segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Sem FÓRUM



Três títulos: «O escritor Fantasma», de 12/10, «As fitas que as elites fazem», de 5/10, «Os Direitos do indivíduo», de 8/10, nos «Dias contados» do DN   de Domingo,  12/10, por Alberto Gonçalves, desaparecido o “FÓRUM” do DN, ou Alberto Gonçalves desaparecido do FÓRUM do DN, para partilhar com outros a rubrica “OPINIÃO”, necessariamente com menos relevo do que a rubrica anterior, o que lamento, por reconhecer em Alberto Gonçalves competência para ocupar sozinho o seu estrado forense, como caso de originalidade discursiva e sanidade moral que não se pode confundir com as lambedelas críticas a que foi emparelhado, juntamente com a banalidade de frases do dia mais ou menos piegas ou de significado banal.
O primeiro seu artigo é sobre José Saramago, sobre a última obra do Nobel, incompleta, preenchido o volume com páginas de louvor, não sei se póstumo, páginas de anotações, desenhos, e finalmente as 57 páginas do tal “Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas”, enxerto polémico, na opinião exultante de Saramago, como os seus demais livros, como tinha gosto em pré-avisar. Não conhecendo o livro, não poderei apoiar Alberto Gonçalves na sua crítica, mas parece-me viável, pelo sentimento de impotência nacional que ele representa, contra o aproveitamento que cá se faz do “galardão” para lançar uma obra mesmo incompleta e sem préstimo, na opinião saudável de um escritor – Alberto Gonçalves – para reconhecer tanto de autênticas aventesmas que se publicam, a coberto do nome e da notoriedade atrevida, num país de bajulices e de penúria mental, dentro de uma “intelectualidade” pretensiosa e insensata tantas vezes.
Na mesma linha crítica, a propósito da subjectividade das elites intelectuais – no caso presente, sobre uma opinião empolada, numa entrevista a António-Pedro Vasconcelos (APV), - quer a respeito de si como realizador de cinema, quer sobre a sua opinião a respeito de António Costa - de que Alberto Gonçalves discorda: E conclui: «Ninguém estranhará que APV, vulto da Cultura com maiúscula, despreze o Prof. Cavaco, subido dos Algarves e da classe média rural. Já é esquisito que o seu elevado grau de exigência se satisfaça com o Dr. Costa, o portento que geriu bastante melhor a carreira política do que uma mera autarquia. Em larga medida, é o mesmo que escarnecer de José Cid para louvar os méritos do cançonetista Toy. Mas é justamente essa a especialidade das nossas elites, que APV representa na perfeição. E se as elites traduzem um país, pobre país . »

Quanto a Marinho Pinto, tem sido tanta a pesporrência dramática da sua actuação como embaixador da causa própria, e tão desconforme  a sua falta de sobriedade de manifestação - desconcertante, vaidosa, arrogante, tenebrosa de burrice palavrosa e vã, que o texto de Alberto Gonçalves é absolutamente incontornável:

1º Texto: O escritor fantasma
Uma última viagem na sua permanente vocação para agitar consciências, diz o anúncio da Porto Editora. Um acto revolucionário, diz o juiz espanhol Baltasar Garzón. Saramago vintage, diz o editor brasileiro do falecido escritor. Saramago no seu melhor, diz o editor português. Uma obra divertida, diz Eduardo Lourenço.
Tudo isto a propósito de "Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas", o dito romance inacabado de José Saramago. Na verdade, de romances inacabados está o mundo cheio. Alabardas inaugura um género novo, o dos romances praticamente por começar.
Não é que não haja um livro: há, aliás com 135 páginas. Seis são notas do autor. Cinquenta são textos de outros autores sobre o autor e o produto em causa. Dez são índices, ficha técnica e diversos. Doze são desenhos de um antigo membro das Waffen-SS. Sobram 57 folhinhas, impressas em fonte crescida e a dois (ou três) espaços. Ninguém se deve admirar se, no mês que vem, publicarem os últimos post-it que Saramago colou no frigorífico, em cinco volumes repletos de ensaios alheios, bonecos para colorir e a oferta de uma echarpe em tons marrom. Meia dúzia de críticos hão-de considerar estarmos perante um momento de ruptura na cultura universal.
Num certo sentido, Alabardas consagra de facto o estilo do Nobel caseiro, que em vida fazia questão de anunciar, ele próprio, o carácter polémico de cada livro antes mesmo de o livro chegar ao público. Um boa estratégia, até porque quando o livro chegava ao público não acontecia nada de especial - excepto se o público se chamava Sousa Lara. Devido a condicionantes óbvias, agora o anúncio da polémica ficou a cargo de terceiros, mas o processo é idêntico e com uma vantagem: se o hábito consiste em privilegiar a algazarra em detrimento do conteúdo, desta vez o conteúdo quase não existe e a algazarra abunda. Saramago vintage, de facto. E, desde que ignoremos os pechisbeques anexos, a minha obra preferida dele. As outras não se liam em horas. Conto não ler esta em vinte minutos.

2º texto: As fitas que as elites fazem
Deixem-me citar António-Pedro Vasconcelos (APV), em entrevista ao DN a pretexto do seu recente filme: "(...) Isso levou-me a pensar muito no Frank Capra e no Vittorio De Sica, que fizeram filmes em momentos de crises terríveis, mas sem deitar as pessoas abaixo. A questão é que o Capra tinha o Roosevelt e nós temos o Cavaco. É um bocado diferente. O neorrealismo partiu de coisas atrozes como a guerra e o fascismo, mas havia um horizonte de esperança."
Passemos ao ponto da situação. Para APV, APV é um cineasta comparável a Capra e a De Sica. Roosevelt suscitava admiração. O fascismo permitia, ou até estimulava, o optimismo. A Depressão e a II Guerra eram preferíveis à austeridade da troika. E o Prof. Cavaco é o mais reles dos estadistas, tão mau que embora presida ao regime que subsidia as pérolas de APV, indirectamente impede um génio do calibre de APV de fazer o tipo de fitas que os seus heróis fizeram.
Porém, APV faz outras fitas. Entre elas, apoia António Costa. E não se trata de um apoio casual: APV foi a acções de campanha do homem, apareceu excitadíssimo na noite da vitória nas primárias, atribui-lhe virtudes como a "paixão", o "rigor" e a "seriedade".
Ora aqui é que a coisa se complica. Ninguém estranhará que APV, vulto da Cultura com maiúscula, despreze o Prof. Cavaco, subido dos Algarves e da classe média rural. Já é esquisito que o seu elevado grau de exigência se satisfaça com o Dr. Costa, o portento que geriu bastante melhor a carreira política do que uma mera autarquia. Em larga medida, é o mesmo que escarnecer de José Cid para louvar os méritos do cançonetista Toy. Mas é justamente essa a especialidade das nossas elites, que APV representa na perfeição. E se as elites traduzem um país, pobre país.

3º Texto: Os direitos do indivíduo
Marinho e Pinto prometera um striptease do salário e fê-lo em meros 17 dias, pelo que demorou apenas um pouco mais que o striptease literal da dançarina exótica média. Infelizmente (ou felizmente, que aqui a doutrina divide-se), ficou uma peça de roupa por tirar, ou por declarar ao TC: os 54 mil euros que Marinho e Pinto recebeu da Ordem dos Advogados a título de subsídio de "reinserção na actividade profissional". "É vida privada", explicou o homem que veio purificar a política.
E "privada" é favor. O tal subsídio foi criado em 2008 pelo então bastonário da Ordem, por coincidência Marinho e Pinto. "Tudo o que fiz foi de acordo com a lei e com as regras estabelecidas", afirma o justiceiro, sem falsos pudores perante o facto de a lei e as regras serem da autoria dele ou de confrades dele. Ao mesmo tempo, e talvez sem dar por ela, Marinho e Pinto estabelece uma mudança radical na relação dos contribuintes com o fisco. Se o precedente vingar, a partir de agora é o cidadão que decide qual a parte dos rendimentos susceptível de impostos e qual a parte isenta. Nunca antes se defendeu tão bem os direitos do indivíduo, o indivíduo Marinho e Pinto, claro.
Os direitos do indivíduo
Marinho e Pinto prometera um striptease do salário e fê-lo em meros 17 dias, pelo que demorou apenas um pouco mais que o striptease literal da dançarina exótica média. Infelizmente (ou felizmente, que aqui a doutrina divide-se), ficou uma peça de roupa por tirar, ou por declarar ao TC: os 54 mil euros que Marinho e Pinto recebeu da Ordem dos Advogados a título de subsídio de "reinserção na actividade profissional". "É vida privada", explicou o homem que veio purificar a política.
E "privada" é favor. O tal subsídio foi criado em 2008 pelo então bastonário da Ordem, por coincidência Marinho e Pinto. "Tudo o que fiz foi de acordo com a lei e com as regras estabelecidas", afirma o justiceiro, sem falsos pudores perante o facto de a lei e as regras serem da autoria dele ou de confrades dele. Ao mesmo tempo, e talvez sem dar por ela, Marinho e Pinto estabelece uma mudança radical na relação dos contribuintes com o fisco. Se o precedente vingar, a partir de agora é o cidadão que decide qual a parte dos rendimentos susceptível de impostos e qual a parte isenta. Nunca antes se defendeu tão bem os direitos do indivíduo, o indivíduo Marinho e Pinto, claro.

domingo, 12 de outubro de 2014

O segredo da bota


Faz Vasco Pulido Valente referência à bota queirosiana d’ Os Maias para nos definir como povo de imitadores, e sobretudo, no tempo de Eça, imitadores das escolas e jeitos literários, artísticos e de moda  dos franceses, o que, apesar da aversão actual pelo estudo do francês nas escolas, que eliminaram num ápice não só os escritores que possibilitavam paralelismos com os nossos, no estudo da nossa literatura, como erradicaram mesmo o francês, da maioria das programações escolares, não deixa de ser verdade ainda hoje, graças aos meios mediáticos disponíveis.
Mas o fenómeno é mais antigo ainda do que do que afirma Vasco Pulido Valente. O próprio Esopo o descreveu na sua rã que inchou a ponto de rebentar, pois não alcançou o tamanho do boi, apesar de tanto se esforçar. Não é exclusivo nosso, ele explica-se por vaidades, interesses, exibicionismos, fraquezas, desejo de ostentação. No tempo do D. Manuel dos grandes Descobrimentos, a ostentação era muita, e cada nobre que saía à rua montado no seu cavalo fazia-se acompanhar de sete ou oito escravos com as funções mais ridículas da sua pompa exibicionista; um segurava-lhe o chapéu, outro enfiava-lhe o sapato no estribo, e por aí fora. A vaidade o explica, mas a incompetência também. Quem precisa do escravo para enfiar o pé no estribo, nunca será capaz de construir pólders, arrancando ao mar as terras do seu alargamento territorial, como fizeram os Holandeses, embora construa monumentos grandiosos para lhe exaltar a glória. Mas os monumentos são coisas inertes que não produzem grandes resultados no avanço económico e mental, como os pólders, e por isso merecemos sempre as análises críticas dos argutos comentadores. Por isso, Eça justifica a abulia de uma juventude inerte, pelas esquinas, na mesmice de uma repetição de gestos invariáveis, segundo Carlos da Maia, ao fim de dez anos de ausência, na resenha derrotista dos dois amigos a que Vasco Pulido Valente faz referência e que transcrevo, como páginas inapagáveis de definição da nossa idiossincrasia de conforto parasita, justificativa do nosso atraso de séculos.
Ao afirmá-lo, Vasco Pulido Valente deseja esclarecer e corrigir, o que é próprio do historiador e do escritor satírico. O mesmo fez Eça, no seu propósito realista e de dinamização literária que ajudasse ao rebate das consciências para uma mudança apetecida.

Eis o texto de Vasco Pulido Valente, Público, 28/9:
Um antigo sonho

«Eça, peço desculpa de o citar, dizia que Portugal era uma espécie de França, traduzida em vernáculo ou em calão. Os Maias, coisa que pouca gente tem percebido, são o romance da nossa irresistível tendência para a imitação e do fracasso a que sempre levou. A última conversa entre Ega e Carlos trata do destino dos sapatos franceses quando chegam a Lisboa. E a primeira, no consultório de Carlos, sobre uma civilização importada, que nos fica “curta nas mangas”.
Nada disto é estranho. Portugal não podia escolher o modelo da Espanha, de que um velho antagonismo nos separava. Nem o de Inglaterra, que exercia sobre nós um protectorado humilhante. Nem da Alemanha, um país radicalmente estranho e uma língua radicalmente diferente. Sobrava a França. E os portugueses copiavam com entusiasmo a moda francesa, a literatura francesa e a política francesa, que se discutia com ardor nos cafés.
Salazar interrompeu esta tradição. Mas mesmo ele admirava Maurras e protegeu os restos da “Acção Francesa” no fim da guerra. De qualquer maneira, a esquerda clandestina ou discreta continuava a admirar fervorosamente a prosa e poesia que o PCP (ou amigos do PCP) contrabandeavam de França e alguns livreiros vendiam por baixo do balcão. Até jornais cá chegavam, ajudados pela distracção dos CTT ou pela ignorância da polícia. No “25 de Abril”, evidentemente, Portugal queria como a França copiar a revolução de Lenine e ascender depressa à prosperidade do Ocidente. A esquerda penava  quase exclusivamente pelo marxismo académico francês. As massas prendiam os capitalistas mais notórios.
Como se sabe, a França pouco a pouco enfraqueceu. É hoje uma potência menos que média; perdeu a sua supremacia cultural (que vinha do século XVIII); e já não interessa seriamente ninguém. Mas deixou uma herança envenenada, a “Europa”, montada por um francês, o sr. Delors, à imagem da burocracia francesa. A grande ambição de Portugal mudou: agora só pensava em ser “como na Europa” ou, pelo menos, “como a média da Europa”. Não ocorreu a Soares, nem a Cavaco, nem ao cristianíssimo eng. Guterres que o país não tinha os meios desta simpática ambição. E assim nasceram auto-estradas, o papel social do Estado (que não acaba na saúde, na educação, e nas reformas) e 700 mil funcionários públicos para atender às necessidades dos portugueses. Não, não gastámos de mais. O que fizemos foi seguir a nossa natureza e os desejos de gerações que se perderam na obscuridade e na frustração.»

Eis o texto de Eça, Capítulo  XVIII de «Os Maias»:
:
«Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a calça apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma geração nova e miúda que Carlos não conhecia. Por vezes Ega murmurava um olá!, acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, comum arzinho tímido e contrafeito, como mal acostumados àquele vasto espaço, a tanta luz, ao seu próprio chic. Carlos pasmava. Que faziam, ali, às horas de trabalho, aqueles moços tristes, de calça esguia? Não havia mulheres. Apenas num banco adiante uma criatura adoentada, de lenço e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hóspedes arejavam um cãozinho felpudo. O que atraía pois ali aquela mocidade pálida? E o que sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas despropositadamente compridas, rompendo para fora da calça colante com pontas aguçadas e reviradas como proas de barcos varinos...
- Isto é fantástico, Ega!
Ega esfregava as mãos. Sim, mas precioso! Porque essa simples forma de botas explicava todo o Portugal contemporâneo. Via-se por ali como a coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, à D. João VI, que tão bem lhe ficava, este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro - modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado - exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta; - imediatamente o janota estica-o e aguça-o até ao bico do alfinete. Por seu lado o escritor lê uma pagina de Goncourt ou de Verlaine em estilo precioso e cinzelado; - imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução; - imediatamente põe no programa dos exames de primeiras letras a metafísica, a astronomia, a filologia, a egiptologia, a cresmatica, a crítica das religiões comparadas, e outros infinitos terrores. E tudo por aí adiante assim, em todas as classes e profissões, desde o orador até ao fotógrafo, desde o jurisconsulto até ao sportsman... é o que sucede com os pretos já corrompidos de S. Tomé, que vêem os europeus de lunetas - e imaginam que nisso consiste ser civilizado e ser branco. Que fazem então? Na sua sofreguidão de progresso e de brancura acavalam no nariz três ou quatro lunetas, claras, defumadas, até de cor. E assim andam pela cidade, de tanga, de nariz no ar, aos tropeções, no desesperado e angustioso esforço de equilibrarem todos estes vidros – para serem imensamente civilizados e imensamente brancos...
Carlos ria:
- De modo que isto está cada vez pior...
- Medonho! É dum reles, dum postiço! Sobretudo postiço! Já não há nada genuíno neste miserável país, nem mesmo o pão que comemos!
Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, num gesto lento:
- Resta aquilo, que é genuíno...
E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graça e da Penha, com o seu casario escorregando pelas encostas ressequidas e tisnadas do sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as atarracadas vivendas eclesiásticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procissão, irmandades de opa atulhando os adros, erva-doce juncando as ruas, tremoço e fava-rica apregoada às esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no radiante azul a miséria da sua muralha, era o castelo, sórdido e tarimbeiro, de onde outrora, ao som do hino tocado em fagotes, descia a tropa de calça branca a fazer a bernarda! E abrigados por ele, no escuro bairro de S. Vicente e da Sé, os palacetes decrépitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brasões nas paredes rachadas, onde entre a maledicência, a devoção e a bisca, arrasta os seus derradeiros dias, caquética e caturra, a velha Lisboa fidalga!
Ega olhou um momento, pensativo:
- Sim, com efeito, é talvez mais genuíno. Mas tão estúpido, tão sebento! Não sabe a gente para onde se há de voltar... E se nos voltamos para nós mesmos, ainda pior!»

Muito negativos, os analistas do nosso temperamento acomodado. A corrupção não está contida na sua análise, só a pasmaceira e a vaidade. A corrupção prova as nossas grandes capacidades intelectuais, ela nos iliba da mantilha e do bigode ou da bota de biqueira e da própria fivela agigantada, que encalhou e não livrou o peralta de Nicolau Tolentino de apanhar bordoada do pai da namorada:

Em curto josezinho rebuçado,
Loiro peralta a rua passeava;
Seus votos pela adufa lhe aceitava
Com brando riso um rosto delicado;

O pai da moça, que era ginja honrado,
E o caso havia dias espreitava,
De membrudo caixeiro se escoltava,
Com bengala na mão, chambre traçado:

Fugira o moço, qual ligeira péla,
Se as fivelas, de marca agigantada,
Deixassem navegar a nau à vela;

Mas viu uma entre esquinas encalhada;
E, se ninguém comprou maior fivela,
Também ninguém levou maior maçada.

Mas são males gerais, afinal, como conclui La Fontaine na maravilhosa adaptação que faz da fábula da Rã: «La Grenouille qui se veut faire aussi grosse que le Bœuf»:

Le monde est plein de gens qui ne sont pas plus sages :
Tout bourgeois veut bâtir comme les grands seigneurs,
 Tout petit prince a des ambassadeurs,
 Tout marquis veut avoir des pages.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Hércules na coragem



Como sempre, assertivo, conclusivo nas suas opiniões fundamentadas e estruturadas no estudo e na inteligência crítica e por isso de grande dimensão histórica e humanista. Naturalmente que o parti pris da subjectividade não deixa de fazer parte dessas críticas formativas, na sua graça feroz.
 Nem sempre concordo, mas admiro-o sempre. Desta vez é sobre Passos Coelho, com passagem pelos outros do PS, com fraca idoneidade, Seguro porque sem competência, na conversa mole, Costa porque com arteirice, na conversa rija, e os outros do PSD que falharam – talvez por excesso de trabalho – qualquer deles hercúleo, o da Educação e da Justiça.
Vasco Pulido Valente mostra-se zangado, talvez decepcionado, retira a Passos a confiança definitiva sua e do povo português, após o caso do escândalo – o da Tecnoforma. Esquecido das pedradas bíblicas libertadoras de pruridos condenatórios dos condenadores zelosos, por um Cristo de compreensão, já seguidor, talvez, do aforismo clássico “errare humanum est”. Não, não creio que Pulido Valente tenha razão, Passos Coelho é um jovem a ficar careca de preocupações, o sofrimento está-lhe contido no nome de Passos, que Camões não deixa de frisar no seu “Tudo passei”, verbo de raiz bem latina. Cometeu um erro. Era jovem, ambicioso, mas assumiu o seu papel com uma força e seriedade de louvar, no cargo de pagar uma dívida monstruosa proveniente de tantos erros de tantos que ainda aí estão, palradores, politiqueiros, benfeitores de palavras fáceis, desviando de si as pedras próprias. Pobre Passos Coelho, timoneiro a naufragar, mas olhando corajosamente os astros da sua navegação à vela e defendendo os companheiros da jornada! Eu defendo-o, porque o considero minimamente íntegro. Tal como foi Salazar, no endireitamento e reconstrução de um país com os proventos próprios, que a 1ª República deixara à deriva, e desde há tantos anos usando do empréstimo do Estrangeiro.
Mas eles aí estão, os da nova ordem rotativa, a querer participar, não para lançar o país para cima, mas para deitar abaixo o Governo e manter os camaradas primeiros e a si próprios na velha graça de Deus, dos seus heroísmos floridos e palreiros.
É isso que queremos? Valorizar-nos pela palavra? Sobretudo a que deita abaixo o parceiro? Aquele lema “Um por todos e todos por um” não encaixa em nós. Os mosqueteiros pertencem a outros grupos étnicos, e, para já, passados. Agora o “Um contra todos e o todos contra um” é o mais comezinho.

1ºTexto:
O regime e os partidos
Vasco Pulido Valente,
Público, 27/09/2014
A Monarquia caiu por causa da impopularidade da dinastia? Não. D. Luís era um rei popular e D. Carlos até certo ponto também, porque o público, e principalmente o povo urbano, o sabia anticlerical, bom copo e bom garfo e, além disso, apesar da gordura, um notório femeeiro.
Claro que D. Carlos cometeu um desastroso erro quando tentou reformar a monarquia, sem uma organização de massas, com o único e solitário apoio de uma elite de Lisboa e de alguns palacianos que o país detestava. Mas no “5 de Outubro”, se o exército não resistiu aos militantes da Carbonária, foi porque não estava disposto a defender os partidos que sustentavam o regime: o partido regenerador e o partido progressista. Na essência, as queixas não variavam do que se diz do PS e do PSD: programaticamente não se distinguiam, tinham caído na pior corrupção, só pensavam no poder e nas suas clientelas. O exército, que talvez não se importasse de sustentar o rei, não queria sustentar aquilo.
Por isso, a partir de 1910, falharam sempre as tentativas de restauração. Voltar atrás, muito bem. Excepto aos “rotativos” (o que se chama agora o “arco da governação”). Só que, tirando os “rotativos” não existia nada. Basta imaginar este nosso Portugal de 2014 sem o PS e o PSD. Qual deles seria capaz de inspirar um país exausto e desesperado? E uma coligação seria um centro de intriga mercenária e estúpida. Dada a inutilidade prática da extrema-esquerda e do CDS, começaria por deslizar para um caos relativamente manso e tarde ou cedo chegaria às mãos de um homem forte qualquer.
O episódio da “Tecnoforma”, qualquer que seja o seu fim, impedirá Passos Coelho de readquirir o respeito do cidadão comum e, por isso, em última análise, a sua presente autoridade sobre o partido. Se o PSD perder as legislativas de 2015, ficará por força à mercê das luzes de meia dúzia de autarcas, que, além de não se interessarem pelo país, vêem tudo pela fresta dos seus negócios locais. Do lado do PS, a campanha das primárias não serviu, como Seguro julga, para “democratizar” a eleição de um putativo chefe, serviu principalmente para nos mostrar o partido por dentro; o ódio fraternal que é a força motora daquela agremiação de ressentimentos. O partido não ganhará a famigerada “maioria absoluta”, que por aí apregoa, e o seu destino não irá além de uma coligação impotente, que, com ou sem o PSD, consumará o desastre.

2º Texto:
Desculpa, desculpa
Vasco Pulido Valente
20/09/2014
Toda a gente já sabia, e muito principalmente no ministério e na Procuradoria-Geral da República, que a “plataforma informática” dos tribunais não fora convenientemente preparada para a reforma judicial. E, como não fora, ficaram parados 3,5 milhões de processos.
O presidente do Instituto de Gestão Financeira e Equipamento da Justiça “assegurou” a Paula Teixeira da Cruz que as coisas tinham corrido muito bem e estavam prontas para começar. No dia seguinte, de advogados a simples cidadãos, Portugal inteiro constatou que não estavam e o sr. presidente do instituto veio dizer que esse “colapso” era previsível, “mas não havia forma de desenvolver uma plataforma alternativa em tão curto espaço de tempo”. Este aviso manifestamente não se aplicava a ele próprio, nem à ministra Teixeira da Cruz, que desde 2011 trabalhava para esta mudança.
Perante esta catástrofe, a senhora resolveu ir à televisão e pedir “desculpa”, como se a “desculpa” a limpasse da irresponsabilidade do passado. Agora, conta que a “plataforma” precisa de ser substituída rapidamente, porque corre o perigo de estoirar de vez. Pedro Passos Coelho não achou necessário correr com a ministra, que lá continua sentada a congeminar asneiras, em prol da Pátria. De resto, o exemplo pegou. Nuno Crato, que tem meses para organizar a colocação de professores, arranjou também ele maneira de provocar um tumulto ou deixar que se provocasse um tumulto por causa de umas “bolsas” de professores que o ministério organizou. A irritação surpreendeu o ministro, mas, seguindo o exemplo da santíssima Teixeira da Cruz, lá apareceu muito lampeiro na televisão, a pedir “desculpa” às suas vítimas e a explicar que a trapalhice era o resultado de uma “fórmula matemática” errada.
O dr. Passos também percebeu a terrível angústia do sr. dr. Crato e deixou que ele permanecesse na 5 de Outubro, a ver se consegue aumentar a atávica barafunda  da Educação portuguesa. A semana passada o secretário-geral da UGT falou com eloquência do “sentimento de orfandade” dos funcionários do BES, com o recente retiro para o Estoril do dr. Ricardo Salgado, que tanto os protegeu. Há por aí com certeza um arcebispo de Mitilene in partibus ou qualquer outro beato que absolva os portugueses da negligência, da mentira, da irresponsabilidade e da estupidez, como nós gostamos e nos damos bem.