quinta-feira, 6 de abril de 2017

Um peixão




Precisamente como a língua de Santo António - que curou a cegueira, e alumiou, como o peixe do Tobias, domou, como a Rémora, as paixões humanas da Soberba, da Vingança, da Cobiça e da Sensualidade, convertidas em naus alegóricas, fez tremer os pescadores, como o Torpedo, mostrou, como o Quatro -Olhos, que havia Céu e Inferno para onde olhar - assim é o exemplo do actual Santo António, acrescido de Costa, de iguais virtudes às do verdadeiro Santo António sem Costa, conquanto igualmente português e genuíno alfacinha, como o de agora. Daí o seu fascínio, que João Miguel Tavares justifica como provindo do próprio fascínio que o nosso Santo António Costa manifesta por si próprio, tendo inúmeras razões para isso, em minha opinião, vistas as grã cruzes com que tem sido galardoado na sua vida de sucessos.
Leiamos João Miguel Tavares, que não tem papas na língua quando descreve os efeitos da língua do nosso actual Santo António Costa sobre os seus devotos e concluamos, como ele, que «a melhor receita para perpetuar um estado de graça é viver sob a permanente ameaça de desgraça», aforismo que não acudiu ao nosso Padre António Vieira no seu “Sermão de Santo António aos Peixes”:

Os devotos de Santo António Costa
João Miguel Tavares
Público, 25/3/17
A grande conquista de António Costa em 2016 não foi o défice de 2,1% – foi ter despertado em muita gente o desejo genuíno de acreditar que aquele défice corresponde a uma melhoria do estado do país. A maior parte dos portugueses quer crer que os 2,1% são sustentados, reais, inteiramente merecidos, uma vitória extraordinária da estratégia económica socialista e a prova definitiva de que o país está no caminho certo. Quer crer que o verdadeiro diabo foi Passos Coelho e que António Costa conseguiu melhores resultados com menos enxofre. Quer ter fé no primeiro-ministro. Essa é, sem dúvida, a maior das suas vitórias.
A Europa, os mercados e as agências de rating continuam a não ter qualquer confiança em Portugal – mas os portugueses, que não têm um matemático de jeito desde Pedro Nunes, confiam nas contas do primeiro-ministro. Confiam, por exemplo, na sua palavra quando ele garante, em resposta ao cepticismo de Wolfgang Schäuble: “Os números são simples: 2,1% de défice, o melhor em 42 anos de democracia, 2% de saldo primário positivo, diminuição de um ponto da dívida líquida, estabilização da dívida bruta e começo da redução, estabilização do sistema financeiro, criação de 118 mil postos de trabalho líquidos. Estes são os números. E contra factos não há argumentos.”
Mas será que os números são só estes e que não há argumentos contra tais factos? Peguemos num excerto de um artigo do economista João Duque no Expresso da semana passada, dedicado a tentar compreender por que mistério a diferença nas taxas de juro a 10 anos entre Portugal e a Alemanha era de 1,85% quanto Costa tomou posse, e hoje é de 3,85%: “A atividade económica medida através do PIB cresceu menos em 2016 (1,4%) do que em 2015 (1,6%). O consumo interno, apesar de um esforço grande do Governo para o promover, cresceu menos em 2016 (2,3%) do que em 2015 (2,6%). O investimento caiu em 2016 (-0,3%), quando em 2015 tinha subido (4,5%). As exportações cresceram menos em 2016 (4,4%) do que em 2015 (6,1%). O aumento da dívida pública (aproximadamente 7 mil milhões de euros em 2016) foi superior ao défice orçamental do ano (4,2 mil milhões de euros), mostrando que além do adiamento de despesa ainda houve muita que não passou pelo Orçamento.”
Dir-se-á: há números para todos os gostos, que permitem sustentar as teses dos dois lados. Certo. Mas será tão simples assim? É verdade que cada um pega nos números que mais lhe interessam, conforme as suas convicções ideológicas. A esquerda agarra-se ao défice. A direita atira-se à dívida. Mas este não é um simples jogo de soma zero. Nos anos pré-crise, todos reconheciam que Portugal precisava de reformas profundíssimas, em virtude do descalabro demográfico e de várias décadas de políticas públicas insustentáveis. Ora, a discussão sobre esta visão de futuro pura e simplesmente desapareceu, triturada por uma obsessão pelo presente. Muito por culpa da desastrada estratégia de Passos Coelho, cada mês de vida deste governo dá direito a bolo e soprar de velas. Por cada número que supera as expectativas, há fogo de artifício. Costa precisa de muito pouco para fazer a festa e – má notícia para a direita – muitos portugueses querem festejar com ele. Daí este clima ridículo de foguetório na frente interna quando comparado com o absoluto cepticismo na frente externa. Lição de política que nenhum de nós deve esquecer: a melhor receita para perpetuar um estado de graça é viver sob a permanente ameaça de desgraça.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Tant bien que mal



Páginas de história nacional em torno da sequência dos consensos vários que, com a independência do Brasil, estabelecida pelos próprios da família real portuguesa nas suas longas férias por lá, se iniciaram e progrediram em misérias e tumultos e concertações num pobre país sempre atamancado e a viver do imposto e do empréstimo, como magistralmente define o judeu Cohen a política financeira do país, no jantar do Hotel Central: «A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...» («Os Maias», VI, E.Q.). Mas também se construiu e progrediu, devemos ser justos, ainda que com dinheiro alheio, tirante as alturas da União Nacional, de consenso imposto.
E aqui estamos nós ainda, neste século XXI, dois séculos após o seu começo, na pretensão dos consensos que Vasco Pulido Valente magistralmente historia, a pagar imposto e empréstimo, atamancando, fabricando, talvez iludindo, bem intencionados sempre os que estão no poder, ganhando as suas vidas, tentando que as ganhem os outros também, com maior ou menor comedimento, segundo princípios de um humanismo e uma fraternidade sempre parcelares. Leiamos Vasco Pulido Valente, e meditemos.
Diário de Vasco Pulido Valente    Política
O consenso             Vasco Pulido Valente
OBSERVADOR,  2/4/2017
… hopes expire of a low dishonest decade… W. H. Auden
O consenso —
 Espero que, apesar dos acanhados limites da sua inteligência e da sua quase completa incultura histórica, os promotores do consenso — que hoje vão do Presidente da República ao mais pequeno oportunista do CDS; e, como de costume, vêm da classe dirigente e dos grupos privilegiados da sociedade portuguesa — percebam a figura triste e nociva que andam a fazer. O consenso foi desde o duvidoso princípio do nosso liberalismo a suprema ambição de quase todos os regimes e governos (tirando, claro, o Terror de D. Miguel, o de Afonso Costa e a Ditadura de Salazar). Nem sempre se chamou consenso. Teve vários nomes: conciliação, partilha, fusão, pastel, marmelada, amalgação, convivência, juste milieu, regeneração e união nacional (muito antes do Estado Novo). E conduziu invariavelmente às piores catástrofes, quando não conduziu ao longo monopólio do poder de um único partido.
A história começa em 1823-25, depois da Vila-Francada, quando D. João VI decidiu seguir uma via média que sossegasse tanto os jacobinos vintistas como os apostólicos realistas, prometendo vagamente uma Carta Constitucional, e indo buscar os representantes da Inglaterra e da França (que ocupava a Espanha), respectivamente, Palmela e Subserra, os dois sem a mais leve influência em Portugal, para com eles apresentar ao “povo” um ministério ecuménico, que só existia na fantasia dos “moderados”, e depressa caiu. E, já agora, o Rei também resolveu, para acalmar “os ânimos”, fazer a paz com D. Pedro e aceitar a “união de coroas”, que por natureza só se lhe aplicava a ele e pela qual Portugal reconhecia oficialmente o Brasil (1825). Isto causou a maior confusão “de interesses e de homens”, para parafrasear Oliveira Martins.
Mas D. Pedro arranjou um sarilho muito pior. Pela necessidade de não parecer absoluto no seu novo Império e, como de costume, preocupado com a harmonia e o acordo da “família portuguesa”, outorgou uma Carta Constitucional, que ninguém lhe pedira e ninguém lhe agradecia, congeminada no Rio, entregue em Lisboa por um emissário inglês e, no fim, imposta a Portugal por um pronunciamento de Saldanha. Mas mais grave do que a Carta era a solução dinástica: D. Pedro deu aos liberais uma Câmara electiva e aos realistas uma Câmara dos Pares (hereditária, como se calculará) que ele mesmo escolheu. Para resolver o caso bicudo da sucessão nomeou D. Miguel Regente, se e quando ele jurasse a Carta e mais tarde se casasse com a filha dele, Dona Maria, na altura com 7 anos. Era a solução das notabilidades e dos chefes moderados e sérios dos dois lados do conflito larvar do reino. Da herança do bom rei João, D. Pedro ficava com o Brasil e o irmão com Portugal: metade-metade, como aconselhava o bom senso. A guerra civil explodiu dali a semanas (1826) e durou até 1834, deixando para trás centenas de milhares de mortos (entre militares e população civil) e o país exausto e num caos impossível de descrever aqui como ele merece.
A paz de 1834 tornou a pôr em cena os fervorosos adeptos do “consenso”, de que, como se sabe, D. Pedro fazia parte. Em Setembro, antes de morrer, nomeou Palmela. E Palmela, por excelência o homem das combinações, partiu em busca da concórdia universal. Essa concórdia era agora, segundo a opinião da opinião “respeitável”, a amalgação (uma palavra do vocabulário militar francês) entre os liberais conservadores e os miguelistas que ainda mandavam no norte, no centro e no interior (alguns “grandes” do Reino, pequena nobreza territorial, morgados, antigos oficiais da já extinta Milícia). Bastaram uns meses para o nobre duque, o primeiro presidente do Conselho português, se ver obrigado a fugir pelos telhados de Lisboa para não ser morto pela plebe jacobina. Nunca mais se atreveu a mostrar a cara e o governo que continuou em funções, dirigido por Silva Carvalho, quis logo fabricar um novo “consenso”, desta vez entre os moderados e os radicais do liberalismo. Falhou também e a inevitável consequência foi a chamada “revolução de Setembro” e uma segunda guerra civil.
Esta excelentíssima emergência do radicalismo à tona das águas turvas de Lisboa, do Porto e do país provocou um ano de perseguições (com generosa aplicação aos incréus de tortura e cadeia). Em Março de 38, os Batalhões Nacionais, braço armado da revolução, atraídos ao Rossio pelos chefes que tinham derrotado o exército da Carta e uma dúzia de civis “arrependidos” (Costa Cabral , por exemplo) acabaram cercados e fuzilados por tropas “seguras”, no célebre “massacre do Rossio”. Muitas dezenas morreram e durante uns dias apareceram cadáveres a boiar no Tejo.
Esta “vitória” permitiu ao Portugal letrado pensar outra vez na sua indispensável união. Os deputados a uma nova Constituinte, eleita pelos setembristas, tentaram fabricar uma Constituição tanto quanto possível parecida com a Carta (abolida em 36). E fabricaram. Parecia que o consenso estava finalmente estabelecido e, mais, institucionalizado. Durou quatro anos. Em 42, o conde de Santa Maria, governador das armas do Porto, incitado pelo ministro da Justiça de um ministério centrista, Costa Cabral, proclamou a Carta e Costa Cabral voltou para Lisboa, onde o receberam em triunfo.
O regime que se seguiu, presidido pelo marechal duque da Terceira, adoptou, que outra coisa!, o juste milieu e só excluía e de facto só excluiu os impenitentes do miguelismo e do jacobinismo, que recusavam a lei constitucional em vigor. Esta política ficou conhecida pelo nome de exclusivismo, o que mostra bem a educação histórica do indigenato. De qualquer maneira esta clássica tentativa de “consenso”, que chegara de França, não se aguentou muito tempo. Cabral pagava pontualmente ao funcionalismo do Estado, restabeleceu relações normais com Roma e a hierarquia da Igreja, tomou algumas medidas para aumentar a segurança da população e começou hesitantemente, com empréstimos a curto prazo, o futuro programa de “melhoramentos materiais” (só estradas, por enquanto). De nada lhe valeu. Perseguido pelo intenso ódio dos setembristas, que se manifestavam de norte a sul numa imprensa livre; insultado, caluniado, caricaturado, perante a indiferença e o deleite dos que ele protegia e dos que aspiravam a substituí-lo, Cabral ficou isolado, com o único apoio da rainha e um segmento do exército, cada vez menor, que obedecia a Terceira. Se houvesse um embaraço ou um erro, cairia logo. E em 46 houve um embaraço financeiro, que o forçou a decretar o célebre “imposto de repartição”, igual ao que existia em França; e também um erro incompreensível, a lei sanitária, que proibia que se enterrassem os mortos nas igrejas e os mandava enterrar nos cemitérios. Daqui nasceu a revolta dita da Maria da Fonte e logo a seguir outra guerra civil, a da Patuleia.
A guerra, ela própria, não passou de uma mascarada, em que ainda assim morreram 3.000 homens, que divertia o Times mas que enfurecia as Potências. A Inglaterra e a Espanha depressa resolveram pôr os portugueses na ordem. Palmerston ditou os termos da paz e um exército espanhol submeteu os rebeldes do Porto. E a seguir Costa Cabral , que andava escondido sob o disfarce de embaixador em Madrid, voltou a Portugal e pretendeu discretamente conciliar as facções sem perceber que o chefe do exclusivismo nunca podia ser o chefe da concertação. Provocado por isto, e pelo regresso de Costa Cabral ao favor da rainha e à presidência do Conselho em 1850, Saldanha revoltou o exército do norte e desceu para Lisboa. Ao seu encontro foi o exército do sul, comandado pelo marido da rainha, D. Fernando. Nem D. Fernando, nem Saldanha queriam combater: e não combateram. Vieram juntos para Lisboa e Saldanha tomou conta do poder, que com a fuga de Cabral estava vago. Era a Regeneração.
A Regeneração era finalmente o consenso. Como disse João Franco, na essência servia para “apascentar duas clientelas”, alternada ou simultaneamente, a dos cartistas e a dos setembristas. Saldanha começou por neutralizar o exército, promovendo todos os oficiais (miguelistas, cartistas ou setembristas) ao posto a que por antiguidade tinham direito. Esta “promoção-monstro” transformou o exército numa agremiação passiva e burocrática, que para não perturbar a “escala” daí em diante recusou qualquer aventura política. As clientelas da esquerda e da direita foram logo distribuídas pelo país, e durante sessenta anos sugaram o “povinho” com entusiasmo e minúcia. O primeiro governo da Regeneração, o de Saldanha, misturava toda a gente e até apanhava gente nova, como Fontes Pereira de Melo. Durou cinco anos. A seguir veio um governo de Loulé (tio do rei), ou seja, dos setembristas convertidos à Carta, que durou de 1856 a 1865 com um pequeno intervalo de um ano.
Em 1865, a guerra do Paraguai (1864-1870), desvalorizando a moeda brasileira e reduzindo as remessas dos emigrantes, que cobriam um terço do défice anual da balança de pagamentos, provocou uma crise duradora. E a crise foi, como sempre, a grande oportunidade para os loucos e aventureiros que rondavam o regime e “a gente de bem”. Mas, significativamente, no meio da balbúrdia os partidários do consenso criaram a Fusão, que juntava a ala direita do Partido Histórico de Loulé (a “unha branca”), herdeiro da Patuleia, com a ala esquerda da direita, que Fontes comandava. Este suavíssimo arranjo aguentou-se perto de dois anos e caiu perante a denominada “Janeirinha” (um levantamento contra o imposto de consumo e uma reforma administrativa que diminuía o número de concelhos) deixando como de costume o caos atrás de si.
Mas, por sorte, a guerra do Paraguai acabou e em Outubro de 1871 Fontes tomou conta do país, com pequenas intermitências, até 1886. O Partido Progressista (resultado de outra “fusão”, a do Partido Reformista, fundado pelo radicalismo moderno e pela “unha negra” do tempo de Loulé, com o Partido Histórico) caiu com os desastres de 1867-68, a inflação e a mobilização popular dos “mitingueiros”. Daí nasceram os governos de “concentração partidária” e “extra-partidários”, que achavam eles reuniam o consenso do país político e letrado. Não reuniam. Quando as coisas acalmaram, começou o rotativismo, que se aguentou com várias deformações até 1906, quando D. Carlos entregou o poder ao Partido Regenerador-Liberal de João Franco, um partido da burguesia bem-pensante, e declarou em público que o antigo regime era um “gâchis” e devia ser rapidamente liquidado. Franco desapareceu de cena com o assassinato. No curto reinado de D. Manuel II (1908-1910) houve 6 governos e ninguém se entendia com ninguém, nem os republicanos entre si.
Da República não vale a pena falar: foi o terrorismo até Dezembro de 1917 e a seguir uma ilimitada corrupção, que se julgava favorável a Portugal inteiro, sem distinções geográficas e sociais. Salazar extinguiu estes festejos e estabeleceu a ditadura que se conhece ou que talvez hoje, 2017, já seja uma memória vaga. Mas mesmo Salazar não se coibiu de ridicularizar o consenso. A oposição pedia liberdade. Mas para quê? Para, como antigamente procurar a união dos democratas? Se era de união que se tratava, ela já existia e chamava-se União Nacional, que, como se sabia, não era um partido. Em 1968, quando Caetano chegou, chegou preso à guerra colonial e às polícias, o que não o impediu, segundo as suas próprias palavras, de procurar sempre o “ponto de equilíbrio” da “razão e do senso”.
Na nossa II (ou III) República, recebemos sem protesto o Bloco Central e agora temos os propagandistas do consenso. Ponham o consenso a governar e verão o que arranjam.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Não é preciso sublinhar.



Está tudo certo. E tem um humor muito especial, em estilo característico, feito de sequências, enumerações, argumentos reveladores de sensibilidade e poder de observação, nem é preciso sublinhar, escaldados que andamos com a perpetração de crimes, coisa nunca dantes vista, ou, pelo menos, menos conhecida. A mulher não podia fazer frente, escassa de direitos, educada que era nos princípios machistas. É certo que as mulheres também sabem muito, sempre souberam, espertas que são, e às vezes impõem-se. Nunca me esqueço, por exemplo, do livro de John Erskine, “A vida privada de Helena de Tróia”, que mostra uma Helena regressada de Tróia, depois de ter sido levada para lá por Páris, e conservando o mesmo poder sedutor acrescido de experiência e filosofia de vida que tanto atraía os homens, dos quais o marido Menelau, que, quando ia para a matar pelo seu adultério, ocorrido dez anos antes, ela lhe facilitou o serviço mostrando-lhe os seios irresistíveis, o que enfraqueceu o ímpeto vingador de Menelau, que preferiu desistir da vingança e levá-la de volta ao seu trono de Esparta e ao seu leito conjugal. Mas são casos raros e, para todos os efeitos, as mulheres pertencem ao sexo fraco, em termos de medição de forças ficam a perder, tirante os conhecidos das Medeias míticas que as tramam pela calada, ou as Messalinas históricas, cheias de potencial erótico, e, modernamente, as jovens actrizes de filmes, que aprendem karaté com o actor nipoamericano de pera e olhos cerrados de espiritualidade, Noryyuki, o qual ensina também comportamentos de nobreza, num mundo como devia ser, a rapariga sensível vencendo o rapaz brutal e cobarde. Nós por cá também tivemos a padeira de Aljubarrota e a Maria da Fonte, além da sucessora menos bem sucedida, Catarina Eufêmia, no século passado, mas são casos raros, embora depressa se tivessem tornado simbólicos, o que nos ergue o orgulho, não só o masculino como o feminino, pese embora o fraco nível físico e espiritual das figurantes, universo que melhor nos quadra, em termos de simbologia. E é nesse universo destituído de rigor educativo, que o nosso homem latino se enquadra agora, matando a companheira, tresloucadamente, ou maltratando-a cobardemente, numa demência de frustração, agora que as leis impõem paralelismo de liberdades, que não temos o savoir faire de companheirismo necessário para aceitar.
Leiamos o impecável artigo de António Barreto, literato e humanista comme il faut:

Mulheres batidas
António Barreto
D.N., 2/4/17       -       Sem Emenda
Há termos em voga: assédio sexual e violência doméstica, por exemplo. Nenhum é falso. Mas ambos escondem qualquer coisa: a violência masculina! É sobretudo disso que se trata.
Pode haver estudos e análises. Consultas e exames. Nunca se chegará bem a saber o que leva um homem a espancar a mulher, a bater na mãe, a desancar a namorada, a surrar a amante e a sovar a filha! Mas sobretudo a mulher, a mãe dos seus filhos, a pessoa que se ocupa dele, lhe faz as refeições e trata da casa! Ou simplesmente a pessoa que com ele vive e dorme.
É uma das piores baixezas da humanidade! A violência masculina tem razões estranhas: sexo, ciúme, insegurança, impotência, desconfiança, exibicionismo, ignorância, vingança, álcool, prepotência... Não é de esquerda nem de direita. Não é do Norte, nem do Sul. Não é do crente, nem do ateu. Não é do rico, nem do pobre. Não é do doutor, nem do analfabeto. Não é do inteligente, nem do estúpido. Não é do velho, nem do novo. Não é do português, nem do estrangeiro. Não é do rústico, nem do citadino.
Que animal é este, difícil de compreender, impossível de entender? Podemos recorrer a psicólogos, médicos, psicanalistas, sociólogos, polícias e juristas: nenhum satisfaz a necessidade de compreender.
São anualmente cinco a dez mil mulheres as que, após violência continuada, apresentam queixa. Mas são cinquenta a cem mil as que nunca apresentaram queixa, não se sabe bem porquê, mas suspeita-se com certeza. Por medo e pavor. Por timidez e vergonha. Ou por pobreza e miséria. E são cerca de cinquenta as que, anualmente, já não apresentam queixa, pela simples razão de que foram assassinadas. Isso mesmo, assassinadas! Há homens assim, que assassinam a mãe dos seus filhos! Nem animais!
O homem bate-lhe porque tem ciúmes, porque ela olhou para outro, no restaurante, porque ela sorriu para outro, no emprego, porque ela falou com outro, ao telemóvel, porque ela ouviu as histórias do outro, no autocarro.
Bate-lhe porque o patrão se zangou, porque o chefe o censurou, porque teve má avaliação no emprego e, ao chegar a casa, bateu em quem tinha à mão.
Bate-lhe porque deu uma nega, porque esteve impotente com a amante, porque não conseguiu sair com uma namorada.
Bate-lhe porque ela não obedeceu a uma ordem dele, porque respondeu ou resmungou, porque ela lhe disse que estava cansada, que precisava de dormir ou porque não quis fazer amor com ele.
Bate-lhe porque ela lhe disse que ele bem podia ajudar em casa, com os filhos, com os pais ou os sogros, nas compras, na louça, nos pagamentos e no lixo.
Bate-lhe porque, no golfe, as coisas não correram bem, porque as acções na bolsa baixaram 5% num só dia ou porque o banco exigiu o pagamento da dívida.
Bate-lhe porque bebeu uns copos a mais, porque o seu clube de futebol perdeu e um amigo lhe estragou o carro.
Bate-lhe porque ela lhe disse que ele bebia de mais, que podia passar um pouco menos de tempo diante da televisão, ou no escritório, à noite, ou no café, com os amigos.
Bate-lhe porque é como o Sebastião, que come tudo, tudo, tudo, que come tudo sem colher, que fica todo barrigudo e depois dá pancada na mulher.
Bate-lhe porque o peixe estava queimado e a carne estava crua, porque a mesa não estava posta a horas, porque ele chegou tarde e o jantar estava frio.
Bate-lhe porque ela esteve a ler livros que não devia ler, a ver filmes que não devia ver e a ouvir música que não devia ouvir.
Bate-lhe porque é o seu direito, porque é a sua mulher, para lhe lembrar que quem manda é ele, porque ela não sabe cuidar dos filhos, porque os filhos têm más notas, porque é frustrado e traumatizado, já o pai dele batia na mãe e consta que o avô batia na avó.
Bate-lhe porque ela estava mesmo a pedi-las, com aquela maneira de se vestir e de se comportar diante de toda a gente.
Bate-lhe porque ela disse que se queria separar ou pedir o divórcio.
Bate-lhe porque uns tabefes nunca fizeram mal a ninguém.
Bate-lhe porque ela gosta.
Bate-lhe porque ela está ali.