O RECUO DE TRUMP
Nas tais tarifas.
De EDGAR CAETANO: «O banqueiro, a China, os republicanos ou o
"castelo de cartas" no mercado de dívida. Quem fez Trump recuar nas tarifas?»
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ÍNDICE
(Terá a China dinamitado o (alegado)
plano de Trump ao “despejar” obrigações dos EUA no mercado?
“As pessoas estavam a ficar
ansiosas”. Mercado de dívida esteve à beira de catástrofe?)
(Um dos banqueiros mais poderosos do
mundo falou (e disse que recessão era “provável”)
Um dos banqueiros mais poderosos do
mundo falou (e disse que recessão era “provável”)
As primeiras justificações dadas por
Donald Trump para a decisão de suspender as tarifas (a todos menos à China, a
quem as agravou) foram relacionadas com as tensões no mercado de obrigações. Mas o Presidente dos EUA optou por
referir, também, o facto de ter visto uma entrevista na Fox News ao
líder de um dos maiores bancos dos EUA (e do mundo), o JPMorgan Chase.
O timing da entrevista ao banqueiro
terá sido decisivo para que Trump cedesse à pressão. Aos
olhos deste banqueiro, uma recessão
económica tinha passado a ser a consequência “mais provável” da guerra
tarifária iniciada por Donald Trump. “Ouço isso de toda a gente, por estes dias… ‘vou cortar um pouco [nos
investimentos], vou esperar para ver o que acontece'”, afirmou Jamie
Dimon, acrescentando que “isto é o tipo de discurso que se ouve nas recessões“.
Trump admitiu que aquilo que
ouviu nessa entrevista foi importante.
“Ouvi o Jamie
Dimon, esta manhã na Fox, a dizer que algo tinha de ser feito…“,
comentou o Presidente dos EUA minutos depois de anunciar a suspensão das
tarifas que fez as bolsas dispararem entre 9% e 12% na recta final da sessão de
quarta-feira.
▲Entrevista de Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, terá sido decisiva
para Trump suspender as tarifas. WILL OLIVER/EPA
(Índice)
Jamie Dimon não foi a única voz influente nos mercados financeiros
a avisar Trump de
que tinha de inverter o rumo dos acontecimentos. Larry
Summers, antigo secretário do Tesouro de Bill Clinton e conselheiro económico
de Barack Obama, avisou que
os movimentos nos mercados financeiros levavam-no a acreditar que os EUA poderiam estar “a caminho de uma
crise financeira grave, totalmente induzida pela política tarifária da
administração norte-americana”.
A
opção de Trump – por uma “pausa” de 90 dias – acabou por coincidir com aquilo
que tinha recomendado Bill
Ackman, outro
magnata de Wall Street que tem estado muito interventivo nesta crise. Ackman foi um acérrimo apoiante da eleição de
Donald Trump e é fundador e presidente da Pershing Square Capital Management, uma das principais firmas de investimento nos EUA (e
um hedge fund que poderá, como outros, estar envolvido no chamado basis
trade).
Para
Bill Ackman, se Trump não suspendesse as tarifas, o risco seria
que a economia
dos EUA entrasse numa espécie de “inverno nuclear, auto-induzido” – além disso, muito crítico, o investidor alertava que
Trump estava a “perder a confiança dos líderes empresariais em todo o
mundo“.
De acordo
com a Bloomberg, em
Wall Street ninguém tem dúvidas: estas intervenções de figuras como Jamie Dimon e Bill Ackman foram determinantes para levar Donald Trump a virar o jogo, numa altura em que a crise
nos mercados de obrigações (e de acções) se aprofundava e também o dólar estava
a perder valor face às principais divisas.
Esse é um acontecimento raro já que o
dólar é outro activo para onde, tipicamente, os investidores se refugiam em
momentos de incerteza. A descida do dólar, que supera os 3% desde o início do
mês (em média, face às principais rivais), mostra que “o mercado está rapidamente a desdolarizar-se“, escreveu George Saravelos, um analista do
mercado cambial do Deutsche Bank numa nota publicada na quarta-feira de manhã.
“Estamos
a testemunhar um colapso
simultâneo nos preços de todos os activos norte-americanos, incluindo as acções, o dólar… e o mercado
obrigacionista”, afirmou o especialista do Deutsche Bank, acrescentando que “o
mercado [estava] a perder a confiança nos activos norte-americanos“.
Na
terça-feira, um leilão de dívida pública norte-americana (com prazo a três
anos) atraiu uma procura relativamente baixa. E, na quarta-feira, um
leilão de dívida a 10 anos teve procura sólida mas foi sobretudo conseguido
graças às compras feitas por investidores mais oportunistas – e a proporção de
títulos comprados por bancos e fundos de investimento foi uma das mais baixas
de sempre.
A persuasão do secretário do Tesouro
(que terá estado perto de se demitir) e as brechas que se abriram entre os
republicanos
Apesar de os especialistas considerarem,
de forma unânime, que Trump
avançou com a “pausa” nas tarifas devido aos movimentos nos mercados e à
intervenção dos banqueiros, terão contribuído também razões políticas. Já no final da semana passada, um analista do banco holandês ING, James
Knightley, tinha
avisado que “os resultados das recentes eleições para o Congresso da Flórida e
para o Supremo Tribunal do estado do Wisconsin foram um tiro de aviso”, com os republicanos a vencerem na Flórida mas a perderem boa parte da
maioria que tinham.
“O
Presidente Trump estará, certamente, atento ao calendário eleitoral”, dizia
James Knightley, acrescentando, numa referência às midterms previstas para novembro de 2026, que “quanto mais sofrimento económico o país enfrentar, mais
provável é que os democratas sintam que podem reconquistar o controlo da Câmara
dos Representantes nas eleições intercalares do próximo ano”.
Trump
“pode continuar a apostar que grandes cortes de impostos para 2026 lhe darão o
impulso necessário para levar o seu partido para a frente, e pode apontar os
anúncios de repatriamento industrial como ‘grandes vitórias’”. “No
entanto”, afirmava o economista do ING, “isso pouco fará para atenuar os
receios de curto prazo relacionados com a
queda do produto económico, aumento
do desemprego, inflação elevada e mercados financeiros em stress“.
Os republicanos do Congresso também
vinham expressando um cepticismo
cada vez maior em relação
às políticas de Trump, em muitos casos depois de terem sido contactados por
empresários dos respectivos estados pelos quais foram eleitos.
Tendo
o cuidado de não atribuir ao próprio Trump a autoria destas políticas, aqueles
republicanos que ousaram criticar as tarifas fizeram-no de forma indirecta, dando a entender que o Presidente poderia estar a
ser mal aconselhado: “De quem é que é o pescoço que eu vou apertar se
isto se revelar um erro?“, perguntou
o senador republicano Thom Tillis.
Quando a “pausa” foi anunciada, houve
republicanos que aplaudiram e “sorriram muito”, revelou o senador Mike Rounds,
um republicano da Dakota do Sul, citado pela Associated Press.
▲ Scott Bessent, secretário do Tesouro de
Trump, é um veterano dos mercados que terá sensibilizado o Presidente dos EUA
para mudar a estratégia. Bloomberg
via Getty Images
(Índice)
Depois das fortes quedas nos mercados de
acções nos últimos dois dias da semana passada – e quando a pressão começou a
subir sobre os Treasuries, a indisponibilidade demonstrada por Trump para mudar
de política (“eu sei o que raio estou a
fazer”, disse, a dada altura) fazia temer uma “segunda-feira negra”
nos mercados.
Foi aí que, segundo o The New York Times, o
secretário do Tesouro de Trump – que tem as funções de um ministro das Finanças
–, Scott Bessent decidiu voar
até à Flórida para ter uma audiência em privado com o Presidente. Trump passou o fim de semana a jogar
golfe no seu resort de Mar-a-Lago, mas Bessent foi ao seu encontro para o
avisar de que os mercados iriam abrir dali a umas horas e os contactos de
Bessent em Wall Street tinham-lhe indicado que a abertura iria ser uma
verdadeira sangria.
Bessent, um veterano dos mercados que,
segundo a revista New Republic, estava cada vez mais isolado na Casa
Branca e à beira de pedir a demissão, apanhou boleia do Air Force One, ao lado
de Trump, e ter-lhe-á dito que devia focar-se naquilo que queria que fosse o
resultado-último das suas políticas: o
objectivo era garantir que os EUA e os seus cidadãos beneficiavam de acordos
comerciais mais justos e não era do interesse de ninguém que os mercados
financeiros caíssem ainda mais. E
aconselhou Trump a focar-se na China e, em contraste, abrir mais os braços aos
países aliados, que estavam a mostrar disponibilidade para negociar – entre os
quais a União Europeia e o Japão.
A partir desse momento, Trump
passou a pôr mais a tónica na negociação – embora apenas com aqueles países que
tivessem a iniciativa de pedir para negociar com ele uma eliminação ou redução
das tarifas aplicadas no dia 2 de abril.
Minutos
após a decisão anunciada por Trump, Scott Bessent apareceu, ao lado da principal porta-voz da Casa Branca, a responder a
perguntas dos jornalistas sobre este recuo do Presidente. E o secretário do Tesouro, publicamente,
contou uma história diferente: “este foi, desde o início, o plano de
Trump“, afirmou,
elogiando a “coragem” que o Presidente tinha tido para esperar até ao momento
em que tivesse conquistado “a melhor posição negocial possível” na negociação
com os outros países.
Ao
seu lado, a
porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, corroborou a narrativa de que todo este processo foi o resultado de
Trump ser um génio dos negócios:
“Muitos de vocês, nos jornais, talvez não tenham lido ‘A arte do negócio‘” [um
livro escrito por
Donald Trump] – por isso não perceberam aquilo que o Presidente Trump está a
fazer aqui“.
Apesar do recuo de Trump, que levou a
ganhos de 9% no S&P500 e de 12% no tecnológico Nasdaq Composite, a bolsa
norte-americana voltou esta quinta-feira a negociar com fortes perdas,
superiores a 6% a meio da sessão nova-iorquina.
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