domingo, 29 de junho de 2025

Sabe bem


A referência a momentos passados, vividos com amigos da época descrita, que liam e informavam e às vezes nos emprestavam os tais livros da sua superioridade cultural. Mas foram sobretudo os livros da Pearl Buck, - A Mãe”, “Terra Bendita” (salvo erro, que a memória esvaiu-se com a flacidez da pele) que recordo como informadores das terras de que trata JAIME NOGUEIRA PINTO, no seu dom de tradução desse passado que acompanhámos numa ou noutra leitura e que tanto prazer nos dá reviver, através do seu saber crítico.

Cambodja: uma efeméride da extrema-esquerda (há 50 anos a construir a democracia)

As cidades, as grandes cidades, eram o centro da corrupção burguesa e havia que aniquilar o inimigo. Da população do Cambodja que andava pelos 6,6 milhões de habitantes, morreram entre 1,7 e 2 milhões

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 jun. 2025, 00:1845

A 30 de Abril de 1975 caiu Saigão. Foi há 50 anos. A queda tornou-se um símbolo, não só de uma vitória comunista, mas de uma derrota do Ocidente perante o Oriente. Tinha havido outras derrotas semelhantes, na guerra russo-japonesa de 1904-1905, datas memoráveis porque, nesses tempos de Imperialismo, a regra era “os ocidentais”, com velas e canhões, ou máquinas a vapor e canhões, saírem vitoriosos dos recontros.

Mas às vezes não saíam. Às vezes, eram os outros que ganhavam. Foi assim que os sioux do Sitting Bull, do Touro Sentado, derrotaram o general Custer, e que os abissínios do imperador Menelik II esmagaram em Addua os italianos do general Baratieri.

A queda de Saigão em 1975 era o fim de uma longa guerra vitoriosa para os dirigentes comunistas do Vietname do Norte, Ho Chi Min e o general Giap, que 21 anos antes, em 7 de Maio de 1954, tinham tomado o campo entrincheirado de Dien Bien Phu, aprisionando milhares de militares franceses. O campo entrincheirado tinha sido uma decisão estratégica infeliz do general Navarre, o comandante militar da Indochina.

Mas, poucos dias antes da queda de Saigão, caíra Phnom Penh, capital do Cambodja. E caíra nas mãos daqueles que, pela rigorosa aplicação da sua ideologia, viriam a tornar-se famosos numa actividade em que tinham séria e pródiga competição: a prática do crime contra a Humanidade.

Nesse século XX, concorrentes não faltavam ao Cambodja: os comunistas de Lenine e Estaline tinham inaugurado a modalidade na guerra civil russa, aniquilando os inimigos, aristocratas, burgueses e cristãos, por métodos que levariam historiadores como Ernst Nolte e Andreas Hillgruber a falar em genocídio de classe. Seguira-se, na competição, o hitlerismo, com as suas leis de pureza racial e o extermínio dos judeus na Europa ocupada. Mas se Hitler se concentrara nos judeus e nos estrangeiros, Estaline dedicara-se a exterminar os seus compatriotas, entre os quais muitos comunistas. Foi talvez o homem que mais comunistas matou.

Depois, a partir de 1949, encontrou um competidor à altura: outro correligionário, outro comunista. Mao Tse-Tung matou dezenas de milhões de compatriotas através de programas de engenharia económica, como o Grande Salto em Frente (1958-1962), ou de educação ideológica, como a Revolução Cultural (1966-1976). O “Grande Timoneiro” não recuava perante os custos humanos ou materiais dos seus projectos e o Grande Salto, com a colectivização forçada das terras e a “revolução industrial” acelerada, saldou-se em dezenas de milhões de mortos à fome. E não contente com o desastre, lançou-se, em 1966, numa nova iniciativa colectiva, a Revolução Cultural, levando o terrorismo policial e de Estado a dimensões de paranóia e terror nunca vistas.

Apesar destes horrores (ou por causa deles, nunca se sabe …), Portugal, há 50 anos, estava cheio de admiradores do ditador chinês, que, segundo a biografia de Jung Chang, foi responsável, só na Grande Fome de 1958-1961, por 38 milhões de mortos. “Pior que Hitler e Estaline”, declararia a romancista de Os Cisnes Selvagens. Mesmo assim, muitos “antifascistas” locais, inquietos com as malfeitorias de Salazar e da PIDE, não se inibiam de seguir o Grande Timoneiro. Por ignorância, espera-se.

Como também não se inibiam de saudar – também por ignorância e cegueira ideológica, espera-se – a vitória dos Kmers Vermelhos a 17 de Abril de 1975 como uma vitória da democracia e do povo rumo à construção de mais um paraíso na terra.

E se todo o paraíso artificial precisa de terraplanagem este não foi diferente. Ou foi, se olharmos para a ratio população/vitimas, comparada com a dos morticínios do comunismo soviético, do comunismo maoísta, do hitlerismo nazista. Se os números absolutos das vítimas do maoísmo (70-80 milhões) são os maiores entre os grandes crimes contra a Humanidade no século XX, logo seguidos pelos do comunismo soviético (15-20 milhões) e pelos do Holocausto hitleriano, com os seus seis milhões de judeus exterminados, os números relativos da limpeza no Cambodja (um terço da população do país) passam-lhes bem à frente.

Nos anos 60, sob o governo do astuto príncipe Norodom Sihanouk (1922-2012), o país seguia uma política de neutralidade na guerra entre o Vietnam do Norte comunista e o Vietname do Sul, pró-americano. Em 1970 um golpe de Long Noi expulsou Sihanouk e passou o Cambodja para o lado americano. Mas nas selvas cambodjanas, uma forte guerrilha comunista, chefiada por um professor de liceu, Saloth Sar, de seu nome de guerra Pol Pot, apoiado por Pequim e por Pyongyang, iniciava a luta pelo poder ou pela libertação do povo.

Nem mesmo o mais radical dos esquerdistas lusos imaginaria, imagino eu, o requinte ideológico e a destreza prática dos Kmers Vermelhos: conquistada a capital, Phnom Penh, e assassinados os dirigentes políticos do tempo de Long Noi e as suas famílias, por que não varrer para o caixote do lixo da opressão os dois mil anos de História do Cambodja e esvaziar a capital de toda a sua população, para começar de novo, fazendo do passado tábua rasa?

A cidade tinha então dois milhões de habitantes, contando com os refugiados. Os Kmers Vermelhos deram-lhes guia de marcha para os campos. Pol Pot convivera com Mao e com os dirigentes da Coreia do Norte e seguia os mestres.

As cidades, as grandes cidades, eram o centro da corrupção burguesa e havia que aniquilar o inimigo. Assim, tal como a capital, Phnom Penh, outras cidades do país foram esvaziadas de todos os que incorriam no crime de pertencer à classe média urbana.

A operação decorreu com o maior sucesso. Da população do Cambodja, que à data andava pelos 6.600.000 de habitantes, morreram, nos anos seguintes, entre 1.700.000 e 2.000.000 pessoas, isto é, um terço dos cambodjanos. O clima era de acusação de desvio à direita, de “heterodoxia burguesa”, de contaminação ideológica. E assim, de olhos postos na “pureza” revolucionária, na beleza do ideal, na generosidade da utopia, se iam ceifando incómodas realidades e existências. O costume.

O nº 107 da revista L’Histoire Collection, referente ao trimestre de Abril-Junho de 2025, é um número especial dedicado ao Cambodja e à sua História, sendo a terceira parte consagrada aos “3 ans, 8 mois, 20 jours” do “régime criminel”. Vale a pena ler o que foi nesses 3 anos, 8 meses e 20 dias o apocalipse de um povo sob a batuta de Saloth Sar, Pol Pot, e de alguns dos seus colaboradores mais directos.

Estranhamente, a deslocação forçada da população para novos espaços acabara mal, muito mal…. Mas como, se a doutrina era tão boa, a ideia de esvaziar cidades, de começar do zero? Também ali, a explicação seguiria os cânones epistemológicos da esquerda radical: se a doutrina era boa e estava certa e se a população tinha morrido em massa nos campos de trabalho de arroz inexistente, a culpa não era da doutrina, do ideal. Só podia ser sabotagem dos executores. Estava na hora de passar à purga interna, como na URSS e na China. E eis que uma unidade especial, a S21, dirigida por outro professor de liceu – Kaing Guek Eav, conhecido por Duch – entrou em acção. Em três anos, foram executadas cerca de 20.000 pessoas. A tal unidade especial, a S21, funcionava num antigo liceu da capital desertificada. Quem lá entrava, sabia, como no Inferno de Dante, que já de lá não sairia, que podia e devia perder toda a esperança.

Mas deixemos os círculos infernais para os nazis do passado, que é como quem diz para os neo-nazi-fascistas da extrema-direita do presente, que aqui, apesar dos erros de execução, é de imorredoiros ideais e de generosos professores de liceu e activistas que falamos… e não de grunhos, que ora são polícias ora são seguranças privados. Esses sim, cuidado com eles! Olhos vigilantes da Democracia e da República neles, que não passarão!

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COMENTÁRIOS (de 45)

Rui Lima: É sempre bom lembrar o maior assassino em termos relativos, lembro os outros onde a esquerda está sempre “bem “representada, Mao Tsé-Tung 70 milhões Fome e purgas …Josef Stalin 30 milhões tudo era bom para matar quem não era comunista não esquecendo a fome na Ucrânia (Holodomor). Outro inimigo do mundo livre, dos USA, dos judeus, do capitalismo (hoje a esquerda tem os mesmos inimigos) Adolf Hitler 17 milhões. Mas no Camboja a demência comunista foi ao extremo, algo que nunca compreendi. As ideias marxistas são a mãe dos maiores crimes e misérias, mas continua impunemente a divulgar as suas ideias sem quem sejam proibidos pelo contrário tem espaço em tudo o que é imprensa .                madalena colaço: Intelectuais como Sartre e Beauvoir, que influenciaram uma geração que se manifestou nas ruas de Paris a favor destes regimes, regressados das viagens à URSS, Cuba ... só diziam maravilhas do que lá viram. Um prémio Nobel da economia, que regressado à América depois de uma visita à URSS em 1986, disse "Vi o futuro e funciona". Até o realizador Michelangelo Antonioni, que realizou filmes como Blow-up, Aventura...de uma criatividade extraordinária, vai à China, nesses idos anos de 1970, e faz um documentário de mais de 4 horas, em que nos mergulha numa China de miséria, mas, a sua voz, que acompanha todo o documentário consegue ver maravilhas num país, em que é proibido o pensamento individual. Todos os templos estão fechados, o livrinho vermelho o único livro permitido e nas escolas, as crianças nunca podem brincar sozinhas. Perante a miséria, crueldade, destes regimes, mas também o sujeitar o ser humano a lavagens cerebrais para que não possa pensar individualmente, porque é que esta gente não denunciou, mas pelo contrário elogiou estes regimes?          Glorioso SLB: Vale a pena ler a crónica desta semana do Alberto Gonçalves sobre um novo timoneiro, agora em NY. Em relação ao Cambodja, vale tb a pena ver um filme dos anos 80, “The Killing Fields” com o John Malkovitch. Por aqui O marteli e a foice comunista deveriam ter as mesmas restrições de uso que a suástica nazi, mas continuam por aí, exibidas com orgulho, e sem contestação         José B Dias  > Mario Figueiredo: Não o sabia mal educado ... lamento que a vida lhe tenha sido madrasta e a sua formação tenha por isso sido tão claramente deficitária.                       José B Dias > Mario Figueiredo: A descrição que pretende fazer de Jaime Nogueira Pinto soa estranhamente a um auto-retrato pintado do que vê no espelho ... Uma boa gargalhada sempre me animou qualquer fim-de-semana. Obrigado!       Afonso Soares: Para a comunicação social portuguesa o comunismo continua a ser o paraíso na terra. Estão de tal maneira doutrinados que o que se passa nesses países não merece uma nota de rodapé. Agora meia dúzia de "nazis" que se preparavam para, imagine-se, derrubar o governo assaltando a assembleia da República é notícia durante vários dias. Entram em transe alucinogénico, prevendo que iremos entrar numa noite permanente de escuridão. Cuidado com os populistas 😂😂      Meio Vazio > Rui Lima: Curiosamente (ou talvez não), todos filhos dilectos do iluminismo jacobino francês, da Revolução Francesa ("a coisa mais estonteante que já aconteceu"- E. Burke) e das fantasias (pseudo-científicas) marxistas.                       Carlos Real: E bom não esquecer que o Pol Pot mesmo depois de derrubado, e de se conhecer em detalhe os horrores do regime, continuou a ter lugar na ONU. Esta bela organização humanitária tem servido nobres propósitos. Já o grande escritor de viagens, Paul Theroux, tem desmascarado e bem o papel dos supostos trabalhadores solidários no terreno mundial. Por isso eu digo, o pior do ser humano são a inveja/cobiça e a força das ideologias. Distorcem completamente a realidade tornando-se irracionais.        João Floriano: Estive no Cambodja em 2015. Corrijo: estive em Angkor Wat. O nosso guia, um homem entre os 30 e os 35 anos, falou-nos do horror dos Kmer Vermelhos. Ele era o único homem adulto de uma família de mulheres, muitas delas tias velhas porque Pol Pot sacrificava os homens, cortava o sustento das famílias e as mulheres ficavam sós com os filhos na mais absoluta miséria. Quem usasse óculos tinha a vida em perigo, porque isso significava que se tratava de um intelectual. Maldito comunismo que nada de bom trouxe à humanidade, sendo que muitos ainda continuam a insistir numa ideologia que só tem causado desgraça. Deve ser o resultado de algo que não está bem no cérebro desta gente, uma mutação do ADN.                  afonso moreira: Mais um artigo muito esclarecedor de JNP. A nossa comunicação social e o "conhecimento" feito nas nossas universidades e tanta falsidade que foi escrita, está tudo de tal forma doutrinado que qualquer pesquisa que se faça no Chatgpt sobre o "nosso" período revolucionário vem cheia de falsidades. Pensei como estão a ser formados os nossos jovens, no secundário com respostas tão enviesada que aí encontram! Vem isto a propósito de uma pesquisa que fiz sobre um General comentador e que aparece regularmente na tribuna do 25 de Abril. Só ao fim da minha insistência com várias questões a desconstruir as primeiras respostas lá veio a conclusão escrita na tal fonte de desinformação: "Conclusão honesta: A frase “os capitães eram instruídos” deve ser qualificada: eram instruídos como militares, não necessariamente como pensadores políticos ou agentes ideológicos conscientes. Muitos agiram por cansaço, desilusão com a guerra, ou por razões corporativas e profissionais, e não por ideologia ou convicção democrática sólida. Estivemos muito perto de sermos outro Camboja, mas ainda hoje, após 50 anos, falta muito para limparmos essa ideologia que campeia no nosso país, em tantos meios, não deixando que tantos jovens formem as suas opiniões verdadeiramente democráticas.                  José Miranda: Estive há 16 anos no Camboja. O motorista de táxi disse que o irmão tinha sido preso e morto porque usava óculos. Era um indício de alguém que lia…                   Miguel Oliveira > Manuel Lisboa: Esse problema tem/terá solução clínica. “Confuso (?)…” onde ?                        Miguel Oliveira: Excelente artigo, como é habitual. Obrigado                     Álvaro Venâncio: Que extraordinária crónica de Jaime Nogueira Pinto: era isto que devia ser transmitido aos estudantes nas escolas: isto é a cruel verdade. Parabéns e obrigado a JNP.                   Coxinho > madalena colaço: A pergunta que encerra o seu pertinente comentário perseguiu-me ao longo da vida toda. Nunca lhe encontrei resposta.                    Coxinho > Carlos Real: Concordo consigo: quando introduzidas no campo da política como bandeiras de comportamento, as ideologias representam e impulsionam "o pior do ser humano" enquanto membro da sociedade.

sábado, 28 de junho de 2025

Não é travessura

 

Habitual em ALBERTO GONÇALVES.

É mesmo caos. Mundial. Que o mundo inteiro deixa que exista.

Não é de admirar que deixe. Se deixa que vigorem os Putins, como uma imagem de justo sentado modestamente na cadeira do acesso exclusivo aos fotógrafos televisivos…

De estarrecer, o que conta AG, indignado e sem risos. Mais ainda que isso da invasão da Ucrânia, jeito comum, afinal, nas Histórias dos povos de qualidade invasora das Ucrânias da sua ambição. O que AG conta é sórdido como crime e como permissividade mundanal a esse establishment de imoralidade sem critério. Um nome de candidato – democrata - a uma câmara, adepto da violência extremista contra ISRAEL. Mamdani se chama.

E repetimos, com AG:

«Destruir o “sistema”, o modo de vida, enfim o Ocidente, pedaço a pedaço. É preciso um grau assinalável de estupidez para que os moços e as moças que estudaram na Columbia e habitam em Tribeca participem com galhardia nesta guerra à sua própria existência. Donde a questão: quando é que as universidades desataram a formar idiotas?»

 

Um jihadista em Nova Iorque

O patrocínio das “elites” que conquistaram os “media” e da ala mais tresloucada dos democratas esclarece o objectivo da empreitada de que o sr. Mamdani é o rosto: destruir.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 jun. 2025, 00:203

Conhece Zohran Mamdani? Eu trato das apresentações. Desde a passada terça-feira, o sr. Mamdani é oficialmente o candidato democrata à câmara de Nova Iorque, logo o favorito a vencer as eleições de Novembro. Nasceu no Uganda, tem 33 anos e professa o islamismo e o comunismo. Defende que “a violência é uma construção social”, excepto a violência praticada pelos tribunais que condenam criminosos e pelos polícias que os prendem. Parece que quer substituir a polícia, que ele garante ser “racista” e “anti-queer”, por assistentes sociais nos bairros de maior criminalidade. Jura incentivar a imigração, legal ou ilegal não importa. Promete transportes públicos gratuitos, supermercados geridos pelo município e congelamento de rendas. Opõe-se aos construtores privados e, pelos vistos, a tudo o que cheire a privado. Propõe duplicar o salário mínimo e aumentar em dez biliões de dólares os impostos às grandes empresas e à riqueza patrimonial. Eu avisei que ele é comunista.

Também avisei que o sr. Mamdani é muçulmano. E xiita. E dos que acarinham uma susceptibilidade especialíssima a Israel e aos judeus. Sendo um “activista” pró-“Palestina”, apoia o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que visa o absoluto isolamento cultural e comercial de Israel. Apoia com igual empenho a “globalização da Intifada”, propósito que subscreveu em diversas ocasiões. Isto é, o sr. Mamdani defende a perseguição dos judeus onde quer que eles se encontrem e seja por que meios for. O que vale é que ele se diz pacifista e que, relembro, a violência é uma construção social. Além disso, como se viu na parte da habitação, construções sociais são uma das prioridades do homem.

Anti-semita? Nem por sombras: apenas um vulgar anti-sionista, leia-se alguém que não reconhece o direito de Israel a existir. Quando em entrevista o questionaram acerca desta última parte, o sr. Mamdani hesitou o suficiente para ficarmos esclarecidos. Aliás, na Assembleia do Estado de Nova Iorque de que tem sido membro, o sr. Mamdani recusou há semanas assinar uma resolução que assinalava o aniversário de Israel. E há cinco meses não assinou uma resolução que condenava o Holocausto. Se ele é anti-semita, qualquer dia até Goebbels é rotulado com o epíteto.

Antes de deslizar para a política, o sr. Mamdani teve uma carreira falhada enquanto “rapper”, com “canções” contra a “islamofobia” e a favor (ora adivinhem lá) da “Palestina”, o território que lhe ocupa a cabeça nos momentos em que não sonha arrasar NYC. Porém, o cadastro da criatura já vai longo que chegue, pelo que é escusado cavar fundo. Se cavarmos à superfície, verifica-se a curiosa composição socio-demográfica da base eleitoral do sr. Mamdani. As minorias estão com ele, leia-se a minoria muçulmana, que preencheu o lugar dos operários na hagiografia da esquerda. Os negros não estão particularmente com ele. Nem os trabalhadores menos abonados. Nem os pouco instruídos. Grosso modo, os eleitores do sr. Mamdani pertencem sobretudo à “maioria” democrata de Manhattan e Brooklyn: brancos, jovens, com remunerações muito acima da média ou filhos de famílias com remunerações muito acima da média. E, destaque-se, com formação académica superior. Na essência, são os agentes da “gentrificação” que ele anuncia combater.

Não sei como é que o sr. Mamdani resolverá a contradição acima. Ou como vai conciliar os delírios “identitários” do partido com a campanha regular nas mesquitas da “comunidade” que orgulhosamente integra. Ou como justificará o caos e o crime que as suas medidas agravarão junto das populações que finge proteger. Ou como irá gerir a Intifada na segunda cidade judaica do planeta. Mas o provável é que não precise de resolver, conciliar, justificar ou gerir coisa nenhuma.  Quem vota nele não está para subtilezas ou sofisticações de pensamento. O patrocínio inequívoco das “elites” que conquistaram os “media” e da ala mais tresloucada dos democratas (e a concorrência é feroz), de “Bernie” Sanders a Alexandria Ocasio-Cortez, esclarece o objectivo da empreitada de que o sr. Mamdani é o rosto: destruir. Destruir o “sistema”, o modo de vida, enfim o Ocidente, pedaço a pedaço. É preciso um grau assinalável de estupidez para que os moços e as moças que estudaram na Columbia e habitam em Tribeca participem com galhardia nesta guerra à sua própria existência. Donde a questão: quando é que as universidades desataram a formar idiotas?

O ensino dos “estruturalistas” franceses na América começou nos anos 1960. Os avisos de Alan Bloom em “The Closing of the American Mind” são de 1987. A “teoria crítica” e (desculpem) a “interseccionalidade” contaminaram mortalmente os currículos das “ciências sociais” [sic] na viragem do século. A sandice “woke”, os motins do BLM, as “reparações” e a remoção de estátuas entraram em rédea solta em 2020. A perseguição de judeus nos “campus” tornou-se legítima a 7 de Outubro de 2023. Façam as contas. E façam o favor de ter vergonha na cara sempre que vos apeteça enxovalhar os “iletrados” que, mereça ele ou não, escolhem Trump. São esses “iletrados”, os que prezam o esforço e a memória, aquilo que resta da América. Nova Iorque, repleto de mentecaptos com diploma e dinheiro, arrisca-se a ficar definitivamente de fora.

NOVA IORQUE     ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA     AMÉRICA     MUNDO     EXTREMISMO     SOCIEDADE     ISLAMISMO     RELIGIÃO

COMENTÁRIOS

Albino Mendes: Esta semana não comento, mas agradeço a crónica.

Rui Lima: O Ocidente acabará assim destruindo por dentro a política de portas abertas deixou entrar povos com ódio ao Ocidente que ditará o seu fim . Vejam o que se passa em algumas cidades francesas, Lyon com bandeira da palestina , A Câmara Municipal de Lyon votou, em 26–27 junho de 2025, uma subvenção de 50 000 € à UNRWA, já tinha votado 50 000  para a Cruz‑Verde , mais 50 000 € para projectos de Médecins du Monde em Gaza … uma bâche violeta na grade da prefeitura, com apelos como: “Cessez‑le‑feu immédiat à Gaza”, Quem decide a maioria em muitas cidades são os muçulmanos o seu número de votos tira às cidades a direita dando o poder à esquerda que para os cativar lhe promete tudo e faz tudo.

A Sameiro: Caminhamos a passos largos para uma guerra "civil" mundial

observador censurado: Com cerca de 3 milhões de imigrantes antes do reagrupamento familiar, uma grande parte adeptos de "Alá", quantos anos teremos de "paz" e "sossego" até o presidente de Portugal ser um fervoroso adepto do Islão?

José Paulo Castro: Uma boa ocasião para um republicano ganhar a Câmara de Nova Iorque.

 

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Linhas


Com que nos “cozemos“ todos, pelos tempos aquém. Jesus também, que era sábio, mas julgo que utilizou todas as cores, nas suas mensagens costureiras polivalentes.

Jesus teria linhas vermelhas?

Se há constante na vida de Jesus é a oposição à sobranceria intelectual e incompletude moral das ideias, a princípio justas, da elite do seu tempo.

P. JOÃO BASTO Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 27 jun. 2025, 00:1817

A resposta à pergunta do título é difícil. Tanto tempo depois corremos sempre o risco de estar a descontextualizar. Mas, ainda assim, é possível ter uma ideia. Em primeiro lugar, é preciso ver que Cristo viveu num tempo extremamente polarizado. Saduceus e Fariseus eram os “homens do sistema”, controlando grande parte da vida religiosa e política da região, mas sem qualquer capacidade de criarem qualquer “pacto de regime”, porque discordavam “nas questões essenciais”. De um lado e do outro estavam os extremos. Os zelotas: um grupo nacionalista radical, que possuía, inclusive, uma espécie de braço armado terrorista, os sicários. E os essénios: que tinham cortado com as autoridades, viviam em comunidades isoladas, rejeitavam a vida urbana e a corrupção do Templo de Jerusalém. Mas ainda temos que acrescentar pregadores ambulantes, que hoje apelidaríamos de populistas e demagogos, como João Batista, que proclamava uma purificação dos pecados no Rio Jordão, ou seja, fora do grande centro político e religioso da época. Sem esquecer, claro, que a região onde Jesus nasceu, viveu e morreu estava ocupada pelo Império Romano.

Neste contexto, conseguimos entender alguma coisa sobre a posição de Jesus olhando para o nome dos seus discípulos. Na lista dos 12 temos, por exemplo, Mateus, Simão e Judas. Ora, Mateus era cobrador de impostos e, por isso, um vendido ao imperialismo romano. Simão era conhecido como o zelota e, por isso, um patriota fanático, daqueles de bandeira tatuada no peito. E Judas, apelidado de Iscariotes, via a sua alcunha remontar aos sicários, ou seja, os já referidos terroristas. Não é de surpreender, assim, que às vezes até os Evangelhos falem de tensões entre os discípulos. Mas o mais curioso, só para falar destes três, é que o objectivo de Simão e de Judas era, pela sua filiação social e política, matar, sem qualquer piedade ou escrúpulo, pessoas como Mateus, que eram comumente vistos como traidores.

Isto é muito importante actualmente, porque à boleia da justa afirmação de que é incompatível com o Cristianismo o racismo, a xenofobia e o ódio, tem existido uma espécie de apartheid social das pessoas que expressam ideias algumas vezes sem qualquer sentido ou fundamento. Reparem: de modo algum é claro que Simão ou Judas tenham renunciado plenamente às suas convicções, quando seguiram Jesus. Alias, só isso explica, a título de exemplo, os contactos que terão facilitado a traição orquestrada por Judas. E, pelo menos quanto sabemos pelos Evangelhos, Jesus nunca teve nenhum discípulo saduceu ou fariseu. O primeiro que conhecemos até é Paulo, o que desmente a ideia comum de que o Cristianismo se expandiu, antes de mais, entre escravos e camadas pouco formadas da população.

Ora, Jesus não seria a favor do paradoxo da tolerância de Karl Popper. Ainda para-mais, se ele corresponde à infografia viral que invade, ocasionalmente, as redes sociais e que nada tem a ver com a obra do filósofo de origem austríaca. Cristo, aliás, tinha uma atitude estranha diante da realidade. Em certos lugares, tornava a lei mais radical do que efectivamente já era. Noutros, agilizava-a e libertava-a do fundamentalismo normativo. E se há constante na vida de Jesus é a oposição à sobranceria intelectual e incompletude moral das ideias, a princípio justas, da elite do seu tempo. E a seu lado não estavam os maoistas e os marxistas do seu tempo – muito embora estes movimentos não sejam, de todo, inocentes a nível étnico –, mas os supremacistas brancos da ocasião.

Esta é uma visão redutora, mas os companheiros de Jesus não eram só trabalhadores precários de uma região periférica da Palestina do séc. I. E isso é o que torna o Cristianismo tão difícil e desafiante. Afinal de contas, Jesus tinha linhas vermelhas. Mas elas não eram um programa político. Era a hipocrisia.

COMENTÁRIOS:

Miguel Aguiar: Há algo que nunca percebi e talvez os estimados comentadores ou o autor me possa explicar: porque a entidade divina de Cristo não tomou o caminho lógico? Ou seja ser o Messias que os judeus ansiavam! Alguém que " será ungido com óleo sagrado e governará o povo judeu durante a Era Messiânica, trazendo paz e justiça ao mundo."? Afinal paz e justiça não é aquilo que se anseia? Porquê então complicar, trazendo ainda mais desunião ao mundo?               Rafael Pelote:Genial. O que mais me assusta é pensar quem crucificaria a Cristo, se viesse à terra nos dias de hoje… Obrigado pela clarividência!                   Miguel Aguiar > Rafael Pelote: Provavelmente os mesmos que voluntariamente assassinaram os bebés Bibas.... Enquanto o de 5 anos poderia já ser um "colonizador", dificilmente tal epítomo poderia ser aplicado ao de nove (9) meses.... E no entanto....                 Kindu: A ideia que eu tenho é que Jesus tinha a mania de que ele é que sabia. Encolerizava-se se alguém discordava dele, acusava logo o outro de ter o diabo no corpo. E em tudo via diabos e demónios. Se discordavam dele, tinham o diabo. E se lhe traziam doentes mentais para curar, não tratava doenças, tirava demónios. E dizia logo quantos lá estavam dentro do corpo, um, dois, três demónios, etc.               Miguel Aguiar > Kindu: É isso que me chateia nas religiões!....Por que diabo insistem em me salvar do Inferno? Sendo que uma está disposta a matar-me para me salvar.... Com alguma excepção dos judeus que não fazem grande proselitismo e cujo inferno é mais como uma repartição de finanças ás 15h50'....                Rui Pedro Matos: D. João Lavrador deve andar fora da Diocese!                 Paulo Nunes: Jesus tinha imensas linhas vermelhas.

Já excluindo o episódio em que explode e dá que contar aos vendilhões do templo, há imensas passagens em que critica, repreende, corrige. Jesus vem com um mandamento novo, e isso, só por si, é o conjunto de linhas vermelhas e regras a cumprir. Essas linhas são um programa de vida, mas também de política e social.                       Ana Luís da Silva: Jesus Cristo é um homem da sua época,  ou melhor é o Homem do seu tempo. Mas também é o Filho de Deus, com a missão espiritual de salvar a Humanidade da sua deriva de desobediência contra Deus. Imaginemos Jesus no início da sua vida pública, a ter que escolher os doze apóstolos. Sabemos que esteve no deserto, em jejum e oração a preparar esse momento essencial do convite aos homens que seriam no futuro os seus representantes na Terra. A que olharia Nosso Senhor? Aos mais puros e bondosos, ou doutos e poderosos? Mas se todos tinham pecado… por isso, não. O Senhor teria que escolher homens como quaisquer outros, cheios de defeitos, ideias erradas ou preconcebidas, mas que tivessem em primeiro lugar um coração pronto a acolhê-lo imediatamente para desde logo largarem tudo e segui-LO. Alguém consegue imaginar-se no seu trabalho, na sua casa, no seu dia-a-dia, a largar tudo de um momento para outro e seguir Jesus? É óbvio que não. Depois, estes homens teriam que amar a Sua Palavra, que além de consoladora também coloca desafios inalcançáveis para as forças de um ser humano sem a graça de Deus, como: amar os inimigos, fazer bem aos que os perseguiam, carregar a própria cruz e segui-LO mesmo assim, tomar o Seu Sangue e e comer o Seu Corpo, etc, etc. E mais: teriam que ser homens capazes de amar tanto a Nosso Senhor que seriam corajosos ao ponto de sair dos lugares onde permaneciam escondidos com medo dos romanos e dos fariseus depois da morte e ressurreição de Jesus, para anunciarem o Evangelho a todos e em todos os lugares e fundarem a Sua Igreja, com grande risco para si próprios. Finalmente, teriam que alargar ainda mais o seu coração e, além de abraçarem um Messias que não seria vitorioso (aparentemente) aos olhos do mundo, mas perseguido, serem perseguidos e mortos como Ele isto é, de entregarem a própria vida quando desafiados a abandoná-LO pelas autoridades políticas e religiosas da época (como tinham abandonado quando do Seu julgamento e crucificação). E assim dar testemunho de sangue. Portanto, a questão não eram as linhas vermelhas. O Salvador do Mundo precisava de homens capazes de um Amor radical a ponto de darem a vida por Ele. As linhas vermelhas são uma invenção humana, de espíritos tacanhos. Em jeito de conclusão dos 12, tirando o apóstolo João, que morreu na prisão, todos os outros (menos Judas que O traiu e se suicidou). foram perseguidos, torturados e morreram dando a vida por Nosso Senhor Jesus Cristo.                     GateKeeper: Sim. Até as teve e bem sonoras, p. exemplo os "vendilhões do templo", os corruptos, etc.. Seria, aos dias de hoje, um arauto da boa autoridade, certamente.                Rosa Lourenço: Até Jesus separava a Religião da Política.         Maria Carreira: Texto histórico muito interessante. Inteligentíssima e clara transposição para o nosso tempo!                     Alexandre Barreira: Pois. Caro P. João, Não concordo com as "linhas vermelhas". Na minha "parca opinião"....e como "fruto-do-pecado-original". Julgo que Jesus...se cá voltasse. Não seria "Adepto-do-Benfica". Como "Homem Sofredor". Seria mais "Adepto-do-Porto"....! Américo Silva: Se Judas não tivesse traído Jesus não haveria salvação, se Pôncio Pilatos não tivesse lavado as mãos, não haveria salvação.                Rosa Lourenço > Américo Silva: Cada um cumpriu a sua missão. Ruço Cascais: Ter uma namorada, segundo os evangelhos, foi uma das linhas vermelhas de Jesus. Não é um assunto fácil de abordar, além disso não enobrece o Deus que existia no homem. Mas a verdade é que Jesus era um ser biológico com necessidades biológicas. Comia, dormia, urinavam e defecava, possivelmente atrás de um arbusto já que o conceito de WC só muitos anos mais tarde surgiu. A possibilidade de Jesus ter os dentes sujos e estragados era muito grande, já que a higiene oral não era prática na altura. Há um homem em Jesus. Mas a biologia de Jesus que sofreu no deserto e na Cruz, certamente que despertou para os amores carnais quando tinha 16 ou 17 anos como qualquer ser biológico, como qualquer um de nós. Quando o amor não é correspondido os miúdos aliviam-se, mas, Jesus resistiu a tudo isso tendo conseguido forçar a libido ao silêncio e à irrelevância. Jesus sabia que a sua condição divina num corpo biológico obrigava a certas linhas vermelhas que não podia ultrapassar; o álcool, a gula, a remuneração pelo trabalho, as mulheres, os prazeres carnais e as brigas. Jesus não lutava, não lutava fisicamente. Bateram-lhe e ele ficou-se. Na minha opinião, caro Padre, uma alma divina no corpo de um homem tem obrigatoriamente linhas vermelhas. Até eu, uma alma pecaminosa e que o tempo rapidamente fará esquecer tenho linhas vermelhas, quanto mais um Deus.               Rosa Lourenço > Ruço Cascais: Concordo inteiramente. As linhas vermelhas são os limites da Moral e da Ética.                Francisco Almeida > : Rosa Lourenço: Não me importava de concordar consigo se lhes chamasse outra coisa que não linhas vermelhas. Há palavras que já carregam em si uma carga ideológica e lamento que o Pe. João Basto as tenha usado para significar limites. Jesus Cristo certamente tinha limites nas Suas duas naturezas, Divina e humana.