A referência a momentos
passados, vividos com amigos da época descrita, que liam e informavam e às vezes
nos emprestavam os tais livros da sua superioridade cultural. Mas foram sobretudo
os livros da Pearl Buck, - A Mãe”, “Terra Bendita” (salvo erro, que a memória
esvaiu-se com a flacidez da pele) que recordo como informadores das terras de
que trata JAIME NOGUEIRA PINTO, no seu dom de tradução desse passado que
acompanhámos numa ou noutra leitura e que tanto prazer nos dá reviver, através
do seu saber crítico.
Cambodja: uma efeméride da
extrema-esquerda (há 50 anos a construir a democracia)
As cidades, as grandes cidades, eram
o centro da corrupção burguesa e havia que aniquilar o inimigo. Da população do
Cambodja que andava pelos 6,6 milhões de habitantes, morreram entre 1,7 e 2
milhões
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 28 jun. 2025, 00:1845
A 30 de Abril de 1975 caiu Saigão. Foi há 50 anos. A queda tornou-se um símbolo, não só
de uma vitória comunista, mas de uma derrota do Ocidente perante o Oriente. Tinha havido outras derrotas semelhantes,
na guerra russo-japonesa de 1904-1905,
datas memoráveis porque, nesses tempos de Imperialismo, a regra era “os ocidentais”, com velas e canhões, ou máquinas a
vapor e canhões, saírem vitoriosos dos recontros.
Mas às vezes não saíam. Às vezes,
eram os outros que ganhavam. Foi assim
que os sioux do Sitting Bull, do Touro Sentado, derrotaram o general Custer,
e que os abissínios do imperador Menelik II esmagaram em Addua os
italianos do general Baratieri.
A
queda de Saigão em 1975 era o fim de uma longa guerra vitoriosa
para os dirigentes comunistas do Vietname do Norte, Ho Chi Min e o general Giap, que 21 anos antes, em 7 de Maio de 1954,
tinham tomado o campo entrincheirado de Dien Bien Phu, aprisionando
milhares de militares franceses. O campo entrincheirado tinha sido uma decisão
estratégica infeliz do general
Navarre, o comandante militar da Indochina.
Mas,
poucos dias antes da queda de Saigão, caíra Phnom
Penh, capital do Cambodja. E
caíra nas mãos daqueles que, pela rigorosa aplicação da sua ideologia, viriam a
tornar-se famosos numa actividade em que tinham séria e pródiga competição: a
prática do crime contra a Humanidade.
Nesse século XX, concorrentes não
faltavam ao Cambodja: os comunistas de Lenine e Estaline tinham
inaugurado a modalidade na guerra civil russa, aniquilando os inimigos,
aristocratas, burgueses e cristãos, por métodos que levariam historiadores como
Ernst Nolte e Andreas Hillgruber a falar em genocídio de classe. Seguira-se,
na competição, o hitlerismo, com as suas leis de pureza racial e o
extermínio dos judeus na Europa ocupada. Mas se Hitler se concentrara nos judeus e nos estrangeiros, Estaline dedicara-se a exterminar os seus
compatriotas, entre os quais muitos comunistas. Foi talvez o homem que mais comunistas
matou.
Depois, a partir de 1949, encontrou
um competidor à altura: outro correligionário, outro comunista. Mao
Tse-Tung matou
dezenas de milhões de compatriotas através de programas de engenharia
económica, como o Grande Salto em Frente (1958-1962), ou de educação
ideológica, como a Revolução Cultural (1966-1976). O “Grande Timoneiro” não recuava perante os custos humanos ou materiais
dos seus projectos e o Grande Salto, com a colectivização forçada das terras e
a “revolução industrial” acelerada, saldou-se em dezenas de milhões de mortos à
fome. E não
contente com o desastre, lançou-se, em 1966, numa nova iniciativa colectiva, a Revolução Cultural, levando o terrorismo policial e de Estado a dimensões de paranóia e terror nunca vistas.
Apesar destes horrores (ou por causa
deles, nunca se sabe …), Portugal, há
50 anos, estava cheio de admiradores do ditador chinês, que,
segundo a biografia de Jung Chang, foi responsável, só na Grande Fome de
1958-1961, por 38 milhões de mortos. “Pior
que Hitler e Estaline”, declararia a
romancista de Os Cisnes Selvagens.
Mesmo assim, muitos “antifascistas” locais, inquietos com as malfeitorias de
Salazar e da PIDE, não se inibiam de seguir o Grande Timoneiro. Por ignorância,
espera-se.
Como
também não se inibiam de saudar – também por ignorância e cegueira ideológica,
espera-se – a vitória dos Kmers
Vermelhos a 17 de Abril
de 1975 como uma vitória da democracia e do povo rumo à construção de mais um
paraíso na terra.
E se todo o paraíso artificial precisa de terraplanagem este não foi
diferente. Ou foi, se olharmos para a ratio
população/vitimas, comparada
com a dos morticínios do comunismo soviético, do comunismo
maoísta, do hitlerismo nazista. Se os
números absolutos das vítimas do maoísmo
(70-80
milhões) são os maiores entre os grandes
crimes contra a Humanidade no século XX, logo seguidos pelos do comunismo
soviético (15-20
milhões) e pelos do Holocausto
hitleriano, com os
seus seis milhões
de judeus exterminados, os números relativos da limpeza no Cambodja
(um terço da população do país)
passam-lhes bem à frente.
Nos anos 60, sob o
governo do astuto príncipe Norodom
Sihanouk (1922-2012), o país seguia uma política de
neutralidade na guerra entre o Vietnam do Norte comunista e o Vietname do Sul,
pró-americano. Em 1970 um
golpe de Long Noi
expulsou Sihanouk e passou o
Cambodja para o lado americano. Mas nas
selvas cambodjanas, uma forte guerrilha comunista, chefiada por um professor de
liceu, Saloth Sar, de seu nome de guerra Pol Pot, apoiado por Pequim e por
Pyongyang, iniciava a luta pelo poder ou pela libertação do povo.
Nem mesmo o mais radical dos esquerdistas lusos imaginaria, imagino
eu, o requinte ideológico e a destreza
prática dos Kmers
Vermelhos: conquistada
a capital, Phnom Penh,
e assassinados os dirigentes políticos do
tempo de Long Noi e as suas famílias, por que não varrer para o caixote do lixo da opressão os dois mil
anos de História do Cambodja e esvaziar a capital de toda a sua população, para
começar de novo, fazendo do passado tábua rasa?
A cidade tinha então dois milhões de
habitantes, contando com os refugiados. Os Kmers
Vermelhos deram-lhes guia de marcha para os campos. Pol Pot convivera com Mao e
com os dirigentes da Coreia do Norte e seguia os mestres.
As cidades, as grandes cidades, eram
o centro da corrupção burguesa e havia que aniquilar o inimigo. Assim, tal como
a capital, Phnom Penh, outras cidades do país foram
esvaziadas de todos os que incorriam no crime de pertencer à classe média
urbana.
A operação decorreu com o
maior sucesso. Da população do Cambodja, que à data
andava pelos 6.600.000 de habitantes, morreram, nos anos seguintes, entre
1.700.000 e 2.000.000 pessoas, isto é, um
terço dos cambodjanos. O clima era de acusação de desvio à direita, de
“heterodoxia burguesa”, de contaminação ideológica. E assim, de olhos postos na “pureza” revolucionária,
na beleza do ideal, na generosidade da utopia, se iam ceifando incómodas
realidades e existências. O
costume.
O
nº 107 da revista L’Histoire Collection, referente ao trimestre de Abril-Junho
de 2025, é um número especial dedicado ao Cambodja e à sua História, sendo a terceira parte consagrada aos “3 ans, 8 mois, 20 jours” do “régime criminel”. Vale a pena ler o que foi nesses 3
anos, 8 meses e 20 dias o apocalipse
de um povo sob a batuta de Saloth Sar, Pol Pot, e de alguns dos seus colaboradores
mais directos.
Estranhamente, a deslocação
forçada da população para novos espaços acabara mal, muito mal…. Mas como,
se a doutrina era tão boa, a ideia de esvaziar cidades, de começar do zero? Também
ali, a explicação seguiria os cânones epistemológicos da esquerda radical: se a doutrina era boa e estava certa e se a população
tinha morrido em massa nos campos de trabalho de arroz inexistente, a culpa não
era da doutrina, do ideal. Só podia ser sabotagem dos executores. Estava na
hora de passar à purga interna, como na URSS e na China. E eis que
uma unidade especial, a S21, dirigida por outro professor de liceu – Kaing
Guek Eav, conhecido por Duch – entrou em acção. Em três anos, foram executadas cerca
de 20.000 pessoas. A tal unidade especial, a S21, funcionava num antigo liceu
da capital desertificada. Quem lá entrava, sabia, como no Inferno de
Dante, que já de lá não sairia, que podia e devia perder
toda a esperança.
Mas deixemos os círculos infernais para os nazis do passado, que é como quem diz para
os neo-nazi-fascistas da extrema-direita do presente, que aqui, apesar dos
erros de execução, é de imorredoiros ideais e de generosos professores de liceu
e activistas que falamos… e não de grunhos, que ora são polícias ora são
seguranças privados. Esses sim, cuidado com eles! Olhos vigilantes da
Democracia e da República neles, que não passarão!
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA COMUNISMO POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 45)
Rui Lima: É sempre bom lembrar o maior assassino em termos
relativos, lembro os outros onde a esquerda está sempre “bem “representada, Mao
Tsé-Tung 70 milhões Fome e purgas …Josef Stalin 30 milhões tudo era bom para
matar quem não era comunista não esquecendo a fome na Ucrânia (Holodomor). Outro
inimigo do mundo livre, dos USA, dos judeus, do capitalismo (hoje a esquerda
tem os mesmos inimigos) Adolf Hitler 17 milhões. Mas no Camboja a demência
comunista foi ao extremo, algo que nunca compreendi. As ideias marxistas são a
mãe dos maiores crimes e misérias, mas continua impunemente a divulgar as suas
ideias sem quem sejam proibidos pelo contrário tem espaço em tudo o que é imprensa
. madalena
colaço: Intelectuais
como Sartre e Beauvoir, que influenciaram uma geração que se manifestou nas
ruas de Paris a favor destes regimes, regressados das viagens à URSS, Cuba ... só
diziam maravilhas do que lá viram. Um
prémio Nobel da economia, que regressado à América depois de uma visita à URSS
em 1986, disse "Vi o futuro e funciona". Até o realizador Michelangelo
Antonioni, que realizou filmes como Blow-up,
Aventura...de uma criatividade extraordinária, vai à China, nesses idos anos de
1970, e faz um documentário de mais de 4 horas, em que nos mergulha numa
China de miséria, mas, a sua voz, que acompanha todo o documentário consegue
ver maravilhas num país, em que é proibido o pensamento individual. Todos
os templos estão fechados, o livrinho vermelho o único livro permitido e nas
escolas, as crianças nunca podem brincar sozinhas. Perante a miséria,
crueldade, destes regimes, mas também o sujeitar o ser humano a lavagens
cerebrais para que não possa pensar individualmente, porque é que esta gente
não denunciou, mas pelo contrário elogiou estes regimes? Glorioso SLB: Vale a pena ler a crónica desta semana do Alberto
Gonçalves sobre um novo timoneiro, agora em NY. Em relação ao Cambodja, vale tb a pena ver um filme
dos anos 80, “The Killing Fields” com o John Malkovitch. Por aqui O marteli e a foice comunista deveriam ter as
mesmas restrições de uso que a suástica nazi, mas continuam por aí, exibidas
com orgulho, e sem contestação José B
Dias > Mario Figueiredo: Não o sabia mal educado ... lamento que a vida lhe
tenha sido madrasta e a sua formação tenha por isso sido tão claramente
deficitária. José B
Dias > Mario Figueiredo: A descrição que pretende fazer de Jaime Nogueira Pinto
soa estranhamente a um auto-retrato pintado do que vê no espelho ... Uma boa
gargalhada sempre me animou qualquer fim-de-semana. Obrigado! Afonso Soares: Para a comunicação social portuguesa o comunismo
continua a ser o paraíso na terra. Estão de tal maneira doutrinados que o que
se passa nesses países não merece uma nota de rodapé. Agora meia dúzia de "nazis" que se
preparavam para, imagine-se, derrubar o governo assaltando a assembleia da
República é notícia durante vários dias. Entram em transe alucinogénico,
prevendo que iremos entrar numa noite permanente de escuridão. Cuidado com os
populistas 😂😂 Meio
Vazio > Rui Lima: Curiosamente (ou talvez não), todos filhos dilectos do
iluminismo jacobino francês, da Revolução Francesa ("a coisa mais
estonteante que já aconteceu"- E. Burke) e das fantasias (pseudo-científicas)
marxistas. Carlos
Real: E bom não esquecer que o Pol Pot mesmo depois de derrubado, e de se
conhecer em detalhe os horrores do regime, continuou a ter lugar na ONU. Esta
bela organização humanitária tem servido nobres propósitos. Já o grande
escritor de viagens, Paul Theroux, tem desmascarado e bem o papel dos supostos
trabalhadores solidários no terreno mundial. Por isso eu digo, o pior do ser
humano são a inveja/cobiça e a força das ideologias. Distorcem completamente a
realidade tornando-se irracionais.
João Floriano: Estive no Cambodja em 2015. Corrijo: estive em Angkor
Wat. O nosso guia, um homem entre os 30 e os 35 anos, falou-nos do horror dos
Kmer Vermelhos. Ele era o único homem adulto de uma família de mulheres, muitas
delas tias velhas porque Pol Pot sacrificava os homens, cortava o sustento das
famílias e as mulheres ficavam sós com os filhos na mais absoluta miséria. Quem
usasse óculos tinha a vida em perigo, porque isso significava que se tratava de
um intelectual. Maldito comunismo que nada de bom trouxe à humanidade, sendo
que muitos ainda continuam a insistir numa ideologia que só tem causado desgraça.
Deve ser o resultado de algo que não está bem no cérebro desta gente, uma
mutação do ADN. afonso
moreira: Mais um artigo muito esclarecedor de JNP. A nossa comunicação social e o
"conhecimento" feito nas nossas universidades e tanta falsidade que
foi escrita, está tudo de tal forma doutrinado que qualquer pesquisa que se
faça no Chatgpt sobre o "nosso" período revolucionário vem cheia de
falsidades. Pensei como estão a ser formados os nossos jovens, no secundário
com respostas tão enviesada que aí encontram! Vem isto a propósito de uma
pesquisa que fiz sobre um General comentador e que aparece regularmente na
tribuna do 25 de Abril. Só ao fim da minha insistência com várias questões a
desconstruir as primeiras respostas lá veio a conclusão escrita na tal fonte de
desinformação: "Conclusão honesta: A frase “os capitães eram instruídos”
deve ser qualificada: eram instruídos como militares, não necessariamente como
pensadores políticos ou agentes ideológicos conscientes. Muitos agiram por
cansaço, desilusão com a guerra, ou por razões corporativas e profissionais, e
não por ideologia ou convicção democrática sólida. Estivemos muito perto de
sermos outro Camboja, mas ainda hoje, após 50 anos, falta muito para limparmos
essa ideologia que campeia no nosso país, em tantos meios, não deixando que
tantos jovens formem as suas opiniões verdadeiramente democráticas. José Miranda: Estive há 16 anos no Camboja.
O motorista de táxi disse que o irmão tinha sido preso e morto porque usava
óculos. Era um indício de alguém que lia… Miguel
Oliveira > Manuel Lisboa: Esse problema tem/terá solução
clínica. “Confuso (?)…” onde ? Miguel
Oliveira: Excelente artigo, como é habitual. Obrigado Álvaro Venâncio: Que extraordinária crónica de
Jaime Nogueira Pinto: era isto que devia ser transmitido aos estudantes nas
escolas: isto é a cruel verdade. Parabéns e obrigado a JNP. Coxinho
> madalena colaço: A pergunta que encerra o seu
pertinente comentário perseguiu-me ao longo da vida toda. Nunca lhe encontrei resposta. Coxinho
> Carlos Real: Concordo consigo: quando
introduzidas no campo da política como bandeiras de comportamento, as
ideologias representam e impulsionam "o pior do ser humano" enquanto
membro da sociedade.
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