quinta-feira, 5 de junho de 2025

Infantilidade


Os partidos do Governo têm que ser furiosamente interesseiros, não realmente interessados em bem servir, segundo as concepções dos que perderam nas eleições. Se estivéssemos lá nós, os julgadores – no Governo, digo – seríamos nós os julgados, por essas mesmas vilezas interesseiras. No fundo, no fundo, somos um bando de invejosos, sempre e apenas isso. Tudo isto cansa, sim. Não andamos nem desandamos, pobre país entrevado que não ata nem desata, nunca, a crítica movida pela inveja ou por uma superioridade tola. Um governo que começa e logo se deita abaixo, para recomeçar a seguir, com as mesmas - ou outras mais - rosnadelas sem pejo contra ele… Ao que chegámos! Onde pára a Nação, se o ataque é ad hominem?

A perda de controlo

Há uma parte de mim que, mesmo abertamente hostil ao Chega, está genuinamente feliz pela perda de controlo por parte da elite rentista, medíocre e francamente impreparada do ponto de vista intelectual

JORGE FERNANDES Doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário Europeu, Florença, Investigador Ramón y Cajal no Conselho Superior de Investigação Científica, Madrid

OBSERVADOR, 04 jun. 2025, 00:2058

Há um conceito que está latente em quase todas as análises, no subtexto de muitos artigos, e em muitas conversas nos meios da elite de Lisboa por estes dias: a perda de controlo. Nunca é abordado directamente, claro, mas é possível ouvir o desespero e, em muitos casos, a total incompreensão perante o que está a acontecer. Pela primeira vez desde o PREC, a elite dominante percebeu que perdeu completamente o controlo da situação e se, desta vez, apesar de tudo, foi possível mitigar os danos, com um governo liderado por Montenegro com o apoio tácito de um PS muito fragilizado, nada garante que da próxima vez não seja diferente. Os receios de que Ventura chegue ao poder são agora reais. Em todo o lado pergunta-se: Como chegámos aqui? Como e quando é que perdemos o controlo da situação e da narrativa? Quando é que aquilo que o Expresso e os seus escribas PMIs (pequenos e médio intelectuais) escrevem em letra de forma deixou de ser a verdade revelada em Portugal?

Há uma parte de mim que, apesar de ser abertamente hostil ao Chega, às suas posições e ao seu estilo de fazer política, está genuinamente feliz pela perda de controlo por parte de uma elite rentista, medíocre e francamente impreparada do ponto de vista intelectual. O motivo para esta satisfação é simples. Na literatura de ciência política aprendemos que os agentes políticos apenas corrigem as suas acções e se tornam mais responsivos às necessidades da população perante a incerteza da reeleição e a possibilidade real de serem apeados do poder pelos cidadãos. Do ponto de vista retórico, é evidente que os políticos estão atentos às necessidades da população e têm as suas preocupações como ponto cardial da acção política. No entanto, o mecanismo chave da accountability  é, sem dúvida, o perigo de serem corridos do poder.

Um exemplo paradigmático da perda de poder e do abismo como mecanismo para mudar de rumo é o Partido Socialista. Agora, depois de uma catástrofe eleitoral, o partido decidiu fazer uma reflexão que, estranhamente, nunca existiu em 2014, depois da prisão de um líder emblemático que havia socializado politicamente uma parte da elite que, mais tarde, esteve com Costa na Geringonça.

No entanto, apesar de tudo, continua a existir uma bela parte da nossa elite que conserva a certeza de que o Chega nunca chegará ao poder e que, portanto, no fundo, não é necessário mudar coisa nenhuma. O argumentário que sustenta este raciocínio baseia-se em duas premissas. Em primeiro lugar, o eleitor médio não reconhece credibilidade suficiente ao Chega para confiar ao partido as chaves de São Bento. Diferentemente, continua o mesmo raciocínio, PSD e PS continuam a ser percepcionados como altamente credíveis e, logo, os únicos partidos passíveis de ganhar as eleições. Em segundo lugar, e por extensão do primeiro argumento, o Chega nunca obterá um número suficiente de votos para ganhar as eleições e formar um governo. Estes dois argumentos estão completamente errados.

Em primeiro lugar, é verdade que há uma bela parte do eleitorado que considera que o Chega não tem credibilidade para lidar o governo. Concordo. No entanto, existe também uma parte significativa do eleitorado, cada vez maior, de resto, que também não considera que PS e PSD tenham qualquer credibilidade. No fundo, se pensarmos nos partidos como uma empresa com uma marca, tal como nos ensina a teoria da firma, PS e PSD estão com um produto esgotado, com uma quota de mercado cada vez menor, com dificuldades em encontrar novos consumidores e com uma marca cujo valor histórico acumulado tem cada vez menos valor intrínseco e extrínseco. Se fossem uma empresa falida que apenas vende a sua marca registada, PS e PSD receberiam hoje ofertas muito menos generosas do mercado do que há dez ou vinte anos.

Em segundo lugar, sobre a questão da dificuldade de lograr o número absoluto de votos para ganhar as eleições, convém perceber que no equilíbrio de sistema de competição eleitoral tripartido para o qual o sistema partidário está a convergir, diferentemente do passado, quando era necessário ter no mínimo 35 por cento para ficar em primeiro, é possível ganhar as eleições e ficar em primeiro lugar com menos de 30 por cento dos votos. Visto sob este ângulo, o Chega precisa de crescer qualquer coisa como cinco ou seis pontos percentuais para conseguir ficar em primeiro nas eleições. Nas próximas eleições, uma combinação de penalização do incumbente, o aumento de abstenção nos partidos grandes, juntamente com um aumento da mobilização eleitoral do Chega tornam este cenário não só viável como até provável.

POLÍTICA      PARTIDO CHEGA      PS

COMENTÁRIOS (de 58)

Carlos Chaves: Outro a começar a virar o bico ao prego! Este escriba escreveu quilómetros de crónicas, e balbuciou milhares de palavras no fora do baralho da rádio Observador, contra o CHEGA, contra o Ventura e pior, denegrindo os seus apoiantes, e agora vem aqui com este cândido texto! Mais um hipócrita da opinião!                            Vitor Batista: Consegue reunir aqui todos os seus textos sobre o Chega? Era para perceber a forma camaleónica como muda de opinião consoante a realidade dos factos . O cronista é talvez de todos aqui no Observador, o mais parecido com os da bolha Expresso, quando o assunto é o Chega, é caso para dizer que é um entre muitos, que já começaram a "normalizar"o discurso.              Paulo Almeida > Carlos Chaves: É de facto hilariante como uma grande parte destes pseudo-intelectuais vêm agora criticar o grupo de pessoas que não "viu" como o Chega estava a crescer e pode crescer. Mas como diz, foram quilómetros de crónicas a fazer o que agora está a querer, subtilmente, separar-se. Pois quer ficar do lado "inteligente".. é tão patética a atitude. Criam um mundo imaginário e pintam-no para estarem sempre bem visto. Afinal, é o trabalho dele, produzir textos.               Vítor Araújo: Fica sempre bem e politicamente correcto dizer que se é abertamente avesso ao Chega, para depois poder estar abertamente de acordo com o que o Chega defende.            GateKeeper: Uma sumidade de contradições e omissões, mas muito demo-elitista, como esperado. Nota-se bem como considera o "controlo" como uma "arma demó-cratica".             Carlos Real: Um texto lucido. Cada vez mais portugueses como eu estamos fartos da invasão dos forasteiros, sejam eles imigrantes ou turistas. Dos abusos dos anti sociais, e de uns media que destilam ódio ao Chega, e descarregam as suas verdades como absolutas. Esta gentinha nunca irá perceber o que se passa. É como a suposta reflexão chuchialista. Quando estiverem mortos vão ao cemitério reflectir sobre o passado. Os comunistas fizeram o mesmo sobre a queda do muro de Berlin. São uns pré-históricos.                    Carlos Chaves  > Paulo Almeida: Caro Paulo Almeida, se não me engano houve um comentador no Think Tank , no canal cor do dinheiro do Camilo Lourenço, que disse que um comentador é alguém que é pago para vir justificar porque é que se enganou, nas suas análises anteriores! Parece claramente o caso!                   David Pinheiro: O tempo passa e as reformas continuam por fazer. Os governos parecem merceeiros e os orçamentos são-no de mercearia. Tiram-se uns pozinhos de uns items, metem-se noutros, sem qualquer visão de longo prazo, apenas para calar a classe A ou o sindicato B. Entretanto, sem ambição, com sonhos adiados, vendo os filhos sair substituídos por indianos, não há grandes razões para não votar Chega.               Manuel Filipe  > Correia de Araújo: "O PSD não conta para nada relativamente ao País", António Costa em 27 de Janeiro de 2017" "O PS não precisa nunca mais do PSD para governar",  Pedro Nuno Santos em 20 de Janeiro de 2017"   Estas duas frase Gravadas em Pedra e tão do agrado do Jorge Fernandes deviam estar na Mesa de Cabeceira do Luís Montenegro e seus Apoiantes da AD, para que nunca mais se esquecessem delas em todos os dias da sua Vida.....!!!!!                   Rosa Silvestre: " os agentes políticos apenas corrigem as suas acções e se tornam mais responsivos às necessidades da população perante a incerteza da reeleição e a possibilidade real de serem apeados do poder pelos cidadãos." Foi o que aconteceu no Algarve, só a vitória do Chega motivou o interesse da AD numa política das águas e, em parte, do PS na abolição de portagens na Via do Infante. O PS e o PSD não estão excessivamente preocupados com a possibilidade de o Chega ganhar eleições, porque pensam que há sempre a possibilidade de se aliarem para inviabilizar um governo do Chega.             João Diogo: Finalmente, uma epifania e uma boa crónica, as elites lisboetas até tremem, basta ver Maria João Avillez e afins               Vitor Batista > Mario Figueiredo: Não deve ser pior que psd/ps,e andamos há cinquenta anos a levar com eles.               Carlos Chaves > Paulo Almeida: “ Tipicamente quem não sabe fazer, gosta de saber dizer como fazer.” Ora nem mais! É isto mesmo!                       José Nicolau: Ou seja, à laia da entrevista do José Rodrigues dos Santos ao Paulo Raimundo. Sr. Jorge Fernandes, é concordante com o Chega? Não. Concordo com diversos progressos ou propostas de progresso feitas pelo PS/PS2 que são concordantes com o Chega!               Paulo Almeida > Carlos Chaves: Aí penso que entra a parte do narcisismo. São tão focados neles, na sua imagem e no talento que acreditam ter, que não consideram estar nunca errados. Não se permitem tal coisa. Tipicamente quem não sabe fazer, gosta de saber dizer como fazer.               Carlos Chaves > Paulo Almeida: Isso, resumindo, uma boa parte deles estão a tentar enganar-nos… às vezes de uma maneira tão evidente e grosseira, que não percebem o ridículo que estão a fazer!                             Paulo Almeida > Carlos Chaves: Certíssimo boa frase Carlos. E no entanto, não se vê um comentador ou jornalista a dizer "estava errado", "não devia ter dito isto". Porque vivem de uma imagem, não da sua capacidade argumentativa.

 


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