De leitura escolar obrigatória.
«O Património Cultural dos Oceanos»
Lisboa, cidade das Rotas da Seda
Lisboa ganhou dimensão mundial quando
o país cumpriu a vocação universalista pelos Descobrimentos. Elo de ligação
entre a Europa e a Ásia, a cidade nunca mais perdeu esse cosmopolitismo
JOÃO PAULO OLIVEIRA E COSTA Professor catedrático do departamento de
História da NOVA/FCSH e titular da Cátedra Unesco
OBSERVADOR, 24 abr. 2025, 00:169
Falar sobre as Rotas da Seda remete-nos, em regra, para paisagens inóspitas da Ásia Central e
para a circulação de caravanas compostas por camelos bem carregados de
mercadorias e os seus condutores, mais um punhado de viajantes, principalmente
os mercadores, mas também aventureiros das mais variadas espécies – gente
que circula entre oásis ou estações de muda, que enfrenta desertos e trilhos
montanhosos, e que vigia o horizonte sempre temerosa do aparecimento de grupos
hostis. Independentemente de a visão ser mais ou
menos romanceada, falamos de redes de contactos que funcionam há milhares de
anos e que possibilitaram a circulação de objectos, mas também de tecnologias e
de ideias à escala euroasiática.
A
seda, cuja produção foi um segredo dos
chineses durante milénios, podia ser usada por uma mulher romana em Olissipo,
junto ao Tejo, há 2.000 anos, embora sejam raríssimas as referências a
contactos directos entre chineses e romanos. No
sentido contrário ao movimento
dos rolos de seda,
este eixo de comunicação possibilitou, por exemplo, a chegada dos carros
de combate à China, há mais de 3.500 anos. As Rotas da Seda foram também responsáveis pela circulação
de ideias religiosas; e a aparição
quase simultânea do Confucionismo
na China e do
Budismo na Índia pode sugerir alguma contaminação, que se
repetiu quando boa parte da ética budista foi assimilada à Boa Nova
do Evangelho. O Budismo e o Cristianismo chegaram às portas da China também por esses
trilhos, calcorreados por sucessivas gerações, inclusive por viajantes famosos
como Marco Polo.
As aventuras deste veneziano
ajudam a compreender a maior amplitude deste sistema de comunicação, pois aos
trilhos terrestres de desertos e montanhas, acrescentaram-se desde há dois mil
anos, rotas marítimas complementares, que possibilitaram a integração do Japão
nestes circuitos e o desenvolvimento de comércio marítimo entre a China e a
Índia. Os Chineses, aliás,
chegaram à costa
oriental africana, nos séculos XIV e XV, e Marco Polo regressou à Europa, a
bordo de um navio que o levou de Cantão até ao Golfo Pérsico. No
final do século XV, a cristandade tinha pouco acesso a este sistema, por estar
cercada a Leste pelos mongóis e pelos otomanos, e as especiarias e os tecidos
eram obtidos a preços exorbitantes nos portos do Mediterrâneo Oriental, onde
predominava como intermediária a Senhoria de Veneza.
Porcelana chinesa da Sala das Porcelanas
do Palácio de Santos (foto MNAA).
Os portugueses furaram este bloqueio
ao criar a Rota do Cabo, em 1499. Veneza
aliou-se aos potentados muçulmanos na luta inicial contra os portugueses
no Sul da Índia, precisamente por não querer perder o monopólio de que
desfrutava, mas os seus intentos foram derrotados e a Senhoria perdeu grande
parte do seu fulgor. A nova rota criada pelos portugueses está associada
quase exclusivamente ao comércio das
especiarias, mas, de facto,
tornou-se desde a primeira hora num novo segmento das Rotas da Seda e Lisboa
foi durante mais de cem anos o principal entreposto europeu desses circuitos
euro-afro-asiáticos.
Embora
os porões das naus da Índia transportassem inicialmente uma carga composta
sobretudo por especiarias, também
carregavam outros produtos em que se inclui, desde o início, a porcelana
chinesa, que D.
Manuel I transformou rapidamente em presente diplomático, aproveitando o seu
exotismo. Ao contrário das
sedas transportadas pelos camelos e das especiarias carregadas pelos navios dos
mercadores muçulmanos, a
porcelana abundava no Índico, mas não chegava ao Mediterrâneo. As naus portuguesas eram navios de grande
porte e tinham capacidade para transportar cargas muito maiores do que as que
fluíam para o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, pelo que inúmeros produtos
afro-asiáticos foram embarcados com as especiarias: tapetes
persas, pérolas e joias, peças de marfim, cuja matéria-prima era obtida em
África, lacas e porcelanas, mais os animais, desde os pequenos até aos
majestosos elefantes e ao grande e desconhecido rinoceronte. Com o tempo foram acrescentados outros como
os leques, os biombos, armas variadas ou
as pedras bezoares. Um conjunto
de produtos que o mercado europeu absorveu avidamente, pela sua inexistência
até aí, e que proporcionou, por exemplo, a organização das célebres câmaras de
maravilhas, numa primitiva musealização do exótico.
No sentido contrário, objectos como as armas de fogo, os livros impressos,
as cadeiras, diversas peças de vestuário, mais uma série de tradições
culinárias e religiosas derramavam-se sobre o mundo afro-asiático e
influenciavam estilos artísticos, enquanto as ideias e os próprios objectos
ganhavam novas formas, fruto da intervenção dos artífices locais. Além destes objectos, em regra, também
seguiam ouro e
prata para a
Ásia, repetindo o movimento milenar que já havia exaurido os
cofres do Império Romano a troco de especiarias, tecidos finos e perfumes. Agora era
o metal obtido na América que tinha como destino final o sorvedouro asiático,
especialmente, como sempre, o mercado chinês.
O intercâmbio não se resumia à ligação entre a Europa e a Ásia, pois foi no
século XVI que o coco,
oriundo da Índia, começou a pontilhar a linha costeira da América Atlântica e
que o caju,
oriundo da América do Sul, começou a ser plantado na Índia.
Embora o foco mercantil inicial
fosse o comércio das especiarias, a Rota do Cabo cedo
começou a renovar os seus negócios, pois, por meados do século XVI, já metade
da carga dos navios que partiam para Lisboa era composta por porcelana,
a que pouco depois se acrescentou o comércio em larga escala de mobiliário dito indo-português e de
arte sacra em marfim, sem
esquecer os tapetes persas e as pedras preciosas e pérolas, em bruto ou
em joias. As naus transportavam então produtos das mais variadas partes da Ásia, desde
a Pérsia até ao Japão. No sentido contrário, os produtos saídos de Lisboa
também não ficavam na Índia e espalhavam-se por todo o continente asiático. Podemos
dizer, por isso, com total segurança, que a Rota do Cabo, que ligava a Índia a Portugal tinha exactamente as mesmas
características comerciais e culturais dos outros circuitos considerados como
integrando as Rotas da Seda.
Rota marítima com partida de Macau e
escala em Goa (carta de Athanasius Kircher, Amesterdão 1667).
Assim, a partir de 1499, Lisboa foi grande porto europeu das Rotas da
Seda – a placa giratória onde os produtos europeus se concentravam para seguir
para a Ásia e de onde os produtos asiáticos irradiavam para toda a Europa. Os arqueólogos têm encontrado grandes
quantidades de porcelana em contextos lisboetas do final do século XVI, sendo
evidente que essa mercadoria, então rara no resto da Europa, já se deitava para
o lixo quando se quebrava, por ser facilmente substituível. Viajantes que descrevem a Lisboa dos
séculos XVII e XVIII referem a quantidade excepcional de seda que se
via, o que se compreende se nos lembrarmos de que Macau era o único entreposto europeu na
costa da China.
Ao funcionar como o elo entre a Europa e
a Ásia, Lisboa pôde apresentar animais desconhecidos como
sucedeu no caso do rinoceronte, que no mesmo ano em que chegou à
cidade, foi divulgado por todo o Velho Continente pelo desenho que Albrecht Dürer imprimiu em Viena.
Lisboa também tinha a capacidade de
reinterpretar objectos desconhecidos, como foi o caso do leque. Oriundo do Japão,
comercializado inicialmente pelos comerciantes das ilhas Ryukyu, que os portugueses designavam Léquias, o leque
era um objecto masculino, usado pelos
grandes senhores da guerra, cortesãos e superiores religiosos, mas, ao
chegar a Lisboa ganhou o apreço da rainha D. Catarina e da Infanta D. Maria,
tendo esta sido retratada com um leque muito antes da célebre dama do leque de
Velasquez. Quadros franceses dos anos de 1580 mostram que,
nessa altura, já damas da alta sociedade usavam leques e que nenhum homem os
empunhava, pelo que a mudança de género do objecto estava consumada.
No século XVI, afluíam a Lisboa
produtos de todas as partes do mundo e a cidade nunca mais perdeu esse
cosmopolitismo. Esta vocação lisboeta para ser uma dobradiça do mundo
já transparecia quando o garum de sabor mediterrânico fluía para as
cidades atlânticas do Império Romano, desenvolveu-se quando o reino de Portugal
se tornou na zona de apoio ao comércio europeu desde a Escandinávia até à
Grécia, e ganhou dimensão mundial quando
o país cumpriu a sua vocação universalista pelos Descobrimentos.
PORTUGAL 900 ANOS HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (DE 9)
José Martins de Carvalho >Uiros Ueramos: Não vislumbro em que o autor mostra ser
"pro-China", nem que o artigo fale em "vassalagem", nem a
chineses, nem a outros. Leia bem, e deixe de inventar tolices.
Carlos Frederico Bettencourt: Excelente artigo a ilustrar a história do império
português.
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