domingo, 20 de abril de 2025

LUZ


É o que apetece referir após a leitura de textos como este, que são um convite a um conhecimento que, na falta de livros de pinturas específicos para o (re)conhecimento de casos e causas, a Internet ajuda a especificar e a exemplificar, em, por vezes, bastas abordagens, como neste caso de CARAVAGGIO. Uma bela lição sobre um belo tema, feita por um leccionador de excelência, na sua riqueza temática como na sua simplicidade expositiva, sem pretensão, mas sempre elegante e de sentido crítico. Tal é JAIME NOGUEIRA PINTO, que, longos anos, permaneça, como oficial de um nobre ofício, num país que tantos desses oficiais carece. 

Caravaggio: luz e sombra

É um mistério, e o mistério – ensinou-me a minha Mãe, sendo eu bem miúdo, mas inquietado pela dúvida – é a condição necessária da fé; se retirarmos o mistério da equação, ou do mundo, pouco fica.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 19 abr. 2025, 00:1823

Vi nestes últimos dias de Quaresma A Sombra de Caravaggio, um filme de Michele Placido, o mesmo Michel Placido que, nos anos 80, se tornou popular como o inspector Corrado Cattani, o herói de La Piovra, O Polvo, a longa série sobre a Máfia.

Esta fita de Placido realizador é a história de Michelangelo Merisi da Caravaggio, o grande pintor do Tardo-Renascimento e dos princípios do Barroco que nasceu em Milão em 1571 e morreu em condições misteriosas, próximo de Roma, em 18 de Julho de 1610.

Quem olhar a obra de Caravaggio não pode ficar indiferente ao que nela há de pioneiro, de revolucionário, de genial. E não é só o choque técnico do “tenebroso”, do “chiaroscuro”, o uso e abuso da cor que o identifica e que vai influenciar pintores espanhóis, como Ribera ou Velásquez, os holandeses da Escola de Utreque e até Rembrandt e Georges de La Tour. Não falando da sua discípula italiana, Artemisia Gentileschi.

Não é só isso, não é só a luz que faz com que um crítico e historiador de Arte venha escrever queé com Caravaggio que começa a pintura moderna”. Há também, na mais de meia centena de obras que nos deixou, um realismo e um naturalismo que se distinguem de outros modos de desenhar e de pintar a realidade e o sagrado. Porque, vivendo em Roma, cidade e terra sob soberania papal, com os cardeais oriundos das grandes famílias da Cidade Santa a darem papas à Igreja e a aristocracia e os ricos a encomendarem trabalho aos artistas, não é de estranhar que Caravaggio fosse sobretudo um pintor religioso, ou um pintor do sagrado.

Porém, nas suas obras religiosas, por força da liberdade e do realismo que o caracterizam, não se inibe de representar com audácia os corpos e as vestes de santos, santas e do próprio Cristo e da Virgem, ou de usar como modelos para as cenas bíblicas ou evangélicas vagabundos e mulheres da vida. De resto, Caravaggio tinha costumes dissolutos e uma sexualidade promíscua e pouco ortodoxa e uma vida privada (mas do conhecimento público) cheia de acidentes e incidentes violentos.

De qualquer forma, se olharmos os frescos de Giotto, ou as pinturas dos irmãos Pietro e Ambrogio Lorenzetti de Siena, ou a “Anunciação” de outro sienense, Simone Martini, percebemos melhor a “revolução caravaggiana”, a diferença abissal no modo e na substância que separa estes artistas medievais de Caravaggio.

Mas a intriga da fita de Placido volta-se, não tanto para a arte, mas mais para o retrato do artista enquanto homem. O papa Paulo V, nascido Camillo Borghese, dos Borghese também originários de Siena mas radicados em Roma, o Papa que governou a Igreja Católica entre 1605 e 1621, quer precisar melhor o retrato do pintor, depois de, em Maio de 1606, numa rixa, Caravaggio ter assassinado um tal Ranuccio Tomassoni. Para isso, Paulo V encarrega um familiar da Santa Sé, a “Sombra” (no filme, Louis Garrel), de fazer um inquérito completo sobre o artista fugido para Nápoles, a fim de tomar uma decisão. Como assassino, a Caravaggio, esperá-lo-ia a decapitação. 

A obra e o homem

É a este inquérito retrospectivo que vamos assistir no filme. O nó do problema é a perplexidade que aflige o Pontífice e o seu inquisidor ad hoc: como pode um pecador, e um pecador público, um homem de vida libertina, produzir quadros tão belos sobre o Bem e o Mal e retratar tão extraordinariamente Cristo e a Virgem? E, mais do que isso, produzir quadros tão espirituais, no seu realismo? E como pôde ele ousar recorrer a mulheres de má vida e a vagabundos para representar a Mãe de Deus e o próprio Cristo?

Não esqueçamos que, nesta aurora do Barroco, o realismo na pintura bíblica, o extremo naturalismo de uma pintura quase fotográfica, era radicalmente inovador. Basta olhar O Sacrifício de Isaac”, com Abraão de faca na mão com o filho, Isaac, bem agarrado pelo pescoço e o anjo salvador a chegar no último momento para impedir um infanticídio ditado pelo amor e pela extrema obediência a Deus; ouJudite decapitando Holofernes”, com a bela viúva Judite, tendo talvez dormido com o general assírio Holofernes para salvar o povo, a decapitá-lo, enquanto o general, embriagado, dorme e a criada observa, atenta, o magnicídio. Tudo figuras que irrompem do breu, cruamente iluminadas.

As cenas evangélicas são ainda mais fortes: a Flagelação de Cristo, a Negação de Pedro, Tomé tocando as chagas de Cristo, a Descida da Cruz, Os Discípulos de Emaús. É difícil resistir ao apelo profundo, à beleza mística que estas luzes e sombras, este claro-escuro, estes rostos de sofrimento ou compaixão ou redenção nos trazem.

Já o devíamos saber desde o rei David, mas não deixa de ser misterioso e desconcertante que um homem de vida escandalosa venha a ser a porta para a espiritualidade e para a contemplação da verdade, do mistério e dos mistérios, o supremo convite à meditação. Antero de Quental quando se define e define a condição humana como um “misto infeliz de trevas e de brilhoparece remeter-nos para o violento claro-escuro de Caravaggio – o fundo negro contra o qual brilha a claridade, as trevas de onde a Luz resplandece, trevas que Deus rompe e interrompe quando se faz Luz.

É um mistério, e o mistério – ensinou-me a minha Mãe, sendo eu bem miúdo, mas inquietado pela dúvida é a condição necessária da fé; se retirarmos o mistério da equação, ou do mundo, pouco fica. Nada de mais misterioso do que este mundo em que sempre se misturam trevas e brilho, mas que muitas vezes nos chega só como Império do Mal, sem rasgos de claridade entre os escuros desastres da guerra e outras cavalgadas apocalípticas que nos rodeiam. É, muitas vezes, como se o mundo fosse uma grande Sexta-Feira Santa, com Cristo morto e ainda por ressuscitar e Deus Pai entretido algures noutro sistema solar.

Isto vê-se bem nas cenas da Paixão que Caravaggio retratou: começa na prisão de Cristo no Horto das Oliveiras (Presa di Cristo nell’orto), um quadro encomendado por Ciriaco Mattei, um patrício romano também dono da “Ceia em Emaús”. Na versão e imaginação de Caravaggio, Judas beija Jesus, João está em fuga, à esquerda do quadro, Pedro ilumina a cena e os soldados, equipados ao modo quinhentista, ali estão, com ar de polícias de um normal e actual Estado de Direito. Dürer também desenhou a cena, mas de forma bem mais seca, à luterana.

Que este artista aventureiro e de maus costumes, errante depois do crime por Nápoles e pela ilha de Malta (onde conseguiu ser cavaleiro de Justiça da Ordem, onde pintou “A Decapitação de São João Baptistae de onde teve depois de fugir) seja também o grande intérprete dos momentos mais sagrados da paixão, morte e ressurreição de Cristo, não deve surpreender-nos, a nós, cristãos.

A Paixão de Cristo

René Girard, filósofo e pensador católico, francês expatriado nos Estados Unidos, falou e escreveu muito sobre isto, saindo em defesa do filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo, quando o actor e realizador australiano foi acusado de antissemitismo e de excesso de violência nas cenas do filme.

Para Girard, o ataque dos críticos, na América e no mundo, vinha de “nunca ninguém ter filmado a Paixão com o realismo implacável de Gibson”. Este realismo, para Girard, não era excessivamente cru; depois da “sacarina hollywoodesca” do Jesus dos anos 50/60, loiro e de olhos azuis, mais ou menos pairando incólume, e das réplicas ousadas e grotescas de alguns filmes religiosos, a versão de Gibson, na sua violência realista, não podia deixar de perturbar. E é interessante que, perante um coro escandalizado com a violência do filme, Gibson tivesse citado os quadros realistas de Caravaggio como inspiradores das suas cenas mais cruas e brutais.

A Sexta-Feira Santa, o início do tempo em que Cristo/Deus está morto, e em que, simbolicamente, as trevas tomam conta do mundo, é, até à Ressurreição, um tempo para meditarmos sobre a nossa condição. E essa condição, além de presente na narrativa, às vezes esotérica, dos textos teológicos, encontra-se também contada pelos grandes escritores e pelos grandes artistas. Um deles é, sem dúvida, Caravaggio – apesar da sua vida e costumes ou até talvez por causa deles. Vale a pena olhar a Paixão – e outras histórias e memórias da Cristandade – pelos seus olhos.

PÁSCOA       SOCIEDADE

Maria Nunes: Excelente. JNP escolheu de uma forma magistral escrever sobre Caravaggio, o homem da sombra e da luz, nesta Páscoa. Obrigada.                Isabel Almeida: Magnífico texto, obrigada. Boa Páscoa.                    Rui Lima: O Ocidente fez-se com estes génios que mais nenhuma civilização teve, talvez esta consciência esteja a acontecer e estará na origem do que vai acontecer em França , mais de 17.000 a-dul-tos e a-do­les­cen­tes serão ba-pti­za­dos no sábado à noite, durante a Vigí­lia Pas­cal.                Maria Cordes: Começar o dia com a leitura deste texto, é começar muito bem. O dia, em que, em silêncio, esperamos pela Ressurreição. Muito obrigada, JNP, gratidão, por sairmos da rasteirice diária, e subirmos uns degraus na espiritualidade. Boa Páscoa.                joão Melo: Alguém que escreve algo que vai para além da espuma dos dias. Boa Páscoa!             Manuel Magalhaes: Obrigado, Jaime, por este belíssimo artigo que nos ajuda a viver melhor o sentido da enorme espiritualidade da época Pascal… Santa Páscoa, amigo Jaime!!!           Manuel Lisboa: Mais uma crónica muito interessante, além de ser sem dúvida pertinente nesta época do ano. De facto, Caravaggio é um artista de grande inspiração, cru na sua violência e ao mesmo tempo poético no conjunto das suas cenas - às vezes as suas personagens dão-nos a sensação de serem esculpidas e não pintadas. Independentemente da sua personalidade considerada perturbada e de uma vida muito controversa conforme os seus coevos, está, sem qualquer dúvida, no panteão dos grandes pintores.

Nenhum comentário: