Na nobreza expressiva. Como é habitual, mas de justiça também, como nunca.
Mundo, dia 21 de Abril de2025
Crentes
e não crentes (Francisco era de todos) já analisaram o legado papal. Eu quis
apenas recordar alguns dos seus passos pelo muito que lhe devo. Fi-lo num misto
de devoção, sentimento e obrigação.
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista,
colunista do Observador
OBSERVADOR,23
abr. 2025, 00:236
1O Papa Francisco quis
despedir-se, e assim o fez, de surpresa e ao ar livre, de uma imensa praça
repleta de devoção e expectativa. Talvez Francisco soubesse que Deus viria
buscá-lo horas depois, para acompanhar Cristo na sua Ressurreição, definitivo
triunfo da vida sobre a morte. Talvez, mas ele assim o fez.
Será difícil não nos prendermos,
crentes e não crentes, a tão luminoso, poderoso sinal. Será porventura ainda
mais difícil ter como agradecer o privilégio de testemunhar tão espantosa
despedida.
2Mas agora gostaria que o Papa
Francisco me ouvisse dizer isto: como
Sumo Pontífice talvez não se possa ter oferecido tanto, acolhido tanto, viajado
tanto e tão longe, intervindo tanto. E ter mudado muita coisa, sem ferir a doutrina – nem ter nunca, vez
alguma, que a cerzir ou costurar: sempre lhe foi fiel, sempre a praticou. E no
entanto… mudou, transformou, avançou.
Quando o ouvimos em 2013 dizer
“Boa Noite” ao mundo de uma janela do Vaticano, não adivinhávamos – eu não adivinhava – que tudo nele, do gesto
ao verbo e ao acto, viria a prolongar aquele humanamente tão próximo desejo de
“uma boa noite.” Um primeiro gesto que nos transmitia o entendimento que tinha
– e sobre o qual operaria – da missão que o esperava e que ele queria “próxima,
muito próxima”. (Uma proximidade explicada por ser “da Argentina”, que é algo
que se diz muitas vezes como única explicação para gestos ou atitudes que além
da questão da pertença careceriam de explicações de outra natureza.)
3A lista, de tão fértil, desencorajará desatentos e
desconfiados.
Francisco quis uma “Igreja em
Saída” e saiu dos umbrais de catedrais, vestes e paramentos para acolher: ir
ter com o outro, os outros, os sem lugar cativo na vida. Desvalidos,
desamparados, frágeis, fracos. E com os diferentes. Acolhendo
“todos, todos, todos” e eis a mais generosamente desafiante frase papal ouvida
nos Jornais Mundiais da Juventude, em Lisboa, em 2023, que logo se
transformaria no seu definitivo ex-libris. E semanas depois, numa inspiração
espiritual global.
Francisco foi esse permanente “acolhedor”, saindo e indo. Esbatendo contornos da Igreja mais
clerical ou eclesial e vitalizando antes o “hospital de campanha” em que o
Santo Padre gostava que ela se transformasse. E tanto que oficiou para
tal desígnio. Como oficiou sempre, sem interrupção nem desistência pela paz.
Não a tratando como miragem mas interpelando o mundo para a obrigação de
responder à chamada da sua concretização.
4Francisco quis o Evangelho
como mapa, e
por isso a fraternidade, a bondade, a generosidade, o próximo, a partilha estão
bem sinalizadas no mapa, onde tem lugar a “Fratelli Tutti”, uma das suas
grandes encíclicas que nos pede que sejamos “irmãos” Não, não e não,
Francisco não foi de esquerda, nem de direita, foi “do” Evangelho. (O que
sempre me bastou como explicação embora tropeçasse por vezes em perplexidades
ou ambiguidades, mas que importância? O Evangelho nem sempre é linear. E a vida
ainda menos.)
5O Santo Padre quis a mulher mais
presente, chamou-a, conferiu-lhe responsabilidades. Hoje há uma Governadora do
Vaticano e o Dicastério da Vida Consagrada é presidido por uma mulher. Nada na
Igreja é feito em sobressalto e com ruído. Podem parecer pequenos os passos, a
Igreja, com mais de dois mil anos, tem um tempo e um ritmo, o seu, muito
próprio. No dia 11 de Agosto de 2023, na Casa de Santa Marta – onde à hora a
que escrevo o Papa Francisco está já a ser velado – eu ouvi-lo-ia dizer-me
diante de um gravador que “a Igreja é
feminina, é a esposa de Cristo”.
E depois segui-o numa
reflexão sobre o valor (a palavra é minha e fica aquém do que ouvi ao Santo
Padre) do agir no feminino, num
genuíno louvor à mulher: na intuição, na capacidade de
trabalho, de atender, de dar conta, de cuidar e se desdobrar. E na maternidade,
antes do mais.
6Francisco quis o maior e mais
atento cuidado com a ecologia.
Não foi o primeiro a pronunciar ou escrever este substantivo – João Paulo II ou
talvez Bento XVI já se lhe tinham referido –, mas foi o primeiro a fazer dela um combate. O
indispensável combate pela salvação da terra, ferida de morte, em chagas que se
ampliaram durante o seu Pontificado. Foram inúmeros os alertas, acesos como vermelhas luzes anunciando
perigo e hoje impressos na encíclica “Laudate Si”. Incansável combatente.
7Francisco cruzou os além mares até longínquas geografias em múltiplas viagens.
Antes de si, outros Sumos Pontífices o fizeram. Mas o mundo reteve jornadas ao
encontro de pequenas comunidades cristãs, a “ilhas” de minorias católicas, e
outras minorias. E a pátrias onde era menos “costume” o Vaticano deslocar-se
e desta vez aconteceu. Eis um
cúmulo de Igreja em saída, de proximidade, de Evangelho. Militante do diálogo
inter-religioso, conversou – e ouviu – representantes de outras igrejas,
patriarcas ortodoxos, líderes islâmicos.
8Sínodo
quer dizer “Juntos no Caminho”. Um velho sonho deste sucessor de
Pedro, a Igreja a olhar para si própria revendo o caminho e encenando o futuro.
Foi uma realidade. Difícil,
longa, dolorosa por vezes, desconforme noutras. Mas Francisco que sabia que se semeia para depois colher, também sabia
que se caminha em distintos ritmos. E que o tempo acertara o relógio dos
ritmos.
Também não esqueço a propósito as
palavras ouvidas nesse 11 de Agosto de 23 no Vaticano sobre o Sínodo, quando o
questionei sobre divisões, e “lados”, no seio da Igreja:
“Há os que vão mais à frente, outros mais atrás, e outros no meio. O
Bispo de Roma que tem a missão de olhar por todos, deve acompanhar e cuidar
da harmonia do conjunto” (citei de memoria).
Harmonia difícil de achar à primeira vista, com progressistas e
conservadores a pedirem o impossível. Quer uns, quer os outros. Mas o Bispo de
Roma sabe que o tempo acertará esse relógio dos ritmos. A Igreja
nunca teve pressa.
E olhando e atendendo a uns e
outros – lebres e tartarugas – o Santo Padre nunca deixou de carregar a sua
mochila.
9Crentes e não crentes – Francisco
era de todos – já analisaram o seu legado papal. Eu quis simplesmente
recordar alguns dos seus passos pelo muito que lhe devo. Fi-lo num misto de
devoção, sentimento e obrigação. Ficou feito.
PAPA FRANCISCO IGREJA CATÓLICA RELIGIÃO
SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 6)
JOHN MARTINS: Neste momento de despedida, ficamos com a certeza de que
Franciscus era irmão de todos, todos, todos em Cristo, e que fez tudo ao seu
alcance para deixar uma Igreja melhor. Pôde despedir-se de nós, no dia de
Páscoa pela graça de Deus, e no dia seguinte saibamos nós honrar a sua partida
para sempre do nosso muito amado irmão Franciscus.
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