terça-feira, 24 de março de 2015

Coliseu



Entre os nomes dos recreantes do Coliseu dos Recreios, citados por Alberto Gonçalves, na sua Crónica de 22/3/15 – Agitação Social -que ali foram para se exprimirem e exibirem as suas competências, em função de uma causa comum – desfeitearem o Governo para uma possível substituição por eles próprios - encontro um nome – Carlos Mendes – que tenho visto num programa musical de António Victorino de Almeida – Pianíssimo - intercalando umas dicas que pretendem ser cultas, e não passam de mastigações snobes sobre arte, acompanhado de uma senhora de idade no papel de pateta ignorante, recebendo as interpelações trocistas do seu cicerone, ignorante farfalhudo que nada explica, muito à maneira portuguesa, pretendendo ser engraçada e sendo apenas de uma gesticulação e elocução reles e atrevida. Não compreendo como se pôde macular de sketches grotescos os programas de um maestro e compositor de valor, nas deambulações acompanhadas que faz às cidades dos grandes compositores austríacos ou outros, contando da sua arte, dos seus destinos, das suas biografias e não raro exemplificando os seus ensinamentos com breves concertos demonstrativos ou mesmo com os magníficos concertos dados por uma excelente pianista austríaca. Se tal esquema programático partiu do próprio maestro português, que todos vêem como folgazão, parece-me um erro grave, que ofende a arte e os espectadores que não compreendem a ordinarice da segunda deambulação - a de Carlos Mendes e da sua acompanhante “doméstica” – aviltante e burlesca, sem respeito nem graça, não sei se para o compositor se elevar aos olhos do público, pelo contraste, se para rebaixar o próprio público português, na mistura indiferente de bom gosto e de ausência dele. Não me admira, contudo, que seja mais uma graça deste homem de valor mas ressabiado, a quem, nos idos da revolução de Abril, ouvi explicar que o hino nacional devia ser substituído, o que me chocou muito na altura, apesar de o meu pai lhe seguir religiosamente os programas de então, também itinerantes e de bengala, e ainda sem Carlos Mendes.
Troça, sim, merecida, é a do texto de Alberto Gonçalves a respeito de mais uma das reuniões feitas pela esquerda, no Coliseu dos Recreios, em demonstração de que o país não dorme, atento aos desmandos, com o pensamento nos que sofrem e instigando-os no sentido de revoltas que definitivamente apeiem o Governo. E aponta as figuras salientes dos participantes, que lá foram discursar ou recitar poemas ou cantar tristes baladas ou outros cânticos condizentes com a seriedade dos protestos, nos trocadilhos do mais baixo nível como esse do “Não TAP os olhos”, na mediocridade de doestos há muito repetidos, instigando ao ódio, numa prova de falso amor.
Riamos com Alberto Gonçalves, não só no artigo sobre a consciência cívica dos portugueses, mas nos seguintes, sobre a participação nas claques ou sobre a vasta história do mundo da esquerda com a respectiva ambição da nossa:

Agitação social
por ALBERTO GONÇALVES22 março 2015
Exagera-se muito quando se acusa os portugueses de falta de consciência cívica. Só esta semana houve três admiráveis exemplos da nossa apetência para colocar o dedo na ferida, pôr os pontos nos is e repetir clichés. O primeiro foi o Congresso da Cidadania, Ruptura e Utopia, organizado pela Associação 25 de Abril, para pensar o estado do país. Naturalmente, pensou-se que o país vai mal. Entre os participantes, brilharam nomes como Marinho e Pinto (é um único indivíduo), Sampaio da Nóvoa (autodesignado "presidenciável"), o Sr. César dos Açores, o penteado de Paulo Morais e aquele rapaz do partido Livre. Melhor é difícil. Mas não impossível: o tal Dr. Nóvoa confessou dever a Abril tudo o que é (?) e declarou chegado "o tempo da coragem e acção". Garcia Pereira, aplaudido com entusiasmo, mostrou--se contra a prisão de José Sócrates. E Vasco Lourenço, promotor da coisa, exigiu a "autoridade moral de quem nos dirige" e prometeu pela enésima ocasião nova insurgência, armada ou não. Em suma, ou o povo desata a votar nas sugestões deixadas pelo Congresso da Cidadania, Ruptura e Etc., ou o povo será endireitado à força. Se a democracia não aprendeu os democráticos valores de Abril, a democracia precisa assaz compreensivelmente de uma lição.
O segundo exemplo de indignação justa prende-se com o movimento Não Tap os Olhos, trocadilho que diz tudo e que só por si merecia um prémio de criatividade. O movimento juntou no Coliseu dos Recreios artistas que se opõem à privatização da companhia aérea. Uma fadista explicou que a TAP não pode ser privatizada porque é um "valor de bandeira". Um fadista esclareceu que a TAP não pode ser privatizada porque um cunhado dele trabalhou lá. Carlos Mendes, Jorge Palma e Sérgio Godinho desfilaram sucessos. Maria do Céu Guerra cometeu a leitura de um poema. António-Pedro Vasconcelos falou em "delapidação do património", ficando por apurar se se referia ao património da TAP ou ao dos contribuintes que a financiam indirectamente e ao dos passageiros que directamente pagam várias vezes o preço de um bilhete low cost. Certo é que cabe a cada português assegurar que os artistas citados não descem à ignomínia de viajar em empresas estrangeiras. Caso contrário, os artistas juntam-se aos restantes e hipotéticos 75 mil subscritores de uma petição à AR e, de modo a provar que não brincam com o dinheiro alheio, compram a TAP só para eles.
Porém, o maior exemplo de levantamento popular e espontâneo, até pela grandeza da causa, é o menos noticiado. Falo evidentemente do Movimento Cívico José Sócrates, Sempre, com vírgula e tudo. O MCJS,S foi fundado por um reformado da PSP, uma funcionária autárquica, uma antiga professora e o inevitável empresário da Covilhã, cujos filhos andaram, julgo que de livre vontade, ao colo do ex-primeiro-ministro. O grupo convenceu-se de que Sócrates é um "preso político", encarcerado por um "plano da direita" e mantido fechado por "forças ocultas". Nem de propósito, respondem com um hino de apoio que inclui versos tão belos quanto: "Liberdade não morre/Nem silêncio pesado/De um povo a entristecer/Por te saber tão magoado".
Afinal, sob as grilhetas da troika e a opressão reaccionária, Portugal agita-se. E só um desmancha-prazeres diria que, para isto, mais valia estar quieto.

Domingo, 15 de Março
Claques
Ao comentar os comentários de um comentador da bola, o treinador do Porto garantiu que, "se fosse português, estaria preocupado, porque esse senhor foi ministro". Não conheço as circunstâncias de Espanha e, evidentemente, o Sr. Lopetegui não conhece o nosso país, já que inúmeros sujeitos que andam pelas televisões e pela imprensa a passear o estatuto de adeptos fanáticos foram ou são ministros, secretários de Estado, deputados, juízes, advogados, médicos, etc. Todos acham normalíssimo acumular uma profissão de alegada responsabilidade com um discurso próprio dos Super Dragões, dos No Name Boys ou, em prol da equidade, da Juve Leo. E nenhum português se preocupa.

Sexta-feira, 20 de Março
O poder da fé
Se não contarmos com a Revolução Francesa, ou os joviais tempos do Terror, no princípio foi a URSS. Depois, todo o Leste Europeu. De seguida, Cuba, China e outros pedacinhos da Ásia. Nos anos 1960 e 1970, eram os movimentos de "libertação" africanos. Mais recentemente, a Venezuela e o Brasil. Agora, a Grécia. A extrema-esquerda passa a vida com esperanças de que desta vez é que o comunismo vai ser um sucesso. E é sempre um fracasso catastrófico, por regra coroado com genocídios e, nos casos moderados, com ópera bufa e abundante miséria. Mas se as recorrentes derrotas do comunismo no confronto com a realidade teriam o efeito de convencer pessoas normais de que a realidade talvez esteja certa, a extrema-esquerda não desanima à primeira. Nem à trigésima, de facto. Neste exacto momento, as atenções da rapaziada começam a voltar-se da comédia grega para Espanha, à espera do Podemos. Então não haviam de poder?

domingo, 22 de março de 2015

Ainda o livro de João Magueijo



Nunca fui a Inglaterra e poucos ingleses conheci. Conheci o John, que vivia na África do Sul, com a Carol, um casal de uma educação modelar a quem acolhemos na nossa casa numa altura em que houve cheias em Lourenço Marques. Como tinham vindo a férias em roulotte, os amigos de estúrdia - o Rui, o Raposo , não sei se o Knopfli também – revezaram-se para os ajudar durante as férias, alagadas por vários dias. Discretos, educados, de uma alegria feita de contenção e sensatez, diferente da estridência que os amigos portugueses punham nas suas graças de boémia galhofeira, embora generosa e acolhedora. Um casal exteriormente belo, correspondendo a uma beleza interior, como me pareceram mais tarde os pais da menina inglesa Maddie, passeando a sua tragédia de mãos dadas e forma aprumada e tensa, a impor ao mundo a sua dor real, suscitando no mundo uma real piedade. E todavia, não ignorei que esse mundo lhe proporcionou bons ganhos, anualmente, quando se despoletava nova arremetida em busca do mistério do desaparecimento de Maddie, e voltava a encontrar esses pais sempre belos, sempre unidos, sempre trágicos e contidos, com a televisão acompanhando-os, e creio que amigos britânicos poderosos também, castigando o polícia português - que ousara desmistificar o mito, ao alvitrar diferente solução para o caso - enviando os seus farejadores ingleses – homens e cães - num desprezo superior pela polícia portuguesa ineficiente. Lembrei novamente o mediático caso, que me fez suspeitar de que talvez Magueijo não falseasse a verdade na sua crítica acerba, estranhando, contudo, que cuspisse assim na mão de quem lhe estendera os braços para a ciência e para o emprego, e que, apesar disso, o continuava a aceitar desportivamente.
Também Garrett descreve os ingleses, ou antes, as misses inglesas das paixões de Carlos anteriores ao enamoramento com Joaninha. E Eça, nas “Cartas da Inglaterra”, nos traços de cupidez e domínio imperial britânicos, e em que o “Times” surge como exemplo da inflexibilidade e convencionalismo vitorianos por vezes comprometidos com uma tal partida alheia maliciosa, manchando-lhe a reputação. Ou no próprio “Os Maias”, o exemplo de um Craft de carácter e sensibilidade superiores, no tipicismo da sua fleuma contrastando com a vibratilidade espirituosa e exaltada de Ega ou com a pose pedante e vazia dos Gouvarinhos oficiais portugueses. Ou as figuras de “Uma família Inglesa”, de Júlio Dinis, a impecável e extremosa miss Jenny, o seu convencional e rígido pai, Mr. Whitestone, contrastando com o leviano mas sensível irmão e filho Carlos, que o amor regenera romanescamente para o trabalho e a responsabilidade familiar. Uma sociedade de bons princípios burgueses, que Júlio Dinis colheu nas leituras de Jane Austen, das irmãs Brontë, e que retomamos nas velhas misses Marples e outras personagens da Agatha Christie, quer dos livros quer do cinema, bem como em tantas figuras do cinema britânico, que nos fizeram estimar ou repelir a rígida sociedade aristocrática inglesa, que Óscar Wilde – sobretudo - é perito a descrever, quer nos comportamentos quer através das falas de personagens, exímias na exploração do paradoxo e da sátira a essa própria aristocracia a que pertence. Num plano mais realista, percorremos com Charles Dickens não só os sombrios caminhos da nevoenta Inglaterra - que os filmes sobre Sherlock Holmes igualmente mostram, bem como os contos fantásticos de Edgar Poë - como certos antros de miséria material e moral, perversa ou burlesca das classes mais desprotegidas.
Contudo, a “loira Albion” surge no meu espírito sempre na sua altivez e riqueza interior que a nós próprios, portugueses, originou uma família de Avis marcada pelo génio, pela mão materna de D. Filipa de Lencastre, “ínclita geração” de quem dependeu a descoberta do mundo para lá dos mares, mundo que, de resto, os ingleses, mais do que os outros povos, avassalariam, com a sua cultura, a sua língua, a sua civilização, colhendo nele os frutos da sua ambição poderosa e organizada, e deixando nele as marcas civilizacionais específicas, derrotados embora pelos protestos dos pacíficos Gandhis que não aceitaram a humilhação.
Eis os motivos da minha discordância com o livro “Bifes mal passados”, de  João Magueijo. Talvez se eu tivesse que lá viver, também sentiria, na pele rebelde, certa zanga explícita nesse livro, contra a arrogância da discriminação social, em que são peritas as classes mais aristocráticas, tema igualmente das ironias de Eça. Mas conheço pessoas que lá viveram ou vivem e se deram muito bem. A minha irmã é das que lhes tem aversão, e concordo que ela sabe muito.

sábado, 21 de março de 2015

Prosa em poema



Em resposta a uma proposta da Chiado Editora para colaborar na sua Antologia Poética deste ano de 2015, enviando um “poema” que não excedesse 30 versos, entretive-me a compor um “poema” na minha prosa destemida, que parece que foi selecionado. Foi hoje, 21/3/15 o lançamento da Antologia, a que faltei, no receio de que algum verdadeiro poeta se indispusesse contra poemas do tipo do meu, pura prosa em versos maus, que o não pretendiam ser, no seu significado de mero entretenimento de resposta a um desafio, espécie de palavras cruzadas do meu carpe diem possível, para a pacificação interior. Fica no meu blog, todavia, e se o Dr. Salles achar que não destoa no seu, por não ter pretensões a antologia, talvez também no “A Bem da Nação”:
«Entre o sono e o sonho»
Sono de apatia, sonho esperançoso
Que logo se desfaz em desespero,
Assim vivemos o nosso dia-a-dia
Na penúria de um constante matutar,
A ilusão perdidamente a descambar
Sem calçada de Carriche onde lancemos
Passadas de trupe-trupe ruidoso
E firme na rotina de um trabalho
Agora inexistente em muito lar,
Onde se dormita sem futuro à vista.
Ambições perdidas de um tempo incerto
Em que se mata a descoberto,
Crime contínuo de torpeza impune,
O mundo estrebuchando na loucura
Dum falso fanatismo de pretexto
Que esconde só maldade e muito medo,
Terra descomandada que virou tortura
De autofagia, de mitomania,
De melancolia sem lugar ao sonho,
Na sonolência que dão as vozes
Investigando, acusando, algozes,
Neste desconcerto sem acerto
Neste rodopiar de um destino incerto,
Nesta maldição de tropelia
Sem magia
Em que vivemos e nos debatemos,
Sem ar,
Quais peixes contorcendo-se fora da água
Prestes a morrer
Sem o saber.