Da entrevista a MIGUEL ESTEVES CARDOSO: Uma “voz”
simples, natural, arguta, sensível, falsamente pueril, a pretender ser
espirituosa, de “pedrada raiando, no
charco simplista do seu subjectivismo de “parti
pris” habitual…
A sua voz como escritor mudou
com o tempo? Ao ler estas cartas, sente algum embaraço?
Não, não. Agora já estou perto da morte
portanto já não tenho qualquer… Quando era novo tinha imenso medo de partir assim
e assado. Já não tenho esse medo. O que noto é que estava a aprender a
escrever. O meu sonho era escrever e viver do que escrevia. Era o meu sonho:
viver do que escrevesse, pronto.
Conseguiu.
Consegui.
Aquilo sou eu a começar a escrever a prosa. Mas pronto, eu lia muito. Acho que
até fico muito vaidoso com aquela idade, porque aquela idade não é uma idade
normal de estar a escrever assim. Sei que tinha muita prática porque o primeiro
livrinho que escrevi foi com cinco anos e depois com 10, 11, 12. Escrevi sempre
muito, mas poesia. Mas é escrever, escrever é escrever. Com 19, 20 anos já me
considerava… Abri agora há bocado enquanto esperava o livro, a partir de 71
considerava-me já um escritor estabelecido. A minha cabeça desde os 14 até os
20 era a minha primeira obra, já tinha muitos livros. Encadernados com títulos,
tudo.
E, portanto, essa prática de escrever e de ler, aos 20
anos, já tinha escrito e lido muito, muito, muito. E o tom… Leio um tom de
falso velho, de pessoa que aos 20 anos escreve como se soubesse tudo e como
tivesse uma atitude muito blasée
perante o mundo. É engraçado e cómico também. Muitas das cartas são escritas
para fazer rir. Acho que é um livro muito risonho, muito enérgico, sobretudo
com entusiasmo. Mas é um livro, do que li, em que me reconheço absolutamente.
Acho que não mudei absolutamente nada. O entusiasmo pelas coisas, aquela
loucura de um lado para o outro. O entusiasmo da coisa, a energia de ver um
mundo tão grande e tão rico e tão bom. Como é que eu vou meter isso tudo cá
dentro? Só saltando de uma coisa para a outra. Como é que eu vou pôr esta
maravilha toda cá dentro? Falo como se já soubesse tudo o que havia para saber.
Mas claro que sabia que não sabia nada, só tinha um pouquinho de nada dos
livros, um bocadinho de nada e agora também é a mesma coisa. Mesmo depois de
uma vida inteira a ler e a escrever, mesmo assim é só uma pontinha de nada que
nós apanhamos.
Acha mesmo
isso?
Acho,
acho. Só a descobrir aqueles de quem gostamos uma pessoa perde tanto tempo… A
pegar em livros, a dizer: este não presta, este não presta, ah, este sim. É uma
pontinha. Porque há tanta coisa para descobrir que todos os meses descubro
coisas novas, coisas que nunca vou ter tempo agora. O tempo falta sempre. O
tempo falta sempre.
Este livro
tem um cenário muito urbano, sente-se o fervilhar da cidade. Agora o Miguel
está ao telefone comigo a partir da aldeia de Almoçageme e escreve sobre coisas
muito diferentes.
Sim. É que uma pessoa tem que ir mudando. Os
entusiasmos vão mudando. Eu odiava o campo. Odiava. Durante toda a minha vida
só a ideia da pasmaceira do campo, de não ter acesso… A internet alterou tudo.
A internet e sobretudo as transportadoras. Porque, agora, uma pessoa pode ter
os livros todos, as revistas todas, tudo em casa, morando na Cochinchina.
Portanto, as pessoas estão na internet, mas também é muito importante as
empresas de transportes, são importantíssimas. Há agora a UPS, a DHL, a SEUR,
há pelo menos nove muito boas. E essas trazem a casa. Mesmo que uma pessoa more
no campo, que é o meu caso, trazem tudo a casa, os livros. Portugal é tão
pequenino que uma pessoa está no campo, mas daqui a meia hora está em Lisboa.
São 30 minutos. Não é um grande sacrifício. E Portugal é uma coisa maravilhosa
porque o caminho também é maravilhoso. Saio daqui de Colares, passo pelo Cabo da
Roca, o Guincho, Cascais, por-aí fora até chegar a Lisboa e não é uma viagem
normal. É que em Portugal uma pessoa diz: “Olha, vou para o Alentejo”. Uma
filha minha, a Sara, está a viver agora no Alentejo e diz “vou para o
Alentejo”. E depois, passada uma hora, “já cheguei ao Alentejo”. Pronto, isto é
um país de brincar, parece o país do Noddy. “Bolas, já estou farta de Lisboa, vou para o Alentejo”. Passada
uma hora, “já cá estou”, pronto.
"Só a descobrir aqueles de
quem gostamos uma pessoa perde tanto tempo. A pegar em livros, a dizer: 'Este
não presta, este não presta, ah, este sim'. Há tanta coisa para descobrir que
todos os meses descubro coisas novas, coisas que nunca vou ter tempo agora. O
tempo falta sempre."
A cidade não
lhe faz falta?
Não,
claro que faz falta, sou ultra, ultra, Lisboa. Não é a questão de fazer falta.
Faz-me muita impressão, tenho muita dor do que está a acontecer à cidade por
causa do turismo, a descaracterização. Está a ficar desfigurada, Lisboa, cidade
que eu amo, e uma pessoa só sente isso por causa do amor. As pessoas vêm para o
campo para fugir a Lisboa, eu sempre quis viver em Lisboa ou no Porto. As
cidades são maravilhosas, mas Lisboa tem aquela coisa que, em Lisboa, há
pequenas aldeias. Lisboa em si, a parte que não existe, não é? Tem aqueles
cantinhos. Lisboa é linda porque as pessoas que estão em Lisboa, nos sítios,
também vêm de Trás-os-Montes, ou do Minho. A pessoa em Lisboa consegue viver a
vida que vive numa aldeia, mas está em Lisboa. Ou seja, Lisboa é grande, é
maravilhosa, é deslumbrante. E os lisboetas são muito engraçados. Pronto, uma
pessoa encontra tudo em Lisboa. Era incapaz de viver longe de Lisboa, estou a
meia hora, passo a vida em Lisboa.
Mas já
observa a mudança da cidade.
É
aquele queixume à portuguesa, que é um falso queixume. Eh pá, tenho muitas
saudades de Lisboa. Mas não é uma verdadeira saudade. Verdadeira saudade é
estar em Manchester, no norte de Inglaterra, com aquela idade, sem conhecer
ninguém. Isso é que é exílio. Agora, Almoçageme é linda, fica a dois passos, é
um dos sítios mais bonitos de Portugal, é tudo bonito aqui, as pessoas são
bonitas.
Está a vender
tão bem Almoçageme que não tarda também terá aí turistas.
Já há turistas aqui. Mas gosto muito de turistas, sempre gostei muito de
turistas e gosto muito de estrangeiros. E a minha mãe é estrangeira, gosto do
contacto com estrangeiros. O que estou a dizer é, quando partes grandes da
cidade, como o Chiado, em que os sítios estão completamente virados para chegar
uma população nova todos os dias, que depois vai embora… Fica uma espécie de
falsidade. E a falsidade é horrível, não é nem português, nem lisboeta, nem
francês, não é nada. E é um problema não é só em Lisboa ou Porto, em Portugal,
é um problema terrível em que as pessoas vão passar uma semana a um sítio… Não
interessa, pronto. Mas o verdadeiro exílio já não existe, graças a Deus. A internet
foi a melhor coisa de sempre. E o telemóvel, uma pessoa consegue ter todos os
livros no telemóvel, uma pessoa que tenha acesso às bases de dados da
universidade consegue ter tudo no telemóvel, todos os livros, todas as poesias
do mundo, todos os cinemas do mundo, tudo.
Ler no ecrã
não o incomoda?
Nada,
é maravilhoso. Prefiro ler num livro, porque o ecrã é pequenino e faz mal aos
olhos. Mas nós temos a escolha. Ninguém nos tirou os livros, nem as revistas ou
os jornais, continua lá a escolha, não é assim tão difícil comprar um jornal ou
uma revista. E os livros são baratos, nunca se venderam tantos livros como agora.
Há dois anos,
no Festival Escritaria, dizia que para escrever uma crónica engraçada há pelo
menos 20 que falham, que são “fracassos”. Como é que aprendeu a lidar com os
fracassos?
É terrível isso. Na vida, em tudo, não é como cozinhar. Na escrita, sai
sempre quase mal. O que acontece geralmente é que eu acho muita graça, mas as
pessoas odeiam, ou não acham graça, ficam aborrecidas. É muito difícil fazer
coincidir entusiasmos. Agora descobri um escritor, não sei quê, e a pessoa que
está a ler quer lá saber. A coisa importante, mais difícil, é a ligação com o
leitor. Uma pessoa tem que encantar o leitor. Isso é muito difícil, engatar um
leitor.
Quando é que
aprendeu a fazê-lo?
É
ao calhas. Tento sempre, só que falho sempre. De vez em quando acerto, e as pessoas
gostam e ficam muito contentes. Acho que é mais um para cinquenta do que um
para vinte.
A ideia de
fracasso não muda ao longo do tempo?
Sim,
sim, muda imenso. Tenho fracassos enormes da minha vida, constantes. Um
fracasso enorme é, por exemplo, tudo o que escrevi sobre comida — ligo imenso à
cozinha — foi sempre um fracasso gigantesco. Há dois ou três anos, uma editora
disse: “E se juntássemos todos os textos que escreve sobre comida para o Público,
no Fugas?”. Fiz um livro giríssimo, com uma capa giríssima, vendeu pr’aí dois
exemplares. Teve de ser tudo queimado. Ninguém sabe como é que se faz um
Martini. É um fracasso absoluto. Não sei explicar porquê, mas é um fracasso.
Uma pessoa escreve sobre comida e é uma coisa a que os portugueses ligam muito
até e, no entanto, é um fracasso retumbante. Como outros livros, outras coisas
da minha vida. Um fracasso é bom porque dá a oportunidade de experimentar outra
coisa. Faz rir um bocadinho. É muito engraçado as pessoas não ligarem, é uma
coisa humorística. Gostaste? “Nem por isso”. Isso é muito engraçado porque é a
liberdade. A pessoa tem a liberdade de dizer: “Olha, não gostei”. Ouve o
Beethoven, o que é que achaste? “Olha, não gostei nada”. É maravilhosa essa
liberdade de a pessoa dizer que não gosta.
Lê as críticas
dos seus livros?
Sim,
sempre. São muito poucas, não é? Lêem-se um instantinho. Leio, que remédio,
tenho tão poucas. Quem me dera ter muitas, mas são tão poucas que leio e
pronto. Também leio todos os comentários que fazem no jornal. Todos.
Porquê?
É
um grande privilégio poder ler. Antigamente era quase impossível saber a opinião.
Quando comecei a escrever no Expresso só por carta é que se sabia. Só escreviam
as pessoas que tinham gostado muito ou odiado muito. É muito bom apanhar
aquelas opiniões que são: “Ah, tem coisas boas e coisas más”. A verdade. É
muito raro poder saber a verdade dos leitores. O que chamam de feedback, não é?
"Em
Portugal, quando ameaçam o sistema de saúde, enquanto não houver um mínimo de
dignidade para as pessoas pobres, não podemos dar-nos ao luxo de ser
elitistas."
O retorno.
Sim,
o retorno é fascinante, não é? Porque há sempre uma verdade em tudo o que
dizem. Aquela pessoa deu-se ao esforço de escrever uma coisa e há ali uma
verdade. Uma pessoa consegue pôr de lado a vaidade, isso é muito importante e
ver que há ali qualquer coisa, há sempre uma liçãozinha para tirar, sempre.
Mesmo as pessoas que parece que estão sempre a dizer mal, tenho aprendido
imenso com elas. Parece mentira, mas é verdade. Porque é sempre bom ter alguém
sempre a dizer mal porque o facto de ler já chega. Leu, está sempre a dizer
mal, mas lê. Isso, ler é uma grande dádiva. Lê.
Mas para
saber ouvir isso é preciso ter uma relação especial com o ego.
Um relação especial com o ego, como?
Para
conseguir ouvir e encaixar a crítica.
Ah,
não, mas também sou leitor das minhas coisas. Há coisas que quando escrevo e
gosto muito não há ninguém que me diga “olha que isso é uma merda”. Eu também
sou um leitor.
Qual foi a
melhor coisa que escreveu?
Não
sei, ainda é um bocado cedo para isso, não? Toda a gente diz sempre: “Ah, foi a
última”. Mas acho que o escrever é uma prática, acho mesmo que quanto mais se
escreve melhor se fica. Porque aprende-se a escrever com mais depuração,
aprende-se a manipular melhor. Escrever é uma coisa muito difícil, muito
difícil. E aprende-se a depurar mais e a fazer mais com a língua. Uma pessoa
aprende a manejar a língua, e a língua é dificílima. Uma pessoa, com o tempo, à
força bruta de tanto experimentar, acaba por aprender. Tenho esperança que uma
pessoa possa utilizar a língua para mostrar como é que somos e o que é que
pensamos. Porque há pessoas que são horríveis, pessoas horrendas, que aprendem
a escrever e também só mostram ainda melhor o horror que são. Há pessoas com
jeito para escrever e isso não tem nada a ver com ser interessante ou ser uma
boa pessoa, ser fascinante. Para cada hora que escrevo, leio 10 horas. Leio,
leio, leio, leio, leio. O que os outros escrevem. Isso é importante. Vou à
procura das coisas de que mais gosto, depois abandono, sou terrível. As pessoas
que gostam de me ler, é muito bom, mas… É giro é ver pessoas que dizem: “A
melhor coisa que escreveste foi em 1979”. Uma pessoa tem que aceitar e
agradecer isso. A maior parte das pessoas diz: “Lia muito tudo o que escrevia quando
era novo, nos anos 80, no Expresso,
81, 82, 83″. O meu primeiro livro foi o mais vendido. Muita gente diz: “Achava
imensa graça, mas pronto, depois não”. E isso parece uma coisa de “então e
agora?” Mas é uma grande dádiva. Gostavam de mim quando era novo. Eu acho que
isso é a mesma coisa com as mulheres muito bonitas ou artistas de cinema.
Quando dizem: “Ah, gostava dela quando ela era muito boa”. Eu também era muito
bom quando era muito novo. Quando uma pessoa aparece nova, as pessoas dizem:
“Ah, quem é este gajo? Tão novinho, não sei o quê, com os óculos, quem é ele?
Ah, ele é muito vaidoso. Ele escreve bem”. Nós temos o nosso tempo também, o
nosso coiso pop, quando somos
novidade. E as pessoas gostam nessa altura e depois passam para o próximo. Que
mal é que isso tem? O que é bom é ser lido. Não interessa quando, se é quando
éramos novos se é agora.
É um erro perguntar “qual é a melhor coisa?”, quem
decide isso é a pessoa que lê. É terrível isto, mas isso é o que ensinou
Duchamp. É o espectador que decide a obra de arte. É verdade. O leitor, se fica
aborrecido com uma coisa, aquilo é aborrecido. É aborrecido para ele. Se ele lê
o princípio e depois abandona, é um fracasso. O livro, para ele. E continua a
ser um fracasso.
Se lhe dizem
que antes é que tinha graça…
Dizem
imenso isso, porque as pessoas achavam graça ao que eu escrevia naquela altura.
Já é muito bom, não? Dizer assim: “Sabes que eu estive apaixonado por ti”.
Olha, obrigado. “Agora já não estou. Estás velho e gordo”. Pronto, não faz mal.
Mas este
livro é uma óptima resposta, não? É o MEC há 50 anos.
Sim,
é uma óptima resposta para as pessoas que dizem “ele está velho”. Ai queres
novo? Então vou-te dar. Se a pessoa gosta de novo… Quantos jovens de 20 anos
escrevem sobre o que lhes vai na alma? Quantos? Eu não conheço. Em prosa. Se as
pessoas querem juventude. Depois gosto porque tenho amigos meus que são muito
mais novos e que dizem: “Tu agora estás um bocadinho chato e velho, a falar dos
livros e das plantas e do raio da primavera e das andorinhas”. E eu agora
ultrapasso-os por dentro. Eles começaram com 35. E eu digo: “Ai é? Toma lá, eu
com 20. Ah, pois, estás a ver?” Se tivesse ficado em Portugal nunca tinha
escrito aquilo. Porque tinha a minha vida para viver, os amores e as amizades.
Só numa situação de crueldade, de saudade terrível, de solidão terrível, é que
uma pessoa é forçada a escrever cartas em vez de viver. Porque os meus 19, 20,
21, onde é que estão esses anos? Os meus anos de juventude não os vivi. Agora
não me venham a dizer “quando era novo”. Então toma lá o novo.
COMENTÁRIOS (de14)
M L: A qualidade não abunda é um facto. Mas entre pp e um camarada que ainda vive no passado,
ou uma lésbica de esquerda, a opção é óbvia. Quanto
a MEC, eu e muitos, já estamos verdadeiramente fartos do snobismo dos intelectuais
de esquerda que poluem, há décadas, quase toda a cs do país. João: Só de pensar que andei a distribuir propaganda a favor
da eleição deste gajo, em 1988 ou 1989, já não sei, até fico doente. Mas
pronto, era jovem, não pensava...
Carlos Jeronimo: Só quem não
tem noção do país em que vive é que pode achar que PP poderia ser eleito PR… Alexandre Barreira: Pois. Calma,
"rapaz". O
"irrevogável" está a preparar. O
"periscópio"....! Jorge
Tavares > Nuno
Borges: Se isso
interessa, está errado. Não devia interessar.
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