domingo, 29 de junho de 2025

Uma companhia limitada

 

Mas é um relato, afinal, objectivo nas informações, com dados históricos que apraz ler.

Os Anjos e Companhia Limitada

O dia de Portugal é uma festa civil e religiosa: é muito provável que sejamos o único país no mundo que festeja o seu Anjo da guarda.

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista

OBSERVADOR, 28 jun. 2025, 00:1711

Os Anjos são notícia. Infelizmente, não os verdadeiros, mas uma dupla artística que usa essa denominação. No entanto, mais do que esse processo mediático, que talvez interesse outras audiências, nunca é demais referir a existência desses seres espirituais que, por sinal, estão particularmente ligados não apenas à tradição cristã, que molda a nossa identidade cultural, mas também à nossa nacionalidade.

Muitos países escolheram uma efeméride de carácter bélico para assinalar o seu dia nacional. É o caso de França, que celebra anualmente, a 14 de Julho, a tomada da Bastilha. A destruição desse presídio simboliza a Revolução Francesa, que é responsável por milhares, senão mesmo milhões, de vítimas, como se evocou na muito infeliz cerimónia de inauguração dos recentes Jogos Olímpicos de Paris.

Graças a Deus, o dia de Portugal não está associado a nenhum acontecimento violento ou fracturante, mas à egrégia memória de um dos principais vultos da nossa cultura: Luís Vaz de Camões. Tendo em conta o revisionismo histórico de alguns, talvez hoje o autor de Os Lusíadas não fosse escolhido para patrocinar o dia de Portugal, face às conotações imperialistas e colonialistas desta sua obra. No entanto, mantém-se como o principal símbolo nacional e, por isso, festeja-se o dia de Portugal na data em que se supõe que ocorreu o falecimento do poeta, cujos restos mortais, segundo se julga, se conservam no Mosteiro dos Jerónimos, que é também – a par do Mosteiro da Santa Cruz, de Coimbra, do Mosteiro da Batalha e da Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa – um dos mais importantes panteões reais de Portugal.

Se é louvável que o dia de Portugal tenha, sobretudo, uma conotação cultural e universalista, sem deixar de ser nacionalista q.b., não é menos singular que esse dia, que é sobretudo uma festa civil, mas não laica, tenha também uma correspondência religiosa. Com efeito, segundo o calendário litúrgico em vigor no nosso país, o 10 de Junho é também o dia do Anjo da guarda de Portugal. O nosso país é um caso absolutamente singular, pois o seu dia nacional tem uma componente religiosa própria. É muito provável que sejamos a única nação que, no mundo inteiro, festeja o seu Anjo custódio.

A existência de espíritos puros é uma verdade revelada que não pode ser racionalmente provada, ao contrário da existência de Deus, que pode e deve ser conhecida pela razão. A realidade dessas criaturas espirituais está amplamente documentada na Bíblia, que refere as suas duas modalidades: anjos e demónios. Ambos partilham a mesma natureza espiritual, mas enquanto os primeiros participam da visão beatífica e estão ao serviço de Deus, a quem gostosamente adoram e servem, os segundos revoltaram-se contra o seu Criador, tendo sido desde então precipitados no inferno. Nesta sua desgraçada condição, os espíritos malignos têm possibilidade de tentar os homens e, até, de lutar contra a Igreja, embora esta seja indefectível no seu todo, porque foi prometido a Pedro, o primeiro Papa, que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt 16, 18).

Se é pacífica, para os crentes, a existência dos anjos e dos demónios, também é certa, para os católicos, a realidade dos anjos ditos da guarda, que têm como missão proteger cada ser humano desde a sua concepção e até, pelo menos, à sua morte. Com efeito, referindo-se aos mais pequenos, Jesus disse que os seus anjos contemplam constantemente a Deus (Mt 18, 10), o que leva a crer que cada alma humana, uma vez criada e unida ao corpo gerado pelos seus progenitores, goza desta protecção durante todo o tempo da sua vida terrena e talvez também no purgatório se, para poder ser admitida no Céu, carecer dessa ulterior expiação.

Menos comum é, contudo, a crença nos anjos da guarda nacionais, embora o Apocalipse, o último livro do Novo Testamento, sugira que estes seres espirituais, da mesma forma como protegem indivíduos, também assumem a defesa de colectividades, nomeadamente das igrejas (Ap 2, 1 – 3, 21), entendidas não apenas como construções materiais, mas, sobretudo, como comunidades de crentes. Da mesma forma como um anjo pode guardar uma igreja, pode também ser o celestial guardião de uma comunidade nacional e, daí, a devoção ao chamado Anjo da Guarda de Portugal, antes denominado Anjo Custódio do Reino, com várias representações na iconografia religiosa nacional, nomeadamente no Museu Machado de Castro, a imagem atribuída a Diogo Pires, o Moço, e no Mosteiro da Santa Cruz, ambas em Coimbra; a da charola do Convento de Cristo, em Tomar; e a da Igreja da Misericórdia, em Évora.

Pouco se sabe sobre a origem desta devoção nacional, mas consta que o dominicano espanhol São Vicente Ferrer (1350-1419), que pregou em Portugal, ensinava que os anjos não só têm a missão de proteger os indivíduos, mas também as comunidades, como os castelos e povoações. Em 1411, na cidade espanhola de Valência já se celebrava a festa do Anjo da guarda da cidade. Atribui-se ao Frei António da Castanheira, que foi Prior de Odivelas, a primeira referência ao “Anjo Custódio de Portugal”, ou do Reino. D. Manuel I era devoto dos anjos da guarda, pelo que no seu Livro de Horas consta uma iluminura do Anjo Custódio do Reino e, conjuntamente com os prelados portugueses, pediu e obteve do Papa Júlio II, em 1504, a institucionalização da festa litúrgica do Anjo de Portugal, que o monarca lusitano fez que se celebrasse em todo o país com a maior solenidade. Por determinação do Papa Leão X, esta festa ocorria no terceiro domingo do mês de Julho. Contudo, em princípios do século passado, a memória litúrgica do Anjo de Portugal só se mantinha na sede bracarense, a arquidiocese primaz.

Um ano antes das aparições marianas de Fátima, os videntes receberam, por três vezes, a visita de um anjo. Não constam as datas exactas destas visões, talvez porque as mesmas não se destinavam a ser comemoradas, mas apenas a preparar os pastorinhos para os encontros com Nossa Senhora. Sabe-se, no entanto, que as três aparições angélicas tiveram lugar na primavera, verão e outono de 1916, respectivamente. Estava então em curso a primeira Guerra Mundial, em que participaram soldados portugueses e, por isso, na segunda aparição, o mensageiro celestial pediu às crianças que oferecessem “orações e sacrifícios”: “Atraí assim sobre a vossa pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal.”Nada consta quanto à identidade do Anjo aparecido antes, nem do que, mais tarde, lhes dará a comunhão, pelo que não é possível saber se se tratava do mesmo Anjo, nem que este fosse o Anjo de Portugal.

A projecção mundial das aparições de Fátima beneficiou a devoção ao Anjo de Portugal, cuja festa litúrgica, por decreto de 1952, do Papa Pio XII, ocorre todos os anos a 10 de Junho. Que o Santo Anjo da guarda de Portugal nos proteja do inimigo infernal e nos defenda de todo o mal!

IGREJA CATÓLICA      RELIGIÃO

COMENTÁRIOS (de 11)

Lily Lx: Que assim seja! Belíssimo artigo.                       ummilhãoequinhentosmilfascistas nãofascistas: Artigo hilariante, mas pronto ficamos a saber que é sempre possível uns tais anjos apanharem uma boleia do Camões. PQP.                       José Bento: Esqueceu apenas o mosteiro de Alcobaça como panteão real... um dos mais belos, no meu entender.                    Manuel Lisboa: Crónica bonita. E concordo em absoluto que o Dia de Portugal celebre como figura principal o indelével Luís Vaz de Camões, símbolo da Língua e Cultura Portuguesas.              S N: Muito interessante e instrutivo sobre temas (acho eu) pouco conhecidos                   Coronavirus corona: "A existência de espíritos puros é uma verdade revelada que não pode ser racionalmente provada, ao contrário da existência de Deus, que pode e deve ser conhecida pela razão" Uma frase inteligente e que, por essa razão, vai criar urticária intelectual nalguns leitores.          António Dias: Quem eu sou até a mim me repugna. Não fosse ter sido tocado, sabe-se lá porquê, palavra com sentido alguma vez sairia da minha boca. A preguiça era o meu leme, o branco a minha cor e o silêncio a minha música. Talvez por necessidade, o abandono a que a seara estava dada, me foi dado um anjo que um dia ainda conhecerei. Que coisa mais amorfa, terá dito na distribuição, apetências nenhumas, inteligente é melhor não falar, só ele sabe a sinceridade de querer compreender e a ausência total de entendimento que me revestia. Não há mundo sem anjos, e eles vêm aos pares, sem polaridade não há corrente, pastaríamos todos. Pois o vida é feita de derrotas e vitórias, as vitórias são derrotas e as derrotas são vitórias. E no meio de tudo isto que valho eu realmente? Não fosse trabalho árduo (que eu não pago, mas me é generosamente cedido), bem eu pastava. Para melhor, pois a força não tem reverso, correria como louco atrás de coisas que têm como natureza não alcançar coisa nenhuma. Naturalmente alienados assim somos, agarrando um mote, sugerindo um mote, ninguém pode fugir dele, assim agarrados os vemos defendendo motes com todas as suas forças, porque deles não têm a mínima possibilidade de fugir. Não é maldade, é alienação. Se não se tem uns trocos amealhados, qualquer coisinha onde o anjo possa negociar mais alto, continuaremos eternos escravos.

 

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