De acordo com o desenvolvimento cultural
e tecnológico, este último, quantas vezes causa da irredutibilidade da mudança,
embora se costume afirmar também que estamos cada vez mais na mesma, o que será
positivo, pois o excesso mutacional poderia redundar em catástrofe – que também
as há, as catástrofes, mas nunca, afinal, a título definitivo – esperemos. Haverá
sempre um Noé a escapar, para o recomeço.
Mas, como também escreveu Miguel Torga, a dar-nos esperança na modéstia
interventiva neste mundo, que se diz ser de Cristo:
"A
vida é feita de nadas:
De
grandes serras paradas
À
espera de movimento;
De
searas onduladas
Pelo
vento;
De
casas de moradia
Caiadas
e com sinais
De
ninhos que outrora havia
Nos
beirais;
De
poeira;
De
sombra duma figueira;
De ver
esta maravilha:
Meu
Pai a erguer uma videira
Como
uma mãe que faz a trança à filha."
Percepções e ameaças
Se a maioria da população sentir que
os recursos se tornam escassos e recear o futuro, com a certeza de que os seus
descendentes vão ter vidas piores, torna-se menos capaz de superar a dimensão
tribal
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 28
abr. 2025, 00:181
1A torre de Babel
Uma das mais fascinantes histórias do
Livro do Génesis é aquela que descreve a origem da diversidade dos povos e das
línguas. Quando, após o
dilúvio, os homens se propuseram construir uma torre “cujo cimo atinja os céus”
(Gn 11, 4), o Senhor desceu e confundiu “de tal modo a linguagem
deles que não [conseguiam] compreender-se uns aos outros” (Gn 11, 7),
levando a que a construção da cidade fosse suspensa.
São apontadas diferentes
interpretações para estas linhas: teria
sido um castigo pela tentativa de escapar a dilúvios futuros que o Senhor tinha
prometido que não se repetiriam (Gn
9, 11)? Ou seria uma
lição divina para que os homens aprendessem que há limites para os seus projectos
(Gn 11, 6)? Ou
será apenas uma narrativa etiológica para justificar a existência de diferentes
povos e diferentes línguas?
A verdade é que Deus tinha dito a Noé e seus
filhos: “sede fecundos
e multiplicai-vos; espalhai-vos pela Terra e multiplicai-vos sobre ela” (Gn 9, 7) e isso não seria possível se se
mantivessem reunidos na mesma cidade.
É a incompreensão que resulta
das diferentes línguas que os faz abandonar a cidade de Babel e dispersar
por toda a Terra. Pieter
Brueghel, o Velho, A Torre de Babel (séc. XXI)
Com a dispersão multiplicam-se também as
figuras divinas, até ao “nascimento” do monoteísmo bíblico, como o Pe. Francisco Martins descreve em
A Bíblia tinha mesmo razão?. Mas
esse povo escolhido que torna Yahvé o único Deus verdadeiro assenta numa
identidade étnica e geográfica que só aos poucos se vai transformar:
“é
no contacto com a cultura grega e, em larga medida, graças a um processo de sinergia cultural que a ideia de pertença ao povo de Israel,
isto é, de ser “judeu”, vai superar o horizonte meramente geográfico ou
genealógico.”
A universalidade da mensagem cristã,
que na Nova Aliança “restabelece no Pentecostes a
unidade de linguagem que se tinha desfeito com Babel” (At 2) e que São Paulo
concretizou, acontece assim num contexto cultural e político muito distinto: após
Alexandre e o domínio macedónio, no contexto de uma filosofia moral grega de
cariz essencialmente universalista e em pleno império romano. Terá estado,
nesse sentido, a fecundidade da mensagem cristã dependente do contexto de
expansão cultural e Pax Romana?
2A hipótese contratualista
O
argumento que Jonathan Haidt apresenta em A mente justa, e que visitamos aqui
e aqui,
pode ser lido em harmonia com os
textos sagrados. A natureza humana predispõe-nos a uma
vivência em grupo, pois só dessa forma podemos assegurar a sobrevivência e
multiplicar-nos. Mas tal não
significa que estamos condenados ao conflito – pelo contrário, se as
circunstâncias forem favoráveis, podemos encontrar formas de reconhecer a nossa
humanidade comum e estabelecer uma língua comum de cooperação.
O
contexto assume, assim, uma relevância fundamental, que pode ser pensada a partir das teorias contratualistas de Thomas Hobbes
e John Locke. De acordo
com estas teorias, a legitimidade do estado deve ser entendida como um contrato
estabelecido entre os membros da comunidade ou com o governo por forma a criar
um estado civil capaz de superar os problemas do estado natural. Dessa forma, o contrato social diz-nos,
acima de tudo, que o governo
é necessário: considerando a natureza humana, é necessário algum tipo de
autoridade para regular as relações entre os homens.
O tipo de poder político, estado
civil ou governo que resulta
desse contrato vai depender do modo como descrevemos o estado de natureza:
Hobbes imagina homens sujeitos a paixões como o
lucro e a glória e em permanente competição por recursos escassos (o filósofo
viveu o conturbado período da guerra civil inglesa); já Locke imagina um mundo criado por Deus com recursos
abundantes para todos (é o período de maior força da colonização britânica). As consequências
são evidentes: o estado de natureza de Hobbes é um estado de permanente desconfiança
e conflito (é o estado de guerra de todos contra
todos) pelo que o Soberano terá de gozar de um poder absoluto sobre os seus
súbditos; já o
estado de Locke é tendencialmente pacífico, com os indivíduos a serem
incentivados a trabalhar a terra disponível e a cooperar para enriquecer, pelo
que bastará um governo limitado para manter a ordem e a segurança.
O que podemos retirar da hipótese
contratualista destes dois autores? Embora não se debruce sobre a natureza
humana como Hobbes faz no capítulo
XIII de Leviatã, Locke não tem uma visão optimista quanto aos impulsos
naturais do homem. Não é isso que diferencia os dois autores.
O que os distingue é que eles contemplam o comportamento humano e a necessidade
de governo em contextos distintos: quando percepcionamos
o nosso contexto como de abundância de recursos, então há espaço para
sociedades civis mais cooperantes e o poder político pode ser mais reduzido
(Locke); mas se percepcionamos o contexto como de
escassez, entramos em modo de competição e tornamo-nos mais desconfiados, pelo
que é necessário um poder mais forte (Hobbes).
Nesse
sentido, o triunfo
das ideias liberais não teria
resultado por serem mais racionais – triunfaram porque o contexto ocidental era
de confiança no futuro e de promessa de prosperidade. A exploração
de novos territórios e o desenvolvimento tecnológico prometido pelas revoluções
científicas e industriais permitiram que a linguagem liberal de universalidade
e globalização se pudesse afirmar. Mas basta que as circunstâncias se
alterem para que o lobo hobbesiano espreite – como aconteceu, aliás, nos tempos recentes de pandemia.
3Percepções e crises
Como vimos,
a obsessão com factos (mesmo
que sob a forma de legos) não permite ganhar debates políticos. Os militantes dos factos até podem
sentir-se moralmente melhores no final, mas revelam uma incompreensão profunda
da natureza humana. Não evoluímos para nos tornarmos cientistas em busca da
verdade – temos, antes, mentes morais, que respondem a percepções e
narrativas. E somos particularmente sensíveis ao contexto.
Compreender os tempos políticos actuais
e a mobilização das populações contra a imigração – apesar de todos os factos –
exige que tenhamos em conta o contexto. Se
as populações percepcionarem as suas circunstâncias como de prosperidade, crescimento económico e
sucesso reprodutivo, tornam-se
mais abertas à mensagem universalista – e a serem cooperantes até para com
aqueles que estão fora do grupo. Foi o que aconteceu nos
trinta anos gloriosos na Europa e durante décadas nos Estados Unidos. Mas
se a maioria da população sentir que os recursos se tornam escassos e recear o
futuro, com a certeza de que os seus descendentes vão ter vidas piores, torna-se menos capaz de superar a dimensão tribal.
Ora, o que tem vindo a
acontecer na Europa é, precisamente, a afluência de quatro factores que
concorrem de forma dramática para despertar o nosso lado mais hobbesiano.
Por um lado, as últimas décadas têm
sido marcadas por um reduzido crescimento económico e uma expectativa
desfavorável em relação ao futuro (como,
aliás, o Relatório Draghi fez notar). Yascha Mounk e Ivan Krastev
discutem a esse propósito sobre o suave declínio da Europa, sempre com a ameaça
da China como pano de fundo.
De facto, a
irrelevância da economia europeia e o marasmo dos líderes europeus geram um contexto de angústia
generalizada que é difícil de ignorar e que é agravada pela ameaça militar
russa que, real ou idealizada, continua presente no imaginário, sobretudo, do
centro da Europa.
Em terceiro lugar, importa notar como
as últimas décadas têm sido marcadas por um discurso público de catástrofe
ambiental, centrado na ideia de que os recursos estão a acabar, de que o
capitalismo não é a solução e de que temos de aprender a viver com menos. Este discurso, embora possa ser legítimo,
activa inevitavelmente o mecanismo de protecção e sobrevivência – e,
por isso, não deixa de ser espantoso que os amantes dos factos não percebam a
contradição em dizer, simultaneamente, “não há planeta B” e “os imigrantes são
necessários”. Se o fim está
próximo, os despojos não serão partilhados com o outro grupo: não é essa a
nossa natureza.
Por último, importa considerar o
processo que conduziu as sociedades actuais a uma crise demográfica sem
precedentes entre os indígenas europeus, que têm optado (por diversas
razões) pela não reprodução. Mas se o nosso grupo se reproduz pouco,
isso significa que os outros grupos (os que se reproduzem mais) passam a ser
vistos como uma ameaça. Mais
uma vez, o modo de sobrevivência é activado e dizer que a salvação está nos
outros não resolve o problema – agrava-o.
O futuro da Europa depende, assim, de
uma elite política mais sábia: mais capaz de compreender o contexto, mais
interessada em conhecer a natureza humana e mais preocupada em resolver os
problemas das populações do que em tentar criar um homem novo.
EUROPA MUNDO FUTURO TECNOLOGIA
COMENTÁRIOS
Ludovicus: De facto T. Hobbes não podia ser optimista em relação
à natureza humana depois de assistir à matança que ocorreu na 1ª metade do sec.
XVII na Inglaterra. E, daí não acreditar ser possível conciliar a segurança com
a liberdade. Já J. Locke atingiu a idade adulta com a paz de Westfália. Não viu
horrores. Será que antes de optarmos por um voto num partido, tipo opção por
clube de futebol, devíamos optar (ou não) pelo optimismo de J. Locke? Será que um dia teremos que optar entre liberdade ou
segurança? Obrigado por me obrigar a "cavar fundo".
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