sexta-feira, 25 de abril de 2025

Um texto pedagógico


De leitura escolar obrigatória.

«O Património Cultural dos Oceanos»

Lisboa, cidade das Rotas da Seda

Lisboa ganhou dimensão mundial quando o país cumpriu a vocação universalista pelos Descobrimentos. Elo de ligação entre a Europa e a Ásia, a cidade nunca mais perdeu esse cosmopolitismo

JOÃO PAULO OLIVEIRA E COSTA Professor catedrático do departamento de História da NOVA/FCSH e titular da Cátedra Unesco

OBSERVADOR, 24 abr. 2025, 00:169

Falar sobre as Rotas da Seda remete-nos, em regra, para paisagens inóspitas da Ásia Central e para a circulação de caravanas compostas por camelos bem carregados de mercadorias e os seus condutores, mais um punhado de viajantes, principalmente os mercadores, mas também aventureiros das mais variadas espécies – gente que circula entre oásis ou estações de muda, que enfrenta desertos e trilhos montanhosos, e que vigia o horizonte sempre temerosa do aparecimento de grupos hostis. Independentemente de a visão ser mais ou menos romanceada, falamos de redes de contactos que funcionam há milhares de anos e que possibilitaram a circulação de objectos, mas também de tecnologias e de ideias à escala euroasiática.

A seda, cuja produção foi um segredo dos chineses durante milénios, podia ser usada por uma mulher romana em Olissipo, junto ao Tejo, há 2.000 anos, embora sejam raríssimas as referências a contactos directos entre chineses e romanos. No sentido contrário ao movimento dos rolos de seda, este eixo de comunicação possibilitou, por exemplo, a chegada dos carros de combate à China, há mais de 3.500 anos. As Rotas da Seda foram também responsáveis pela circulação de ideias religiosas; e a aparição quase simultânea do Confucionismo na China e do Budismo na Índia pode sugerir alguma contaminação, que se repetiu quando boa parte da ética budista foi assimilada à Boa Nova do Evangelho. O Budismo e o Cristianismo chegaram às portas da China também por esses trilhos, calcorreados por sucessivas gerações, inclusive por viajantes famosos como Marco Polo.

As aventuras deste veneziano ajudam a compreender a maior amplitude deste sistema de comunicação, pois aos trilhos terrestres de desertos e montanhas, acrescentaram-se desde há dois mil anos, rotas marítimas complementares, que possibilitaram a integração do Japão nestes circuitos e o desenvolvimento de comércio marítimo entre a China e a Índia. Os Chineses, aliás, chegaram à costa oriental africana, nos séculos XIV e XV, e Marco Polo regressou à Europa, a bordo de um navio que o levou de Cantão até ao Golfo Pérsico. No final do século XV, a cristandade tinha pouco acesso a este sistema, por estar cercada a Leste pelos mongóis e pelos otomanos, e as especiarias e os tecidos eram obtidos a preços exorbitantes nos portos do Mediterrâneo Oriental, onde predominava como intermediária a Senhoria de Veneza.

Porcelana chinesa da Sala das Porcelanas do Palácio de Santos (foto MNAA).

Os portugueses furaram este bloqueio ao criar a Rota do Cabo, em 1499. Veneza aliou-se aos potentados muçulmanos na luta inicial contra os portugueses no Sul da Índia, precisamente por não querer perder o monopólio de que desfrutava, mas os seus intentos foram derrotados e a Senhoria perdeu grande parte do seu fulgor. A nova rota criada pelos portugueses está associada quase exclusivamente ao comércio das especiarias, mas, de facto, tornou-se desde a primeira hora num novo segmento das Rotas da Seda e Lisboa foi durante mais de cem anos o principal entreposto europeu desses circuitos euro-afro-asiáticos.

Embora os porões das naus da Índia transportassem inicialmente uma carga composta sobretudo por especiarias, também carregavam outros produtos em que se inclui, desde o início, a porcelana chinesa, que D. Manuel I transformou rapidamente em presente diplomático, aproveitando o seu exotismo. Ao contrário das sedas transportadas pelos camelos e das especiarias carregadas pelos navios dos mercadores muçulmanos, a porcelana abundava no Índico, mas não chegava ao Mediterrâneo. As naus portuguesas eram navios de grande porte e tinham capacidade para transportar cargas muito maiores do que as que fluíam para o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, pelo que inúmeros produtos afro-asiáticos foram embarcados com as especiarias: tapetes persas, pérolas e joias, peças de marfim, cuja matéria-prima era obtida em África, lacas e porcelanas, mais os animais, desde os pequenos até aos majestosos elefantes e ao grande e desconhecido rinoceronte. Com o tempo foram acrescentados outros como os leques, os biombos, armas variadas ou as pedras bezoares. Um conjunto de produtos que o mercado europeu absorveu avidamente, pela sua inexistência até aí, e que proporcionou, por exemplo, a organização das célebres câmaras de maravilhas, numa primitiva musealização do exótico.

No sentido contrário, objectos como as armas de fogo, os livros impressos, as cadeiras, diversas peças de vestuário, mais uma série de tradições culinárias e religiosas derramavam-se sobre o mundo afro-asiático e influenciavam estilos artísticos, enquanto as ideias e os próprios objectos ganhavam novas formas, fruto da intervenção dos artífices locais. Além destes objectos, em regra, também seguiam ouro e prata para a Ásia, repetindo o movimento milenar que já havia exaurido os cofres do Império Romano a troco de especiarias, tecidos finos e perfumes. Agora era o metal obtido na América que tinha como destino final o sorvedouro asiático, especialmente, como sempre, o mercado chinês. O intercâmbio não se resumia à ligação entre a Europa e a Ásia, pois foi no século XVI que o coco, oriundo da Índia, começou a pontilhar a linha costeira da América Atlântica e que o caju, oriundo da América do Sul, começou a ser plantado na Índia.

Embora o foco mercantil inicial fosse o comércio das especiarias, a Rota do Cabo cedo começou a renovar os seus negócios, pois, por meados do século XVI, já metade da carga dos navios que partiam para Lisboa era composta por porcelana, a que pouco depois se acrescentou o comércio em larga escala de mobiliário dito indo-português e de arte sacra em marfim, sem esquecer os tapetes persas e as pedras preciosas e pérolas, em bruto ou em joias. As naus transportavam então produtos das mais variadas partes da Ásia, desde a Pérsia até ao Japão. No sentido contrário, os produtos saídos de Lisboa também não ficavam na Índia e espalhavam-se por todo o continente asiático. Podemos dizer, por isso, com total segurança, que a Rota do Cabo, que ligava a Índia a Portugal tinha exactamente as mesmas características comerciais e culturais dos outros circuitos considerados como integrando as Rotas da Seda.

Rota marítima com partida de Macau e escala em Goa (carta de Athanasius Kircher, Amesterdão 1667).

Assim, a partir de 1499, Lisboa foi grande porto europeu das Rotas da Seda – a placa giratória onde os produtos europeus se concentravam para seguir para a Ásia e de onde os produtos asiáticos irradiavam para toda a Europa. Os arqueólogos têm encontrado grandes quantidades de porcelana em contextos lisboetas do final do século XVI, sendo evidente que essa mercadoria, então rara no resto da Europa, já se deitava para o lixo quando se quebrava, por ser facilmente substituível. Viajantes que descrevem a Lisboa dos séculos XVII e XVIII referem a quantidade excepcional de seda que se via, o que se compreende se nos lembrarmos de que Macau era o único entreposto europeu na costa da China.

Ao funcionar como o elo entre a Europa e a Ásia, Lisboa pôde apresentar animais desconhecidos como sucedeu no caso do rinoceronte, que no mesmo ano em que chegou à cidade, foi divulgado por todo o Velho Continente pelo desenho que Albrecht Dürer imprimiu em Viena.

Lisboa também tinha a capacidade de reinterpretar objectos desconhecidos, como foi o caso do leque. Oriundo do Japão, comercializado inicialmente pelos comerciantes das ilhas Ryukyu, que os portugueses designavam Léquias, o leque era um objecto masculino, usado pelos grandes senhores da guerra, cortesãos e superiores religiosos, mas, ao chegar a Lisboa ganhou o apreço da rainha D. Catarina e da Infanta D. Maria, tendo esta sido retratada com um leque muito antes da célebre dama do leque de Velasquez. Quadros franceses dos anos de 1580 mostram que, nessa altura, já damas da alta sociedade usavam leques e que nenhum homem os empunhava, pelo que a mudança de género do objecto estava consumada.

No século XVI, afluíam a Lisboa produtos de todas as partes do mundo e a cidade nunca mais perdeu esse cosmopolitismo. Esta vocação lisboeta para ser uma dobradiça do mundo já transparecia quando o garum de sabor mediterrânico fluía para as cidades atlânticas do Império Romano, desenvolveu-se quando o reino de Portugal se tornou na zona de apoio ao comércio europeu desde a Escandinávia até à Grécia, e ganhou dimensão mundial quando o país cumpriu a sua vocação universalista pelos Descobrimentos.

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COMENTÁRIOS (DE 9)

José Martins de Carvalho >Uiros Ueramos: Não vislumbro em que o autor mostra ser "pro-China", nem que o artigo fale em "vassalagem", nem a chineses, nem a outros. Leia bem, e deixe de inventar tolices.

Carlos Frederico Bettencourt: Excelente artigo a ilustrar a história do império português.

 

 

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