é um exclusivo nacional, mas em Portugal o BE e o PCP já promoveram não sei quantas manifestações pela “paz” e pela “Palestina”. Em Lisboa, pelo menos, parecem acontecer dia sim, dia não. Embora eu não frequente essas pândegas, aposto que em nenhuma os esforços pacificadores vão ao ponto de condenar as chacinas cometidas pelo Hamas, exigir que o Hamas devolva os reféns, lamentar que o Hamas continue a bombardear ininterruptamente Israel ou sequer reparar nos mortos que os “rockets” transviados e os escudos humanos do Hamas causam na pobre “Palestina”.

“Ministério da Saúde de Gaza”. Não existe. É o Hamas, uma agremiação de selvagens que quando aparece na mesma frase que a palavra “saúde” não augura nada de bom. Isto, porém, não impede inúmeros “media” ocidentais de, por ecumenismo, tratarem as respectivas “informações” como fidedignas. Eu, se fosse a eles, duvidaria de quem confunde um parque de estacionamento com um hospital, uma dúzia de carros com 500 mortos e um foguete avariado com um míssil israelita. E que, sob os hospitais de facto, alberga centros operacionais de terroristas e armamento.

“Ocupação”. Há quase vinte anos que Israel retirou de Gaza, mas Gaza permanece “ocupada”. E, pior, vítima de um bloqueio que limita o acesso dos habitantes a todos os bens essenciais excepto material para produzir “rockets”. As mais de cem mil passagens anuais de pessoas, alimentos, combustível e produtos sortidos na fronteira de Erez, entre Gaza e Israel, não existem. A fronteira com o Egipto não existe. A realidade não existe.

Propaganda. Nos últimos dias, vi diversos vídeos chocantes sobre o drama que decorre em Gaza. Vi um homem a festejar o massacre de judeus. Vi um homem a chorar a casa que os israelitas arrasaram. Vi um homem a morrer numa cama de hospital. Vi um homem a passear entre os escombros. Vi um homem com o filho ferido nos braços. O curioso é que o homem era sempre o mesmo. Chama-se Saleh Aljafarawi e é apresentado como jornalista ou fotógrafo. Após pesquisa, apurei que é também o quinto classificado no “ranking” local de ping-pong (juro), além de cançonetista. Acima de tudo, Saleh é actor. À revelia da guerra, Gaza tornou-se a verdadeira Meca do cinema.

Qatar. Este rascunho de país, aliado dos EUA, acolhe com cortesia os líderes do Hamas. De castigo, o Ocidente, que não dorme quando os direitos humanos e a decência estão em risco, forçou o Qatar a acolher também o “Mundial” da bola. Foi há menos de um ano e, indignada, a “comunidade internacional” nem ligou os televisores.

ISRAEL    MÉDIO ORIENTE    MUNDO    HAMAS    CONFLITO ISRAELO-PALESTINIANO    ANTÓNIO GUTERRES    POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 19)

Pertinaz:Não podia estar mais de acordo com AG. A dualidade de critérios de uma esquerdalha moralmente superior é gritante. Aliás, tem sido essa lavagem cerebral aos incautos que nos levou ao ponto a que chegámos, também em Portugal.

José Paulo C Castro: Esqueceu "povo palestiniano". Um povo ancestral, feito de árabes iguais aos outros árabes dos países vizinhos, com raízes locais tão profundas como a sua língua milenar igual à dos das caravanas árabes do Sahara até Bagdad; com uma identidade tão própria e única que matam sunitas se forem xiitas e vice-versa; com um nome tão próprio que deriva de uma província definida e nomeada por uns colonizadores britânicos; com um tal amor ao seu território que o foram vendendo a judeus, pedaço a pedaço, antes de pensarem que estes iam fazer surgir Israel; com uma história tão antiga que nunca se tinha ouvido falar dele como povo distinto antes do século XX, apenas como habitantes daquele local, maioritariamente árabes. A ficção do "povo palestiniano" existe para nos fazer crer que aqueles árabes são dali e não apenas uma extensão dos árabes à volta dali. Para converter uma mera disputa territorial numa questão de genocídio, xenofobia e ocupação de uma nação. Para fazer equivaler a questão existencial de um povo (judeu) no seu território ancestral à de um outro "povo local" que também só poderia viver ali apesar de serem iguais aos habitantes de países à volta.