quarta-feira, 16 de abril de 2025

CONCLUSÃO DO TEXTO ANTERIOR:

 

O RECUO DE TRUMP

Nas tais tarifas.

De EDGAR CAETANO: «O banqueiro, a China, os republicanos ou o "castelo de cartas" no mercado de dívida. Quem fez Trump recuar nas tarifas?»

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ÍNDICE

(Terá a China dinamitado o (alegado) plano de Trump ao “despejar” obrigações dos EUA no mercado?

“As pessoas estavam a ficar ansiosas”. Mercado de dívida esteve à beira de catástrofe?)

(Um dos banqueiros mais poderosos do mundo falou (e disse que recessão era “provável”)

A persuasão do secretário do Tesouro (que terá estado perto de se demitir) e as brechas que se abriram entre os republicanos)

 

Um dos banqueiros mais poderosos do mundo falou (e disse que recessão era “provável”)

As primeiras justificações dadas por Donald Trump para a decisão de suspender as tarifas (a todos menos à China, a quem as agravou) foram relacionadas com as tensões no mercado de obrigações. Mas o Presidente dos EUA optou por referir, também, o facto de ter visto uma entrevista na Fox News ao líder de um dos maiores bancos dos EUA (e do mundo), o JPMorgan Chase.

O timing da entrevista ao banqueiro terá sido decisivo para que Trump cedesse à pressão. Aos olhos deste banqueiro, uma recessão económica tinha passado a ser a consequência “mais provável da guerra tarifária iniciada por Donald Trump. “Ouço isso de toda a gente, por estes dias… ‘vou cortar um pouco [nos investimentos], vou esperar para ver o que acontece'”, afirmou Jamie Dimon, acrescentando que “isto é o tipo de discurso que se ouve nas recessões“.

Trump admitiu que aquilo que ouviu nessa entrevista foi importante. “Ouvi o Jamie Dimon, esta manhã na Fox, a dizer que algo tinha de ser feito…“, comentou o Presidente dos EUA minutos depois de anunciar a suspensão das tarifas que fez as bolsas dispararem entre 9% e 12% na recta final da sessão de quarta-feira.

Entrevista de Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, terá sido decisiva para Trump suspender as tarifas. WILL OLIVER/EPA

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Jamie Dimon não foi a única voz influente nos mercados financeiros a avisar Trump de que tinha de inverter o rumo dos acontecimentos. Larry Summers, antigo secretário do Tesouro de Bill Clinton e conselheiro económico de Barack Obama, avisou que os movimentos nos mercados financeiros levavam-no a acreditar que os EUA poderiam estar “a caminho de uma crise financeira grave, totalmente induzida pela política tarifária da administração norte-americana”.

A opção de Trump – por uma “pausa” de 90 dias – acabou por coincidir com aquilo que tinha recomendado Bill Ackman, outro magnata de Wall Street que tem estado muito interventivo nesta crise. Ackman foi um acérrimo apoiante da eleição de Donald Trump e é fundador e presidente da Pershing Square Capital Management, uma das principais firmas de investimento nos EUA (e um hedge fund que poderá, como outros, estar envolvido no chamado basis trade).

Para Bill Ackman, se Trump não suspendesse as tarifas, o risco seria que a economia dos EUA entrasse numa espécie de “inverno nuclear, auto-induzido” – além disso, muito crítico, o investidor alertava que Trump estava a “perder a confiança dos líderes empresariais em todo o mundo“.

De acordo com a Bloomberg, em Wall Street ninguém tem dúvidas: estas intervenções de figuras como Jamie Dimon e Bill Ackman foram determinantes para levar Donald Trump a virar o jogo, numa altura em que a crise nos mercados de obrigações (e de acções) se aprofundava e também o dólar estava a perder valor face às principais divisas.

Esse é um acontecimento raro já que o dólar é outro activo para onde, tipicamente, os investidores se refugiam em momentos de incerteza. A descida do dólar, que supera os 3% desde o início do mês (em média, face às principais rivais), mostra que “o mercado está rapidamente a desdolarizar-se“, escreveu George Saravelos, um analista do mercado cambial do Deutsche Bank numa nota publicada na quarta-feira de manhã.

“Estamos a testemunhar um colapso simultâneo nos preços de todos os activos norte-americanos, incluindo as acções, o dólar… e o mercado obrigacionista”, afirmou o especialista do Deutsche Bank, acrescentando que “o mercado [estava] a perder a confiança nos activos norte-americanos“.

Na terça-feira, um leilão de dívida pública norte-americana (com prazo a três anos) atraiu uma procura relativamente baixa. E, na quarta-feira, um leilão de dívida a 10 anos teve procura sólida mas foi sobretudo conseguido graças às compras feitas por investidores mais oportunistas – e a proporção de títulos comprados por bancos e fundos de investimento foi uma das mais baixas de sempre.

A persuasão do secretário do Tesouro (que terá estado perto de se demitir) e as brechas que se abriram entre os republicanos

Apesar de os especialistas considerarem, de forma unânime, que Trump avançou com a “pausa” nas tarifas devido aos movimentos nos mercados e à intervenção dos banqueiros, terão contribuído também razões políticas. Já no final da semana passada, um analista do banco holandês ING, James Knightley, tinha avisado que “os resultados das recentes eleições para o Congresso da Flórida e para o Supremo Tribunal do estado do Wisconsin foram um tiro de aviso”, com os republicanos a vencerem na Flórida mas a perderem boa parte da maioria que tinham.

 “O Presidente Trump estará, certamente, atento ao calendário eleitoral”, dizia James Knightley, acrescentando, numa referência às midterms previstas para novembro de 2026, que “quanto mais sofrimento económico o país enfrentar, mais provável é que os democratas sintam que podem reconquistar o controlo da Câmara dos Representantes nas eleições intercalares do próximo ano”.

Trump “pode continuar a apostar que grandes cortes de impostos para 2026 lhe darão o impulso necessário para levar o seu partido para a frente, e pode apontar os anúncios de repatriamento industrial como ‘grandes vitórias’”. “No entanto”, afirmava o economista do ING, “isso pouco fará para atenuar os receios de curto prazo relacionados com a queda do produto económico, aumento do desemprego, inflação elevada e mercados financeiros em stress“.

Os republicanos do Congresso também vinham expressando um cepticismo cada vez maior em relação às políticas de Trump, em muitos casos depois de terem sido contactados por empresários dos respectivos estados pelos quais foram eleitos.

Tendo o cuidado de não atribuir ao próprio Trump a autoria destas políticas, aqueles republicanos que ousaram criticar as tarifas fizeram-no de forma indirecta, dando a entender que o Presidente poderia estar a ser mal aconselhado: “De quem é que é o pescoço que eu vou apertar se isto se revelar um erro?“, perguntou o senador republicano Thom Tillis.

Quando a “pausa” foi anunciada, houve republicanos que aplaudiram e “sorriram muito”, revelou o senador Mike Rounds, um republicano da Dakota do Sul, citado pela Associated Press.

Scott Bessent, secretário do Tesouro de Trump, é um veterano dos mercados que terá sensibilizado o Presidente dos EUA para mudar a estratégia. Bloomberg via Getty Images

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Depois das fortes quedas nos mercados de acções nos últimos dois dias da semana passada – e quando a pressão começou a subir sobre os Treasuries, a indisponibilidade demonstrada por Trump para mudar de política (“eu sei o que raio estou a fazer”, disse, a dada altura) fazia temer uma “segunda-feira negra” nos mercados.

Foi aí que, segundo o The New York Times, o secretário do Tesouro de Trump – que tem as funções de um ministro das Finanças –, Scott Bessent decidiu voar até à Flórida para ter uma audiência em privado com o Presidente. Trump passou o fim de semana a jogar golfe no seu resort de Mar-a-Lago, mas Bessent foi ao seu encontro para o avisar de que os mercados iriam abrir dali a umas horas e os contactos de Bessent em Wall Street tinham-lhe indicado que a abertura iria ser uma verdadeira sangria.

Bessent, um veterano dos mercados que, segundo a revista New Republic, estava cada vez mais isolado na Casa Branca e à beira de pedir a demissão, apanhou boleia do Air Force One, ao lado de Trump, e ter-lhe-á dito que devia focar-se naquilo que queria que fosse o resultado-último das suas políticas: o objectivo era garantir que os EUA e os seus cidadãos beneficiavam de acordos comerciais mais justos e não era do interesse de ninguém que os mercados financeiros caíssem ainda mais. E aconselhou Trump a focar-se na China e, em contraste, abrir mais os braços aos países aliados, que estavam a mostrar disponibilidade para negociar – entre os quais a União Europeia e o Japão.

A partir desse momento, Trump passou a pôr mais a tónica na negociação – embora apenas com aqueles países que tivessem a iniciativa de pedir para negociar com ele uma eliminação ou redução das tarifas aplicadas no dia 2 de abril.

Minutos após a decisão anunciada por Trump, Scott Bessent apareceu, ao lado da principal porta-voz da Casa Branca, a responder a perguntas dos jornalistas sobre este recuo do Presidente. E o secretário do Tesouro, publicamente, contou uma história diferente:este foi, desde o início, o plano de Trump“, afirmou, elogiando a “coragem” que o Presidente tinha tido para esperar até ao momento em que tivesse conquistado “a melhor posição negocial possível” na negociação com os outros países.

Ao seu lado, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, corroborou a narrativa de que todo este processo foi o resultado de Trump ser um génio dos negócios: “Muitos de vocês, nos jornais, talvez não tenham lido ‘A arte do negócio‘” [um livro escrito por Donald Trump] – por isso não perceberam aquilo que o Presidente Trump está a fazer aqui“.

Apesar do recuo de Trump, que levou a ganhos de 9% no S&P500 e de 12% no tecnológico Nasdaq Composite, a bolsa norte-americana voltou esta quinta-feira a negociar com fortes perdas, superiores a 6% a meio da sessão nova-iorquina.

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