Reviva-se. Sem traumas inúteis. Como, de resto, o são
todos.
A realidade
Comentou-se muita coisa,
aprofundou-se pouco o país, “côté ombre”, e volto à carta: onde esteve
mediaticamente o Portugal dos salários indignos das traseiras?
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do
Observador
OBSERVADOR, 11 jun. 2025, 00:2178
1Não
foi uma surpresa, não foi uma novidade, não foi uma anormalidade e não foi um
caso isolado. Mas foi como se alguém, de repente, me tivesse dado um valente
encontrão. Um murro: estampado em letra de imprensa no último Expresso, a carta
de uma leitora continha dentro dela, inteiro e brutal, um país que também
existe chamado Portugal. Não sei se “sobretudo” existe ou se “também”
existe, inclino-me para que este exista “sobretudo”. Exista na penumbra dos
bastidores da ”digitalização”, dos websummits, dos milhões (atrasados) dos PRR,
dos “eixos” do Príncipe Real, dos influencers, “dos chefs”, das férias longe
daqui, dos ginásios, dos turistas, dos podcast. Das “bolhas” e bolsas tão
distraídas sobre o país que está na montra e o que vive nos escombros do desânimo.
Conhecem-se há tempo demais os índices da pobreza — a visível e a
“envergonhada”; sabe-se o fosso entre quem tem vida e quem tem apenas um
arremedo de vida; observam-se cada vez mais sem abrigos em cada vez mais
lugares.
O
que – num misto paralisante de ignorância e incapacidade – não se sabe, é
quando é que alguém põe cobro a este abismo entre um Portugal frendly do pódio
e a pátria madrasta das traseiras. Não vislumbro empreitada mais
dramaticamente exigente no início deste governo.
2Reproduzo
aqui a carta a que aludi acima. Desarmante na sua escrita tão simples mas que,
se repararem, contém tudo o que nos faz respeitar um ser humano: o trabalho,
a responsabilidade do dever cumprido, uma dignidade magoada, o insulto da
humilhação, um futuro sem cor, a resignação como modo de vida. E a
auto-proibição da ilusão e como se sabe as pessoas aceitam tudo menos que se
lhe tirem as ilusões. Leiam:
“Tenho
56 anos. Trabalho desde os 19 de forma contínua e com sentido de
responsabilidade. Acreditei que com esforço podia alcançar uma vida digna. Mas
hoje, mesmo com um salário fixo ligeiramente superior a 1.000 euros líquidos, fui
obrigada a abandonar a minha casa porque já não conseguia pagar a renda. Esta é
a realidade de muitos em Portugal: trabalhadores que fazem tudo “como deve ser”
e, ainda assim, são empurrados para a exclusão habitacional. O custo da habitação ultrapassou todos os limites. As rendas são impraticáveis, os apoios são
inacessíveis e os salários estagnaram. A Constituição garante o direito a
habitação. Mas esse direito está a ser violado todos os dias, em
silêncio, por falta de coragem política e de compromisso com quem sustenta este
país”.
3Até
há pouco tempo, o país mediático entretinha-se com o jogo da adivinha sobre um
futuro governo, fosse ele liderado por quem fosse. Jogava-o com uma atracção
quase magnética, mas jogo e magnetismo derreteram com entrada em cena de
Montenegro, a quem nunca ocorreria partilhá-los. O
primeiro-ministro toma o seu tempo, joga sozinho, junta os dados e quando acaba
escreve tudo num papel e vai entregá-lo a quem de direito.
A
vozearia só teve lugar no segundo acto, quando o governo, saindo da sombra
recolhida do seu encenador, entrou no palco. As águas agitaram-se com nomes
inesperados, disseram-se “ah e oh” por alguém se ter lembrado pela enésima vez
da existência de um Estado impossível e passar agora a haver um maestro
titular (Gonçalo Matias) para afinar a sua demencial desafinação; falou-se
muitas vezes em “milhões”; dissecou-se até a exaustão a oportunidade, a bondade
– ou a maldade – de haver superministérios; perguntou-se o que teria feito e
dito a Iniciativa Liberal se constasse do elenco; desfilaram erros de casting,
a confiança cruzou-se com a desconfiança, o elogio com a acidez. E, como de
costume, a esquerda em peso foi ouvida com atenção e desvelo, como se tivesse
votos, como se tivesse responsabilidades, como se quando as teve as tivesse
levado a bom porto.
Comentou-se
muita coisa, aprofundou-se pouco o país, “côté ombre”, e volto à carta: onde
esteve mediaticamente o Portugal dos salários indignos das traseiras?
4Presumo
que na caça à burocracia aberta por Luís Montenegro estejam incluídas decisões que “pulverizem” o drama
da Habitação, atirando-a para o topo das prioridades imediatas. Já está? Então que se comece a sinalizar que já
está. Ninguém ignora que o PS foi longe de mais na irresponsabilidade da sua
acção, disfarçada de “planos” e “programas” que não viram a luz de nenhum dia.
Já não interessa: perguntem-se antes quantos portugueses poderiam também
escrever uma carta igual à daquela leitora que aqui deixei? Milhões?
PS: Para
quem conhece bem S. Tomé onde já fui seis ou sete vezes (duas delas antes da
independência) não devo ter seguido a apoteótica noite dos Calemas, sábado, na Catedral da Luz, como o comum dos
espectadores. Eram mais de 55 mil e estavam lá, vindos daqui e de fora, para
ouvir cantar em português dois irmãos são-tomenses, António e
Fradique Mendes Ferreira. Olhei para
aquela deslumbrante, contagiante mancha humana e percebi que o fazia com um
aperto no coração e uma saudade fininha. Era talvez um “hossana” onde
tanta coisa se confundia em mim, tantos anos depois. Como num filme que
pomos a andar para trás, lembrei-me de como de cada vez gostei mais de
voltar a S. Tomé: pela descoberta – onde estou, onde estamos e a falar
português? Pela paisagem absolutamente estonteante; a doçura das gentes;
o mar que nunca é azul nem verde; as “roças” – que pude visitar com muito
vagar, quer no seu pleno funcionamento, quer depois, por mais de uma vez,
descobri-las inoperacionais e semi em ruínas devido aos estragos revolucionários
de cubanos e afins; da igreja matriz, sempre a abarrotar nas missas dominicais;
da batata-pão que se devorava cozinhada de mil modos; da beleza derisória da ilha do Príncipe – a ilha mais bonita do mundo?
Ah
e do muito que lá trabalhei, reportagens e entrevistas a Presidentes da
República, primeiros-ministros, poetas, intelectuais, cantores. E à grande Alda Espirito Santo,
numa reportagem intitulada “As Mães de S
Tomé”, nos idos de noventa do século
passado.
Fico
grata aos dois irmãos – e quem sabe se não nos teremos cruzado alguma vez
naquele bocadinho de mundo mágico? – por terem vindo cantar a Luz, na sua e
nossa língua.
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COMENTÁRIOS (de 78)
M L: A maior preocupação das "elites tugas" é com
os pobres de outros países que aqui chegam, não com os nossos. Logo seguido da
preocupação por uns quaisquer Jacarandás para darem um ar mais intelectual e
civilizacional. Assim vai o país. Paulo
Machado > Américo Silva: Foi ao reverterem o que fizeram
Crista e Passos que os Socialistas rebentaram com a habitação. Carlos
Chaves: A pouco e pouco vem à luz do dia, mesmo a contragosto da comunicação social
e dos “fazedores “de opinião, os imensos estragos que os governos do Costa e
dos seus apêndices de extrema-esquerda, fizeram ao nosso país e a muitos
Portugueses! Não a todos, os que vivem à custa dos despojados pelo socialismo!
João
Floriano: Voltemos à crónica «NÃO» recentemente publicada. Gostaria de lembrar à
minha estimada Maria João Avillez que esta realidade de traseira já nem sequer
de quintal, mas de ferro velho, é também da responsabilidade do seu admirado
amigo, o tal que abrilhanta saraus de gardenparty, com senhoras a beberricar
chá ao mesmo tempo que soltam risinhos ou acenos de concordância séria quando o
tal amigo diz uma qualquer banalidade, ou lhes passa os dedos duros pelo
cangote e pelo ombro. Foi também esse seu amigo juntamente com uma intelectual
de esquerda, que escreve coisas que ninguém entende, que fez um discurso
insultuoso no dia 10 de Junho destinado a incendiar os portugueses, em vez de os
acalmar e reconciliar. Nesse aspecto o discurso do seu amigo espirituoso fez um
favor enorme precisamente a quem queria cancelar: O CHEGA agradece porque já
vai ter material de sobra para explorar. Ainda bem que esta semana a Dra. Maria
João Avillez viu a realidade, que é muito, muito, muito feia. Carlos
Real: Não entendo esta ladainha dos salários indignos quando em 2016 o salário mínimo
era inferior a 400 euros e hoje é mais do dobro. As pensões também aumentaram,
e no Alentejo do interior onde vivo, nunca os reformados tiveram tanto poder de
compra. Desemprego não existe e desespera-se para ter um trolha a pagar limpinhos
600 euros por semana. Não sei em que bolha a Maria João vive mas nunca no
Portugal profundo se ganhou tanto dinheiro. O que sei é que o Chega obteve
o seu melhor resultado no Algarve com 34% quando em Portugal não chegou aos
23%. O PS de Costa em 2022 teve 40% no Algarve e agora metade. Passaram apenas
3 anos e já havia crise na habitação. O drama real é a invasão dos forasteiros.
Tudo o que é em demasia enjoa. Estamos fartos da invasão de imigrantes, da ciganada
(que no Algarve nem é muito significativa) e dos turistas temporários ou
reformados residentes. Vamos à rua e sentimos que precisamos de um novo D. Afonso
Henriques. No Algarve jaanicos, alemães, ucranianos e nórdicos. Apenas queremos
um espaço lusitano para viver. Tudo o resto é secundário. graça
Dias: Mais um artigo de opinião interessante, e também este a resvalar para
" O Despertar dos Mágicos "! Aborda
um tema central, que desde há muito era uma evidência gritante, mas tanto os
senhores jornalistas como os " traficantes de notícias ", não
relevaram!...antes pelo contrário. Foram condescendentes e isentaram-se do
Vosso papel crucial para com a sociedade. Porquê? Porque o politicamente
correcto não Vos permitia denunciar o fracasso estrondoso das políticas do PS
de António Costa & seus camaradas da geringonça? António
Lamas: Parece que só agora é que as "elites" mediáticas estão a sair da
bolha e ver que há um outro país que não é o mesmo dia restaurantes e bares da
moda Lisboeta Liberales
Semper Erexitque: Desde que o Estado saque metade da renda limpa de encargos aos poucos
senhorios que são suficientemente loucos para se dedicar a isso, está-se bem.
David Pinheiro: Acabem com a imigração que os preços baixam logo. Filipe
Paes de Vasconcellos: O que se passa em Portugal na Habitação, na Saúde, na Educação e na
Economia geradora de pouca riqueza e por isso assente em baixos salários é a
evidência de um país que teve 50 anos para se libertar de um regime autoritário
e ultra conservador e outros tantos 50 anos para se ver livre de um socialismo
muitas vezes de ideologia comunista minado de incompetentes e corruptos. E assim se passou 1 século deste nosso
querido Portugal. Mas, e apesar de tudo isto, estou com muita ESPERANÇA neste
novo ciclo político liderado por Luis Montenegro. Vitor
Batista: Olá tia João, só agora é que se deu conta desse Portugal real e fora da
bolha? é preciso cruzar as portagens de Alverca para perceber o mundo em que
vivem milhões de portugueses, não é de agora, não é novo ,mas está muito pior,
porque esta esquerda retrógrada e ignorante não descansou enquanto não destruiu
a dignidade de muitos, revertendo leis e foram feitas e pensadas para evitarem
os males do arrendamento, agradeça ao tipo das vacas voadoras e à extrema-esquerda,
porque eu nunca esquecerei, e também já nem tenho muita vontade de a ler porque
sinto que já vem tarde, porque a miséria e a pobreza já estão instaladas
confortavelmente, e o Luís não irá fazer nada para as desalojar, a ver vamos.
Isabel Amorim: A propósito da habitação. Vamos continuar a vender o
nosso país aos estrangeiros que nos compram casas para depois as porem a render
à custa da boa fama portuguesa de bem receber e boa mesa barata? (só no que concerne ao
turismo é que somos assim, internamente somos um povo racista e pouco ou nada
inclusivo assim o dizem associações manhosas de fabricantes de vítimas) O governo vai continuar a suportar e a ajudar
os milhares de sem abrigo estrangeiros na habitação, ajudas sociais etc etc e
deixar os portugueses em situação igualmente precária que ficam para segundo
plano, depois de ter abusado da irresponsabilidade das portas abertas sem
critério nenhum? É que não houve um pingo de contestação no partido da
oposição na altura e que hoje é governo? Não estão em primeiro lugar os
portugueses? Como é? Então convido indiscriminadamente pessoas para almoçar em
minha casa e digo aos meus filhos, desculpem mas hoje (amanhã e depois) não vão
comer, tem que haver comida para os nossos convidados. Comam pão e água e
tenham paciência?? Estamos a vender o que deveria ser usado por nós, para nosso
proveito aos de fora e o que sobra emprestamos aos de fora em proveito deles. E
nós?? Só se compreende o incompreensível porque o pessoal da
"politica" está longe da realidade, vive numa autêntica bolha
protegida, desconhece o dia a dia de quem lhes paga a festa. Chama-se a isto
abuso e traição aos seus pares, os portugueses, ou já não se vêem como
portugueses? Às tantas não.... consideram-se cidadãos do mundo, do mundo
cão.... Francisco
Ramos: Se o PR e o PM tivessem dois dedos de vergonha na cara, com o país neste
estado, não tinham ido a Munique tirar selfies com o Ronaldo. Por respeito à senhora que
escreveu aquela carta, e pelos outros que a não escreveram, mas que sentem a
mesma necessidade de a escrever, deviam ter reconvertido o dinheiro que
gastaram (do nosso bolso) a fazer alguma coisa que trouxesse algum alívio a
estes, que tanto sofrem. afonso
moreira: Não haverá também, por aí, entre os seus papéis e notas de jornalista uma
carta, antiga, - como as de tantos portugueses arredados de tanto -, a de um S.
Tomense a lamentar o que os "cubanos" fizeram às roças, agora em
ruínas? Desde há cinquenta anos e ninguém deu conta!? Seria tão interessante
começarem a escrever artigos sobre a verdade histórica de Portugal, que nos tem
sido escondida, mas tão real e bem mais significante para tantos, do que a
admiração fútil pelas "catedrais" dos novos tempos que tanto
"engordam" meia dúzia à custa das emoções de alguns. Tantas cartas,
de tantos portugueses, haveria para escrever, mas, certamente, o Expresso não
as publicaria e a MJA não as leria, pois a "bolha" cresceu tanto que
deixaram de ver tanto Portugal, aqui e além fronteiras onde tantos portugueses
estão ou ficaram. Fala
Barato: Os tugas deram duas maiorias absolutas a dois xuxas
que, já na altura, eram de duvidosa credibilidade. Essa é que é a realidade.
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