Este do Médio Oriente, que que parece querer tirar o protagonismo bélico ao Putin, coitado e ao seu parceiro. O que lhe vale é a cadeira.
Um ataque "inevitável" pode
arrastar Irão e Israel para uma guerra total? EUA terão papel central para
evitar a escalada
As tensões cresciam há vários meses,
Israel deu o primeiro passo e agora é a vez do Irão, com opções limitadas de
resposta. Mais margem de manobra têm os EUA, que podem ter um papel fulcral.
MADALENA MOREIRA: Texto
OBSERVADOR, 14 jun. 2025, 00:00
Os comandantes de topo das Forças
Armadas iranianas foram mortos, os cientistas que lideravam o programa nuclear
de Teerão também — as suas residências foram atacadas matando também dezenas de
civis, relataram os media iranianos –, várias instalações militares por todo o
país foram atacadas, assim como a principal instalação nuclear. É este o
balanço inicial do ataque israelita contra o Irão na madrugada desta
sexta-feira. Para encontrar um ataque contra o Irão com uma dimensão
semelhante, é preciso recuar à década de 1980 e à Primeira Guerra do Golfo.
“Uma
declaração de guerra“, classificou o ministro dos Negócios Estrangeiros
do Irão, Abbas Araghchi, numa
carta enviada às Nações Unidas para que reunisse o Conselho de Segurança ainda
esta sexta-feira. “Um ataque selvagem e criminoso”, descreveu
por sua vez o Presidente Masoud Pezeshkian, que prometeu ainda uma “resposta poderosa e legítima que fará Israel
arrepender-se desta ação tola”. No campo militar, Teerão respondeu
enviando uma centena de drones contra Israel.
Em Telavive, o ataque militar foi
descrito como uma acção “preventiva” para fazer frente ao desenvolvimento do
programa nuclear e à “constante agressão do regime iraniano”. Os serviços secretos israelitas acreditam que o
programa permitiria ao Irão desenvolver 15 bombas nucleares nos próximos dias,
relatou um oficial israelita aoNew York Times. O
primeiro de vários ataques israelitas ao longo do dia não foi nem inesperado
nem aleatório.
Na
verdade, a ofensiva israelita vinha a ser preparada há muito tempo, com o
conhecimento dos Estados Unidos, que, nos últimos dias, ordenaram a retirada do
pessoal diplomático de várias embaixadas no Médio Oriente. O
primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, detalhou que o plano remonta a
uma directiva de novembro do ano passado. Ora,
isso significa que o planeamento deste ataque começou logo a seguir a Telavive
ter lançado um ataque “limitado” contra o Irão, em
resposta a um ataque iraniano contra território israelita, que visou os sistemas
de defesa aérea. O golpe na defesa iraniana permitiu que, desta vez, Israel
pudesse lançar ataques aéreos sem que os jactos fossem abatidos, avaliou a
editora de Defesa da Sky News.
▲Este foi o
maior ataque contra o Irão desde a Guerra do Golfo Anadolu via Getty Images
A crescente tensão entre Israel e o Irão
— acentuada desde que Israel começou a ofensiva contra a Faixa de Gaza em 2023
— leva Matthew Kroenig, director de estudos do Atlantic Council a classificar o ataque como “inevitável“. No entanto,
os analistas deste think tank admitem
que o ataque israelita aconteceu mais cedo do que antecipavam, já que os Estados
Unidos vinham a pressionar Israel a não atacar o Irão, de modo a que Washington
e Teerão pudessem continuar as negociações para um acordo nuclear (em tom de
“brincadeira”, os analistas israelitas acreditavam ainda que Benjamin Netanyahu
só iria atacar o Irão depois do casamento do filho). Se o timing do ataque procurava fragilizar o programa nuclear e pôr
fim às negociações, Israel parece ter sido bem-sucedida, já que Teerão anunciou
que não se vai deslocar a Omã este domingo para o encontro que estava marcado
com a delegação norte-americana.
Toda esta
conjuntura ajuda a perceber o “porquê” do ataque israelita, mas não responde à
questão que agora ocupa mais espaço: e agora? Israel acabou de dar o
primeiro passo para uma guerra total com o Irão?
Ataques
directos, desestabilização regional ou “guerra assimétrica”: as hipóteses de resposta do Irão.
“Não
podemos não responder. Ou nos rendemos e eles levam os nossos mísseis, ou
disparamos. Não há outra opção — e se não [dispararmos], vamos acabar por nos
render de qualquer maneira”. As palavras foram ditas por um
residente de Teerão à Reuters, que reagia aos ataques israelitas poucas horas depois
de eles acontecerem. A mensagem não é unânime entre as duas dezenas de cidadãos
iranianos ouvidos pela agência noticiosa na manhã desta sexta-feira: o
sentimento mais dominante parecia ser mesmo o medo da escalada militar, caso o
Irão responda na mesma moeda.
Ainda
assim, o desejo de retaliação deste residente da capital — que diz que não
apoia o regime — é o que faz mais eco entre a cúpula da liderança iraniana. Em
outubro, depois do ataque “limitado” de Israel, Teerão deixou promessas
semelhantes de retaliação directa, que acabaram por ser muito limitadas e com
pouco impacto. Desta vez, o ataque foi bem maior e as promessas de
respostas mais ameaçadoras: em outubro, o Irão falava numa resposta “medida
e calculada“, enquanto desta vez a ameaça é de um ataque “sem
meias medidas“, nas palavras do ayatollah Ali Khamenei.
Mas a verdadeira questão que os
analistas levantam não é se o Irão quer cumprir esta promessa, mas se o consegue
fazer. “Há uma questão real sobre a gravidade com que o Irão consegue montar
uma contra-resposta contra Israel”, destacou Ellie Geranmayeh, analista no
European Council on Foreign Relations (ECFR), em declarações enviadas ao
Observador. A primeira reação iraniana — a centena de drones enviados contra
Israel — pode ser um reflexo de uma
resposta insuficiente para causar “danos maiores” contra as infraestruturas
israelitas, considera a especialista.
▲ As
negociações para um acordo nuclear aproximaram Teerão e Washington ABEDIN
TAHERKENAREH/EPA
A possível incapacidade iraniana para
“responder na mesma moeda” está na fragilidade que o país enfrenta actualmente. O
problema de base, que afecta o Irão há vários anos, é a crise económica,
motivada pela aplicação de sanções internacionais. A isso soma-se o apoio
custoso aos seus grupos alinhados: os Houthis do Iémen, o Hezbollah do Líbano e
o Hamas de Gaza.
Estes grupos constituem um duplo
problema para o Irão, pois, para
além de serem uma despesa na economia iraniana, deixaram de ser uma opção para
organizar uma resposta militar coordenada contra Israel. Destes três
grupos, o Hezbollah e o Hamas estão
profundamente enfraquecidos devido à ofensiva israelita pós-7 de Outubro e
apenas os Houthis continuam a ser uma ameaça frequente
para Israel. A força somada de todas as partes não seria
suficiente para se sobrepor ao sistema de defesa israelita, o Iron Dome, argumenta
Matthew Kroenig.
O poder dos Houthis no Mar Vermelho abre uma outra possibilidade de retaliação iraniana,
que não passa por uma resposta directa contra Israel. “O Irão pode desencadear ataques contra o pessoal
norte-americano por todo o Médio Oriente e interromper o fluxo comercial no
estreito de Ormuz e no Mar Vermelho”, sugere Ellie Geranmayeh.
Mas a analista reconhece que esta
segunda hipótese de resposta também inclui várias deficiências. Por um
lado, um ataque no Mar Vermelho iria desestabilizar toda a
região e destruir todo o trabalho diplomático que o Irão tem desenvolvido com
os seus pares árabes e do Golfo. Aliás,
as condenações destes países do ataque israelita parecem deixar claro que
nenhuma parte está particularmente interessada numa escalada regional. Já o
ataque contra os Estados Unidos iria arrastar o maior Exército do mundo de novo
para uma guerra no Médio Oriente. Ellie Geranmayeh argumenta que esta é
precisamente a “ratoeira” que Benjamin
Netanyahu está a montar ao Irão e
duvida que o ayatollah Ali Khamenei se sujeite a essa possibilidade —
principalmente tendo em conta a sua postura recente, em que cedeu e aceitou negociar um acordo nuclear
com Washington, para evitar um confronto militar.
Apesar destas dificuldades, Daniel
Shapiro acredita que a ausência de uma resposta militar não significa o fim
do conflito. Em entrevista à Foreign Affairs, o antigo secretário-assistente para o Médio
Oriente no Departamento da Defesa norte-americano argumenta que a tensão pode assumir a forma de uma guerra
“assimétrica” em vez de uma “guerra
total”. “Israel deve esperar uma série de ataques
assimétricos, como ciber-operações, ataques terroristas contra as suas
embaixadas, viajantes ou negócios [israelitas]”, avaliou.
"O nível de coordenação
israelita com a administração Trump será fulcral para como esta crise se vai desenrolar." Shalom
Lipner, analista no Atlantic Council e antigo funcionário de diplomacia e
política externa no governo israelita.
O
terceiro jogador: como os Estados Unidos podem decidir o futuro do confronto
O ataque desta madrugada não foi o
primeiro que Israel lançou contra o Irão e também não foi último. Ao longo do dia, registaram-se outros
ataques e Telavive declarou que a operação iria durar alguns dias. Entre os
ataques sucessivos, o encerramento de embaixadas por todo o mundo e a
convocatória de todos os militares na reserva, Israel parece
preparar-se para uma guerra directa.
Se esse cenário se verificar, Israel
enfrenta um grande desafio: as suas
alianças na região são muito menos firmes que as do Irão e, apesar das suas
inegáveis capacidades de defesa, continua a estar dependente dos Estados Unidos
por esse mesmo motivo. Ao todo, Washington tem 40 mil soldados no
Médio Oriente e ainda porta-aviões armados com jactos de combate. Entre as prioridades destas tropas,
conta-se a defesa de Israel, destaca o New York Times. Contudo, não
é claro se os Estados Unidos de Donald Trump estão disponíveis para apoiar sem
restrições uma ofensiva israelita no Médio Oriente.
Logo após os ataques, o Departamento de
Estado norte-americano apressou-se a esclarecer que os Estados Unidos “não estão envolvidos nos ataques”. Mas o
facto de terem tido conhecimento total dos planos — como Donald Trump confirmou
mais tarde — deixa transparecer que Telavive está a coordenar a sua
estratégia com o seu maior aliado, argumenta Shalom Lipner, analista no
Atlantic Council e antigo funcionário de diplomacia e política externa no
governo israelita. “O nível
de coordenação israelita com a administração Trump será fulcral para como esta
crise se vai desenrolar”, afirmou.
Richard LeBaron, analista no mesmo think
tanke antigo embaixador dos EUA, argumenta que os “Estados Unidos estão a ser arrastados para uma guerra
que não querem”. Mesmo que o Irão nunca vise o pessoal
norte-americano, o envolvimento de Washington é inevitável, dada a sua
relação com Israel. A questão a que nenhum analista arrisca responder — talvez tendo em conta a imprevisibilidade do
Presidente Trump — é qual será o seu passo seguinte da Casa Branca:
dará luz verde e apoio inabalável a
Netanyahu? Irá tentar envolver os seus outros aliados no Golfo para uma
abordagem diplomática? Ou irá olhar para dentro, manter uma posição vaga sobre
a escalada de tensões e dedicar-se ao isolacionismo que cultivou durante a
primeira administração Trump?
A
primeira declaração de Donald Trump sobre o tema não apontou claramente para
nenhuma destas direcções. Sem nunca condenar o ataque israelita, o líder
norte-americano pareceu quase lamentar o facto de os líderes iranianos não
terem ouvido os seus avisos para que aceitassem o acordo nuclear sob pena de
enfrentarem um ataque israelita. “Certos
iranianos de linha dura falaram de forma corajosa, mas não sabiam o que estava
prestes a acontecer. Estão todos MORTOS agora e só vai ficar pior”, escreveu,
numa publicação na Truth Social em
que repetiu o aviso: assinem um acordo ou voltam a sofrer ataques “muito mais
brutais”.
▲Os EUA
são o principal aliado de Israel Getty Images
A linha de política externa parece ser a
mesma que os Estados Unidos estão a adoptar sobre a guerra na Ucrânia ou a
ofensiva israelita em Gaza — “Não a
mais morte, não a mais destruição“. No entanto, a estratégia para
implementar essa prioridade política ainda não foi tornada clara. A questão é
que, neste caso, uma posição decisiva dos Estados Unidos sobre o tema poderia
pressionar ambas as partes a baixar a escalada da situação: Israel precisa do apoio militar e o Irão
também beneficiaria de um novo acordo nuclear que resultasse no levantamento de
sanções.
Ellie
Geranmayeh defende
que os apelos para reduzir a escalada não devem, por estes motivos, visar
apenas o Irão e Israel, mas também os Estados Unidos. Neste
sentido, os Estados do Golfo e da
União Europeia, enquanto bons aliados de Washington, devem coordenar uma
estratégia de pacificação, não só através do posicionamento público, mas
mantendo os canais diplomáticos com o Irão abertos, de forma a não excluir uma
das partes de possíveis negociações.
Impactos humanitários deverão existir
mesmo sem guerra total
Considerando o crescente aumento de
tensões no Médio Oriente ao longo dos últimos anos, Israel não deu propriamente “o primeiro passo”. No
entanto, a dimensão do ataque pode atirar a região para um novo capítulo da sua
História. As primeiras quase 24 horas depois do ataque não permitem responder
claramente à questão sobre se o conflito irá evoluir para uma guerra total.
Israel já fez a sua jogada, mas apesar das muitas declarações, ainda não é claro qual será o impacto
quer no Irão, quer nos Estados Unidos.
Da mesma forma que acredita que este
ataque foi “inevitável”, Matthew Kroenig considera que se trata de “uma
inevitabilidade que irá desescalar rapidamente“. Mas mesmo que esse
cenário — mais pacífico, quando
comparado com as outras possibilidades — se verifique, outros analistas
do Atlantic Council destacam que a situação, por si mesma, já contribui para
a desestabilização política do Médio Oriente.
“Além
das consequências políticas e militares imediatas, os impactos mais profundos
serão sentidos pelos civis, particularmente aqueles que já enfrentam crises
humanitárias”, destaca Diana Rayes, analista no Projeto da Síria. A
especialista destaca o exemplo deste país, que ultrapassa ainda um período de
fragilidade desde a queda de Bashar
al-Assad, ou da Jordânia e do Líbano, com grandes populações refugiadas.
Nestes casos, um aumento dos preços ou
um desvio da ajuda humanitária para outras regiões podem acentuar as difíceis
condições de vida da população.
▲Alguns
iranianos já ponderam fugir do país Anadolu via Getty Images
Outro impacto humanitário indirecto pode
ser sentido na Faixa de Gaza, destaca
a Euronews. “Os
palestinianos na Faixa de Gaza temem que a sua causa possa ser atirada para
segundo plano. Isto pode tornar Gaza num ‘assunto esquecido’ face à eclosão de
um grande conflito regional”, resume o canal.
Para além
dos impactos indirectos, no Irão, o eclodir das tensões já se faz
sentir entre a população. Entre os iranianos ouvidos pela Reuters,
contava-se Masoud Mousavi, um reformado de 51, que decidiu emigrar esta
sexta-feira. Com o espaço aéreo fechado, Masoud dirigiu-se a uma agência de
câmbio e trocou o seu dinheiro por liras turcas, pronto a rumar ao país vizinho
por terra. “Sou contra a guerra,
qualquer ataque que mate gente inocente. Vou ficar na Turquia com a minha
família até esta situação passar”, explicou à agência. A resposta que
parece, por agora, ainda não ter resposta é precisamente o “quando”.
MÉDIO ORIENTE MUNDO IRÃO ISRAEL PRESIDENTE
TRUMP ESTADOS
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