Já há muito tempo que penetrou no mundo,
não sei mesmo se inteiro, graças ao seu excesso populacional e à sua sabedoria
ancestral de povo habituado a essa postura de insinuação, eficiente embora reservada,
pelo menos os chineses patronos das lojas das minhas compras próximas, sempre sem
fazerem ondas nem erguerem a voz, numa indiferença postiça e eficiência
reservada. Com o telemóvel para a comunicação com os seus, de longe, o olhar
apagado mas educado com os clientes, que fingem ignorar, talvez olhando de viés,
bem industriados pelos seus próprios mandatários da distância. A China é a
solução dela própria, penetrante e sempre sem fazer ondas, pese embora as
relações superiores dos seus chefes, com os chefes dos outros povos, e lembro,
a propósito, o Putin mais o Xi atentos e respeitadores entre si, segundo a
transparência televisiva, não sei se veneradores também, e obrigados por preceito.
Veremos como se vai cozinhar o futuro europeu, com as tais reviravoltas de um
Trump de esgares e caprichos menos discretos, à maneira ocidental, com o alarde
próprio do menino rico, vaidoso de si, mesmo sem ter motivos para tal, na sua
postura absurda.
Para a União Europeia, a China não é a solução
As opções da UE não são entre os EUA
e a China. São entre acordos comerciais com os Estados Unidos e,
simultaneamente, protecção da China. E ainda acabar com as barreiras comerciais
dentro da Europa.
JOÃO MARQUES DE ALMEIDA Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 18
abr. 2025, 00:2030
Na Europa, há quem defenda
que a União Europeia deve aproximar-se da China para
responder à política comercial agressiva dos Estados Unidos. Duvido muito que
isso possa acontecer. Alguns líderes europeus poderão ir a Pequim, haverá em
Julho uma Cimeira entre a EU e a China, mas essas iniciativas constituem muito
mais uma pressão política sobre a administração Trump do que uma aproximação
real a Pequim.
Antes
de defender a aproximação da UE à China, convém olhar para os factos. Assumindo que haverá um corte radical
entre os EUA e a China em termos económicos e comerciais, é verdade que a UE
será o fiel da balança. Durante
a Guerra Fria (outro exemplo de um mundo bipolar), a partir dos anos
de 1970, as economias dos países não-alinhados
valiam cerca de 18% do PIB mundial e cerca de 14% do comércio global. Hoje,
se excluirmos as economias americana e chinesa, as economias do resto do mundo
valem cerca de 44% do PIB global e cerca de 64% do comércio mundial. A grande diferença é a União Europeia. Durante a Guerra Fria, estava ao lado dos EUA.
Hoje, a União Europeia vale um pouco mais de 15% do PIB mundial e quase 15% do
comércio global. A UE tem o segundo maior PIB mundial (a
seguir aos EUA, e ligeiramente à frente da China), e é a terceira maior
potência comercial do mundo (juntando o total de exportações com o total de
importações) depois dos EUA e da China. A
UE tem assim uma posição global que lhe dá poder negocial quer com os EUA, como
com a China.
Há, no entanto, uma razão muito forte
para a União Europeia não se aproximar da China. Se o nível das tarifas entre americanos e chineses
continuar a este nível, a China terá que escoar uma grande parte sua produção
industrial para outras economias desenvolvidas, ou seja a UE. De acordo com cálculos recentes da
Comissão Europeia, se a China exportasse para a Europa 1/3 dos bens
que estariam destinados ao mercado norte americano, o déficit comercial da UE
em relação à China aumentaria cerca de 70%, ultrapassando os 400 mil milhões de
euros. As
capitais europeias não vão permitir que isso aconteça. Pelo contrário, a guerra
comercial entre os EUA e a China pode forçar a UE a impor tarifas às
importações chinesas.
Mas
este é o problema a curto prazo. Além disso, a médio, longo prazo, a
China representa uma ameaça industrial para a Alemanha e a União Europeia. O
modelo económico chinês é semelhante ao alemão e ao europeu: produção de bens industriais de qualidade para exportar para outros
mercados. Com o desenvolvimento tecnológico da última década, as
indústrias chinesas competem directamente com as europeias, e com custos de
produção bem menores. Dito de uma maneira fácil e simples, a China
passou de ser um dos maiores mercados para as exportações europeias e passou a
ser o maior competidor industrial da Europa.
Por
isso, o Comissário para o Comércio, Sfecovic, tem proposto aos americanos um
acordo comercial para ambas as economias se protegerem da sobreprodução industrial chinesa. As opções
da UE não são entre os EUA e a China. São entre acordos comerciais com os
Estados Unidos e, simultaneamente, protecção da China; ou tarifas altas com
americanos e chineses, procura por novos mercados e acabar com as barreiras
comerciais dentro da União Europeia. O
ideal seria, obviamente, acordos comerciais com os EUA, com outros mercados
(como o Mercosul e a Índia), e fim das barreiras comerciais no mercado único.
Mas isso talvez seja pedir demais aos governos europeus.
PRESIDENTE
TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO COMÉRCIO ECONOMIA UNIÃO
EUROPEIA EUROPA CHINA
COMENTÁRIOS (de 30)
Rui Lima: Isto da China é o ódio da esquerda europeia aos USA
com Trump ou sem Trump. A China defende o livre comércio mas nunca o praticou por medo de
represálias, ninguém divulga as muitas histórias, a China obrigava e exigia
joint ventures (parcerias obrigatórias) com empresas chinesas para copiar o
saber das empresas (não conto uma história do TGV ou melhor da empresa francesa Alstom
porque me obrigaria a várias páginas. Mas lembro o percurso chinês do grupo Carrefour: entrou na China em 1995 e,
por um tempo, foi a principal empresa na distribuição, foi obrigada a operar
com um sócio local por causa das restrições legais impostas pelo governo
chinês. Em 2019 foi obrigada a sair, perdeu muito dinheiro. Carrefour investiu
centenas de milhões de euros para se expandir na China, abrindo centenas de
lojas físicas, a venda foi feita por um valor simbólico a um grupo chinês. A China apenas utiliza o livre comércio como
arma de expansão. Albino
Mendes:Já há muito tempo (2 décadas pelo menos) que a Europa
devia ter taxado os produtos chineses. As condições de produção na China, não
têm regras absolutamente nenhumas, e não é esse tipo de regraa laborais que a
"santa e omnipotente" 😉 europa defende. Tim do A: Artigo muito esclarecido. É
claro que a China é muito mais ameaça à economia do Ocidente. Basta ver as
regras desleais de concorrência entre os dois blocos que prejudica sobremaneira
o Ocidente. Só que esta UE fraca e de líderes muito fracos é bem capaz de se
virar para a China. Esperemos que não...
Mario Figueiredo: Que acordos com os Estados Unidos são esses? Eles
exigem que quase dupliquemos as importações, e que aumentemos substancialmente
a importação de energia, o que a tornaria muito mais cara aqui na Europa. Se
não é para sermos inundados pelo China, seríamos pelos Estados Unidos. e teríamos
que então passar a impor tarifas à China, ao arrepio das regras da OMC, para
contrabalançar as novas importações americanos. Qual é o seu plano, JMA, para
além do que já disse (que é nada)? Naturalmente que a China é um adversário da
Europa. Mas neste momento os Estados Unidos não lhe ficam em nada atrás.
Parece-me mais razoável negociar com ambos e forçar, pelo peso da economia, os
Estados Unidos a mostrarem a sua mão e negociarem nos nossos termos, não nos
deles. Para isso é preciso continuar a criar pressão e não ceder ao primeiro
sinal de alarme, apenas porque "a china é má". Neste momento, os
Estados Unidos são piores, e nem sabemos quando tempo isto vai durar. Este é o
momento da Europa mostrar força. Raramente temos essa oportunidade. Filipe
Paes de Vasconcellos: Enquanto houver concorrência desleal e descarada da China face ao mercado
europeu e a OMC viver noutro planeta, a China vai continuar a “sarfar a onda” e
tomar conta do mundo livre, o Ocidente. O que acabo de referir tem muito a ver com o populismo que se instalou no
mundo ocidental onde ainda incluo os EUA. A globalização foi e é muito
importante porque como se costuma dizer tirou muitos milhões de pessoas da
miséria. Mas, e há sempre um mas, a globalização fez com que os países que não
estavam “bem instalados na vida “ se “fizessem à vida” e começassem numa
concorrência absolutamente desleal, enquanto os “bem instalados “ andavam? bem?
sentados no seu sucesso, criando, também eles, batalhões de novos pobres no
Ocidente, o que veio a provocar com isso uma radicalização fortíssima no mundo
livre, porque não eram pobres, mas passaram a sê-lo, o que dói muito mais. Dois exemplos da falta de
competitividade dos EUA: 1. trump, com letra pequena,
queixa-se que a Europa não lhes compra carros, quando deveria saber que só um
tonto se poderá interessar por um bacamarte daqueles a consumir 30 litros de
gasolina. 2. Tenho um frigorífico da GE,
e soube que deixaram de exportar para a UE porque em vez de a sua indústria se
actualizar tornando-se, eles, competitivos , decidiram não o fazer, passando a
vender, exportar , para o México e outros mercados onde não precisavam de
investir na modernização da sua indústria. E agora queixam-se que a Europa foi
“muito má” para eles. Ruço
Cascais: Votos de um bom feriado e de um robalinho escalado para o almoço com duas
ou três batatinhas assadas e uns brócolos cozidos. Para ajudar à digestão um
copito de tinto da região do Dão, só um, que hoje não é dia de festejos. Faltam dois pontos essenciais
às trocas comerciais que podem ser factores de alteração: imprevisibilidade
e inovação. Na imprevisibilidade o surgimento de uma guerra, a lutada ou a económica, e
a fome como resultado podem alterar o comércio mundial. Sociedades que trocam o
factor consumista por um prato de arroz. Já aconteceu, pode voltar a acontecer.
Em 1980 tinha uns ténis e dois ou três pares de sapatos. O sapateiro local
consertava o buraco na sola com meias soltas para o sapato durar mais tempo e
evitar comprar outros. Hoje, tenho sapatos e ténis, principalmente ténis que
precisavam de viver duas vidas para os gastar. Roupas aos montes, óculos de sol
que enchem uma gaveta, roupa de desporto para fazer exercício 24 sobre 24 horas
sem parar, phones, telemóveis, tablets, relógios, país natal, enfeites para o
dia das bruxas, 10 tipos de pão e muita, mas mesmo muita diversidade de alimentos
e suplementos alimentícios, numa casa com vegans, vegetarianos, carnívoros e
sanduicheiros. A juntar a tudo isto ainda temos bicicletas, trotinetes e dois
carros porque o cão também conduz. Somos uma sociedade consumista. Há poucos anos, uma guerra
comercial incidia sobre dois ou três produtos essenciais; energias,
combustível, pão (Trigo) e especiarias como sal ou açúcar. Hoje tudo mudou.
Numa sociedade consumista as dependências são muito maiores, incomparavelmente
maiores. A pedagogia para uma austeridade no consumo pode destruir o comércio da
China sem a necessidade de tarifas. Mas aí aparece outro factor; a inovação.
Por falar em pedagogia para o consumo, os povos nórdicos, mais ricos do que os
do sul, são muito menos consumistas que a malta cá de baixo e na maioria das
vezes consomem apenas o estritamente essencial. A inovação também obriga ao
consumo. O que virá a seguir aos telemóveis? Nada, dirão as vistas mais curtas
em relação ao futuro. Muita coisa dirão os futuristas. A nanotecnologia, tecnologia à
escala do átomo, dominará num futuro breve e irá alterar a atual noção que
temos de telemóvel. Estradas magnéticas e carros que voam poderão alterar
definitivamente a atual noção de automóvel. A grande inovação obriga ao
consumo, venha essa inovação de onde vier. Imaginem armaduras que fazem os
paraplégicos andarem ou chips que aumenten as nossas capacidades intelectuais
em 100%. Não há como escapar aos novos consumos. Na saúde o
rejuvenescimento será sempre uma inovação que desperta o consumo venha ela de
onde vier. Na verdade não são os países que consomem, são as pessoas. Somos
exageradamente consumistas. Boas imitações de malas a 5 euros obrigam as
mulheres a comprar 5 ou 6 malas mesmo que não precise de nenhuma. Idem em
soluções enganosas de aumento peniano para os homens. Os socialistas (PS) apostam na
criação de riqueza através do consumo interno. Uma política, na minha
opinião, totalmente errada numa altura como a actual de guerras comerciais.
Está na altura da pedagogia para uma austeridade consumo. Os tempos pedem
apenas o essencial. Chegou o tempo de poupar. Imprevisibilidade e inovação podem
alterar qualquer plano de futuras parcerias. A luta pela reconquista da Lua
será muito interessante e poderá colocar a China na liderança tecnológica do
planeta. Os americanos querem lá voltar breve. Os chineses querem lá chegar antes
dos americanos neste século. Coxinho: Metam-se com a China... e
depois não se queixem. Manuel
Magalhaes: Problemas, problemas… a Europa (incluindo o UK) ou se assume como potência
de facto… mas como??? 27 países são também um problema… Carlos Real: O problema e mesmo o dos
ideais, ou seja, eu gostaria muito que a UE não se tornasse um vassalo da
China. Também adorava que Portugal aproveitasse a sua zona marítima. Queria que
não houvesse barracas e que não fôssemos totalmente dependentes do turismo. Apenas
acredito na realidade e não no Pai Natal. A Europa não consegue ter uma empresa
do século 21. Até nos automóveis vamos assistir à invasão amarela. Não temos
nem economia, nem defesa, nem dinheiro, nem politicas para fazer face as super
potências. Veja-se os portos portugueses e europeus a serem comprados pelos
asiáticos. Com a América a fechar-se, a Europa vai vender para onde? Já sei,
são os PALOPs a salvação. Em alternativa, o Magrebe, aqui tão perto. Venha o
haxixe, que nós trocamos por portas abertas dos perseguidos politicamente das
ditaduras/monarquias amigas. madalena
colaço: No texto da
semana passada JMA chamava socialista a Trump pelas tarifas agora impostas ao
mundo. No entanto no programa contrapoder, referiu que a Europa teria que pôr
tarifas aos produtos chineses. Assim, para JMA, a Europa é também
socialista? Os USA não podem pôr tarifas para se defenderem das importações
chinesas, mas a Europa terá que o fazer, caso contrário fica sem indústria. Não
entendo os dois pesos e as duas medidas. As trocas comerciais caracterizam-se
pela troca de um bem por outro. No séc XIX, a título de exemplo, Portugal
exportava vinho do Porto para Inglaterra e importava têxteis. A ruptura dá-se
em 1971, quando Nixon acabou com o padrão ouro, os 35 dólares por uma onça
acabava, porque à época era necessário imprimir dinheiro para financiar a
guerra do Vietname. Há cerca de 30 anos, os EUA importam bens vindos da
China e entregam-lhes notas de dólares que imprimem, pois já não produzem
produtos para exportar. Assim, os americanos tornaram-se nos consumidores
do mundo e a China a utilizar os dólares que recebia das exportações para
comprar dívida americana. O desequilíbrio é tal que Trump viu-se perante uma
dívida colossal, 36 mil milhões de milhões de dólares. Ouvi ontem um economista
dizer na TV que a economia dos EUA, até Trump chegar, estava óptima. Com esta
dívida? É evidente,
como diz JMA, que a China tem de escoar esses produtos para outros zonas
geográficas, e se escoar uma parte para a Europa é a desgraça. E é este, para
além da demografia, um dos calcanhares de Aquiles da economia chinesa. Desde
2016 que Xi pretende substituir as exportações por consumo interno. Com uma
população envelhecida e com as famílias a continuarem com a política de filho
único, agora como opção, a China depara-se com um problema de consumo interno.
Está dependente das exportações, e se as quiser enviar para a Europa, esta tem
de pôr tarifas, para não liquidar o que resta da nossa indústria. Quem
comerciar com a China será cilindrado, pois há assimetrias nas trocas
comerciais, como salários, controlo cambial ...Mas a China não é apanhada de
surpresa, há muito que prepara o futuro, e a forma de reciclar os dólares que
tem em reserva, vai passar por Hong Kong, cujo dólar é indexado ao dólar
americano, o que vai permitir que esta seja o próximo hub financeiro, destronando
Wall Street. Maria
Tubucci: Nem mais Sr. JMA. Agora com a guerra das
tarifas entre o USA e os chineses, estes têm de escoar a produção para algum
lado. Para a India, são uns caloteiros não lhes pagam, para os Africanos e
América no Sul, não têm poder de compra, só resta a Europa. Se inundarem a
Europa com o excesso de produção rebentam com o resto da indústria europeia.
Querem ver que daqui a 1 mês a UE estará a subir as tarifas aos chineses,
fazendo exactamente o mesmo que DTrump!? Cuidado,
os Chineses não pensam como nós, nem trabalham como nós, é uma mentalidade
completamente diferente da nossa. Além disso, os regimes democráticos não podem
confiar cegamente em regimes totalitários, a relação não é de igual para igual,
mas sim com um batoteiro que dobra as regras a seu favor. A UE ou se comporta e
actua como uma potência económica protegendo os seus, ou é comida viva pelos
Chineses. Se adoptar uma atitude serviçal face à China e fizer más escolhas,
cujas consequência provoquem a destruição do poder económico dos europeus,
estes jamais perdoarão as suas elites. Aliás, será a prova provada que as
elites da UE são corruptas.
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