domingo, 29 de junho de 2025

Sabe bem


A referência a momentos passados, vividos com amigos da época descrita, que liam e informavam e às vezes nos emprestavam os tais livros da sua superioridade cultural. Mas foram sobretudo os livros da Pearl Buck, - A Mãe”, “Terra Bendita” (salvo erro, que a memória esvaiu-se com a flacidez da pele) que recordo como informadores das terras de que trata JAIME NOGUEIRA PINTO, no seu dom de tradução desse passado que acompanhámos numa ou noutra leitura e que tanto prazer nos dá reviver, através do seu saber crítico.

Cambodja: uma efeméride da extrema-esquerda (há 50 anos a construir a democracia)

As cidades, as grandes cidades, eram o centro da corrupção burguesa e havia que aniquilar o inimigo. Da população do Cambodja que andava pelos 6,6 milhões de habitantes, morreram entre 1,7 e 2 milhões

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 28 jun. 2025, 00:1845

A 30 de Abril de 1975 caiu Saigão. Foi há 50 anos. A queda tornou-se um símbolo, não só de uma vitória comunista, mas de uma derrota do Ocidente perante o Oriente. Tinha havido outras derrotas semelhantes, na guerra russo-japonesa de 1904-1905, datas memoráveis porque, nesses tempos de Imperialismo, a regra era “os ocidentais”, com velas e canhões, ou máquinas a vapor e canhões, saírem vitoriosos dos recontros.

Mas às vezes não saíam. Às vezes, eram os outros que ganhavam. Foi assim que os sioux do Sitting Bull, do Touro Sentado, derrotaram o general Custer, e que os abissínios do imperador Menelik II esmagaram em Addua os italianos do general Baratieri.

A queda de Saigão em 1975 era o fim de uma longa guerra vitoriosa para os dirigentes comunistas do Vietname do Norte, Ho Chi Min e o general Giap, que 21 anos antes, em 7 de Maio de 1954, tinham tomado o campo entrincheirado de Dien Bien Phu, aprisionando milhares de militares franceses. O campo entrincheirado tinha sido uma decisão estratégica infeliz do general Navarre, o comandante militar da Indochina.

Mas, poucos dias antes da queda de Saigão, caíra Phnom Penh, capital do Cambodja. E caíra nas mãos daqueles que, pela rigorosa aplicação da sua ideologia, viriam a tornar-se famosos numa actividade em que tinham séria e pródiga competição: a prática do crime contra a Humanidade.

Nesse século XX, concorrentes não faltavam ao Cambodja: os comunistas de Lenine e Estaline tinham inaugurado a modalidade na guerra civil russa, aniquilando os inimigos, aristocratas, burgueses e cristãos, por métodos que levariam historiadores como Ernst Nolte e Andreas Hillgruber a falar em genocídio de classe. Seguira-se, na competição, o hitlerismo, com as suas leis de pureza racial e o extermínio dos judeus na Europa ocupada. Mas se Hitler se concentrara nos judeus e nos estrangeiros, Estaline dedicara-se a exterminar os seus compatriotas, entre os quais muitos comunistas. Foi talvez o homem que mais comunistas matou.

Depois, a partir de 1949, encontrou um competidor à altura: outro correligionário, outro comunista. Mao Tse-Tung matou dezenas de milhões de compatriotas através de programas de engenharia económica, como o Grande Salto em Frente (1958-1962), ou de educação ideológica, como a Revolução Cultural (1966-1976). O “Grande Timoneiro” não recuava perante os custos humanos ou materiais dos seus projectos e o Grande Salto, com a colectivização forçada das terras e a “revolução industrial” acelerada, saldou-se em dezenas de milhões de mortos à fome. E não contente com o desastre, lançou-se, em 1966, numa nova iniciativa colectiva, a Revolução Cultural, levando o terrorismo policial e de Estado a dimensões de paranóia e terror nunca vistas.

Apesar destes horrores (ou por causa deles, nunca se sabe …), Portugal, há 50 anos, estava cheio de admiradores do ditador chinês, que, segundo a biografia de Jung Chang, foi responsável, só na Grande Fome de 1958-1961, por 38 milhões de mortos. “Pior que Hitler e Estaline”, declararia a romancista de Os Cisnes Selvagens. Mesmo assim, muitos “antifascistas” locais, inquietos com as malfeitorias de Salazar e da PIDE, não se inibiam de seguir o Grande Timoneiro. Por ignorância, espera-se.

Como também não se inibiam de saudar – também por ignorância e cegueira ideológica, espera-se – a vitória dos Kmers Vermelhos a 17 de Abril de 1975 como uma vitória da democracia e do povo rumo à construção de mais um paraíso na terra.

E se todo o paraíso artificial precisa de terraplanagem este não foi diferente. Ou foi, se olharmos para a ratio população/vitimas, comparada com a dos morticínios do comunismo soviético, do comunismo maoísta, do hitlerismo nazista. Se os números absolutos das vítimas do maoísmo (70-80 milhões) são os maiores entre os grandes crimes contra a Humanidade no século XX, logo seguidos pelos do comunismo soviético (15-20 milhões) e pelos do Holocausto hitleriano, com os seus seis milhões de judeus exterminados, os números relativos da limpeza no Cambodja (um terço da população do país) passam-lhes bem à frente.

Nos anos 60, sob o governo do astuto príncipe Norodom Sihanouk (1922-2012), o país seguia uma política de neutralidade na guerra entre o Vietnam do Norte comunista e o Vietname do Sul, pró-americano. Em 1970 um golpe de Long Noi expulsou Sihanouk e passou o Cambodja para o lado americano. Mas nas selvas cambodjanas, uma forte guerrilha comunista, chefiada por um professor de liceu, Saloth Sar, de seu nome de guerra Pol Pot, apoiado por Pequim e por Pyongyang, iniciava a luta pelo poder ou pela libertação do povo.

Nem mesmo o mais radical dos esquerdistas lusos imaginaria, imagino eu, o requinte ideológico e a destreza prática dos Kmers Vermelhos: conquistada a capital, Phnom Penh, e assassinados os dirigentes políticos do tempo de Long Noi e as suas famílias, por que não varrer para o caixote do lixo da opressão os dois mil anos de História do Cambodja e esvaziar a capital de toda a sua população, para começar de novo, fazendo do passado tábua rasa?

A cidade tinha então dois milhões de habitantes, contando com os refugiados. Os Kmers Vermelhos deram-lhes guia de marcha para os campos. Pol Pot convivera com Mao e com os dirigentes da Coreia do Norte e seguia os mestres.

As cidades, as grandes cidades, eram o centro da corrupção burguesa e havia que aniquilar o inimigo. Assim, tal como a capital, Phnom Penh, outras cidades do país foram esvaziadas de todos os que incorriam no crime de pertencer à classe média urbana.

A operação decorreu com o maior sucesso. Da população do Cambodja, que à data andava pelos 6.600.000 de habitantes, morreram, nos anos seguintes, entre 1.700.000 e 2.000.000 pessoas, isto é, um terço dos cambodjanos. O clima era de acusação de desvio à direita, de “heterodoxia burguesa”, de contaminação ideológica. E assim, de olhos postos na “pureza” revolucionária, na beleza do ideal, na generosidade da utopia, se iam ceifando incómodas realidades e existências. O costume.

O nº 107 da revista L’Histoire Collection, referente ao trimestre de Abril-Junho de 2025, é um número especial dedicado ao Cambodja e à sua História, sendo a terceira parte consagrada aos “3 ans, 8 mois, 20 jours” do “régime criminel”. Vale a pena ler o que foi nesses 3 anos, 8 meses e 20 dias o apocalipse de um povo sob a batuta de Saloth Sar, Pol Pot, e de alguns dos seus colaboradores mais directos.

Estranhamente, a deslocação forçada da população para novos espaços acabara mal, muito mal…. Mas como, se a doutrina era tão boa, a ideia de esvaziar cidades, de começar do zero? Também ali, a explicação seguiria os cânones epistemológicos da esquerda radical: se a doutrina era boa e estava certa e se a população tinha morrido em massa nos campos de trabalho de arroz inexistente, a culpa não era da doutrina, do ideal. Só podia ser sabotagem dos executores. Estava na hora de passar à purga interna, como na URSS e na China. E eis que uma unidade especial, a S21, dirigida por outro professor de liceu – Kaing Guek Eav, conhecido por Duchentrou em acção. Em três anos, foram executadas cerca de 20.000 pessoas. A tal unidade especial, a S21, funcionava num antigo liceu da capital desertificada. Quem lá entrava, sabia, como no Inferno de Dante, que já de lá não sairia, que podia e devia perder toda a esperança.

Mas deixemos os círculos infernais para os nazis do passado, que é como quem diz para os neo-nazi-fascistas da extrema-direita do presente, que aqui, apesar dos erros de execução, é de imorredoiros ideais e de generosos professores de liceu e activistas que falamos… e não de grunhos, que ora são polícias ora são seguranças privados. Esses sim, cuidado com eles! Olhos vigilantes da Democracia e da República neles, que não passarão!

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COMENTÁRIOS (de 45)

Rui Lima: É sempre bom lembrar o maior assassino em termos relativos, lembro os outros onde a esquerda está sempre “bem “representada, Mao Tsé-Tung 70 milhões Fome e purgas …Josef Stalin 30 milhões tudo era bom para matar quem não era comunista não esquecendo a fome na Ucrânia (Holodomor). Outro inimigo do mundo livre, dos USA, dos judeus, do capitalismo (hoje a esquerda tem os mesmos inimigos) Adolf Hitler 17 milhões. Mas no Camboja a demência comunista foi ao extremo, algo que nunca compreendi. As ideias marxistas são a mãe dos maiores crimes e misérias, mas continua impunemente a divulgar as suas ideias sem quem sejam proibidos pelo contrário tem espaço em tudo o que é imprensa .                madalena colaço: Intelectuais como Sartre e Beauvoir, que influenciaram uma geração que se manifestou nas ruas de Paris a favor destes regimes, regressados das viagens à URSS, Cuba ... só diziam maravilhas do que lá viram. Um prémio Nobel da economia, que regressado à América depois de uma visita à URSS em 1986, disse "Vi o futuro e funciona". Até o realizador Michelangelo Antonioni, que realizou filmes como Blow-up, Aventura...de uma criatividade extraordinária, vai à China, nesses idos anos de 1970, e faz um documentário de mais de 4 horas, em que nos mergulha numa China de miséria, mas, a sua voz, que acompanha todo o documentário consegue ver maravilhas num país, em que é proibido o pensamento individual. Todos os templos estão fechados, o livrinho vermelho o único livro permitido e nas escolas, as crianças nunca podem brincar sozinhas. Perante a miséria, crueldade, destes regimes, mas também o sujeitar o ser humano a lavagens cerebrais para que não possa pensar individualmente, porque é que esta gente não denunciou, mas pelo contrário elogiou estes regimes?          Glorioso SLB: Vale a pena ler a crónica desta semana do Alberto Gonçalves sobre um novo timoneiro, agora em NY. Em relação ao Cambodja, vale tb a pena ver um filme dos anos 80, “The Killing Fields” com o John Malkovitch. Por aqui O marteli e a foice comunista deveriam ter as mesmas restrições de uso que a suástica nazi, mas continuam por aí, exibidas com orgulho, e sem contestação         José B Dias  > Mario Figueiredo: Não o sabia mal educado ... lamento que a vida lhe tenha sido madrasta e a sua formação tenha por isso sido tão claramente deficitária.                       José B Dias > Mario Figueiredo: A descrição que pretende fazer de Jaime Nogueira Pinto soa estranhamente a um auto-retrato pintado do que vê no espelho ... Uma boa gargalhada sempre me animou qualquer fim-de-semana. Obrigado!       Afonso Soares: Para a comunicação social portuguesa o comunismo continua a ser o paraíso na terra. Estão de tal maneira doutrinados que o que se passa nesses países não merece uma nota de rodapé. Agora meia dúzia de "nazis" que se preparavam para, imagine-se, derrubar o governo assaltando a assembleia da República é notícia durante vários dias. Entram em transe alucinogénico, prevendo que iremos entrar numa noite permanente de escuridão. Cuidado com os populistas 😂😂      Meio Vazio > Rui Lima: Curiosamente (ou talvez não), todos filhos dilectos do iluminismo jacobino francês, da Revolução Francesa ("a coisa mais estonteante que já aconteceu"- E. Burke) e das fantasias (pseudo-científicas) marxistas.                       Carlos Real: E bom não esquecer que o Pol Pot mesmo depois de derrubado, e de se conhecer em detalhe os horrores do regime, continuou a ter lugar na ONU. Esta bela organização humanitária tem servido nobres propósitos. Já o grande escritor de viagens, Paul Theroux, tem desmascarado e bem o papel dos supostos trabalhadores solidários no terreno mundial. Por isso eu digo, o pior do ser humano são a inveja/cobiça e a força das ideologias. Distorcem completamente a realidade tornando-se irracionais.        João Floriano: Estive no Cambodja em 2015. Corrijo: estive em Angkor Wat. O nosso guia, um homem entre os 30 e os 35 anos, falou-nos do horror dos Kmer Vermelhos. Ele era o único homem adulto de uma família de mulheres, muitas delas tias velhas porque Pol Pot sacrificava os homens, cortava o sustento das famílias e as mulheres ficavam sós com os filhos na mais absoluta miséria. Quem usasse óculos tinha a vida em perigo, porque isso significava que se tratava de um intelectual. Maldito comunismo que nada de bom trouxe à humanidade, sendo que muitos ainda continuam a insistir numa ideologia que só tem causado desgraça. Deve ser o resultado de algo que não está bem no cérebro desta gente, uma mutação do ADN.                  afonso moreira: Mais um artigo muito esclarecedor de JNP. A nossa comunicação social e o "conhecimento" feito nas nossas universidades e tanta falsidade que foi escrita, está tudo de tal forma doutrinado que qualquer pesquisa que se faça no Chatgpt sobre o "nosso" período revolucionário vem cheia de falsidades. Pensei como estão a ser formados os nossos jovens, no secundário com respostas tão enviesada que aí encontram! Vem isto a propósito de uma pesquisa que fiz sobre um General comentador e que aparece regularmente na tribuna do 25 de Abril. Só ao fim da minha insistência com várias questões a desconstruir as primeiras respostas lá veio a conclusão escrita na tal fonte de desinformação: "Conclusão honesta: A frase “os capitães eram instruídos” deve ser qualificada: eram instruídos como militares, não necessariamente como pensadores políticos ou agentes ideológicos conscientes. Muitos agiram por cansaço, desilusão com a guerra, ou por razões corporativas e profissionais, e não por ideologia ou convicção democrática sólida. Estivemos muito perto de sermos outro Camboja, mas ainda hoje, após 50 anos, falta muito para limparmos essa ideologia que campeia no nosso país, em tantos meios, não deixando que tantos jovens formem as suas opiniões verdadeiramente democráticas.                  José Miranda: Estive há 16 anos no Camboja. O motorista de táxi disse que o irmão tinha sido preso e morto porque usava óculos. Era um indício de alguém que lia…                   Miguel Oliveira > Manuel Lisboa: Esse problema tem/terá solução clínica. “Confuso (?)…” onde ?                        Miguel Oliveira: Excelente artigo, como é habitual. Obrigado                     Álvaro Venâncio: Que extraordinária crónica de Jaime Nogueira Pinto: era isto que devia ser transmitido aos estudantes nas escolas: isto é a cruel verdade. Parabéns e obrigado a JNP.                   Coxinho > madalena colaço: A pergunta que encerra o seu pertinente comentário perseguiu-me ao longo da vida toda. Nunca lhe encontrei resposta.                    Coxinho > Carlos Real: Concordo consigo: quando introduzidas no campo da política como bandeiras de comportamento, as ideologias representam e impulsionam "o pior do ser humano" enquanto membro da sociedade.

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