Essa questão do petróleo do Estreito
passa ao largo.
▲Pelo Estreito de Ormuz passa 27% do petróleo
transacionado mundialmente. Getty
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O caminho marítimo pelo Estreito de
Ormuz que o Irão quer bloquear. A importância desta rota no comércio do
petróleo e do gás
O Irão quer bloquear a circulação de
petroleiros no Estreito de Ormuz. Não se antecipa tarefa fácil, mas é por aqui
que passa parte do petróleo e gás natural comercializado a nível mundial.
OBSERVADOR, 22 jun. 2025, 16:468
A ameaça do Irão de bloquear o Estreito
de Ormuz traz à memória o início da década de 1980. Nesse ano, o Iraque, liderado à época por
Saddam Hussein
(condenado à morte em 2006), atacou o
Irão. Depois de uns anos de guerra por terra e
pelo ar, mudou de táctica. Optou, então, pelo mar, tentando impedir o comércio
de petróleo, uma das principais fontes de receitas iranianas. Começou por atacar refinarias e terminais
portuários, na expectativa de o Irão avançar para um bloqueio do Estreito de Ormuz o que poderia
levar os Estados Unidos a entrar no conflito. A cilada não resultou e o Iraque
avançou para novo plano — atacar os petroleiros. Começou,
então, aquela que ficou conhecida como a “guerra dos petroleiros”. Navios
que levavam petróleo do Irão ou para o Irão e do Iraque ou para o Iraque não podiam
passar pelo Golfo Pérsico em segurança.
Estima-se
que cerca de 500 navios de comércio internacional tenham sido atingidos na
guerra do Irão-Iraque, entre 1980 e 1988.
A guerra Irão-Iraque terminou há
quase 40 anos. E o Estreito
de Ormuz continua a ser acenado como arma de arremesso. Também em
2011, quando foram aplicadas sanções ao Irão, o regime iraniano ameaçou fechar
esse caminho marítimo. Mas nunca o fez. Agora,
volta a colocar o Estreito de Ormuz no centro das eventuais retaliações contra os ataques dos Estados Unidos da América.
“O Irão tem várias opções para
responder aos seus inimigos e utiliza-as conforme as situações. Fechar o
Estreito de Ormuz é uma das potenciais opções para o Irão”. A declaração foi feita por Behnam Saeedi, um membro da Comissão de Segurança Nacional do
Parlamento iraniano, conforme reproduziu o The Times os Israel, citando a agência de
notícias iraniana Mehr. E este domingo, o Parlamento iraniano votou
a favor do encerramento do Estreito de
Ormuz. Decisão que precisa ainda de ser validade pelo Conselho Supremo.
Pode o Irão bloquear o Estreito de
Ormuz?
Ao longo dos anos as várias ameaças de encerrar o Estreito de Ormuz
não foram para a frente. E isto porque, de acordo com os especialistas, o Irão não tem os mecanismos para fechar
administrativamente o corredor marítimo que se situa entre o Irão e os Emirados
Árabes Unidos e que permite o acesso por mar ao Bahrain, ao Iraque, ao Kuwait, ao Qatar e a parte da
Arábia Saudita.
Liga o golfo Pérsico e o golfo de Omã, abrindo
caminho para o Mar Arábico. São 167 quilómetros de comprimento
com uma largura entre os 96 quilómetros e os 39 quilómetros no ponto mais
estreito.
Sabendo que o estreito banha mais do
que o Irão, será, no entanto, difícil a este país bloquear simplesmente o
trânsito de navios. Mas há
outras formas, conforme se verificou na guerra
Irão-Iraque, sendo
umas mais agressivas. Num relatório
de 2012 do Congressional Research Service (CRS), um serviço de
análise do Congresso norte-americano para ajudar no processo legislativo, sobre o
risco do Irão de fechar o Estreito de Ormuz indicava-se já que o regime teocrático tinha ao seu dispor um conjunto
de medidas para impor limitações ao trânsito marítimo, sem necessariamente
fechar a navegação.
No
documento descrevem-se possibilidades mais radicais (como
uso de aviação para atacar navios, minas, submarinos, mísseis) e outras tácticas, como a de declarar o
Estreito fechado, sem que se perceba as consequências; ou declaram, mais explicitamente, que os
navios em trânsito podem ser interceptados e detidos (ou atacados), estratégia
que, aliás, já utilizou em outras ocasiões, nos anos mais recentes. Mas nunca
fechou o estreito.
Só que hoje em dia há outras tácticas
tecnológicas. A Kpler, uma
empresa que faz análises sobre o sector da energia, indicou aos seus clientes, numa
nota partilhada com o Observador, que a
16 de junho, algumas entidades oficiais de segurança marítima, como o Centro
Conjunto de Informações Marítimas (JMIC) e as Operações Comerciais Marítimas do
Reino Unido (UKMTO), fizeram alertas
sobre um aumento significativo de interferências no Sistema Global de
Navegação por Satélite(GNSS), resultando em sinais AIS (Sistema de
Identificação Automática que permitem rastrear embarcações) com erros. Segundo
a Kpler, “mais da
metade dos navios carregados de petróleo bruto e que estavam no Estreito de
Ormuz sofreram dessas interferências electrónicas”. Apesar
destes riscos, acrescenta a consultora, “não houve, ainda, uma disrupção nos
carregamentos de crude”, mas já há um travão.
"Mais
da metade dos navios carregados de petróleo bruto e que estavam no Estreito de
Ormuz sofreram interferências electrónicas". Kpler
Já se sentem mudanças?
Apesar de não ter havido
disrupções, a Kpler indica que o número de petroleiros, com crude, que
passaram, nos últimos três dias, no golfo Pérsico aumentou para quase 50,
contra um movimento de menos de 40 antes do conflito entre Israel e Irão. O que
significa que estiveram em trânsito nestas águas o equivalente a 45 milhões de
barris de petróleo, com um aumento de cargas provenientes do Iraque e dos
Emirados Árabes Unidos. O risco
futuro é, no entanto, retratado pelo facto de o número de navios a circularem
com os tanques parcialmente vazios diminuiu, de uma média diária de 69 navios
para 40, e os petroleiros que sinalizam como próximo destino o golfo Pérsico
também caiu dos 27 para os atuais 13. “O que demonstra uma clara relutância dos
armadores de enviarem os seus navios para uma zona de alto risco”, aponta a
Kpler.
"Tendo em conta a
gravidade do conflito, a reacção dos mercados tem sido, até agora,
relativamente contida. Uma possível explicação reside nas previsões de
abrandamento da economia global, que estão a pesar sobre as expectativas de
procura por petróleo". Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe
A Reuters noticiou que os operadores
marítimos têm sido alertados pelas autoridades para evitarem as águas iranianas. E, assim, têm optado pela rota mais perto
da costa omanita. Já os navios com bandeira iraniana optam pela sua
costa. Só que no Estreito de Ormuz, com a largura de apenas
39 quilómetros as opções não são muitas. O Ministério do Mar da Grécia emitiu
mesmo um comunicado, citado pela Reuters, aconselhando “fortemente” que os navios de bandeira grega, “se possível”,
naveguem “longe das águas de jurisdição iraniana quando estiverem no golfo
Pérsico, no Estreito de Ormuz e no golfo de Omã”, isto “tendo em conta que no passado houve incidentes de violação na livre
circulação e segurança marítima junto à costa do Irão”. Já a Qatar
Energy deu instruções para que os petroleiros fiquem fora do Estreito e só
entrem no golfo um dia antes do carregamento. O risco está assim a um nível
elevado.
Com isto, os petroleiros, que
transportam um máximo de dois milhões de barris, viram os seus ganhos subirem,
em média, dos 20 mil dólares por dia para cerca de 50 mil, aponta a mesma
agência de notícias. A Kpler aponta, também, na análise enviada ao
Observador, que as tarifas de frete dispararam. Um frete de um grande
navio-tanque do Médio Oriente para a China aumentou e 62% a 17 de junho face a
12 de junho, um dia antes do primeiro ataque de Israel. Já um frete para o
Japão agravou 90%.
Preços dos fretes com origem no Médio
Oriente dispararam, contabiliza a Kpler
E no preço do petróleo?
Também já se verifica, desde o
início dos ataques, um aumento no preço do petróleo. Não
é por acaso. Por esta rota circula, diariamente, uma média de 20,1 milhões de
barris de petróleo por dia. É cerca de
27% do comércio marítimo mundial de petróleo e 20% do consumo global de
petróleo.
As
ameaças e o conflito na região resultaram, logo, no dia 13 de junho a um
aumento do barril para 74 dólares, face aos 69 dólares a que cotava no dia
anterior. “O que demonstra bem a importância do estreito no
fornecimento global de petróleo”, escreve
a Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos.
O brent, em Londres, atingiu, na sexta-feira, 77 dólares. O que
significa que, desde 12 de junho, subiu quase 11%. Ainda assim contido,
no entender de Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe. Ao Observador
indica que “o risco para a oferta tem
sido um dos principais impulsionadores da recente subida dos preços — uma
dinâmica que poderá agravar-se em caso de nova escalada, especialmente se as
exportações de petróleo e gás através do Estreito de Ormuz forem interrompidas”.
Ainda assim, continua, “tendo em conta
a gravidade do conflito, a reacção dos mercados tem sido, até agora,
relativamente contida. Uma possível explicação reside nas previsões de
abrandamento da economia global, que estão a pesar sobre as expectativas de
procura por petróleo”.
Depois
de o conflito entre Israel e Irão ter eclodido, vários bancos de investimento
apontaram para a possibilidade de, no agudizar da crise, o petróleo poder
atingir mais de 100 dólares por barril. Isto num cenário em que a rota marítima
que passa pelo Estreito de Ormuz sofrer uma disrupção. A JP Morgan aponta, num
caso extremo em que o conflito se espalhe e o Estreito fique mesmo bloqueado,
para uma estimativa para o preço do petróleo de 120-130 dólares. Os mesmos 120
dólares são apontados pelo ING que vai mais longe, vai quase até aos 150
dólares por barris (atingidos em 2008), se as disrupções persistirem até ao
final do ano.
Mas não é apenas o petróleo que fica em
maus lençóis. É também o gás natural liquefeito, já que o Qatar é responsável
por 20% do comércio de GNL a nível mundial, utilizando esta rota para o
exportar.
Governo inscreveu média do barril nos
75,5 dólares em 2025
Há rotas alternativas?
Um
dos principais problemas desta rota que passa pelo Estreito de Ormuz é não
haver muitas alternativas, mesmo mais caras. Pelo menos para retirar produto de
países produtores como o Irão,
Iraque, Omã, Kuwait, Qatar.
Os
Estados Unidos são o maior produtor de petróleo, seguindo-se a Arábia Saudita,
a Rússia, o Canadá, a China, o Iraque, o Brasil, os Emirados Árabes Unidos, o
Irão e o Kuwait. O mesmo é dizer que dos 10 maiores produtores cinco
estão nesta rota e a depender, na quase totalidade, do Estreito de Ormuz. Incluindo o próprio Irão
que precisa do Estreito de Ormuz para os seus negócios.
A Arábia Saudita construiu um
pipeline que permite chegar ao Mar Vermelho, que
tem, aliás, sido uma preocupação por via dos ataques dos houthis e para onde a
atenção tinha sido desviada, a par do estreito de Bab el-Mandeb (que liga o golfo de Adem ao oceano Índico).
Os Emirados Árabes Unidos conseguem colocar petróleo no golfo de Omã
através de oleoduto. A Agência
norte-americana de Energia (EIA) explica que os pipelines não operam, por
regra, a uma capacidade total e, por isso, estima que cerca de 2,6 milhões de
barris de petróleo bruto poderia contornar um bloqueio do Estreito.
Não
há alternativa, no entanto, no caso do gás natural liquefeito. O Qatar
só consegue exportar por navio. O banco de investimento, numa nota de
análise a que o Observador teve acesso, confirma que “infelizmente, não há [neste caso] rota alternativa. O que deixaria o
mercado global de GNL muito apertado”, com impacto grande na Europa que veria
os preços do gás disparar.
A Europa, depois da guerra na Ucrânia ter começado, em fevereiro de
2022, reduziu a sua dependência à Rússia quer no petróleo quer no gás natural. Olhou para o Médio Oriente, inclusive, e
agora pode ter a vida dificultada.
Ainda assim, a EIA estima que 84% do
crude e 83% do gás natural liquefeito que passou pelo Estreito de Ormuz em 2024
tenha tido como destino a Ásia, com os principais clientes a serem a China, a
Índia, o Japão e a Coreia do Sul (correspondem a 69% desse comércio). 5% tiveram
como destino a Europa.
Sem rotas de comércio
alternativas, há sempre a alternativa da produção. A OPEP tinha determinado que os seus
países-membros aumentariam o débito de petróleo, mas muitos desses países estão
na região. A Rússia continua sob sanções internacionais por causa da guerra na
Ucrânia. Com a recente estratégia de aumentar a produção — “drill baby drill”, anunciou
Donald Trump quando foi eleito —, os Estados Unidos da América podem ver
a oportunidade para retomar com mais força a produção de petróleo e gás de
xisto, que estava estagnada por causa dos preços. Mas, hoje em dia, dois em cada dez barris
produzidos mundialmente têm origem nos Estados Unidos — que, por isso, olham
para estes conflitos de maneira diferente. Segundo a Bloomberg, numa semana
inteira no início de junho a América de Trump não comprou um único barril à
Arábia Saudita.
PETRÓLEO ENERGIA ECONOMIA GÁS NATURAL IRÃO MÉDIO ORIENTE MUNDO ISRAEL ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA EMIRADOS
ÁRABES UNIDOS QATAR
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