A dita sociedade, aquela de quem falam
os que dela não participam, porque lhes faltam as bases, a isso propícias, de
membros escorreitos, com idêntico porte, nas suas armas e bagagens
associativas. Os livros também falam disso, lembro especificamente o Óscar
Wilde, mas o Eça também se fartou de distinguir, em diversos grupos de amigos
que por vezes se desuniam, no acaso das perfídias ou outros jogos de encontros
e desencontros vivenciais. Como na vida real. Sociedade é um termo abstracto
que engloba muitas concretizações e mesmo descamba em associações, como informa
MIGUEL TAMEN, provavelmente olhadas com admiração ou mesmo inveja pelos não
participantes, geralmente de afazeres distintos – úteis ou mesmo daninhos que
sejam. Mas definitivamente à margem.
As Associações
A sociedade é como uma paisagem ou como um animal sem ajuda: causa
barulhos, parece ter coisas lá dentro, mas não sabe falar. A ajuda vem de
associações, onde se associam amigos da sociedade.
MIGUEL TAMEN, Colunista do
Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na
Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 20 abr. 2025, 00:17
Fala-se sem pensar em nome da
sociedade, e daquilo que parecem ser os seus órgãos sociais. Aquilo a que se chama sociedade não é
todavia uma associação. Não nos lembramos de como lá entrámos e não
saberíamos como sair dela. Não sendo
uma associação, a sociedade não tem órgãos sociais. Não tem membros,
e muito menos membros detentores de quotas. Ninguém controla a
sociedade, porque não é possível comprar uma quota maioritária; seria como
comprar acções do Olimpo ou partes da ponte do Rio Kwai.
Há não obstante pessoas que estudam o
que a sociedade pensa, acha e diz; e
pessoas que por inclinação explicam como se tornaram seus representantes,
apesar de a sociedade não ter órgãos sociais. Serão só feitios
singulares, e métodos poderosos de telepatia? Existe uma dificuldade manifesta. Com efeito, como não tem órgãos
sociais, a sociedade não tem representantes; e por isso não é capaz de achar,
decidir e dizer; a sociedade é como uma paisagem ou como um animal sem ajuda:
causa barulhos, parece ter coisas lá dentro, mas não sabe falar.
A ajuda vem de associações, onde se
associam amigos da sociedade. Quem fala da sociedade fala quase sempre em nome
dessas associações. Acha que sabe do que fala e tem possivelmente razão, porque
todas as associações têm um lado de associação de bairro. A maior parte tem membros, órgãos
sociais, festas anuais, e modos explícitos de escolha de membros; ou pelo menos modos implícitos de
considerar que certas pessoas, animais ou coisas nunca se podem tornar seus
membros. Esses modos e as
conclusões variam muito de associação para associação e de bairro para bairro.
Tornar-se membro de uma associação
requer uma combinação de coisas e acasos. Há assim muitos tipos
diferentes de associação: grandes, sem
ambições, entre vivos, para mortos, com animais, a pensar em quem pode vir a
nascer, e com o olho noutras associações. A
diferença mais relevante entre associações não é porém entre os vários tipos de
associação mas entre associações que não aceitam membros novos e outras que não
se importam, ou até gostam de os procurar activamente. Esta diferença provoca
grandes discussões entre membros de associações de todos os tipos.
Há por isso querelas em tribos ou certas
famílias que são iguais a conflitos de accionistas, congressos de físicos ou
sínodos episcopais. Acontece
durante essas querelas haver quem ache que não se devem admitir mais membros; e
quem ache como a entrada de novos membros é importante, mesmo que por acaso; e
acontece com o tempo a uma associação mudar várias vezes de ideias sobre
membros novos, embora para isso tenha de durar. As
associações que duram mais tempo costumam ser as que conseguem incorporar novos
membros; mas são também aquelas a quem a morte dos seus melhores membros afecta
menos. Requerem membros, mas não parecem precisar de ninguém em particular.
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