sexta-feira, 18 de abril de 2025

A faca e o queijo

 

São para as mãos de quem tem ambos. De facto, nem sempre coexistem, faca e queijo, há mulheres a quem falta o queijo, embora homens também. Mas estes não precisam da faca, para as suas demonstrações de força, fortes que são, e valentes, mesmo sem essa. Quanto à mulher, nunca falta a faca, para cortar a hortaliça da sua sopa para a família, ou para cortar na reputação de alguém que poderá ser mesmo um familiar. É certo que os homens já aprenderam a cozinhar e cozinham, usando a faca para a sua sopa, e tirando, nisso, o lugar às mulheres extraordinárias a quem falta o tempo para as sopas próprias.

Quanto a mim, acho que elas, as MULHERES, são todas extraordinárias, e só pelo facto de serem mães. Merecem esse seu Dia, 8 de Março que seja. Só por isso, mereciam ganhar tanto como os homens… mas lá se ia, a desigualdade requerida pelo domínio do fisicamente mais forte. Embora não mais valente, necessariamente.

Dia das Mulheres Extraordinárias

Em que mundo é que a dra. Alexandra Leitão é extraordinária? Ou a dra. Inês Pedrosa, autora dos livros e dos comentários mais deprimentes de Portugal? Ou @s sr@s. Ministr@s que menstru@m?

MARGARIDA BENTES PENEDO Arquitecta e deputada municipal

OBSERVADOR, 17 abr. 2025, 00:1883

A ONU estabeleceu que o Dia Internacional das Mulheres passava a ser celebrado anualmente, a 8 de Março. Também na Assembleia Municipal de Lisboa vários partidos apresentaram documentos oficiais com votos de saudação. Por dificuldades de agenda, capítulo que a sra. Presidente da Mesa domina com esforço, só se discutiu no último dia do mês.

Primeiro comentário. É preciso reconhecer que ainda hoje há mulheres a ganhar menos do que os homens em trabalhos iguais, para desempenhar as mesmas funções. Existe sobretudo em algumas das escassas fábricas que nos restam, em indústrias de baixo valor acrescentado, tecnologia básica, em lugares de operários pouco especializados e com baixo nível de instrução. Mantém-se uma injustiça que é preciso combater e para a qual é preciso encontrar uma resposta.

Os donos dessas fábricas são por regra gente corajosa, apertada entre margens de lucro estreitíssimas, regulação implacável, rapacidade fiscal, e responsabilidade de prover a famílias inteiras, cujos membros muitas vezes são todos seus empregados. Talvez a resposta à injustiça passe por aceitar que não podem pagar o mesmo a todos; e explicar-lhes que devem pagar mais aos operários que produzem mais, independentemente de serem homens ou mulheres. Ou seja, mostrar-lhes que as diferenças de salário devem assentar nas diferenças de produtividade, e não no sexo dos operários. Isso motiva as pessoas a trabalhar melhor e pode contribuir para subir o rendimento da empresa. O maior amigo da igualdade ainda é o capitalismo: interessa o dinheiro, interessa a respeitabilidade social, não interessam as circunstâncias – sexo, origem, cor, religião, ou costumes – de quem produz.

Segundo comentário. Incide sobre a tese em voga este ano, segundo a qual “o voto das mulheres é uma conquista da revolução” (ou “do 25 de Abril”). Toda a esquerda se juntou num coro para explicar ao povo que “o Estado Novo tratava mal as mulheres, veio a revolução e deu-lhes o direito de voto”. Das teses mais estúpidas de sempre, e Deus sabe como a esquerda é perita em estupidez. Até parece que os homens votavam durante o Estado Novo, e as mulheres eram discriminadas. Peço licença para informar a nossa querida esquerda do seguinte: o Estado Novo restringiu o direito de voto das mulheres, mas também dos homens. Nesse capítulo, o dr. Salazar estabeleceu em Portugal uma ditadura bastante democrática: recusou eleições livres, tanto aos homens como às mulheres (o Estado Novo aconteceu num tempo em que o sexo era binário).

A I República, sim, negou o voto às mulheres. E mesmo sabendo que não serei excessivamente carinhosa com a esquerda, trago algumas outras ilustres memórias para recordar. A I República foi o regime mais sangrento que houve em Portugal durante os últimos 200 anos. Restringiu o direito de voto em 1913; tinha mais de dois mil presos políticos nas cadeias em 1912; reprimiu brutalmente os sindicatos; massacrou em Angola, em 1915; e negou o voto às mulheres. É neste nobre regime que a esquerda portuguesa ainda hoje se reconhece e se inspira. Entre todas as outras recomendações, a I República também foi um regime mais misógino do que o Estado Novo.

Terceiro comentário. Vai para a ideia de que as mulheres formam um bloco homogéneo e coeso, com as mesmas emoções, os mesmos pensamentos, as mesmas preocupações e aspirações, as mesmas mundividências e as mesmas ideias políticas. Pior. A juntar à sopa turva de mulheres equivalentes, as mulheres são também todas extraordinárias. Se a ideia anterior era a mais estúpida, esta é a mais irritante. Não, não somos todas extraordinárias. Há mulheres anti-fascistas, outras não querem saber disso para nada; há mulheres despóticas, mulheres liberais, e grandes estupores; há oportunistas, há malcriadas, e há senhoras encantadoras. Em que mundo é que a dra. Alexandra Leitão é extraordinária? Ou a dra. Inês Pedrosa, autora dos livros e dos comentários mais deprimentes de Portugal? Ou @s sr@s. Ministr@s que menstru@m? Safa!, quando se fala dos homens, alguém imagina que são todos iguais?

Quarto comentário. As sacrossantas cotas, porque “as cotas favorecem as mulheres”. A sério? Quais mulheres? Sim, as cotas favorecem as incompetentes e prejudicam as mais capazes. Mais uma vez, tratam as mulheres como se fossem iguais entre si, apenas diferentes dos homens, velhacos sem emenda que só pensam em achincalhá-las. Na verdade, é precisamente o contrário. Ser contra as cotas é compreender que homens e mulheres têm a mesma aptidão para atingir o mérito. Os homens não são à nascença mais capazes do que as mulheres, portanto, as mulheres não precisam da condescendência dos homens para chegar aos lugares reservados pela esquerda. Nenhum cidadão merece ser castigado por nascer homem. E nenhum cidadão, homem ou mulher, precisa de ser protegido com paternalismo. As cotas são uma forma de infantilização.

MULHER      SOCIEDADE      POLÍTICA

COMENTÁRIOS:

Maria Paula Silva: Muito bom! A clarificação sobre o Estado Novo é muito importante. A maioria desta gente(alha) que bota faladura a torto e a direito em todo o lado fala sem saber do que fala, não estudam e não têm cultura. Nem se percebe como e porque têm tanto tempo d'antena.       Maria Nunes: Grande artigo. Obrigada, MBP.                Coxinho > Maria Paula Silva: "porque têm tanto tempo d'antena" -- aliás "por que" -- creio que posso avançar uma pista válida na maioria dos casos: porque os detentores e distribuidores do "tempo de antena" são iguaizinhos a essa "gente(alha)". E se não forem iguaizinhos, pelo menos são muito, mas muito parecidos.                   Pedro Belo: QUE GRANDE TEXTO! 👏🏻👏🏻👏🏻 Que todas as mulheres tivessem essa clareza de pensamento. São um sexo maravilhoso e indispensável.                 klaus muller: eheheh!!! Esta Margarida deve ser odiada por todas as nossas feministas de esquerda. Devem fazer-lhe a vida negra lá nas reuniões da Câmara. Dá-me cá um gozo só de pensar na pressão arterial dessas figurinhas a subir sempre que M.B.P. fala ou escreve.                   Rosa Graça: Excelente, excelente, excelente.                     Maria João Teixeira da Costa: Mulheres extraordinárias são as que formam a maioria das familias monoparentais que preenchem a maior parte da quota da pobreza em Portugal, desde que a esquerda colocou a mulher e o homem em igualdade no divórcio. Fenómeno exponenciado por uma justiça absolutamente incompetente. É por isso que existem tantas crianças pobres em PT. Razão tinha o Prof Cavaco qd aprovaram a lei: isto vai resultar mal. Mais uma vez acertou.                   Luís Rosado: É por artigos como este que ainda assino este jornal, apesar de já pouco se distinguir na linha editorial de um qualquer "Expresso" ou "Visão".                 Maria Augusta Martins > Maria Paula Silva: E como são ignorantes não sabem nem procuram saber. Olhe, na aldeia onde nasci em zona fronteiriça do Alto Minho nos anos 50 e até início dos 60 a presidente da junta de freguesia era uma senhora, penso que deveria ser a única no país. Mas esta era! Também havia deputadas á Assembleia Nacional e á Câmara Corporativa, A tão democrática 1ª ministra nomeada pós 25 A, foi uma delas, mas houve mais. Mas disso não interessa falar.            Henrique Mota: Minha senhora com um comentário tão certeiro, arrisca-se a ser queimada na fogueira (em sentido figurado, espero) Não que algumas não sonhassem fazê-lo noutro sentido, se pudessem.            Carlos Chaves: Cara Margarida Bentes Penedo, vindo e estando eu numa família matriarcal, concordo em absoluto com todos os comentários e ideias que aqui nos trouxe, de maneira frontal e sem papas na língua! Obrigado.                      Ana Torres: Parabéns! Completamente de acordo! Amei o artigo! O mérito não se mede pelo sexo biológico, as mulheres extraordinárias não precisam de "quotas".                  Maria Paula Silva > Thiago M. Clayton, credo! onde vc vê raiva, eu vejo uma lucidez acutilante que, obviamente, desagrada à maioria das pessoas.        D. Garcia: EXCELENTE TEXTO !!! Obrigada MBP pela sua imensa coragem !          Lily Lx: Maravilhosa!                   Manuel F: Do melhor que li no Observador nos últimos tempos!                    Maria Cordes: Estupendo, o que escreve, vou dar mais uma achega. No Prec, conheci várias, pelas Faculdades, de dia, revolucionárias, de socos, à noite de vison. A esquerda caviar, tem uma característica, sofre de metamorfoses, como o sapo que muda de cor, conforme o meio em que está. São virulentas, aí há uniformidade. PS. Os socos, calçado barulhento, estavam nessa altura na moda.             Filipe Costa: Excelente comentário, gostei muito, vou aconselhar a sua leitura a umas amigas bloquistas que tenho, sei que não adianta nada, mas pelo menos. tento.                  António Alberto Barbosa Pinho:: Louvo a coragem e concordo.    José Paulo Abreu: Cota? Não quererá dizer quota?               Maria Paula Silva > Luís Rosado: é verdade, mas felizmente ainda temos aqui uma boa meia dúzia de bons cronistas que não dispenso. O resto nem vale a pena perder tempo.           Jorge Cardoso: Haja quem relembre o que foi a 1ª.Republica aonde os Socialistas actuais vão buscar a sua Ética ...      Meio Vazio:  ('tás logo na fogueira, Margarida!..)

Nenhum comentário: