quinta-feira, 12 de junho de 2025

Recordar é viver

 

Reviva-se. Sem traumas inúteis. Como, de resto, o são todos.

A realidade

Comentou-se muita coisa, aprofundou-se pouco o país, “côté ombre”, e volto à carta: onde esteve mediaticamente o Portugal dos salários indignos das traseiras?

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 11 jun. 2025, 00:2178

1Não foi uma surpresa, não foi uma novidade, não foi uma anormalidade e não foi um caso isolado. Mas foi como se alguém, de repente, me tivesse dado um valente encontrão. Um murro: estampado em letra de imprensa no último Expresso, a carta de uma leitora continha dentro dela, inteiro e brutal, um país que também existe chamado Portugal. Não sei se “sobretudo” existe ou se “também” existe, inclino-me para que este exista “sobretudo”. Exista na penumbra dos bastidores da ”digitalização”, dos websummits, dos milhões (atrasados) dos PRR, dos “eixos” do Príncipe Real, dos influencers, “dos chefs”, das férias longe daqui, dos ginásios, dos turistas, dos podcast. Das “bolhas” e bolsas tão distraídas sobre o país que está na montra e o que vive nos escombros do desânimo. Conhecem-se há tempo demais os índices da pobreza — a visível e a “envergonhada”; sabe-se o fosso entre quem tem vida e quem tem apenas um arremedo de vida; observam-se cada vez mais sem abrigos em cada vez mais lugares.

O que – num misto paralisante de ignorância e incapacidade – não se sabe, é quando é que alguém põe cobro a este abismo entre um Portugal frendly do pódio e a pátria madrasta das traseiras. Não vislumbro empreitada mais dramaticamente exigente no início deste governo.

2Reproduzo aqui a carta a que aludi acima. Desarmante na sua escrita tão simples mas que, se repararem, contém tudo o que nos faz respeitar um ser humano: o trabalho, a responsabilidade do dever cumprido, uma dignidade magoada, o insulto da humilhação, um futuro sem cor, a resignação como modo de vida. E a auto-proibição da ilusão e como se sabe as pessoas aceitam tudo menos que se lhe tirem as ilusões. Leiam:

“Tenho 56 anos. Trabalho desde os 19 de forma contínua e com sentido de responsabilidade. Acreditei que com esforço podia alcançar uma vida digna. Mas hoje, mesmo com um salário fixo ligeiramente superior a 1.000 euros líquidos, fui obrigada a abandonar a minha casa porque já não conseguia pagar a renda. Esta é a realidade de muitos em Portugal: trabalhadores que fazem tudo “como deve ser” e, ainda assim, são empurrados para a exclusão habitacional. O custo da habitação ultrapassou todos os limites. As rendas são impraticáveis, os apoios são inacessíveis e os salários estagnaram. A Constituição garante o direito a habitação. Mas esse direito está a ser violado todos os dias, em silêncio, por falta de coragem política e de compromisso com quem sustenta este país”.

3Até há pouco tempo, o país mediático entretinha-se com o jogo da adivinha sobre um futuro governo, fosse ele liderado por quem fosse. Jogava-o com uma atracção quase magnética, mas jogo e magnetismo derreteram com entrada em cena de Montenegro, a quem nunca ocorreria partilhá-los. O primeiro-ministro toma o seu tempo, joga sozinho, junta os dados e quando acaba escreve tudo num papel e vai entregá-lo a quem de direito.

A vozearia só teve lugar no segundo acto, quando o governo, saindo da sombra recolhida do seu encenador, entrou no palco. As águas agitaram-se com nomes inesperados, disseram-se “ah e oh” por alguém se ter lembrado pela enésima vez da existência de um Estado impossível e passar agora a haver um maestro titular (Gonçalo Matias) para afinar a sua demencial desafinação; falou-se muitas vezes em “milhões”; dissecou-se até a exaustão a oportunidade, a bondade – ou a maldade – de haver superministérios; perguntou-se o que teria feito e dito a Iniciativa Liberal se constasse do elenco; desfilaram erros de casting, a confiança cruzou-se com a desconfiança, o elogio com a acidez. E, como de costume, a esquerda em peso foi ouvida com atenção e desvelo, como se tivesse votos, como se tivesse responsabilidades, como se quando as teve as tivesse levado a bom porto.

Comentou-se muita coisa, aprofundou-se pouco o país, “côté ombre”, e volto à carta: onde esteve mediaticamente o Portugal dos salários indignos das traseiras?

4Presumo que na caça à burocracia aberta por Luís Montenegro estejam incluídas decisões que “pulverizem” o drama da Habitação, atirando-a para o topo das prioridades imediatas. Já está? Então que se comece a sinalizar que já está. Ninguém ignora que o PS foi longe de mais na irresponsabilidade da sua acção, disfarçada de “planos” e “programas” que não viram a luz de nenhum dia. Já não interessa: perguntem-se antes quantos portugueses poderiam também escrever uma carta igual à daquela leitora que aqui deixei? Milhões?

PS: Para quem conhece bem S. Tomé onde já fui seis ou sete vezes (duas delas antes da independência) não devo ter seguido a apoteótica noite dos Calemas, sábado, na Catedral da Luz, como o comum dos espectadores. Eram mais de 55 mil e estavam lá, vindos daqui e de fora, para ouvir cantar em português dois irmãos são-tomenses, António e Fradique Mendes Ferreira. Olhei para aquela deslumbrante, contagiante mancha humana e percebi que o fazia com um aperto no coração e uma saudade fininha. Era talvez um “hossana” onde tanta coisa se confundia em mim, tantos anos depois. Como num filme que pomos a andar para trás, lembrei-me de como de cada vez gostei mais de voltar a S. Tomé: pela descoberta – onde estou, onde estamos e a falar português? Pela paisagem absolutamente estonteante; a doçura das gentes; o mar que nunca é azul nem verde; as “roças” – que pude visitar com muito vagar, quer no seu pleno funcionamento, quer depois, por mais de uma vez, descobri-las inoperacionais e semi em ruínas devido aos estragos revolucionários de cubanos e afins; da igreja matriz, sempre a abarrotar nas missas dominicais; da batata-pão que se devorava cozinhada de mil modos; da beleza derisória da ilha do Príncipe – a ilha mais bonita do mundo?

Ah e do muito que lá trabalhei, reportagens e entrevistas a Presidentes da República, primeiros-ministros, poetas, intelectuais, cantores. E à grande Alda Espirito Santo, numa reportagem intitulada “As Mães de S Tomé”, nos idos de noventa do século passado.

Fico grata aos dois irmãos – e quem sabe se não nos teremos cruzado alguma vez naquele bocadinho de mundo mágico? – por terem vindo cantar a Luz, na sua e nossa língua.

 

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PAÍS……SOCIEDADE      POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 78)

M L: A maior preocupação das "elites tugas" é com os pobres de outros países que aqui chegam, não com os nossos. Logo seguido da preocupação por uns quaisquer Jacarandás para darem um ar mais intelectual e civilizacional. Assim vai o país.                 Paulo Machado > Américo Silva: Foi ao reverterem o que fizeram Crista e Passos que os Socialistas rebentaram com a habitação.                 Carlos Chaves: A pouco e pouco vem à luz do dia, mesmo a contragosto da comunicação social e dos “fazedores “de opinião, os imensos estragos que os governos do Costa e dos seus apêndices de extrema-esquerda, fizeram ao nosso país e a muitos Portugueses! Não a todos, os que vivem à custa dos despojados pelo socialismo!                                   João Floriano: Voltemos à crónica «NÃO» recentemente publicada. Gostaria de lembrar à minha estimada Maria João Avillez que esta realidade de traseira já nem sequer de quintal, mas de ferro velho, é também da responsabilidade do seu admirado amigo, o tal que abrilhanta saraus de gardenparty, com senhoras a beberricar chá ao mesmo tempo que soltam risinhos ou acenos de concordância séria quando o tal amigo diz uma qualquer banalidade, ou lhes passa os dedos duros pelo cangote e pelo ombro. Foi também esse seu amigo juntamente com uma intelectual de esquerda, que escreve coisas que ninguém entende, que fez um discurso insultuoso no dia 10 de Junho destinado a incendiar os portugueses, em vez de os acalmar e reconciliar. Nesse aspecto o discurso do seu amigo espirituoso fez um favor enorme precisamente a quem queria cancelar: O CHEGA agradece porque já vai ter material de sobra para explorar. Ainda bem que esta semana a Dra. Maria João Avillez viu a realidade, que é muito, muito, muito feia.                 Carlos Real: Não entendo esta ladainha dos salários indignos quando em 2016 o salário mínimo era inferior a 400 euros e hoje é mais do dobro. As pensões também aumentaram, e no Alentejo do interior onde vivo, nunca os reformados tiveram tanto poder de compra. Desemprego não existe e desespera-se para ter um trolha a pagar limpinhos 600 euros por semana. Não sei em que bolha a Maria João vive mas nunca no Portugal profundo se ganhou tanto dinheiro. O que sei é que o Chega obteve o seu melhor resultado no Algarve com 34% quando em Portugal não chegou aos 23%. O PS de Costa em 2022 teve 40% no Algarve e agora metade. Passaram apenas 3 anos e já havia crise na habitação. O drama real é a invasão dos forasteiros. Tudo o que é em demasia enjoa. Estamos fartos da invasão de imigrantes, da ciganada (que no Algarve nem é muito significativa) e dos turistas temporários ou reformados residentes. Vamos à rua e sentimos que precisamos de um novo D. Afonso Henriques. No Algarve jaanicos, alemães, ucranianos e nórdicos. Apenas queremos um espaço lusitano para viver. Tudo o resto é secundário.               graça Dias: Mais um artigo de opinião interessante, e também este a resvalar para " O Despertar dos Mágicos "! Aborda um tema central, que desde há muito era uma evidência gritante, mas tanto os senhores jornalistas como os " traficantes de notícias ", não relevaram!...antes pelo contrário. Foram condescendentes e isentaram-se do Vosso papel crucial para com a sociedade. Porquê? Porque o politicamente correcto não Vos permitia denunciar o fracasso estrondoso das políticas do PS de António Costa & seus camaradas da geringonça?                 António Lamas: Parece que só agora é que as "elites" mediáticas estão a sair da bolha e ver que há um outro país que não é o mesmo dia restaurantes e bares da moda Lisboeta                   Liberales Semper Erexitque: Desde que o Estado saque metade da renda limpa de encargos aos poucos senhorios que são suficientemente loucos para se dedicar a isso, está-se bem.                     David Pinheiro: Acabem com a imigração que os preços baixam logo.            Filipe Paes de Vasconcellos: O que se passa em Portugal na Habitação, na Saúde, na Educação e na Economia geradora de pouca riqueza e por isso assente em baixos salários é a evidência de um país que teve 50 anos para se libertar de um regime autoritário e ultra conservador e outros tantos 50 anos para se ver livre de um socialismo muitas vezes de ideologia comunista minado de incompetentes e corruptos. E assim se passou 1 século deste nosso querido Portugal. Mas, e apesar de tudo isto, estou com muita ESPERANÇA neste novo ciclo político liderado por Luis Montenegro.                Vitor Batista: Olá tia João, só agora é que se deu conta desse Portugal real e fora da bolha? é preciso cruzar as portagens de Alverca para perceber o mundo em que vivem milhões de portugueses, não é de agora, não é novo ,mas está muito pior, porque esta esquerda retrógrada e ignorante não descansou enquanto não destruiu a dignidade de muitos, revertendo leis e foram feitas e pensadas para evitarem os males do arrendamento, agradeça ao tipo das vacas voadoras e à extrema-esquerda, porque eu nunca esquecerei, e também já nem tenho muita vontade de a ler porque sinto que já vem tarde, porque a miséria e a pobreza já estão instaladas confortavelmente, e o Luís não irá fazer nada para as desalojar, a ver vamos.                   Isabel Amorim: A propósito da habitação. Vamos continuar a vender o nosso país aos estrangeiros que nos compram casas para depois as porem a render à custa da boa fama portuguesa de bem receber e boa mesa barata? (só no que concerne ao turismo é que somos assim, internamente somos um povo racista e pouco ou nada inclusivo assim o dizem associações manhosas de fabricantes de vítimas) O governo vai continuar a suportar e a ajudar os milhares de sem abrigo estrangeiros na habitação, ajudas sociais etc etc e deixar os portugueses em situação igualmente precária que ficam para segundo plano, depois de ter abusado da irresponsabilidade das portas abertas sem critério nenhum? É que não houve um pingo de contestação no partido da oposição na altura e que hoje é governo? Não estão em primeiro lugar os portugueses? Como é? Então convido indiscriminadamente pessoas para almoçar em minha casa e digo aos meus filhos, desculpem mas hoje (amanhã e depois) não vão comer, tem que haver comida para os nossos convidados. Comam pão e água e tenham paciência?? Estamos a vender o que deveria ser usado por nós, para nosso proveito aos de fora e o que sobra emprestamos aos de fora em proveito deles. E nós?? Só se compreende o incompreensível porque o pessoal da "politica" está longe da realidade, vive numa autêntica bolha protegida, desconhece o dia a dia de quem lhes paga a festa. Chama-se a isto abuso e traição aos seus pares, os portugueses, ou já não se vêem como portugueses? Às tantas não.... consideram-se cidadãos do mundo, do mundo cão....                  Francisco Ramos: Se o PR e o PM tivessem dois dedos de vergonha na cara, com o país neste estado, não tinham ido a Munique tirar selfies com o Ronaldo. Por respeito à senhora que escreveu aquela carta, e pelos outros que a não escreveram, mas que sentem a mesma necessidade de a escrever, deviam ter reconvertido o dinheiro que gastaram (do nosso bolso) a fazer alguma coisa que trouxesse algum alívio a estes, que tanto sofrem.          afonso moreira: Não haverá também, por aí, entre os seus papéis e notas de jornalista uma carta, antiga, - como as de tantos portugueses arredados de tanto -, a de um S. Tomense a lamentar o que os "cubanos" fizeram às roças, agora em ruínas? Desde há cinquenta anos e ninguém deu conta!? Seria tão interessante começarem a escrever artigos sobre a verdade histórica de Portugal, que nos tem sido escondida, mas tão real e bem mais significante para tantos, do que a admiração fútil pelas "catedrais" dos novos tempos que tanto  "engordam" meia dúzia à custa das emoções de alguns. Tantas cartas, de tantos portugueses, haveria para escrever, mas, certamente, o Expresso não as publicaria e a MJA não as leria, pois a "bolha" cresceu tanto que deixaram de ver tanto Portugal, aqui e além fronteiras onde tantos portugueses estão ou ficaram.               Fala Barato: Os tugas deram duas maiorias absolutas a dois xuxas que, já na altura, eram de duvidosa credibilidade. Essa é que é a realidade.

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