De se
saber viver: Amizade, curtição - dos de quem se fala: palermice americana – via
Trump, amante da lisonja russa, indústria russa, via Putin, sabedor – e curtidor
– disso, praticante em causa própria. Mas almas gémeas é o que eles revelam ser.
E o mundo aplaude, com delicadeza, este mundo nosso, embora advirta.
Os elogios, as prendas e a mesma visão "cínica" da ordem
internacional. Como Putin quer conquistar Trump
Presidente
russo faz elogios, promessas de acordos económicos e entrega prendas a Trump.
Os analistas dividem-se: há quem fale em "bajulação" e quem ache que
é um entendimento de "almas gémeas".
MADALENA MOREIRA
Texto
OBSERVADOR, 23
abr. 2025, 20:566
Índice
A
“bajulação” de Vladimir Putin, que muda a política anti-americana de Moscovo
A
Torre Trump e os acordos dos minerais e de exploração do Árctico: os incentivos
económicos
A
influência internacional russa: a aposta menos credível
“Cínicos,
delirantes e destrutivos”: o que aproxima Putin e Trump
Quando o enviado norte-americano
Steve Witkoff regressou de Moscovo, no final de março, trazia consigo uma prenda
do Presidente russo para Donald Trump: uma pintura do momento em que foi vítima de uma tentativa de
assassinato. Foi apenas a segunda vez que Witkoff se deslocou à
Rússia e a primeira que se encontrou frente a frente com Vladimir Putin. Este mês voltaram a reunir-se em São
Petersburgo e têm um terceiro encontro marcado para esta semana.
Apesar da frequência dos encontros e
dos relatos positivos de ambas as partes, estas negociações não se traduziram
no fim da guerra na Ucrânia. Em
vez disso, os diálogos têm-se focado principalmente na relação bilateral entre
Rússia e Estados Unidos e em como esta pode ser aprofundada, incluindo através
de parcerias económicas. Ao mesmo tempo, o Kremlin mantém uma
postura “graciosa” para uns, como Witkoff, ou “bajuladora”, segundo vários
críticos: entrega prendas (como o quadro do segundo encontro) faz elogios e
chama Trump de amigo.
Contudo, “a Rússia está a
fazer um bluff enorme”, argumenta Alexey Kovalev ao
Observador. Kovalev era editor de investigação do jornal russo Meduza
e, como muitos outros jornalistas independentes e críticos do Kremlin,
abandonou o país em 2022. Estes
profissionais parecem ser unânimes numa opinião: Vladimir
Putin não tem qualquer interesse real em pôr fim à guerra na Ucrânia. Em vez
disso, procura manter Donald Trump ocupado com outros temas, enquanto prolonga
os ataques militares. Kovalev
fala em “bluff“, pois afirma que a Rússia está a fazer promessas aos Estados
Unidos que não tenciona cumprir — tanto na questão da paz, como dos acordos
económicos.
"Qualquer que seja o efeito que [Putin e Trump] estão a ter um no
outro, está claramente a funcionar melhor para Putin, porque Trump está
fascinado com ele." Alexey Kovalev, jornalista independente russo no exílio
ÍNDICE
A estratégia parece estar a dar
resultados, tendo em conta que, apesar
das sucessivas tréguas que os Estados Unidos propuseram terem sido violadas,
Washington não impôs mais sanções, e norte-americanos e russos continuam a
encontrar-se. “Qualquer que seja o efeito que [Putin e
Trump] estão a ter um no outro, está claramente a funcionar melhor para Putin,
porque Trump está fascinado com ele”, argumenta Kovalev.
A “bajulação” de Vladimir Putin, que
muda a política anti-americana de Moscovo
“Putin tem uma visão: ele, um
Presidente norte-americano e um líder chinês sentados a uma mesa a dividir o
mundo. E Donald Trump é o único Presidente americano que encaixa nesta visão”. A imagem foi desenhada por outro jornalista
russo exilado, Mikhail Zygar, em entrevista à
CNN. Segundo
esta lógica, o grande desejo do Presidente russo é a reorganização da
ordem internacional. E Putin está a utilizar as negociações sobre a guerra na
Ucrânia para procurar chegar a esse objectivo maior.
Para
se assegurar que Donald Trump continua sentado à mesa, Vladimir Putin não
hesita em recorrer aos elogios. A estratégia já tinha sido utilizada
no passado, quando o Presidente russo repetiu
as declarações de Trump
de que as eleições norte-americanas de 2020 tinham sido manipuladas. Com o
regresso do republicano à Casa Branca, voltou a recorrer ao mesmo estratagema: “Não posso não concordar que se ele fosse
Presidente, se a sua vitória não tivesse sido roubada em 2020, talvez a crise
na Ucrânia em 2022 não tivesse acontecido”, afirmou, dias
depois da tomada de posse.
A postura lisonjeira manteve-se
quando se encontrou com Witkoff no final de maio. O conteúdo
da pintura oferecida nunca foi partilhado, mas um famoso artista russo relatou ter sido
contratado pelo Kremlin para retratar o Presidente norte-americano. O retrato final mostra Donald Trump depois
da tentativa de assassinato do verão passado, de punho erguido e com o rosto
coberto de sangue. O pintor afirmou ainda que Putin lhe agradeceu pessoalmente
por ter ajudado a melhorar as relações entre Washington e Moscovo com o seu
trabalho. No mesmo encontro, Putin garantiu a Witkoff que tinha
rezado por Trump depois dessa tentativa de assassinato.
“Toda a gente sabe que o Presidente dos
Estados Unidos é muito susceptível à lisonja e Putin excedeu-se“,
argumentou Carl Bildt, antigo primeiro-ministro da Suécia e actual director-adjunto
do European Council on Foreign Relations, num artigo de opinião publicado esta semana, em que elenca
estes vários exemplos.
▲
Putin entrega uma bola de
futebol a Trump durante a sua primeira administração ALEXEI NIKOLSKY / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA
(ÍNDICE)
Mas Putin não é o único a implementar esta estratégia: o seu círculo
próximo também se desdobra em elogios a Donald Trump. Esta
semana, Vladimir Medinsky, antigo ministro da Cultura e conselheiro do Kremlin,
anunciou que os livros escolares russos iam passar a
incluir “os esforços extraordinários da nova administração norte-americana em
resolver o conflito na Ucrânia”. “Aqui,
podemos dizer que Trump fez História”, rematou. Abbas Gallyamov, antigo
redator de discursos de Vladimir Putin, que se tornou crítico e se auto-exilou,
criticou a medida: “Vejam como as autoridades russas bajulam Trump sem
vergonha. Há um ano, estavam a pendurar estandartes em Moscovo com frases de Xi
Jinping e agora vão incluir Trump nos livros de História”, escreveu
no seu canal de
Telegram.
Kovalev
e Zygar mencionam igualmente como a aproximação a Trump representa uma mudança
abrupta na política russa, que, desde que Putin chegou ao poder (e também pela
herança soviética da Guerra Fria), tem sido marcada pelo anti-americanismo. “É preciso
desfazer magicamente 20 anos de propaganda, que se baseava na ideia de que o
Ocidente malvado estava a tentar cercar-nos”, explica Kovalev ao Observador.
A Torre Trump e os acordos dos
minerais e de exploração do Árctico: os incentivos económicos
No dia 11 de novembro de 2013, Donald
Trump fez a primeira referência pública a um desejo profissional. “Aras
Agalarov, tive um fim de semana óptimo contigo e com a tua família. Fizeste um
trabalho FANTÁSTICO. A TORRE TRUMP EM MOSCOVO vem a seguir“, escreveu no X (à data, Twitter). O acordo para construir um arranha céus na
capital russa, semelhante ao edifício com o mesmo nome em Nova Iorque, chegou a
ser assinado por Trump com Agalarov, um multimilionário russo do ramo do
imobiliário. Mas o sonho de Trump nunca saiu do papel.
Agora, a proposta fará parte do baralho
do Kremlin para aliciar Donald Trump, avançou o Moscow Times. A construção da Torre
Trump não apela apenas ao culto de personalidade que o
chefe de Estado norte-americano gosta de cultivar, mas ao seu passado como
empresário imobiliário e à sua visão das negociações para a paz como uma transacção
económica.
A Casa Branca já tinha falado sobre a possibilidade de uma parceria
económica entre Rússia e Estados Unidos ser utilizada para incentivar as
negociações. Contudo, os
incentivos económicos vão além de um projecto para a construção da Torre Trump:
podem passar por um acordo de minerais e outro no Árctico, assim como acordos
com empresas estratégicas russas.
"De acordo com as pessoas
com quem falei, Putin está a seguir uma dupla estratégia desde o início: ter
discussões separadas sobre as relações Estados Unidos-Rússia -- principalmente
de natureza económica -- e manter a Ucrânia como um assunto separado."
Mikhail Zygar,
jornalista russo no exílio
(ÍNDICE)
A
questão económica é o segundo ramo da estratégia russa para negociar a paz na
Ucrânia com os Estados Unidos (ou evitar fazê-lo). “De acordo com as pessoas com quem falei,
Putin está a seguir uma dupla estratégia desde o início: ter
discussões separadas sobre as relações Estados Unidos-Rússia — principalmente
de natureza económica — e manter a Ucrânia como um assunto separado”, escreveu Mikhail Zygar, num
artigo de opinião, onde
sublinha o apelo “ao sentido de negócio de Trump”.
Segundo uma das fontes do Moscow
Times, o objectivo desta estratégia é obter o máximo de dinheiro possível de
Trump, enquanto a Rússia continua a utilizar o cessar-fogo como “uma cenoura”
para o aliciar. Mas, dada a personalidade impaciente de Donald
Trump, os projectos devem ser marcados pelos valores que o Presidente valoriza:
“Rapidez, impacto e ostentação”.
A
questão é que estas promessas económicas parecem ser meras promessas vazias,
sem valor económico real, alerta Alexey Kovalev ao Observador. Vladimir
Milov, secretário de Estado da Energia no primeiro executivo de Vladimir Putin,
que passou para a oposição, faz a mesma análise. Num artigo de opinião, o economista desconstrói a possibilidade de a Rússia
fazer acordos de minerais e do Ártico — para além do facto de os ter criticado
noutras ocasiões.
A primeira falha desta
estratégia, escreve Milov, é o facto de a economia russa nunca ter tido uma
particular ligação económica aos Estados Unidos. Pelo contrário, o grande
parceiro económico da Rússia no Ocidente sempre foi a União Europeia. Tornar a
economia russa atractiva para investidores norte-americanos não exigiria apenas
regressar ao estado pré-guerra, mas reformular totalmente as relações
económicas russas, argumenta.
No
que toca especificamente ao Árctico, Milov destaca que os projectos podem não ser
economicamente viáveis, dada a distância, a falta de
infraestruturas e o clima da região, que já levou outros projectos a serem
abandonados. Os
problemas são os mesmos no que toca à extracção
de minerais,
particularmente de terras raras — um conjunto de 17 minerais
essenciais para desenvolvimentos tecnológicos e que a Ucrânia também tem e está
a utilizar como moeda de troca com Washington. “Apesar
de a Rússia ter reservas, os depósitos são longe das infraestruturas
existentes, tornando a sua viabilidade económica altamente questionável”,
escreve Milov.
Dadas estas características, o antigo
secretário de Estado de Putin remata: “Toda a conversa sobre uma potencial
parceria de recursos entre Trump e Putin parece, portanto, não ser nada mais do
que especulação”. E uma dose de manipulação por parte do Kremlin,
segundo os jornalistas independentes russos.
▲As propostas económicas para o Árctico podem ser
economicamente inviáveis Getty Images
(Índice)
A influência internacional
russa: a aposta menos credível
Os analistas da Rússia concordam que
a estratégia de Vladimir Putin para bajular Donald Trump é dupla: por um
lado, o recurso aos elogios pessoais; por outro, os incentivos económicos. Mas
o Moscow Times admite um terceiro instrumento: a Rússia
pode utilizar a sua influência internacional para favorecer os Estados Unidos e
os seus aliados.
Os dois grandes pilares desta estratégia seriam o Irão e a Coreia do Norte, países que
estão na lista de prioridades de Donald Trump. No
Irão, a Rússia pode ter influência nas negociações nucleares entre Washington e
Teerão, tendo em conta a colaboração russa e iraniana na produção e exportação
de combustível nuclear. No que
toca a Pyongyang, a possibilidade seria a Rússia interromper a colaboração
militar com a Coreia do Norte.
Contudo, o jornal reconhece que estas iniciativas são ainda menos
credíveis do que a construção de um arranha-céus ou a exploração de minerais,
já que a Rússia não parece disposta a abdicar da sua esfera de influência
internacional. As iniciativas plausíveis neste tema seriam apenas “gestos
simbólicos“, nota o jornal, como missões humanitárias na Faixa de Gaza apoiadas pelas infraestruturas
russas na Síria ou colaboração informal com os Estados Unidos e a Arábia
Saudita sobre os mercados de petróleo.
Um responsável russo relata ao jornal a diferença entre uma proposta com
possibilidades de ser bem-sucedida e uma proposta irrealista: o facto de ser
adaptada a Donald Trump, à sua personalidade e à sua forma de fazer política.
“Sem isso, é ingénuo esperar progressos”, conclui.
Ao Observador, Alexey Kovalev realça que
algumas iniciativas podem não reflectir uma vontade pessoal de Vladimir Putin e
das “duas dezenas” que constituem o seu círculo fechado e serem apenas
preferências de pessoas com ligações ao Kremlin — mas sem proximidade a Putin —
que procuram utilizar as negociações como forma de alavancarem os seus próprios
interesses.
"Estamos
a falar de duas pessoas que vivem completamente dentro das suas próprias
cabeças. Putin está completamente isolado e só fala com o seu reflexo no
espelho. O outro tipo tem de estar sempre num palco, rodeado de câmaras."
Alexey
Kovalev, jornalista independente russo no exílio,
(ÍNDICE)
O foco do círculo fechado são as promessas
vazias de incentivos económicos. Porém, se estas estratégias parecem
ser suficientes para manter Donald Trump sentado à mesa — tendo em conta o
destaque que a Casa Branca tem dado às mesmas — por que é que Vladimir Putin
insiste nos elogios pessoais ao seu homólogo norte-americano?
“Cínicos, delirantes e
destrutivos”: o que aproxima Putin e Trump
“Putin vê Trump como uma alma gémea“. A leitura
é feita pelo jornalista Mikhail Zygar. As semelhanças estão na forma como ambos vêem o mundo: “Uma visão
cínica e não ideológica”. Se
Vladimir Putin quer ver o fim da ordem internacional assente nas organizações
internacionais actuais, o facto de Donald Trump também ter uma visão crítica
das mesmas — como a NATO e as agências da ONU — torna-o num aliado de Moscovo.
Alexey Kovalev concorda que os dois
partilham o “cinismo”. Mas revela-se preocupado com o facto de ambos partilharem
também uma postura “delirante” e “destrutiva”. “Estamos a falar de duas pessoas que vivem completamente dentro das
suas próprias cabeças. Putin está completamente isolado e só fala com o seu
reflexo no espelho. O outro tipo tem de estar sempre num palco, rodeado de
câmaras”, elabora, em tom crítico.
O jornalista identifica o “delírio”
de Putin na sua insistência em achar que a ofensiva militar na Ucrânia continua
a ser uma vitória para a Rússia. Isto apesar de milhares de soldados russos já
terem morrido, de o Exército continuar sem controlar qualquer cidade ucraniana
chave — e as que controla ficaram reduzidas a ruínas — e as forças ucranianas
continuarem a resistir. “Eu sei isto e muita gente sabe isto. Mas será que
Putin e Trump sabem?”, questiona Kovalev.
▲Vladmir
Putin continua a pintar a ofensiva no terreno como uma vitória RUSSIAN DEFENCE
MINISTRY PRESS SERVICE HANDOUT/EPA
(ÍNDICE)
A análise é repetida por
especialistas militares nos canais críticos do Kremlin: Putin não está a ganhar
a guerra; pelo contrário, esta tornou-se num dos seus pontos fracos e num
sorvedouro de fundos. No
entanto, há um ponto de discórdia. Alguns analistas argumentam que Moscovo sabe
que o cerco se está a fechar e que, por isso, se aproxima de Donald Trump num acto
de desespero. Outros
consideram que a longa liderança de Vladimir Putin lhe deu um sentimento de
impunidade que lhe permite tentar manipular os Estados Unidos, mesmo quando as
suas cartas se esgotam.
Quando
elogios, prendas, negociações e incentivos económicos já não tiverem efeito em
Donald Trump e as opções do Kremlin se esgotarem, o baralho russo pode ter um
último trunfo, escreve o Moscow Times: culpar Kiev pelo falhanço das
negociações.
GUERRA NA UCRÂNIA UCRÂNIA EUROPA MUNDO VLADIMIR PUTIN RÚSSIA DONALD TRUMP ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA
COMENTÁRIOS (DE 6)
Pertinaz: Trump é um agente do putinesco… qual a surpresa…???
Ilidio Dantas: Já não há palavras para tamanha hipocrisia.
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