É o que apetece referir após a leitura de textos como este, que são um convite a um conhecimento que, na falta de livros de pinturas específicos para o (re)conhecimento de casos e causas, a Internet ajuda a especificar e a exemplificar, em, por vezes, bastas abordagens, como neste caso de CARAVAGGIO. Uma bela lição sobre um belo tema, feita por um leccionador de excelência, na sua riqueza temática como na sua simplicidade expositiva, sem pretensão, mas sempre elegante e de sentido crítico. Tal é JAIME NOGUEIRA PINTO, que, longos anos, permaneça, como oficial de um nobre ofício, num país que tantos desses oficiais carece.
Caravaggio: luz e sombra
É um mistério, e o mistério – ensinou-me a minha Mãe, sendo eu bem miúdo, mas inquietado pela dúvida – é a condição necessária da fé; se retirarmos o mistério da equação, ou do mundo, pouco fica.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 19 abr. 2025, 00:1823
Vi nestes últimos dias de Quaresma A Sombra de Caravaggio, um filme de Michele Placido,
o mesmo Michel
Placido que, nos
anos 80, se tornou popular como o inspector Corrado Cattani, o herói de La
Piovra, O Polvo, a
longa série sobre a Máfia.
Esta fita de Placido
realizador é a história de Michelangelo
Merisi da Caravaggio, o grande pintor do Tardo-Renascimento e dos princípios do
Barroco que nasceu em Milão em 1571 e morreu em condições misteriosas,
próximo de Roma, em 18 de Julho de 1610.
Quem olhar a obra de Caravaggio não
pode ficar indiferente ao que nela há de pioneiro, de revolucionário, de
genial. E não
é só o choque técnico do “tenebroso”, do “chiaroscuro”, o uso e abuso da cor
que o identifica e que vai influenciar pintores
espanhóis, como Ribera ou
Velásquez, os holandeses da Escola de Utreque e até Rembrandt e Georges de La Tour. Não falando da
sua discípula italiana, Artemisia
Gentileschi.
Não é só isso, não é só a luz
que faz com que um crítico e historiador de Arte venha escrever que “é com
Caravaggio que começa a pintura moderna”. Há também, na mais de meia centena de obras que nos deixou,
um realismo e um naturalismo que
se distinguem de outros modos de desenhar e de pintar a realidade e o sagrado.
Porque, vivendo em Roma, cidade e terra sob soberania papal, com os cardeais
oriundos das grandes famílias da Cidade Santa a darem papas à Igreja e a
aristocracia e os ricos a encomendarem trabalho aos artistas, não é de estranhar que Caravaggio fosse sobretudo um pintor religioso, ou um
pintor do sagrado.
Porém, nas suas obras
religiosas, por força da liberdade
e do realismo que o caracterizam, não
se inibe de representar com audácia os corpos e as vestes de santos, santas e
do próprio Cristo e da Virgem, ou de usar como modelos para as cenas bíblicas
ou evangélicas vagabundos e mulheres da vida. De resto,
Caravaggio tinha costumes dissolutos e uma sexualidade promíscua e pouco
ortodoxa e uma vida privada (mas do conhecimento público) cheia de acidentes e
incidentes violentos.
De qualquer forma, se olharmos os
frescos de Giotto, ou as pinturas dos irmãos Pietro e Ambrogio Lorenzetti de
Siena, ou a “Anunciação” de
outro sienense, Simone Martini, percebemos
melhor a “revolução caravaggiana”, a diferença abissal no modo e na substância
que separa estes artistas medievais de Caravaggio.
Mas a intriga da fita de Placido volta-se,
não tanto para a arte, mas mais para o retrato do artista enquanto homem. O
papa Paulo V, nascido Camillo Borghese, dos Borghese também
originários de Siena mas radicados em Roma, o Papa que governou a Igreja
Católica entre 1605 e 1621, quer precisar melhor o retrato do pintor, depois
de, em Maio de 1606, numa rixa, Caravaggio ter assassinado um tal Ranuccio
Tomassoni. Para isso, Paulo V encarrega um familiar da Santa Sé, a “Sombra” (no filme, Louis Garrel), de fazer um inquérito completo sobre o artista
fugido para Nápoles, a fim de tomar uma decisão. Como assassino, a Caravaggio,
esperá-lo-ia a decapitação.
A obra e o homem
É a este inquérito retrospectivo que
vamos assistir no filme. O nó do problema é a perplexidade
que aflige o Pontífice e o seu inquisidor ad
hoc: como pode
um pecador, e um pecador público, um homem de vida libertina, produzir quadros
tão belos sobre o Bem e o Mal e retratar tão extraordinariamente Cristo e a
Virgem? E, mais do que isso, produzir quadros tão espirituais, no
seu realismo? E como pôde ele ousar recorrer a mulheres de má vida e a
vagabundos para representar a Mãe de Deus e o próprio Cristo?
Não esqueçamos que, nesta aurora do
Barroco, o realismo na pintura bíblica,
o extremo naturalismo de uma pintura
quase fotográfica, era radicalmente inovador. Basta olhar “O Sacrifício
de Isaac”, com
Abraão de faca na mão com o filho, Isaac, bem agarrado pelo pescoço e o anjo
salvador a chegar no último momento para impedir um infanticídio ditado pelo
amor e pela extrema obediência a Deus; ou “Judite decapitando Holofernes”, com a bela viúva Judite, tendo talvez
dormido com o general assírio Holofernes para salvar o povo, a decapitá-lo,
enquanto o general, embriagado, dorme e a criada observa, atenta, o magnicídio.
Tudo figuras que irrompem do breu, cruamente iluminadas.
As cenas evangélicas são ainda mais
fortes: a Flagelação
de Cristo, a Negação
de Pedro, Tomé tocando as chagas de Cristo, a Descida da Cruz, Os Discípulos de
Emaús. É difícil resistir ao apelo profundo, à beleza mística
que estas luzes e sombras, este claro-escuro, estes rostos de sofrimento ou
compaixão ou redenção nos trazem.
Já
o devíamos saber desde o
rei David, mas não
deixa de ser misterioso e desconcertante que um homem
de vida escandalosa venha a ser a porta para a espiritualidade e para a
contemplação da verdade, do mistério e dos mistérios, o supremo convite à
meditação. Antero de
Quental quando se define e define a condição humana como um “misto
infeliz de trevas e de brilho” parece
remeter-nos para o violento claro-escuro de Caravaggio – o fundo negro contra o
qual brilha a claridade, as trevas de onde a Luz resplandece, trevas que Deus
rompe e interrompe quando se faz Luz.
É um mistério, e o mistério –
ensinou-me a minha Mãe, sendo eu bem miúdo, mas inquietado pela dúvida – é a condição necessária da fé; se retirarmos o mistério da equação, ou
do mundo, pouco fica. Nada de mais misterioso do que este
mundo em que sempre se misturam trevas e brilho, mas que muitas vezes nos chega
só como Império do Mal, sem rasgos de claridade entre os escuros desastres da
guerra e outras cavalgadas apocalípticas que nos rodeiam. É, muitas vezes, como se o mundo fosse uma
grande Sexta-Feira Santa, com Cristo morto e ainda por ressuscitar e Deus Pai
entretido algures noutro sistema solar.
Isto
vê-se bem nas cenas da Paixão que Caravaggio retratou: começa na prisão
de Cristo no Horto das Oliveiras (Presa di Cristo nell’orto), um quadro
encomendado por Ciriaco Mattei, um
patrício romano também dono da “Ceia
em Emaús”. Na versão e imaginação de Caravaggio,
Judas beija Jesus, João está em fuga, à esquerda do quadro, Pedro ilumina a
cena e os soldados, equipados ao modo quinhentista, ali estão, com ar de
polícias de um normal e actual Estado de Direito. Dürer também desenhou a cena, mas de forma bem mais seca, à
luterana.
Que este artista aventureiro e de maus costumes, errante depois do crime por
Nápoles e pela ilha de Malta (onde conseguiu ser cavaleiro de Justiça
da Ordem, onde pintou “A
Decapitação de São João Baptista” e de onde teve depois de fugir) seja também o grande intérprete dos
momentos mais sagrados da paixão, morte e ressurreição de Cristo, não deve
surpreender-nos, a nós, cristãos.
A Paixão de Cristo
René
Girard, filósofo e pensador católico, francês expatriado nos Estados
Unidos, falou e escreveu muito sobre isto, saindo em defesa do filme de Mel
Gibson, A Paixão de Cristo, quando
o actor e realizador australiano foi acusado de antissemitismo e de excesso
de violência nas cenas do filme.
Para Girard, o ataque dos críticos, na América e no mundo, vinha de
“nunca ninguém ter filmado a Paixão com o realismo implacável de Gibson”. Este
realismo, para Girard, não era excessivamente cru; depois da “sacarina
hollywoodesca” do Jesus dos anos 50/60, loiro e de olhos azuis, mais ou menos
pairando incólume, e das réplicas ousadas e grotescas de alguns filmes religiosos,
a versão de Gibson, na sua violência realista, não podia deixar de perturbar. E
é interessante que, perante um coro escandalizado com a violência do filme,
Gibson tivesse citado os quadros realistas de Caravaggio como inspiradores das
suas cenas mais cruas e brutais.
A
Sexta-Feira Santa, o início do
tempo em que Cristo/Deus está morto, e em que, simbolicamente, as trevas tomam
conta do mundo, é, até à Ressurreição, um
tempo para meditarmos sobre a nossa condição. E essa
condição, além de presente na narrativa, às vezes esotérica, dos textos
teológicos, encontra-se também contada pelos grandes escritores e pelos grandes
artistas. Um deles é, sem dúvida, Caravaggio – apesar
da sua vida e costumes ou até talvez por causa deles. Vale a
pena olhar a Paixão – e outras histórias e memórias da Cristandade – pelos seus
olhos.
Maria Nunes: Excelente. JNP escolheu de uma
forma magistral escrever sobre Caravaggio, o homem da sombra e da luz, nesta
Páscoa. Obrigada. Isabel Almeida: Magnífico texto, obrigada. Boa Páscoa. Rui Lima: O Ocidente fez-se com estes génios
que mais nenhuma civilização teve, talvez esta consciência esteja a acontecer e
estará na origem do que vai acontecer em França , mais de 17.000 a-dul-tos e a-dolescentes
serão ba-ptizados no sábado à noite, durante a Vigília Pascal. Maria Cordes: Começar o dia com a leitura
deste texto, é começar muito bem. O dia, em que, em silêncio, esperamos pela
Ressurreição. Muito obrigada, JNP, gratidão, por sairmos da rasteirice diária,
e subirmos uns degraus na espiritualidade. Boa Páscoa. joão Melo: Alguém que escreve algo que
vai para além da espuma dos dias. Boa Páscoa! Manuel Magalhaes: Obrigado, Jaime, por este
belíssimo artigo que nos ajuda a viver melhor o sentido da enorme
espiritualidade da época Pascal… Santa Páscoa, amigo Jaime!!! Manuel Lisboa: Mais uma crónica muito interessante, além de ser sem dúvida pertinente
nesta época do ano. De facto, Caravaggio é um artista de grande inspiração, cru
na sua violência e ao mesmo tempo poético no conjunto das suas cenas - às vezes
as suas personagens dão-nos a sensação de serem esculpidas e não pintadas. Independentemente
da sua personalidade considerada perturbada e de uma vida muito controversa
conforme os seus coevos, está, sem qualquer dúvida, no panteão dos grandes
pintores.
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