terça-feira, 29 de abril de 2025

Coisas do snooker

 

Um jogo /desporto que tanto aprecio e religiosamente vejo no meu canal televisivo 38, pois que o Ricardo logo me avisa, sobretudo quando está o Sullivan a jogar. Nunca pensei em manchá-lo com especulações mediáticas que trouxessem o tema da MULHER à baila, mas aqui deixo o testemunho, que prova que, pelo menos em termos do desporto, a Mulher assim nascida e a recriada pelo Homem, não são de facto do mesmo carisma – sexual ou genérico, por muito que se pretenda equipará-las.

E o Supremo Tribunal britânico criou a mulher…

Para jogar snooker, também eu fui forçado a aldrabar a minha identidade. Na adolescência, tive de falsificar o meu cartão de cidadão, porque o salão de jogos da Ericeira era para maiores de 16.

JOSÉ DIOGO QUINTELA Colunista do Observador

OBSERVADOR, 29 abr. 2025, 00:161

De vez em quando, a tendência portuguesa de auto-crítica exagerada, o godinhiano só neste país é que dizemos só nesse país, é confrontada com exemplos de bandalheira estrangeira que colocam em perspectiva a nossa própria incompetência. Aconteceu recentemente um desses episódios que ajudam a relativizar as nossas falhas, cotejando-as favoravelmente com defeitos de outros países: o Supremo Tribunal do Reino Unido pronunciou-se sobre a interpretação dos termos “mulher” e “sexo” no âmbito do Equality Act, a lei contra a discriminação. Segundo os juízes, os termos referem-se exclusivamente ao sexo biológico. Ou seja, se um espaço é considerado apenas para uso de mulheres (uma prisão, por exemplo), só mulheres é que o poderão usar. Homens que dizem que são mulheres são excluídos, mesmo que tenham um certificado que reconheça que são “homens que dizem que são mulheres” oficiais, mesmo que tenham sido submetidos a tratamentos que lhes conferem traços femininos, mesmo que esses tratamentos sejam tão perfeitos que os façam passar por mulheres. As intervenções hormonais ou cirúrgicas não transformam um homem numa mulher, da mesma maneira que acender a luz de presença no quarto do meu filho não afasta o papão. Alivia-lhe a angústia, é certo. O rapaz convence-se que está protegido. Mas não é a luz de presença que mantém o papão fora do quarto, é a realidade. É que o papão não existe.

O Supremo começou a apreciar este caso em Novembro do ano passado e chegou agora a uma decisão. E está aqui a razão para o nosso júbilo patriota. Nós, que nos envergonhamos do tempo absurdo que a nossa Justiça demora a actuar, temos de nos sentir orgulhosos face a isto. É verdade que os nossos tribunais são lentos e que, por exemplo, estamos há mais de dez anos para julgar José Sócrates, mas este caso no Reino Unido é muito mais escandaloso. Para decidir se Sócrates é ou não corrupto há que preciso ler dezenas de milhar de páginas, consultar centenas de caixotes cheios de documentos, ouvir semanas de escutas e interrogatórios. Para saber que quando uma lei refere “mulher” se está a referir a uma mulher, basta consultar um manual de biologia do 8º ano na parte em que se ensina que o sexo é binário, uma realidade definida pela função reprodutiva humana e pelos gâmetas produzidos: óvulos no caso das mulheres, espermatozoides no dos homens. Demorar 6 meses a chegar a esta conclusão que um estudante atinge no fim de uma aula de 50 minutos não abona muito a favor dos tribunais ingleses.

Um exemplo prático em que esta decisão do Supremo Tribunal poderá ser usada é o caso chocante de competições desportivas de snooker que mulheres trans disputam contra mulheres mesmo. Ainda tremo ao ler esta frase que acabei de redigir. “Competições desportivas de snooker”. É vergonhoso que, em 2025, haja quem considere que o snooker é um desporto. É um jogo, pá. Em princípio, se é uma actividade praticada numa cave cheia de fumo, num tapete com manchas de cerveja, não é desporto. Apesar disso, há uma parte de mim que compreende a situação destes praticantes homens que se dizem mulheres. Para jogar snooker, também eu fui forçado a aldrabar a minha identidade. Na adolescência, tive de falsificar o meu cartão de cidadão, porque o salão de jogos da Ericeira era para maiores de 16. (Lá está, outra prova de que o snooker não pode ser considerado um desporto: num desporto verdadeiro, os jovens mentem na data de nascimento para parecerem mais novos, não o contrário). Portanto, há uma parte de mim que está solidária com os marmanjos que insistem em jogar contra senhoras. Desejo-lhes boa sorte no embuste e espero que, se forem apanhados como eu fui, consigam escapar aos carolos do Sr. Manuel. Sacana do pequenote, tinhas os nós dos dedos mesmo rijos.

Os defensores da integração de homens que dizem que são mulheres no snooker feminino afirmam que, ao contrário de outras actividades, nesta não existe vantagem física masculina. O que só pode ser defendido por quem nunca teve de dar uma tacada equilibrado só num pé, completamente debruçado na borda da mesa. Se já é difícil para quem tem maior envergadura, imagine-se para quem tem braços e pernas mais curtos e ainda duas maminhas a atrapalhar.

Mas é verdade que não é obrigatório que um homem que diz que é mulher ganhe sempre as competições de snooker feminino em que participa. Ainda recentemente, Lucy Smith, um homem que diz que é mulher, foi derrotado na final de um torneio em Wigan. E não é por ter sido contra Harriet Haynes, outro homem que diz que é mulher, que deixa de ser um homem a não ganhar a competição feminina.

O curioso nestes casos é que os homens que dizem que são mulheres insistem em jogar snooker em competições femininas, mas se por acaso uma das adversárias enfiar a bola azul quando devia ter enfiado a verde e disser que isso é válido, que a azul afinal é verde, vão protestar e chamar-lhe batoteira.

IDENTIDADE DE GÉNERO      SOCIEDADE      DESPORTO

 

COMENTÁRIO:
Maria Paula Silva: Quando o menino tinha 16 anos ainda não havia C.C. :) era BI.

 

Ainda por cima

 

Sem telefone para comunicar, passei uma bela tarde ao sol, na varanda a reler a Agatha Christie dos meus disfarces de preocupação, pondo de parte outros livros da seriedade responsável e bem traduzida, como esse “O RISO DE DEUS” de Alçada Baptista, mas que a inquietação da falta de luz, provavelmente a prolongar-se, fez renegar, a favor do suspense criativo. Felizmente que o Artur veio esclarecer sobre o que se estava a passar, a pôr-nos em contacto com a “queda das estruturas” e a demora provável da recomposição da luz no nosso túnel nacional, que me fez lembrar da falta de pilhas cá por casa, pelo que fui, arrastadamente, comprá-las, e mais umas velas, ao chinês, que, mais uma vez, saía vencedor, na sua a casa cheia de previdentes, como eu, em busca de pilhas. Mas a luz retomou, pela noite, ao contrário do que se dizia, e retomo, com gosto, o computador eléctrico, luz do meu túnel.

Sem luz ao fundo do túnel

“Dizem que as catástrofes são frutos do acaso, e haverá quem diga que os passageiros do Cometa não eram culpados nem responsáveis pelo que aconteceu com eles” – Ayn Rand, em “A Revolta do Atlas”

RODRIGO ADÃO DA FONSECA Colunista

OBSERVAOR, 29 abr. 2025, 00:15

Na distópica narrativa de “A Revolta do Atlas” (“Atlas Shrugged”, no original) de Ayn Rand, uma sociedade imaginada desmorona-se lentamente sob o peso da mediocridade institucionalizada e do ressentimento contra a excelência individual. As infraestruturas vitais, outrora símbolos de progresso e estabilidade, caem gradualmente em decadência devido à negligência sistemática, corrupção burocrática e sabotagem ideológica. À medida que as luzes das cidades se apagam, as fábricas param, as redes de transportes colapsam e os hospitais ficam sem recursos essenciais: a sociedade entra numa espiral descendente, consumida pelo caos e dominada por notícias falsas, usadas como ferramenta para controlar a população, alimentando confusão e medo.

Portugal e Espanha vivenciaram um pouco da experiência distópica de Ayn Rand, inquietante nas suas semelhanças, ainda que – felizmente – não no seu apocalipse final. Durante horas, a Península Ibérica mergulhou numa inesperada escuridão, revelando dramaticamente a vulnerabilidade das nossas infraestruturas críticas. Durante horas, vivemos na incerteza das razões que determinaram a falha, mergulhados na vertigem das “fake news” (notícias falsas) nascidas da vertigem das redes sociais mas que a comunicação social convencional não resistiu a amplificar, mesmo sem confirmação – e, diga-se de passagem, plausibilidade: desde alegações de acidentes aéreos inexistentes, a fenómenos atmosféricos raros, tudo foi veiculado, incluindo afirmações da REN de que a reposição poderia durar uma semana. Uma das notícias mais grosseiramente falsas, mas que rapidamente “circulou” até se tornar viral, mencionava um alegado ataque cibernético coordenado, atribuído falsamente à Rússia, que teria afectado redes eléctricas, instituições financeiras e aeroportos em mais de 15 países europeus. A suposta “notícia”, amplificada por uma falsa citação atribuída à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, gerou pânico e alimentou teorias conspirativas, merecendo destaque em vários órgãos de comunicação social (os quais, por pudor, não vou aqui linkar).

Este episódio expôs, também, de forma contundente, uma realidade frequentemente desvalorizada por governos, empresas e cidadãos: a importância estratégica das infraestruturas críticas para a estabilidade económica e social. Redes eléctricas, telecomunicações, sistemas bancários, transportes e distribuição de água formam a espinha dorsal de sociedades modernas. Contudo, só parecem merecer a atenção necessária quando falham catastroficamente.

Por esta vez, a falha terá resultado de um problema operacional. Mas, e se a origem deste “blackout” tivesse sido um ataque cibernético sofisticado, um atentado terrorista ou mesmo uma sabotagem física deliberada protagonizada por agentes de um Estado beligerante? Estaríamos realmente preparados para enfrentar e responder eficazmente a um cenário com estas implicações? Não apenas militarmente, mas sobretudo enquanto sociedade civil, estaremos aptos para lidar com crises repentinas e manter a coesão e operacionalidade básicas?

Nos próximos dias, em tempo de eleições, não faltarão loas do poder político a si próprio, a elogiar a fantástica reacção e resposta à crise – algo que, nesta altura, não tenho condições para refutar ou avaliar. O que ontem vivemos exibiu, em qualquer caso, uma fragilidade objectiva das nossas infraestruturas físicas, na forma como foram pensadas, uma vulnerabilidade da nossa sociedade perante a desinformação em tempos de crise, e uma certa falta de resiliência latente da nossa sociedade civil, que a todos nos deve preocupar.

O apagão de hoje teve uma solução dolorosa, embora breve, mas não deve ser visto como um incidente passageiro. Que este episódio sirva de alerta e, ao contrário do desfecho de “A Revolta do Atlas”, não precisemos de um colapso total para finalmente reconhecermos o valor vital das nossas infraestruturas críticas e para reconstruirmos uma sociedade mais preparada, resiliente e esclarecida, capaz de valorizar os melhores, enfrentar com serenidade e reagir eficazmente às ameaças cada vez mais concretas que enfrentamos.

CATÁSTROFES      ACIDENTE      SOCIEDADE      ENERGIA      ECONOMIA

 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

A percepção humana aumenta

 

De acordo com o desenvolvimento cultural e tecnológico, este último, quantas vezes causa da irredutibilidade da mudança, embora se costume afirmar também que estamos cada vez mais na mesma, o que será positivo, pois o excesso mutacional poderia redundar em catástrofe – que também as há, as catástrofes, mas nunca, afinal, a título definitivo – esperemos. Haverá sempre um Noé a escapar, para o recomeço.

Mas, como também escreveu Miguel Torga, a dar-nos esperança na modéstia interventiva neste mundo, que se diz ser de Cristo:

"A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

 

De casas de moradia

Caiadas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

 

De poeira;

De sombra duma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma mãe que faz a trança à filha."

 

Percepções e ameaças

Se a maioria da população sentir que os recursos se tornam escassos e recear o futuro, com a certeza de que os seus descendentes vão ter vidas piores, torna-se menos capaz de superar a dimensão tribal

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 28 abr. 2025, 00:181

1A torre de Babel

Uma das mais fascinantes histórias do Livro do Génesis é aquela que descreve a origem da diversidade dos povos e das línguas. Quando, após o dilúvio, os homens se propuseram construir uma torre “cujo cimo atinja os céus” (Gn 11, 4), o Senhor desceu e confundiu “de tal modo a linguagem deles que não [conseguiam] compreender-se uns aos outros” (Gn 11, 7), levando a que a construção da cidade fosse suspensa.

São apontadas diferentes interpretações para estas linhas: teria sido um castigo pela tentativa de escapar a dilúvios futuros que o Senhor tinha prometido que não se repetiriam (Gn 9, 11)? Ou seria uma lição divina para que os homens aprendessem que há limites para os seus projectos (Gn 11, 6)? Ou será apenas uma narrativa etiológica para justificar a existência de diferentes povos e diferentes línguas?

A verdade é que Deus tinha dito a Noé e seus filhos: “sede fecundos e multiplicai-vos; espalhai-vos pela Terra e multiplicai-vos sobre ela” (Gn 9, 7) e isso não seria possível se se mantivessem reunidos na mesma cidade.

É a incompreensão que resulta das diferentes línguas que os faz abandonar a cidade de Babel e dispersar por toda a Terra. Pieter Brueghel, o Velho, A Torre de Babel (séc. XXI)

Com a dispersão multiplicam-se também as figuras divinas, até ao “nascimento” do monoteísmo bíblico, como o Pe. Francisco Martins descreve em A Bíblia tinha mesmo razão?. Mas esse povo escolhido que torna Yahvé o único Deus verdadeiro assenta numa identidade étnica e geográfica que só aos poucos se vai transformar:

“é no contacto com a cultura grega e, em larga medida, graças a um processo de sinergia cultural que a ideia de pertença ao povo de Israel, isto é, de ser “judeu”, vai superar o horizonte meramente geográfico ou genealógico.”

A universalidade da mensagem cristã, que na Nova Aliança “restabelece no Pentecostes a unidade de linguagem que se tinha desfeito com Babel” (At 2) e que São Paulo concretizou, acontece assim num contexto cultural e político muito distinto: após Alexandre e o domínio macedónio, no contexto de uma filosofia moral grega de cariz essencialmente universalista e em pleno império romano. Terá estado, nesse sentido, a fecundidade da mensagem cristã dependente do contexto de expansão cultural e Pax Romana?

2A hipótese contratualista

O argumento que Jonathan Haidt apresenta em A mente justa, e que visitamos aqui e aqui, pode ser lido em harmonia com os textos sagrados. A natureza humana predispõe-nos a uma vivência em grupo, pois só dessa forma podemos assegurar a sobrevivência e multiplicar-nos. Mas tal não significa que estamos condenados ao conflito – pelo contrário, se as circunstâncias forem favoráveis, podemos encontrar formas de reconhecer a nossa humanidade comum e estabelecer uma língua comum de cooperação.

O contexto assume, assim, uma relevância fundamental, que pode ser pensada a partir das teorias contratualistas de Thomas Hobbes e John Locke. De acordo com estas teorias, a legitimidade do estado deve ser entendida como um contrato estabelecido entre os membros da comunidade ou com o governo por forma a criar um estado civil capaz de superar os problemas do estado natural. Dessa forma, o contrato social diz-nos, acima de tudo, que o governo é necessário: considerando a natureza humana, é necessário algum tipo de autoridade para regular as relações entre os homens.

O tipo de poder político, estado civil ou governo que resulta desse contrato vai depender do modo como descrevemos o estado de natureza: Hobbes imagina homens sujeitos a paixões como o lucro e a glória e em permanente competição por recursos escassos (o filósofo viveu o conturbado período da guerra civil inglesa); já Locke imagina um mundo criado por Deus com recursos abundantes para todos (é o período de maior força da colonização britânica). As consequências são evidentes: o estado de natureza de Hobbes é um estado de permanente desconfiança e conflito (é o estado de guerra de todos contra todos) pelo que o Soberano terá de gozar de um poder absoluto sobre os seus súbditos; já o estado de Locke é tendencialmente pacífico, com os indivíduos a serem incentivados a trabalhar a terra disponível e a cooperar para enriquecer, pelo que bastará um governo limitado para manter a ordem e a segurança.

O que podemos retirar da hipótese contratualista destes dois autores? Embora não se debruce sobre a natureza humana como Hobbes faz no capítulo XIII de Leviatã, Locke não tem uma visão optimista quanto aos impulsos naturais do homem. Não é isso que diferencia os dois autores. O que os distingue é que eles contemplam o comportamento humano e a necessidade de governo em contextos distintos: quando percepcionamos o nosso contexto como de abundância de recursos, então há espaço para sociedades civis mais cooperantes e o poder político pode ser mais reduzido (Locke); mas se percepcionamos o contexto como de escassez, entramos em modo de competição e tornamo-nos mais desconfiados, pelo que é necessário um poder mais forte (Hobbes).

Nesse sentido, o triunfo das ideias liberais não teria resultado por serem mais racionais – triunfaram porque o contexto ocidental era de confiança no futuro e de promessa de prosperidade. A exploração de novos territórios e o desenvolvimento tecnológico prometido pelas revoluções científicas e industriais permitiram que a linguagem liberal de universalidade e globalização se pudesse afirmar. Mas basta que as circunstâncias se alterem para que o lobo hobbesiano espreite – como aconteceu, aliás, nos tempos recentes de pandemia.

3Percepções e crises

Como vimos, a obsessão com factos (mesmo que sob a forma de legos) não permite ganhar debates políticos. Os militantes dos factos até podem sentir-se moralmente melhores no final, mas revelam uma incompreensão profunda da natureza humana. Não evoluímos para nos tornarmos cientistas em busca da verdade – temos, antes, mentes morais, que respondem a percepções e narrativas. E somos particularmente sensíveis ao contexto.

Compreender os tempos políticos actuais e a mobilização das populações contra a imigração – apesar de todos os factos – exige que tenhamos em conta o contexto. Se as populações percepcionarem as suas circunstâncias como de prosperidade, crescimento económico e sucesso reprodutivo, tornam-se mais abertas à mensagem universalista – e a serem cooperantes até para com aqueles que estão fora do grupo. Foi o que aconteceu nos trinta anos gloriosos na Europa e durante décadas nos Estados Unidos. Mas se a maioria da população sentir que os recursos se tornam escassos e recear o futuro, com a certeza de que os seus descendentes vão ter vidas piores, torna-se menos capaz de superar a dimensão tribal.

Ora, o que tem vindo a acontecer na Europa é, precisamente, a afluência de quatro factores que concorrem de forma dramática para despertar o nosso lado mais hobbesiano.

Por um lado, as últimas décadas têm sido marcadas por um reduzido crescimento económico e uma expectativa desfavorável em relação ao futuro (como, aliás, o Relatório Draghi fez notar). Yascha Mounk e Ivan Krastev discutem a esse propósito sobre o suave declínio da Europa, sempre com a ameaça da China como pano de fundo.

De facto, a irrelevância da economia europeia e o marasmo dos líderes europeus geram um contexto de angústia generalizada que é difícil de ignorar e que é agravada pela ameaça militar russa que, real ou idealizada, continua presente no imaginário, sobretudo, do centro da Europa.

Em terceiro lugar, importa notar como as últimas décadas têm sido marcadas por um discurso público de catástrofe ambiental, centrado na ideia de que os recursos estão a acabar, de que o capitalismo não é a solução e de que temos de aprender a viver com menos. Este discurso, embora possa ser legítimo, activa inevitavelmente o mecanismo de protecção e sobrevivência – e, por isso, não deixa de ser espantoso que os amantes dos factos não percebam a contradição em dizer, simultaneamente, “não há planeta B” e “os imigrantes são necessários”. Se o fim está próximo, os despojos não serão partilhados com o outro grupo: não é essa a nossa natureza.

Por último, importa considerar o processo que conduziu as sociedades actuais a uma crise demográfica sem precedentes entre os indígenas europeus, que têm optado (por diversas razões) pela não reprodução. Mas se o nosso grupo se reproduz pouco, isso significa que os outros grupos (os que se reproduzem mais) passam a ser vistos como uma ameaça. Mais uma vez, o modo de sobrevivência é activado e dizer que a salvação está nos outros não resolve o problema – agrava-o.

O futuro da Europa depende, assim, de uma elite política mais sábia: mais capaz de compreender o contexto, mais interessada em conhecer a natureza humana e mais preocupada em resolver os problemas das populações do que em tentar criar um homem novo.

EUROPA      MUNDO      FUTURO      TECNOLOGIA

COMENTÁRIOS

Ludovicus: De facto T. Hobbes não podia ser optimista em relação à natureza humana depois de assistir à matança que ocorreu na 1ª metade do sec. XVII na Inglaterra. E, daí não acreditar ser possível conciliar a segurança com a liberdade. Já J. Locke atingiu a idade adulta com a paz de Westfália. Não viu horrores. Será que antes de optarmos por um voto num partido, tipo opção por clube de futebol, devíamos optar (ou não) pelo optimismo de J. Locke? Será que um dia teremos que optar entre liberdade ou segurança? Obrigado por me obrigar a "cavar fundo".