Os partidos do Governo têm que ser
furiosamente interesseiros, não realmente interessados em bem servir, segundo
as concepções dos que perderam nas eleições. Se estivéssemos lá nós, os
julgadores – no Governo, digo – seríamos nós os julgados, por essas mesmas vilezas
interesseiras. No fundo, no fundo, somos um bando de invejosos, sempre e apenas
isso. Tudo isto cansa, sim. Não andamos nem desandamos, pobre país entrevado
que não ata nem desata, nunca, a crítica movida pela inveja ou por uma
superioridade tola. Um governo que começa e logo se deita abaixo, para
recomeçar a seguir, com as mesmas - ou outras mais - rosnadelas sem pejo contra
ele… Ao que chegámos! Onde pára a Nação, se o ataque é ad hominem?
A perda de controlo
Há uma parte de mim que, mesmo
abertamente hostil ao Chega, está genuinamente feliz pela perda de controlo por
parte da elite rentista, medíocre e francamente impreparada do ponto de vista
intelectual
JORGE FERNANDES Doutorado em Ciência Política pelo Instituto
Universitário Europeu, Florença, Investigador Ramón y Cajal no Conselho
Superior de Investigação Científica, Madrid
OBSERVADOR, 04
jun. 2025, 00:2058
Há um conceito que está latente em quase
todas as análises, no subtexto de muitos artigos, e em muitas conversas nos
meios da elite de Lisboa por estes dias: a perda de controlo. Nunca é
abordado directamente, claro, mas é possível ouvir o desespero e, em muitos
casos, a total incompreensão perante o que está a acontecer. Pela
primeira vez desde o PREC, a elite dominante percebeu que perdeu completamente
o controlo da situação e se, desta
vez, apesar de tudo, foi possível mitigar os danos, com um governo liderado por
Montenegro com o apoio tácito de um PS muito fragilizado, nada garante que da
próxima vez não seja diferente. Os
receios de que Ventura chegue ao poder são agora reais. Em todo o lado
pergunta-se: Como chegámos aqui? Como
e quando é que perdemos o controlo da situação e da narrativa? Quando é que
aquilo que o Expresso e os seus escribas PMIs (pequenos e médio intelectuais)
escrevem em letra de forma deixou de ser a verdade revelada em Portugal?
Há uma parte de mim que, apesar de
ser abertamente hostil ao Chega, às suas posições e ao seu estilo de fazer
política, está genuinamente feliz pela perda de controlo por parte de uma elite
rentista, medíocre e francamente impreparada do ponto de vista intelectual. O motivo
para esta satisfação é simples. Na
literatura de ciência política aprendemos que os agentes políticos apenas
corrigem as suas acções e se tornam mais responsivos às necessidades da
população perante a incerteza da reeleição e a possibilidade real de serem apeados
do poder pelos cidadãos. Do
ponto de vista retórico, é evidente que os políticos estão atentos às
necessidades da população e têm as suas preocupações como ponto cardial da
acção política. No
entanto, o mecanismo chave da accountability
é, sem dúvida, o perigo de serem corridos do poder.
Um exemplo paradigmático da perda de
poder e do abismo como mecanismo para mudar de rumo é o Partido Socialista. Agora,
depois de uma catástrofe eleitoral, o partido decidiu fazer uma reflexão que,
estranhamente, nunca existiu em 2014, depois da prisão de um líder
emblemático que havia socializado politicamente uma parte da elite que, mais
tarde, esteve com Costa na Geringonça.
No entanto, apesar de tudo, continua
a existir uma bela parte da nossa elite que conserva a certeza de que o Chega
nunca chegará ao poder e que, portanto, no fundo, não é necessário mudar coisa
nenhuma. O argumentário que sustenta este raciocínio baseia-se em duas
premissas. Em
primeiro lugar, o
eleitor médio não reconhece credibilidade suficiente ao Chega para confiar ao
partido as chaves de São Bento. Diferentemente, continua o mesmo raciocínio,
PSD e PS continuam a ser percepcionados como altamente credíveis e, logo, os
únicos partidos passíveis de ganhar as eleições. Em segundo
lugar, e por extensão do
primeiro argumento, o Chega nunca obterá um número suficiente de votos para
ganhar as eleições e formar um governo. Estes
dois argumentos estão completamente errados.
Em
primeiro lugar, é verdade que há uma bela parte do eleitorado que considera que
o Chega não tem credibilidade para lidar o governo. Concordo.
No entanto, existe também uma parte
significativa do eleitorado, cada vez maior, de resto, que também não considera
que PS e PSD tenham qualquer credibilidade. No fundo, se pensarmos nos
partidos como uma empresa com uma marca, tal como nos ensina a teoria da firma,
PS e PSD estão com um produto
esgotado, com uma quota de mercado cada vez menor, com dificuldades em
encontrar novos consumidores e com uma marca cujo valor histórico acumulado tem
cada vez menos valor intrínseco e extrínseco. Se fossem uma empresa falida que apenas vende a sua marca registada,
PS e PSD receberiam hoje ofertas muito menos generosas do mercado do que há dez
ou vinte anos.
Em segundo lugar, sobre a
questão da dificuldade de lograr o número absoluto de votos para ganhar as
eleições, convém perceber que no
equilíbrio de sistema de competição eleitoral tripartido para o qual o sistema
partidário está a convergir, diferentemente do passado, quando era necessário
ter no mínimo 35 por cento para ficar em primeiro, é possível ganhar as
eleições e ficar em primeiro lugar com menos de 30 por cento dos votos.
Visto sob este ângulo, o Chega precisa
de crescer qualquer coisa como cinco ou seis pontos percentuais para conseguir
ficar em primeiro nas eleições. Nas próximas eleições, uma combinação de
penalização do incumbente, o aumento de abstenção nos partidos grandes, juntamente
com um aumento da mobilização eleitoral do Chega tornam este cenário não só
viável como até provável.
COMENTÁRIOS (de 58)
Carlos Chaves: Outro a começar a virar o bico ao prego! Este escriba escreveu quilómetros
de crónicas, e balbuciou milhares de palavras no fora do baralho da rádio Observador,
contra o CHEGA, contra o Ventura e pior, denegrindo os seus apoiantes, e
agora vem aqui com este cândido texto! Mais um hipócrita da opinião!
Vitor
Batista: Consegue reunir aqui todos os seus textos sobre o Chega? Era para
perceber a forma camaleónica como muda de opinião consoante a realidade dos
factos . O cronista é talvez de todos
aqui no Observador, o mais parecido com os da bolha Expresso, quando o assunto
é o Chega, é caso para dizer que é um entre muitos, que já começaram a
"normalizar"o discurso. Paulo Almeida > Carlos Chaves: É de facto hilariante como uma
grande parte destes pseudo-intelectuais vêm agora criticar o grupo de pessoas
que não "viu" como o Chega estava a crescer e pode crescer. Mas como diz, foram
quilómetros de crónicas a fazer o que agora está a querer, subtilmente,
separar-se. Pois quer ficar do lado "inteligente".. é tão patética a
atitude. Criam um mundo imaginário e
pintam-no para estarem sempre bem visto. Afinal, é o trabalho dele, produzir
textos. Vítor Araújo: Fica sempre bem e
politicamente correcto dizer que se é abertamente avesso ao Chega, para depois
poder estar abertamente de acordo com o que o Chega defende. GateKeeper: Uma sumidade de contradições e
omissões, mas muito demo-elitista, como esperado. Nota-se bem como considera o
"controlo" como uma "arma demó-cratica". Carlos
Real: Um texto lucido. Cada vez mais
portugueses como eu estamos fartos da invasão dos forasteiros, sejam eles
imigrantes ou turistas. Dos abusos dos anti sociais, e de uns media que
destilam ódio ao Chega, e descarregam as suas verdades como absolutas. Esta
gentinha nunca irá perceber o que se passa. É como a suposta reflexão
chuchialista. Quando estiverem mortos vão ao cemitério reflectir sobre o
passado. Os comunistas fizeram o mesmo sobre a queda do muro de Berlin. São uns
pré-históricos. Carlos
Chaves > Paulo Almeida: Caro Paulo Almeida, se não me engano houve um
comentador no Think Tank , no canal cor do dinheiro do Camilo Lourenço, que
disse que um comentador é alguém que é pago para vir justificar porque é que se
enganou, nas suas análises anteriores! Parece claramente o caso!
David
Pinheiro: O tempo passa e as reformas continuam por fazer. Os governos parecem
merceeiros e os orçamentos são-no de mercearia. Tiram-se uns pozinhos de uns
items, metem-se noutros, sem qualquer visão de longo prazo, apenas para calar a
classe A ou o sindicato B. Entretanto, sem ambição, com sonhos adiados, vendo
os filhos sair substituídos por indianos, não há grandes razões para não votar
Chega. Manuel
Filipe > Correia de Araújo: "O PSD não conta para nada
relativamente ao País", António Costa em 27 de Janeiro de 2017" "O PS não precisa nunca mais do PSD para
governar", Pedro Nuno Santos em 20 de Janeiro de
2017" Estas duas frase
Gravadas em Pedra e tão do agrado do Jorge Fernandes deviam estar na Mesa de
Cabeceira do Luís Montenegro e seus Apoiantes da AD, para que nunca mais se
esquecessem delas em todos os dias da sua Vida.....!!!!! Rosa
Silvestre: " os
agentes políticos apenas corrigem as suas acções e se tornam mais responsivos
às necessidades da população perante a incerteza da reeleição e a possibilidade
real de serem apeados do poder pelos cidadãos." Foi o que aconteceu no
Algarve, só a vitória do Chega motivou o interesse da AD numa política das
águas e, em parte, do PS na abolição de portagens na Via do Infante. O PS e o
PSD não estão excessivamente preocupados com a possibilidade de o Chega ganhar
eleições, porque pensam que há sempre a possibilidade de se aliarem para
inviabilizar um governo do Chega. João
Diogo: Finalmente, uma epifania e uma boa crónica, as elites lisboetas até tremem,
basta ver Maria João Avillez e afins Vitor
Batista > Mario Figueiredo: Não deve ser pior que psd/ps,e
andamos há cinquenta anos a levar com eles. Carlos
Chaves > Paulo Almeida: “ Tipicamente quem não sabe
fazer, gosta de saber dizer como fazer.” Ora nem mais! É isto mesmo! José
Nicolau: Ou seja, à laia da entrevista do José Rodrigues dos Santos ao Paulo
Raimundo. Sr. Jorge Fernandes, é concordante com o Chega? Não. Concordo com diversos
progressos ou propostas de progresso feitas pelo PS/PS2 que são concordantes
com o Chega! Paulo
Almeida > Carlos Chaves: Aí penso que entra a parte do
narcisismo. São tão focados neles, na sua imagem e no talento que acreditam
ter, que não consideram estar nunca errados. Não se permitem tal coisa. Tipicamente
quem não sabe fazer, gosta de saber dizer como fazer. Carlos
Chaves > Paulo Almeida: Isso, resumindo, uma boa parte
deles estão a tentar enganar-nos… às vezes de uma maneira tão evidente e
grosseira, que não percebem o ridículo que estão a fazer!
Paulo
Almeida > Carlos Chaves: Certíssimo boa frase Carlos. E
no entanto, não se vê um comentador ou jornalista a dizer "estava
errado", "não devia ter dito isto". Porque vivem de uma imagem,
não da sua capacidade argumentativa.
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