Sou uma pessoa feliz quando
reconheço valores no meu país que não só revelam clara inteligência
argumentativa, como uma formação moral de que a sociedade em que vivemos não
nos tem proporcionado grande expectativa de proliferação, o conceito de
liberdade em função de uma igualdade sem regras sendo o patrocinador da desordem
e indisciplina que se reflecte nas famílias, nas escolas, nas assembleias de
expressão vária. É o caso deste artigo de João Miguel Tavares – “Sobre a
adopção gay” – que, ao defender Cavaco Silva na sua rejeição primeira do
alegado diploma da camarilha governativa, demonstra um bom senso e uma nobreza
de atitude que admiro, e também pela coragem de opinar contra uma corrente que
tem por hábito desfeitear o presidente, e especificamente neste caso da
rejeição presidencial - no seu intuito de serem mais bem apuradas as determinações
para a adopção, em defesa dos interesses das crianças. Também eu achara justas
as palavras do presidente, mas calara o meu parecer, tal a onda de opositores
manobrando raiva e troça, entre os quais os consagrados pela opinião pública,
como Ricardo Araújo Pereira convicto da sua enorme capacidade buriladora de
dichotes.
De facto, o defeito maior que
noto em Cavaco Silva é a sua velhice, que o faz arrastar demasiado a sua
exposição, já um pouco cansada, mas considero sempre justas e bem formuladas as
suas razões, e tal foi o caso do seu veto inicial ao documento gay, tal como o
foi o seu discurso último de homenagem a Guterres. Recordo Salazar e a sua voz irritantemente
aflautada, quando já velho, e todavia sempre de pensamento enérgico, de
defensor que foi da sua pátria e “alia”. A voz de Cavaco não é aflautada, mas já
excessivamente arrastada em pausas que absorvem um pouco o valor dos seus
argumentos, todavia mais sérios do que os de Marcelo, o qual, de repente, aparenta ser
um fogo-fátuo sem grande consistência de pensamento, ele que de tudo falava e
tudo sabia, com bastante coerência, nas suas conversas com Judite de Sousa, onde dominava por não ter opositor, é certo.
Quanto ao tema que João Miguel
Tavares defende – uma discussão séria e sem histerismos sobre o tema da adopção
de crianças por casais homossexuais, também acho que deveria haver um consenso
geral de discussão de valores e preservando as sensibilidades infantis que cedo
confrontarão os seus casos com os das outras crianças. Concedendo que até
poderão ser tratadas com mais carinho do que nas famílias conceituadamente “legais”, não obsta a que se sintam um dia uma
aberração anti-natura, como descendentes de dois seres do mesmo sexo.
«A injustiça num lugar
qualquer é uma ameaça à injustiça em todo o lugar», expressão de Martin
Luther King, (1929-1968),( pastor protestante e activista político
norte-americano»), é um aforismo com que o Público encima a mesma página do
artigo de J. M. Tavares. Exemplificando, diria que a injustiça da adopção gay é
também uma ameaça de proliferação dessas adopções infelizes, embora a
infelicidade exista também nas famílias ditas “normais”. A mim repugna-me uma
lei que defende essa anomalia, na indiferença pelo sofrimento da criança,
quando compreender a sua situação de filho de dois pais ou de duas mães, e
apenas debruçada sobre o bem-estar dos adultos, que constroem esse bem-estar segundo um
jeito epicurista de “carpe diem” dos novos tempos.
Sobre
a adopção gay
João Miguel Tavares , Público
28/01/2016
Eu tenho um sonho: que um
dia, ao tratarmos de assuntos tão importantes e complexos quanto o aborto ou a
adopção de crianças por casais homossexuais, consigamos elevar o debate público
dois ou três patamares acima do nível cavernícola. O “nível cavernícola” é
simples de detectar: por regra, qualquer posição que considere estas matérias
como óbvias e naturalmente evidentes – seja para as acolher de braços abertos,
seja para as rejeitar de olhos fechados – tem boas possibilidades de padecer de
cavernicolismo. As reacções ao veto de Cavaco do diploma da adopção gay vieram
demonstrá-lo mais uma vez.
Seja qual for a nossa posição em relação à adopção de
crianças por casais homossexuais, é muito difícil negar razão a Cavaco em dois
pontos. Primeiro, quando ele afirma que, “independentemente de um juízo de
fundo sobre as soluções legislativas”, seria importante “assegurar que uma
alteração tão relevante numa matéria de grande sensibilidade social não entre
em vigor sem ser precedida de um amplo e esclarecedor debate público”. Cavaco
tem inteira razão: esse debate, de facto, não existiu, o que é tanto mais
incompreensível quanto a questão da co-adopção, muito mais restrita e
consensual, deu origem a inúmeras polémicas e trocas de argumentos.
Mais grave ainda, porque profundamente desonesto, é o
segundo ponto para que Cavaco chama a atenção: a adopção gay não tem a ver com
o superior interesse da criança. O diploma combate uma discriminação existente
entre casais homossexuais e heterossexuais e esse combate é, sem dúvida,
legítimo. Mas é de uma total desonestidade intelectual confundir isso com o
direito de os miúdos a serem adoptados. A co-adopção por casais homossexuais é
uma luta pelo interesse superior da criança, na medida em que já existem laços
afectivos estabelecidos. A adopção por casais homossexuais é uma luta pelos
direitos da comunidade LGBT. Não quer dizer que essa luta não seja justa, mas é
uma vergonhosa instrumentalização da criança invocar o seu “superior interesse”
a propósito desta alteração à lei, como ouvi em Novembro e como voltei a ouvir
agora, após o veto presidencial. Se não há falta mas excesso de candidatos à
adopção (a não ser para miúdos com graves problemas de saúde), o que é que os
direitos das crianças têm a ver com isto?
É uma pena que as crianças portuguesas não tenham
associações e deputados a lutar pelos seus direitos com o mesmo empenho que o
PS e o Bloco colocaram na luta pelos direitos da comunidade LGBT ao longo dos
últimos anos. Eu sou a favor da adopção por casais homossexuais, porque entendo
que é no terreno que se deve avaliar cada família e concluir se ela tem, ou não,
condições para acolher uma criança. Acredito que num mundo ideal qualquer miúdo
deve crescer com uma figura materna e uma figura paterna ao seu lado, mas penso
que a dinâmica mimo-autoridade pode ser perfeitamente alcançada dentro de um
casal homossexual. Mais do que isso, existem casos terríveis, envolvendo
crianças abusadas, em que a figura paterna adquire uma dimensão de tal forma
ameaçadora que a criança poderá crescer muito mais feliz e equilibrada num
ambiente exclusivamente feminino. O mundo é um lugar complicado e a sua
diversidade deve ser vista como uma riqueza, e não como uma ameaça. Mas até por
isso, deveríamos estar todos a discutir com argumentos uns bons furos acima do
nível cavernícola, jamais utilizando as crianças como armas de arremesso nas
lutas de cada um.
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