segunda-feira, 23 de junho de 2025

Para os ESTADOS UNIDOS

 

Essa questão do petróleo do Estreito passa ao largo.

Pelo Estreito de Ormuz passa 27% do petróleo transacionado mundialmente. Getty Images

O caminho marítimo pelo Estreito de Ormuz que o Irão quer bloquear. A importância desta rota no comércio do petróleo e do gás

O Irão quer bloquear a circulação de petroleiros no Estreito de Ormuz. Não se antecipa tarefa fácil, mas é por aqui que passa parte do petróleo e gás natural comercializado a nível mundial.

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OBSERVADOR, 22 jun. 2025, 16:468

A ameaça do Irão de bloquear o Estreito de Ormuz traz à memória o início da década de 1980. Nesse ano, o Iraque, liderado à época por Saddam Hussein (condenado à morte em 2006), atacou o Irão. Depois de uns anos de guerra por terra e pelo ar, mudou de táctica. Optou, então, pelo mar, tentando impedir o comércio de petróleo, uma das principais fontes de receitas iranianas. Começou por atacar refinarias e terminais portuários, na expectativa de o Irão avançar para um bloqueio do Estreito de Ormuz o que poderia levar os Estados Unidos a entrar no conflito. A cilada não resultou e o Iraque avançou para novo plano — atacar os petroleiros. Começou, então, aquela que ficou conhecida como a “guerra dos petroleiros”. Navios que levavam petróleo do Irão ou para o Irão e do Iraque ou para o Iraque não podiam passar pelo Golfo Pérsico em segurança.

Estima-se que cerca de 500 navios de comércio internacional tenham sido atingidos na guerra do Irão-Iraque, entre 1980 e 1988.

A guerra Irão-Iraque terminou há quase 40 anos. E o Estreito de Ormuz continua a ser acenado como arma de arremesso. Também em 2011, quando foram aplicadas sanções ao Irão, o regime iraniano ameaçou fechar esse caminho marítimo. Mas nunca o fez. Agora, volta a colocar o Estreito de Ormuz no centro das eventuais retaliações contra os ataques dos Estados Unidos da América.

“O Irão tem várias opções para responder aos seus inimigos e utiliza-as conforme as situações. Fechar o Estreito de Ormuz é uma das potenciais opções para o Irão”. A declaração foi feita por Behnam Saeedi, um membro da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano, conforme reproduziu o The Times os Israel, citando a agência de notícias iraniana Mehr. E este domingo, o Parlamento iraniano votou a favor do encerramento do Estreito de Ormuz. Decisão que precisa ainda de ser validade pelo Conselho Supremo.

Pode o Irão bloquear o Estreito de Ormuz?

Ao longo dos anos as várias ameaças de encerrar o Estreito de Ormuz não foram para a frente. E isto porque, de acordo com os especialistas, o Irão não tem os mecanismos para fechar administrativamente o corredor marítimo que se situa entre o Irão e os Emirados Árabes Unidos e que permite o acesso por mar ao Bahrain, ao Iraque, ao Kuwait, ao Qatar e a parte da Arábia Saudita.

Liga o golfo Pérsico e o golfo de Omã, abrindo caminho para o Mar Arábico. São 167 quilómetros de comprimento com uma largura entre os 96 quilómetros e os 39 quilómetros no ponto mais estreito.

Sabendo que o estreito banha mais do que o Irão, será, no entanto, difícil a este país bloquear simplesmente o trânsito de navios. Mas há outras formas, conforme se verificou na guerra Irão-Iraque, sendo umas mais agressivas. Num relatório de 2012 do Congressional Research Service (CRS), um serviço de análise do Congresso norte-americano para ajudar no processo legislativo, sobre o risco do Irão de fechar o Estreito de Ormuz indicava-se já que o regime teocrático tinha ao seu dispor um conjunto de medidas para impor limitações ao trânsito marítimo, sem necessariamente fechar a navegação.

No documento descrevem-se possibilidades mais radicais (como uso de aviação para atacar navios, minas, submarinos, mísseis) e outras tácticas, como a de declarar o Estreito fechado, sem que se perceba as consequências; ou declaram, mais explicitamente, que os navios em trânsito podem ser interceptados e detidos (ou atacados), estratégia que, aliás, já utilizou em outras ocasiões, nos anos mais recentes. Mas nunca fechou o estreito.

Só que hoje em dia há outras tácticas tecnológicas. A Kpler, uma empresa que faz análises sobre o sector da energia, indicou aos seus clientes, numa nota partilhada com o Observador, que a 16 de junho, algumas entidades oficiais de segurança marítima, como o Centro Conjunto de Informações Marítimas (JMIC) e as Operações Comerciais Marítimas do Reino Unido (UKMTO), fizeram alertas sobre um aumento significativo de interferências no Sistema Global de Navegação por Satélite(GNSS), resultando em sinais AIS (Sistema de Identificação Automática que permitem rastrear embarcações) com erros. Segundo a Kpler, “mais da metade dos navios carregados de petróleo bruto e que estavam no Estreito de Ormuz sofreram dessas interferências electrónicas”. Apesar destes riscos, acrescenta a consultora, “não houve, ainda, uma disrupção nos carregamentos de crude”, mas já há um travão.

"Mais da metade dos navios carregados de petróleo bruto e que estavam no Estreito de Ormuz sofreram interferências electrónicas". Kpler

Já se sentem mudanças?

Apesar de não ter havido disrupções, a Kpler indica que o número de petroleiros, com crude, que passaram, nos últimos três dias, no golfo Pérsico aumentou para quase 50, contra um movimento de menos de 40 antes do conflito entre Israel e Irão. O que significa que estiveram em trânsito nestas águas o equivalente a 45 milhões de barris de petróleo, com um aumento de cargas provenientes do Iraque e dos Emirados Árabes Unidos. O risco futuro é, no entanto, retratado pelo facto de o número de navios a circularem com os tanques parcialmente vazios diminuiu, de uma média diária de 69 navios para 40, e os petroleiros que sinalizam como próximo destino o golfo Pérsico também caiu dos 27 para os atuais 13.O que demonstra uma clara relutância dos armadores de enviarem os seus navios para uma zona de alto risco”, aponta a Kpler.

"Tendo em conta a gravidade do conflito, a reacção dos mercados tem sido, até agora, relativamente contida. Uma possível explicação reside nas previsões de abrandamento da economia global, que estão a pesar sobre as expectativas de procura por petróleo". Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe

A Reuters noticiou que os operadores marítimos têm sido alertados pelas autoridades para evitarem as águas iranianas. E, assim, têm optado pela rota mais perto da costa omanita. Já os navios com bandeira iraniana optam pela sua costa. Só que no Estreito de Ormuz, com a largura de apenas 39 quilómetros as opções não são muitas. O Ministério do Mar da Grécia emitiu mesmo um comunicado, citado pela Reuters, aconselhando “fortemente” que os navios de bandeira grega, “se possível”, naveguem “longe das águas de jurisdição iraniana quando estiverem no golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz e no golfo de Omã”, isto “tendo em conta que no passado houve incidentes de violação na livre circulação e segurança marítima junto à costa do Irão”. Já a Qatar Energy deu instruções para que os petroleiros fiquem fora do Estreito e só entrem no golfo um dia antes do carregamento. O risco está assim a um nível elevado.

Com isto, os petroleiros, que transportam um máximo de dois milhões de barris, viram os seus ganhos subirem, em média, dos 20 mil dólares por dia para cerca de 50 mil, aponta a mesma agência de notícias. A Kpler aponta, também, na análise enviada ao Observador, que as tarifas de frete dispararam. Um frete de um grande navio-tanque do Médio Oriente para a China aumentou e 62% a 17 de junho face a 12 de junho, um dia antes do primeiro ataque de Israel. Já um frete para o Japão agravou 90%.

Preços dos fretes com origem no Médio Oriente dispararam, contabiliza a Kpler

E no preço do petróleo?

Também já se verifica, desde o início dos ataques, um aumento no preço do petróleo. Não é por acaso. Por esta rota circula, diariamente, uma média de 20,1 milhões de barris de petróleo por dia. É cerca de 27% do comércio marítimo mundial de petróleo e 20% do consumo global de petróleo.

As ameaças e o conflito na região resultaram, logo, no dia 13 de junho a um aumento do barril para 74 dólares, face aos 69 dólares a que cotava no dia anterior. “O que demonstra bem a importância do estreito no fornecimento global de petróleo”, escreve a Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos.

O brent, em Londres, atingiu, na sexta-feira, 77 dólares. O que significa que, desde 12 de junho, subiu quase 11%. Ainda assim contido, no entender de Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe. Ao Observador indica que “o risco para a oferta tem sido um dos principais impulsionadores da recente subida dos preços — uma dinâmica que poderá agravar-se em caso de nova escalada, especialmente se as exportações de petróleo e gás através do Estreito de Ormuz forem interrompidas”. Ainda assim, continua, “tendo em conta a gravidade do conflito, a reacção dos mercados tem sido, até agora, relativamente contida. Uma possível explicação reside nas previsões de abrandamento da economia global, que estão a pesar sobre as expectativas de procura por petróleo”.

Depois de o conflito entre Israel e Irão ter eclodido, vários bancos de investimento apontaram para a possibilidade de, no agudizar da crise, o petróleo poder atingir mais de 100 dólares por barril. Isto num cenário em que a rota marítima que passa pelo Estreito de Ormuz sofrer uma disrupção. A JP Morgan aponta, num caso extremo em que o conflito se espalhe e o Estreito fique mesmo bloqueado, para uma estimativa para o preço do petróleo de 120-130 dólares. Os mesmos 120 dólares são apontados pelo ING que vai mais longe, vai quase até aos 150 dólares por barris (atingidos em 2008), se as disrupções persistirem até ao final do ano.

Mas não é apenas o petróleo que fica em maus lençóis. É também o gás natural liquefeito, já que o Qatar é responsável por 20% do comércio de GNL a nível mundial, utilizando esta rota para o exportar.

Governo inscreveu média do barril nos 75,5 dólares em 2025

Há rotas alternativas?

Um dos principais problemas desta rota que passa pelo Estreito de Ormuz é não haver muitas alternativas, mesmo mais caras. Pelo menos para retirar produto de países produtores como o Irão, Iraque, Omã, Kuwait, Qatar.

Os Estados Unidos são o maior produtor de petróleo, seguindo-se a Arábia Saudita, a Rússia, o Canadá, a China, o Iraque, o Brasil, os Emirados Árabes Unidos, o Irão e o Kuwait. O mesmo é dizer que dos 10 maiores produtores cinco estão nesta rota e a depender, na quase totalidade, do Estreito de Ormuz. Incluindo o próprio Irão que precisa do Estreito de Ormuz para os seus negócios.

A Arábia Saudita construiu um pipeline que permite chegar ao Mar Vermelho, que tem, aliás, sido uma preocupação por via dos ataques dos houthis e para onde a atenção tinha sido desviada, a par do estreito de Bab el-Mandeb (que liga o golfo de Adem ao oceano Índico). Os Emirados Árabes Unidos conseguem colocar petróleo no golfo de Omã através de oleoduto. A Agência norte-americana de Energia (EIA) explica que os pipelines não operam, por regra, a uma capacidade total e, por isso, estima que cerca de 2,6 milhões de barris de petróleo bruto poderia contornar um bloqueio do Estreito.

Não há alternativa, no entanto, no caso do gás natural liquefeito. O Qatar só consegue exportar por navio. O banco de investimento, numa nota de análise a que o Observador teve acesso, confirma que “infelizmente, não há [neste caso] rota alternativa. O que deixaria o mercado global de GNL muito apertado”, com impacto grande na Europa que veria os preços do gás disparar.

A Europa, depois da guerra na Ucrânia ter começado, em fevereiro de 2022, reduziu a sua dependência à Rússia quer no petróleo quer no gás natural. Olhou para o Médio Oriente, inclusive, e agora pode ter a vida dificultada.

Ainda assim, a EIA estima que 84% do crude e 83% do gás natural liquefeito que passou pelo Estreito de Ormuz em 2024 tenha tido como destino a Ásia, com os principais clientes a serem a China, a Índia, o Japão e a Coreia do Sul (correspondem a 69% desse comércio). 5% tiveram como destino a Europa.

Sem rotas de comércio alternativas, há sempre a alternativa da produção. A OPEP tinha determinado que os seus países-membros aumentariam o débito de petróleo, mas muitos desses países estão na região. A Rússia continua sob sanções internacionais por causa da guerra na Ucrânia. Com a recente estratégia de aumentar a produçãodrill baby drill”, anunciou Donald Trump quando foi eleito —, os Estados Unidos da América podem ver a oportunidade para retomar com mais força a produção de petróleo e gás de xisto, que estava estagnada por causa dos preços. Mas, hoje em dia, dois em cada dez barris produzidos mundialmente têm origem nos Estados Unidos — que, por isso, olham para estes conflitos de maneira diferente. Segundo a Bloomberg, numa semana inteira no início de junho a América de Trump não comprou um único barril à Arábia Saudita.

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