Sem telefone para comunicar, passei uma
bela tarde ao sol, na varanda a reler a Agatha Christie dos meus disfarces de
preocupação, pondo de parte outros livros da seriedade responsável e bem
traduzida, como esse “O RISO DE DEUS” de Alçada Baptista, mas que a inquietação
da falta de luz, provavelmente a prolongar-se, fez renegar, a favor do suspense
criativo. Felizmente que o Artur veio esclarecer sobre o que se estava a passar,
a pôr-nos em contacto com a “queda das estruturas” e a demora provável da
recomposição da luz no nosso túnel nacional, que me fez lembrar da falta de
pilhas cá por casa, pelo que fui, arrastadamente, comprá-las, e mais umas
velas, ao chinês, que, mais uma vez, saía vencedor, na sua a casa cheia de
previdentes, como eu, em busca de pilhas. Mas a luz retomou, pela noite, ao
contrário do que se dizia, e retomo, com gosto, o computador eléctrico, luz do
meu túnel.
Sem luz ao fundo do túnel
“Dizem que as catástrofes são frutos
do acaso, e haverá quem diga que os passageiros do Cometa não eram culpados nem
responsáveis pelo que aconteceu com eles” – Ayn Rand, em “A Revolta do Atlas”
RODRIGO ADÃO DA FONSECA Colunista
OBSERVAOR, 29 abr. 2025, 00:15
Na distópica narrativa de “A Revolta do Atlas” (“Atlas Shrugged”, no
original) de Ayn Rand, uma sociedade imaginada desmorona-se lentamente
sob o peso da mediocridade institucionalizada e do ressentimento contra a
excelência individual. As infraestruturas
vitais, outrora símbolos de progresso e estabilidade, caem gradualmente em
decadência devido à negligência sistemática, corrupção burocrática e sabotagem
ideológica. À medida que as
luzes das cidades se apagam, as fábricas param, as redes de transportes
colapsam e os hospitais ficam sem recursos essenciais: a sociedade entra numa
espiral descendente, consumida pelo caos e dominada por notícias falsas, usadas
como ferramenta para controlar a população, alimentando confusão e medo.
Portugal e Espanha vivenciaram um pouco da experiência
distópica de Ayn Rand, inquietante nas suas semelhanças, ainda que – felizmente
– não no seu apocalipse final. Durante horas, a Península
Ibérica mergulhou numa inesperada escuridão, revelando dramaticamente a vulnerabilidade
das nossas infraestruturas críticas. Durante horas, vivemos na incerteza das
razões que determinaram a falha, mergulhados
na vertigem das “fake news” (notícias falsas) nascidas da vertigem das redes
sociais mas que a comunicação social convencional não resistiu a amplificar,
mesmo sem confirmação – e, diga-se de passagem, plausibilidade: desde alegações de acidentes aéreos
inexistentes, a fenómenos atmosféricos raros, tudo foi veiculado, incluindo
afirmações da REN de que a reposição poderia durar uma semana. Uma das notícias mais grosseiramente
falsas, mas que rapidamente “circulou” até se tornar viral, mencionava um
alegado ataque cibernético coordenado, atribuído falsamente à Rússia, que teria
afectado redes eléctricas, instituições financeiras e aeroportos em mais de 15
países europeus. A suposta
“notícia”, amplificada por uma falsa citação atribuída à presidente da Comissão
Europeia, Ursula von der Leyen, gerou pânico e alimentou teorias conspirativas,
merecendo destaque em vários órgãos de comunicação social (os quais, por pudor,
não vou aqui linkar).
Este episódio expôs, também, de forma
contundente, uma realidade frequentemente desvalorizada por governos, empresas
e cidadãos: a importância estratégica das infraestruturas críticas
para a estabilidade económica e social. Redes
eléctricas, telecomunicações, sistemas bancários, transportes e distribuição de
água formam a espinha dorsal de sociedades modernas. Contudo, só parecem
merecer a atenção necessária quando falham catastroficamente.
Por esta vez, a falha terá resultado de um problema operacional. Mas, e
se a origem deste “blackout” tivesse sido um ataque cibernético
sofisticado, um atentado terrorista ou mesmo uma sabotagem física deliberada
protagonizada por agentes de um Estado beligerante? Estaríamos realmente
preparados para enfrentar e responder eficazmente a um cenário com estas
implicações? Não apenas militarmente, mas sobretudo enquanto sociedade civil,
estaremos aptos para lidar com crises repentinas e manter a coesão e operacionalidade
básicas?
Nos
próximos dias, em tempo de eleições, não faltarão loas do poder político a si
próprio, a elogiar a fantástica reacção e resposta à crise – algo que, nesta
altura, não tenho condições para refutar ou avaliar. O
que ontem vivemos exibiu, em qualquer caso, uma fragilidade objectiva das
nossas infraestruturas físicas, na forma como foram pensadas, uma
vulnerabilidade da nossa sociedade perante a desinformação em tempos de crise,
e uma certa falta de resiliência latente da nossa sociedade civil, que a todos
nos deve preocupar.
O apagão de hoje teve uma solução
dolorosa, embora breve, mas não deve ser visto como um incidente passageiro.
Que este episódio sirva de alerta e, ao contrário do desfecho de “A Revolta do
Atlas”, não precisemos de um colapso total para finalmente reconhecermos o
valor vital das nossas infraestruturas críticas e para reconstruirmos uma
sociedade mais preparada, resiliente e esclarecida, capaz de valorizar os
melhores, enfrentar com serenidade e reagir eficazmente às ameaças cada vez
mais concretas que enfrentamos.
CATÁSTROFES ACIDENTE
SOCIEDADE ENERGIA ECONOMIA
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