sábado, 3 de setembro de 2016

Pouca Terra, muita Terra


Pertence ao poema “Tabacaria” de Álvaro Campos:

«Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas»

Álvaro de Campos bem o sabia, quando escreveu “Não sou nada”, o começo desse seu poema, de desagregação interior e sonho, e, simultaneamente, extrema percepção de um mundo infinito e provavelmente mais repetitivo do que imaginamos, nesta  nossa solidão universal, de único espaço sideral povoado.
O artigo “Planetas extra-solares” de Nicolau Ferreira (Público, 25/8/16) foi para mim um deslumbramento, nessa questão de “acompanhamento habitado” nos espaços planetários, embora tenha encontrado outros mais trechos na Internet sobre pesquisas e descobertas de outros possíveis exo-planetas com condições de vida idênticas às do nosso. Aliás, muito tempo antes, já Voltaire, conhecedor das descobertas de Newton sobre a atracção universal, e das especulações de Kepler sobre a possibilidade de mundos habitados, se divertira a criar um Micromégas de extraordinário tamanho, habitante de um planeta de Sirius, que, com o seu anão de Saturno chegaram à Terra para pôr a ridículo os conceitos de grandeza e importância dos humanos. Mais recentemente, Antoine de Saint Exupéry, se encontraria com um  comovente “Petit Prince”, vindo dos espaços, tão enternecedor e poético como  o E.T . de Spielberg.
O texto aí está, enriquecedor nas perspectivas de descobertas de outras Terras a girar por esses espaços fora. Entretanto, no mesmo Público de 25 de Agosto entre variadas notícias dos nossos desmandos ou acertos terráqueos de momento, encontro, na última página, o artigo de João Miguel Tavares – “Deixem o burkini em paz” -  assunto que foquei ontem, mais de acordo com as atitudes de franceses faccionários ou talvez impacientes. Mas este artigo de M.S.T. é bastante equilibrado, e gostarei de o mostrar um dia aos camaradas do Próximo b da constelação Centauro, quando daqui partir.

Planetas extra-solares
Nicolau Ferreira
E aqui perto de nós descobriu-se uma outra Terra. Tudo indica que a estrela mais próxima do nosso sistema solar tem um planeta com condições para albergar vida. Nas próximas décadas, o agora anunciado planeta Próxima b será um objecto aliciante para a astronomia.
ESO/M. KORNMESSER
Há boas razões para se imaginar que o brilho vermelho da estrela Próxima do Centauro está a iluminar vida, a meros 4,2 anos-luz. Uma equipa internacional de astrofísicos descobriu um candidato a planeta que gira pertíssimo daquela estrela, a mais próxima do nosso sistema solar. E não é um planeta qualquer. O Próxima b—o nome que lhe foi dado — é rochoso e o seu tamanho é semelhante ao da Terra: tem 1,3 vezes a massa do nosso planeta. Apesar de estar colado à Próxima do Centauro, uma anã-vermelha com 12% da massa do nosso Sol e muito pouco energética, a parca radiação que atinge o planeta torna possível a existência de água líquida à sua superfície, caso haja atmosfera, explica um artigo publicado hoje na revista Nature.
Há ainda muitos “ses” sobre o Próxima b, é necessário inclusivamente confirmar se o planeta realmente existe. Mas por estar tão perto de nós e por ter condições tão semelhantes às do nosso mundo, esta nova Terra acaba de subir para o primeiro lugar dos exoplanetas promissores para a procura de vida fora do nosso sistema solar.
“É um planeta do tipo da Terra”, resumiu Ansgar Reiners, da Universidade de Göttingen, na Alemanha, e um dos 31 autores do artigo científico. “Provavelmente tem atmosfera e alguma água líquida”, explicou o astrofísico numa conferência de imprensa telefónica organizada pela própria Nature.
Por ser tão pequena, a Próxima do Centauro não se consegue observar à noite, a olho nu. É necessário um telescópio. No entanto, o astro poderá estar ligado ao sistema estelar binário da Alfa do Centauro Ae B, a 4,3 anos-luz de nós. Estas duas estrelas, uma maior do que o Sol, a outra mais pequena (mas ainda assim bastante maior do que a Próxima do Centauro), giram em torno uma da outra. Por sua vez, a Próxima do Centauro poderá estar a viajar lentamente à volta deste sistema binário, ainda que não haja certezas.
Já há algum tempo que se estuda a possível existência de um planeta em torno daquela anã-vermelha. “As observações iniciais do planeta foram feitas há mais de 15 anos, em Março de 2000. A primeira vez que submetemos um artigo sobre o planeta foi em Fevereiro de 2013”, revela Hugh Jones, da Universidade de Hertfordshire, em Hatfield, no Reino Unido, também autor do artigo (citado num comunicado da Universidade Queen Mary de Londres). “O meu colega Mikko Tuomi [outro dos autores] tinha encontrado uma ‘pegada’ do planeta em informação arquivada [sobre a estrela] que tinha sido obtida antes de 2009. Mas não tínhamos provas suficientes que fundamentassem uma descoberta tão importante.”
Por isso, foi necessária uma campanha científica para tentar confirmar a existência do Próxima b. O estudo utilizou o efeito de Doppler — um efeito que se observa facilmente na Terra com as ondas sonoras. O exemplo clássico é o da sirene de um comboio a passar por nós numa estação. À medida que o comboio se aproxima e emite o som, as ondas sonoras chegam à estação a uma frequência maior. Depois, quando o comboio se afasta, a frequência das ondas vai-se espaçando. Isto resulta num som mais agudo quando o comboio vem em direcção a nós e mais grave quando se afasta.
Nas estrelas, a detecção deste fenómeno em relação às ondas electromagnéticas pode indicar a presença de planetas. Apesar de as estrelas serem muito maiores do que os planetas, influenciando-os com a força da gravidade, os planetas também têm um efeito gravítico nas estrelas consoante o seu tamanho e a sua distância. Esse efeito faz com que a estrela oscile ligeiramente.
Em relação à Terra, esta oscilação de estrelas distantes significa que essas elas estão continuamente a aproximar-se e a distanciar-se do nosso planeta. Na escala do cosmos, este movimento é minúsculo. Mas um bom telescópio consegue detectar uma diferença na luz que recebe dessas estrelas quando elas se aproximam e se afastam. Tal como o som proveniente do comboio, quando uma estrela se aproxima a frequência das ondas electromagnéticas é maior e o telescópio detecta luz mais próxima do comprimento de onda do azul. Quando a estrela se afasta, a frequência das ondas é mais espaçada, e a luz que chega ao telescópio está mais próxima do vermelho.
Fizeram-se estas observações na primeira metade de 2016 usando um telescópio instalado no deserto do Atacama, no Chile, e que pertence ao Observatório Europeu do Sul (ESO). “Estava sempre a confirmar a consistência do sinal a cada uma das 60 noites da campanha”, lembra Guillem Anglada-Escudé, da Universidade Queen Mary de Londres, outro dos autores do artigo. “Os primeiros dez dias foram prometedores, os primeiros 20 dias foram consistentes com as expectativas, e ao 30º dia bastante definitivos”, diz, citado num comunicado do ESO.
As observações indicavam a existência de um planeta com 1,3 massas da Terra, a cerca de 7,5 milhões de quilómetros da Próxima do Centauro (quase oito vezes mais perto da sua estrela do que Mercúrio do Sol) e que dá uma volta à estrela a cada 11,2 dias. Por estar tão perto da estrela, deverá ter sempre a mesma face virada para a Próxima do Centauro.
Os cientistas fizeram várias análises para confirmar que as oscilações da estrela não eram causadas pela sua actividade. As anãs-vermelhas são muito activas, e as manchas solares que surgem à superfície poderiam estar a originar um sinal que se confundiria com o efeito de Doppler. “Assim que se confirmou que as oscilações não foram causadas por manchas solares soubemos que tinha de ser um planeta a orbitar na região [à volta daquela estrela] onde a água pode existir”, diz por sua vez John Barnes, da Universidade Aberta, no Reino Unido. “Se investigação futura concluir que as condições da sua atmosfera são apropriadas para o planeta ter vida, esta é uma das mais importantes descobertas científicas que teremos feito.”
Mas Nuno Santos, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, do pólo no Porto, pede ponderação. “Parece-me que há efectivamente um sinal”, comenta ao PÚBLICO o astrofísico que tem descoberto muitos exoplanetas mas não está ligado a este estudo. “Não temos uma detecção directa do planeta. Ainda há alguma probabilidade de os autores terem sido enganados pela estrela.”
“Há muitos detalhes sobre estas anãs-vermelhas que não compreendemos muito bem. Há vários casos na literatura científica de sinais que pareciam ser planetas mas depois não o eram”, explica, adiantando que espera que outras equipas de astrofísicos analisem os dados publicados sobre o Próxima b para confirmar a sua existência. Caso assim seja, então “a descoberta será certamente um marco”, sublinha Nuno Santos. “Já descobrimos outros exoplanetas com massas semelhantes à da Terra, mas não estão na zona habitável.”
A equipa do novo estudo tentou ainda calcular a probabilidade de o planeta ter atmosfera e água líquida. Isto dependerá de vários aspectos como o local de formação do planeta no sistema solar ou a actividade da estrela ao longo da sua vida. Segundo os cientistas, se aquela anã-vermelha esteve muito activa no início da sua vida (a estrela terá cerca de 5000 milhões de anos) e o planeta se formou no local onde se encontra agora, então uma eventual atmosfera foi rapidamente varrida pela radiação energética da Próxima do Centauro e o planeta hoje será uma rocha seca.
Porém, se o planeta se formou num local mais longínquo do seu sistema estelar e, posteriormente, migrou para a região que hoje habita, então poderá ter atmosfera e água. De acordo com os modelos dos cientistas, “há uma probabilidade diferente de zero de haver atmosfera”, diz Ansgar Reiners. Nesse caso, as temperaturas à sua superfície variarão entre os 30 graus Celsius positivos no lado iluminado e os 30 negativos no lado escuro.
O futuro poderá ajudar a esclarecer todas estas questões. “Estão a ser desenvolvidos novos instrumentos que irão melhorar as observações”, salienta ainda Nuno Santos. Poderá ser possível não só analisar a atmosfera do planeta, como até obter imagens do Próxima b.
Mas, por enquanto, resta-nos sonhar com este lugar, com o seu sol vermelho no horizonte e a possibilidade de o nosso pequeno canto do Universo estar povoado de vida.

 (Se a investigação futura concluir que as condições da atmosfera do planeta são apropriadas para ter vida, esta é uma das mais importantes descobertas científicas.  John Barnes Astrofísico).

Entretanto, como temos ainda muito que esperar para sabermos das virtudes e das malfeitorias lá pela Próxima b, “em outros Céus diferentes, que Deus té’gora escondera”, contentemo-nos modestamente com as nossas próprias. Leiamos o sensato parecer de João Miguel Tavares  a respeito da nova moda em praias de França:
Deixem o burkini em paz
A proibição do burkini é não só ridícula como contraproducente.
Eu sou a favor da proibição do uso da burka e do niqab no espaço público. Entendo, por várias razões, a principal das quais é a segurança, que não devem ser autorizadas roupas que não permitam ver o rosto de quem as usa. Mas o burkini não é uma burka para usar na praia. O burkini é uma peça de roupa com um nome infeliz. O rosto das mulheres está bem visível. Tem enormes parecenças com um fato de mergulho. Ou com a roupa que as nossas avós usavam na praia há não mais que trinta anos. A sua proibição é não só ridícula como contraproducente.
Contraproducente, desde logo, pela imagem de polícias franceses a mandar despir uma mulher muçulmana numa praia de Nice e a multá-la com o argumento de não estar a usar “roupa que respeite os bons costumes e o secularismo”. A metade lúbrica do meu cérebro agradece muito que andar de biquíni seja a nova definição de “bons costumes” em França. Mas a metade ponderada do meu cérebro não consegue vislumbrar de que forma pode isto ser uma boa ideia. Ninguém suporta ver quatro polícias armados de cassetetes e gás pimenta a obrigarem uma mulher muçulmana a tirar a roupa em frente a uma filha que chora, enquanto entre a multidão de veraneantes há gente a gritar “vai para casa”. A senhora nem sequer estava a usar um burkini, o que significa que os polícias marítimos necessitam de vigiar os areais acompanhados de personal stylists, de forma a apurarem as diferenças entre um burkini genuíno e um combinado de leggings mais camisa.
Há 75 anos, a vida dos polícias portugueses estava mais facilitada, porque os regulamentos tinham outro detalhe. No decreto-lei n.º 31:247 de 1941 exige-se o escrupuloso cumprimento das “condições mínimas a que devem obedecer os fatos de banho”, de forma a “evitar a corrupção dos costumes”. Na época balnear de 1940 as “concepções morais e mesmo estéticas” do povo português haviam sido postas em causa com a chegada da primeira leva de refugiados da Segunda Guerra. Os editais desse tempo passaram então a ordenar que o fato de banho fosse “inteiro” e sem “decote exagerado, a ponto de descobrir os seios”, e, nas costas, “sem prejuízo do corte das cavas que devem ser, quanto possível, cingidas às axilas”. Também não era permitido o uso de fatos de banho que se tornassem “imorais pela sua transparência ou pela excessiva elasticidade do tecido”.
Querer agora o exacto contrário disto é tão ridículo quanto querer isto. É impossível regulamentar roupa para usar na praia sem que o resultado seja patético. Atenção: eu não estou a dizer que o burkini seja apenas um trapo insignificante e simbolicamente neutro. Ele significa, de facto, direitos desiguais e uma cultura de subordinação da mulher ao homem, razão pela qual me entristece que esteja à venda em lojas como a Marks & Spencer, quando há um óbvio conflito civilizacional entre modos de vida. O ocidente deve lutar pelo valor da igualdade de género e não apenas por uma economia de mercado sem regras morais que apenas nos diz: “há aqui uma nova área de negócio, vamos aproveitar”.
Contudo, qualquer bom liberal tem de ter um cuidado extremo com a supressão de direitos individuais, entre os quais obviamente se inclui a roupa que cada um de nós leva à rua. O excesso multiculturalista é um mal e acho importante que o ocidente estabeleça linhas vermelhas na sua relação com as comunidades islâmicas, até para impedir o descontrolo da xenofobia. Mas traçar essa linha na areia da praia é um péssimo sítio por onde começar.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Esta moda do veuzinho


O véu da viúva para encobrir a dor, os véus da moda para despertar o interesse masculino, o véu da noiva para indiciar a sua pureza, tudo isso foi à viola, na evolução dos tempos, embora haja ainda quem reivindique tais aprestos. Agora anda-se mais destapado, excepto nas zonas frias ou no inverno, e se os vestidos não chegam aos pés - mas voltaram a chegar, com a China a impor os seus panos esvoaçantes, de linhas tortas – usam-se os mais variados trajes, as calças fazem parte da moda feminina, como trajo prático, e nas praias os corpos bronzeiam-se, em grande parte descobertos. Sem exibicionismo, ou mesmo que o seja, na aceitação do “outro”, na liberdade da condição humana, desde que não pegue a moda do nudismo integral provocatório, a não ser nos redutos próprios.
Não sei como era dantes, com as muçulmanas, sei que vi fotos de gente do oriente vestida à maneira do ocidente, gente bonita, no Afeganistão, no Egipto, como em Israel… de repente, tirando Israel, o mundo feminino oriental cobriu-se de pano. O Público de 27/8, mostra os mais diversos trajes femininos que retirou da Internet – burka, hijab, niqab, chador, shayla – com mais ou menos rosto a descoberto – e pernas, nem vê-las. A pudicícia ganhou relevo lá pelo Oriente, desde que o Xá do Irão – Reza Pahlavi – foi deposto. Muitos males sucederam, muitas guerras se engendraram, o Islão – ou parte dele - virou Estado, o medo difundiu-se com a invasão do terrorismo, que ganhou adeptos. E a França democrática deixou que a burka – ostensiva –  de repente penetrasse, mesmo nas escolas. E, com as provocações de parte a parte, ditaram-se leis, em França, a proibir os mantos da moda islâmica, os hijabs, que a nós lembram os lenços na cabeça das raparigas e mulheres do campo que não iam à escola e carregavam canastras e cestos à cabeça, cheios de produtos dos campos. Algumas, nos meus tempos de aldeia, ao entrarem na escola, largaram o lenço, trazendo arejamento, suponho que definitivo, pois com os estudos, ainda que menores, deixaram de apreciar tal ornamento, que aos domingos era substituído por outro, mais lavado, para a missa e o dia do Senhor, que se respeitava.
Não julgo que seja o caso dos islâmicos, de civilização antiga e capacidade expressiva. Ao imporem às mulheres os trajes da submissão, estão a recuar no tempo, e a provocar o Ocidente, quando a exigência é feita em países estrangeiros. O facto é que outros países, salvo a França, não têm estes problemas, o lenço virando moda aqui, por respeito democrático. Mas o ambiente não é mais o mesmo, dizem, em França, o medo instalou-se, as pessoas fingem aceitar tão grotesca moda do lenço, que intimamente desprezam.
Lenço na cabeça, a assinalar orgulhosamente a origem do seu possuidor, ainda vá que não vá. Em África as mulheres indianas mostravam-se nos seus saris, mais ou menos ricos, mais ou menos enxovalhados, mas não nos importávamos, era o seu traje, era a sua cultura. Com eles mantínhamos relações indiferentes ou cordiais. Mas os tempos mudaram. E, no fundo, ao proibirmos as burkas nas praias, mostramo-nos menos solidários do que antigamente. Talvez porque o medo se fixou, exigimos caras lavadas, a descoberto. Daí que as leis repressivas de que trata o texto que segue, sejam em minha opinião, muito aceitáveis. Democracia sim, mas devagar. Sobretudo quando a moda é puramente ostensiva, como parece ser a desses trajes nas praias francesas. Corpos assim tapados não precisam de praia. Outros sóis os bronzeiam.

Em França, o véu é um inimigo legal
França foi o primeiro país a proibir o véu integral, com uma lei que entrou em vigor em 2011, que interdita a “dissimulação do rosto no espaço público”, embora sem definir o que é esse espaço. Regulamentação posterior define-o como “locais abertos ao público, aos quais o acesso é livre (praias, jardins públicos)”, ou aos quais se acede através de pagamento, como o cinema. Ou então lojas, bancos, estações de transportes públicos e aeroportos, serviços e instituições públicas.
Esta lei respondia a uma ansiedade da população francesa – 63% declarava-se então contra o uso de véu islâmico que cubra o rosto e, segundo o Le Figaro, essa percentagem tem-se mantido estável. Poderá ser a base da contestação actual ao uso do burkini nas praias francesas.
A lei, na verdade, não fala de mulheres nem da religião muçulmana. Assenta apenas na noção de “ordem pública”, que se for violada por ser punida com multas até 30 mil euros.
Outra lei, de 2004, interdita o uso de “símbolos ou roupas” nas escolas públicas, “através das quais os alunos manifestem de forma ostensiva uma filiação religiosa”, e já gerou também muitos conflitos. Alunas que usam ohijab (um véu que cobre a totalidade da cabeça e se prolonga até ao peito) ou saias compridas foram expulsas das escolas secundárias, bem como rapazes com turbante.
Em 2012, França foi condenada pelo Comité dos Direitos do Homem da ONU, a partir de uma queixa de um jovem sikh, expulso da escola por se recusar a deixar o seu turbante. O Estado francês “não apresentou provas irrefutáveis de que o estudante afectasse os direitos e liberdades dos outros alunos, ou afectado o bom funcionamento da escola”, disse o Comité, e a sua expulsão “constituiu uma punição desproporcionada”. C.B.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Eles fizeram greve

E eis que, na distracção do bolo de laranja a acompanhar a bica do meu atraso, a voz sonora da nossa amiga disparou sobre a greve no aeroporto, no arrebatamento habitual, que me pôs logo à procura do papel e da caneta no fundo do saco, abandonando o bolo: - Se quisessem passar bombas por ali, passavam à vontade e era um fartote.
Falava das greves da véspera no aeroporto e do caos em busca de aviões ainda disponíveis, com gentes sôfregas para apanhar algum a jeito - multiplicada por milhares, mas a milhares de léguas de distância dela, a imagem dos dois amigos Carlos e Ega na corrida final para o “americano” para os prazeres gastronómicos, remate desconcertante e poético das suas teorias niilistas sobre uma existência falhada, onde não vale a pena dar um passo para concretizar qualquer desejo, o que é logo contrariado pela realidade escarninha -"Então, para apanhar o Americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.”
Não, não se tratava de prazeres gastronómicos a conquistar, mas de fim de férias de retorno aos trabalhos, na sua maioria, que os explorados pilotos contrariavam marcando para essas alturas de ponta as greves das suas reclamações anuais.
E a nossa amiga continuava, desconhecedora destas lucubrações sobre os paralelismos e contrastes dos acontecimentos, reais e de fábula, acompanhando com a largueza dos gestos a ênfase das suas frases:
- Eu, quando vi tal gente a correr no aeroporto, pensei logo: Um doido que estivesse a ver – ou a viver – aquelas imagens, ia a casa buscar a bomba e era uma limpeza. Nunca tinha visto uma coisa daquelas. As cabeças vistas de cima a correr, para apanhar algum avião disponível… Pensei logo na bomba.
A minha irmã também ouvira, mas entretida com os seus jornais, não olhara o écran, no hábito destas cenas, que, com este novo governo de compinchas, em todo o caso, se têm mostrado menos relevantes.
A mim, mesmo que tivesse visto, não ocorreria tal ideia de bomba, conhecendo a pacatez do nosso povo, com os seus casos esporádicos de violência familiar, ultimamente, é certo, agravados, mas creio que por desavenças específicas e não pelos requintes ideológicos da moda. Mas a nossa amiga mostra bem a sua alma de artista ao focar o quadro das massas a correr, em aflição, inspirador de compositores de música ou de produtores de filmes, de poetas, romancistas, de pintores, ou mesmo só de fotógrafos, tão hábeis hoje, a captar as cenas das nossas emoções…
De resto, as greves agora acontecem em muitos lados, mesmo no Canadá, tudo gente branda que já se habituou a esperar tranquilamente por novo dia, segundo o lema francês “Tout passe, tout casse et tout se remplace”. A esperança é a última a morrer. E a democracia habituou-nos a respeitar as reclamações chantagistas em moda, seguidoras da teoria física da pressão:  pressão é uma grandeza que é quantificada através da razão entre a força (F) e a área (A) da superfície em questão, onde a força é aplicada….... Como temos uma área curta, ela exerce-se com mais força do que nas áreas mais vastas, embora a minha irmã ache que não é só questão de área mas de educação.
E a nossa amiga remata, muito obstinada nas sua ideias:  - Quando há greve não devia haver voos.
E a seguir, extasiada, no requinte nos seus conhecimentos mundanos, passou ao jogo entre o Sporting e o Porto: - Vai haver tanta polícia a tomar conta do ser humano, com os dragões e os leões…