Demonstradora de desumanidade de um político prepotente, ou apenas testemunho
de um acto justiceiro de um político adequadamente cumpridor da lei? O certo é
que o documento em inglês transcrito por um comentador, comprova que o caso referido
a respeito do imigrante salvadorenho não isenta este de culpa,
desresponsabilizando, deste modo, Trump.
Até onde estamos dispostos a ir?
Parece ser cada vez mais claro que a
administração de Donald Trump se encaminha para um confronto directo com os
tribunais. Até onde pode ir o poder executivo? E quem o conseguirá restringir?
MAFALDA PRATAS Investigadora universitária. Doutorada em
Ciência Política pela Universidade de Harvard (EUA)
OBSERVADOR, 18 abr. 2025, 00:1915
Nos
últimos meses, tenho escrito aqui várias vezes sobre as tensões entre a
democracia e o Estado de direito que parecem estar a multiplicar-se no mundo de
hoje. O conflito está perigosamente aceso
nos Estados Unidos. Se na
frente internacional Trump tem ocupado a atenção do resto do mundo com a
incerteza de uma escalada suicida das taxas aduaneiras, na frente doméstica as
acções dos seus primeiros 100 dias não foram menos perturbadoras. Os seus
alvos particulares têm sido, de forma diferente e com atitudes diferentes, as
universidades e os tribunais. Mas, no essencial, o modus operandi é semelhante: desafiar as instituições
estabelecidas, extravasar os limites constitucionais e normais do seu poder
executivo, encaminhar a disputa para os tribunais e, no final, jogar com a
fraqueza fundamental dos tribunais face ao poder executivo.
Parece ser cada vez mais claro que a
administração de Donald Trump se encaminha para um confronto directo com os
tribunais. Até onde
pode ir o poder executivo? E quem o conseguirá restringir? Estas
são as duas perguntas fundamentais. A
estratégia de Trump é avançar até perceber os seus limites.
O conflito é mais difícil de resolver
do que possa parecer à primeira vista. Talvez se possa pensar que uma tensão
entre uns e outros é facílima e evidente de resolver, bastando recorrer à
famosa máxima a César o que é de César e
à justiça o que é da justiça. Se ambos têm poderes claramente definidos
e regras escritas a que têm de obedecer, qual
é exactamente a dificuldade? As dificuldades são várias. É
frequente que grupos políticos distintos e de lados opostos tenham
interpretações diferentes do significado da lei na sua aplicação a casos
concretos da sociedade. Na sua versão
mais nobre, essas interpretações distintas podem decorrer de princípios
filosóficos distintos. Os mais cínicos dirão que se utilizam argumentos
jurídicos e constitucionais diferentes em serviço dos objectivos políticos
momentâneos de cada grupo.
A
nomeação política dos juízes dos tribunais superiores não resolve e, aliás,
alimenta a existência de clivagens jurídicas que espelham clivagens políticas. Note-se
que, nos Estados Unidos, para além de um enorme contingente de juízes nomeados politicamente, ao nível federal e estadual, há ainda vários juízes (a nível estadual) eleitos
pelos cidadãos. Tentar retirar a política do ramo judicial é, por
isso, uma miragem.
Mas, mesmo quando não há interpretações
distintas da lei por parte de grupos políticos diferentes, o conflito entre o ramo judicial e ramo
executivo não está resolvido. Mesmo que os tribunais sejam unânimes na decisão, quem
garante que a decisão será acatada por todos os intervenientes, e, em
particular, pelo executivo em funções? Para além de manter a legitimidade geral dos cidadãos, o poder
judicial depende da legitimidade que o poder executivo lhe confere. O executivo tem, em
quase todos os Estados modernos, a faca e o queijo na mão: o poder
militar e policial, o poder administrativo e burocrático, sem o qual se torna impossível viver, e o imenso
poder económico do financiamento do Estado. Por outras palavras, os
tribunais precisam que o executivo queira cumpriras decisões dos tribunais,
numa espécie de auto-contenção. O
enforcement das decisões judiciais depende do executivo. O que
acontece quando o executivo decide que ninguém o pode conter?
É
precisamente esta a questão com que os americanos se deparam. Donald
Trump procura testar os limites constitucionais do seu poder e, em particular,
expandir o seu poder ao máximo e usurpar poder legítimo do Congresso e dos
Tribunais, os órgãos constitucionais que o podem limitar.
Esta semana o conflito escalou mais um
degrau com o caso de Abrego
Garcia, um imigrante ilegal proveniente de El Salvador, que foi deportado “por
engano” para uma prisão de segurança máxima para terroristas no país governado
por Bukele. Aos 16 anos,
Abrego Garcia imigrou ilegalmente para os EUA, em fuga de uma sociedade
dominada por gangs criminais, que, segundo a família, os estavam a extorquir e
ameaçar. Entretanto, nos EUA, tem emprego na indústria da construção, uma
mulher norte-americana e dois filhos também cidadãos. Ninguém nega que ele era
um imigrante ilegal. Também ninguém nega que Abrego Garcia não podia ser
deportado, por decisão dos próprios tribunais norte-americanos. Depois de
um processo legal em que teve de demonstrar que o risco para a sua vida estava
em causa se regressasse para El Salvador, um tribunal decidiu pela “withholding
of removal” – isto é, o próprio Estado norte-americano
não poderia deportar o indivíduo em causa para o país de origem, pois tal seria
demasiado perigoso. Garcia
recebeu ainda permissão para trabalhar no país. Todos os
anos, Garcia tinha de se apresentar ao ICE (Immigration and Customs Enforcement),
obrigação que cumpriu desde 2019.
No entanto, num processo muito
estranho, a administração actual diz que cometeu
um engano administrativo e deportou Abrego Garcia de volta para El Salvador,
precisamente o país para o qual não podia ser deportado por correr risco de
vida (o estatuto permitia deportação para um país terceiro, opção legal
curiosamente não seguida). Sem qualquer evidência ou procedimento legal, Garcia
foi não só deportado como colocado numa prisão de segurança máxima para
terroristas (sem nunca ter sequer ido a tribunal para tal ou ter registo
criminal nos EUA). A partir desse inferno, Garcia tenta agora sair, mas teve o
azar de ter sido escolhido como pretexto e demonstração do desejo de poder da
administração Trump.
Depois de ganhar o caso no
tribunal no Maryland, que decidiu que o executivo tinha obrigação de corrigir o
erro e trazê-lo de volta para solo americano até dia 7 Abril, Garcia ganhou
ainda um recurso no tribunal federal de recurso, decisão tomada por um painel
composto por mais três juízes. De emergência, o Supremo Tribunal decidiu
unanimemente que a deportação foi um engano e ilegal. Reafirmou ainda que o
tribunal de Maryland decidiu correctamente ao obrigar a administração a
facilitar a saída de Garcia da prisão em El Salvador, onde nunca deveria ter
entrado, e o retorno de Garcia ao país.
No entanto, perante os vários juízes
dos três tribunais em causa, a administração de Trump decidiu não fazer absolutamente
nada, desafiando claramente todo o ramo judicial e a lei. De acordo com Pam Bondi, a
procuradora-geral de Trump, a intenção é que Garcia nunca regresse ao país e,
de acordo com Stephen Miller, o conselheiro para a imigração de Trump, mesmo
que Garcia regresse será deportado novamente. Miller
afirmou ainda, em clara contradição com todos os tribunais, incluindo o Supremo
Tribunal, que a
deportação não foi um engano.
De forma ainda mais desafiadora e
preocupante, Donald Trump teve um encontro na Sala
Oval com Bukele, presidente de El Salvador. Trump
afirmou que nada podia fazer para trazer um indivíduo num país estrangeiro de
volta aos EUA. Note-se que o argumento da administração Trump também se
aplicaria a cidadãos e não se baseia na distinção entre cidadãos e
não-cidadãos: desde que o indivíduo seja removido do território nacional, mesmo
que ilegal ou erroneamente, o presidente passa a poder fazer o que quiser (visto que
é um assunto internacional) mas não pode proteger ninguém (visto que
não pode obrigar nenhum governo estrangeiro). Da sua parte, Bukele afirmou que não
devolveria “terroristas” aos EUA nem os retiraria da prisão (mais uma vez, note-se que Garcia não foi
nunca acusado de nenhum acto terrorista nem teve um processo judicial para
tal).
O caso em concreto tem, naturalmente,
muitos detalhes específicos a qualquer caso. Mas o modus operandi e a visão do poder
executivo repetem-se em várias das acções domésticas da Donald Trump. O encontro
de Trump e Bukele foi uma performance cujo objectivo era pôr à vista de todos
que Trump tem um poder político quase ilimitado se assim o desejar (primeiro no
que toca à imigração, mas decorre que noutros assuntos também) e se pode
sobrepor aos tribunais e outros órgãos constitucionais. Só cumprirá aquilo que
quiser e poucos são aqueles que o podem obrigar.
Como aqui escrevi
há dois meses, o Supremo
Tribunal está claramente numa posição delicada. Sendo
verdade que a maioria actual foi nomeada por presidentes republicanos, a
legitimidade, reputação e independência do tribunal exigem que os factos
jurídicos não sejam demasiado vergados. Mas
por cada decisão escrita que tomam e que não é acatada pelo poder executivo
fica a descoberto a sua própria fraqueza institucional. No final das
contas, a preservação do equilíbrio entre as instituições políticas e
os tribunais depende da contenção e autocontrolo dos próprios actores
políticos. Infelizmente para todos nós, eu não apostaria a
qualidade de um regime político na capacidade de Donald Trump para se conter
nem no seu comedimento e abnegação.
Resta saber até onde irá
Donald Trump e a sua administração. E até onde estão dispostos a ir os
restantes actores políticos, os juízes e os cidadãos.
PRESIDENTE
TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO
COMENTÁRIOS (de 15)
Tim do A: Nalguns casos até pode ter razão no que diz, mas a
tendência que se está a verificar no Ocidente (EUA e Europa - já aconteceu
também com Passos Coelho com prejuízo para o país e a democracia) é que os
tribunais estão a meter-se na política e a tentar governar contra o povo,
contra os eleitos, contra a democracia. Os tribunais não podem ser os actores
de uma nova ditadura. Futari
Gake: Até onde
estamos dispostos a ir, é muita gente. Refere-se a quem? Por mim preocupo-me com
a carga de impostos cá no sítio e a diferença de carga fiscal entre vários
países da UE em vários produtos importados da UE para Portugal, não sabendo
onde pára a harmonização fiscal entre membros da UE. O excesso de
regulamentação e as exigências dos burocratas da UE e da sua Comissão hoje são
uma ditadura fazendo do PE um órgão sem poder. José B
Dias: Abrego García
is on the Threat Screening Center’s Transnational Organized Crime Watchlist. The
Department of Justice (DOJ) released a gang field interview sheet Wednesday
that contained evidence that Abrego García is a member of MS-13. Two immigration
judges denied Abrego García bond during 2019 hearings, affirming the
government’s claim that he is MS-13 and citing him as a potential danger to the
community. Abrego García was given a withholding of removal by a separate
immigration judge, meaning he could not be deported to El Salvador due to concerns of persecution by Barrio 18, a rival gang to MS-13. . José
Paulo Castro: Assumindo que
é assunto seu, ou seja, se for cidadã americana (acho que é esse o pressuposto
do uso de 'estamos' no título, certo?), então eu acho que não deve ir a lado
nenhum e ficar dentro das fronteiras dos EUA. Trump disse claramente que não
tem poder sobre o que acontece a cidadãos fora dos EUA. Logo... é melhor não
estar disposta a ir muito longe a contar com 'direitos universais'. Albino
Mendes: Devemos governar
a Europa e preocuparmo-nos com os nossos líderes 😉
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