Mas é um relato, afinal, objectivo nas
informações, com dados históricos que apraz ler.
Os Anjos e Companhia Limitada
O dia de Portugal é uma festa civil e religiosa: é muito provável
que sejamos o único país no mundo que festeja o seu Anjo da guarda.
P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista
OBSERVADOR, 28 jun. 2025, 00:1711
Os Anjos são notícia. Infelizmente, não os verdadeiros, mas uma
dupla artística que usa essa denominação. No entanto, mais do que esse processo mediático, que talvez
interesse outras audiências, nunca é demais referir a existência desses seres
espirituais que, por sinal, estão particularmente ligados não apenas à tradição
cristã, que molda a nossa identidade cultural, mas também à nossa nacionalidade.
Muitos países escolheram uma efeméride de carácter bélico para
assinalar o seu dia nacional. É o caso de França, que celebra anualmente, a 14 de
Julho, a tomada da Bastilha. A
destruição desse presídio simboliza a Revolução Francesa, que é responsável por
milhares, senão mesmo milhões, de vítimas, como se evocou na muito infeliz
cerimónia de inauguração dos recentes Jogos
Olímpicos de Paris.
Graças a Deus, o dia de Portugal não está associado a nenhum
acontecimento violento ou fracturante, mas à egrégia memória de um dos
principais vultos da nossa cultura: Luís Vaz de
Camões. Tendo em
conta o revisionismo histórico de alguns, talvez hoje o autor de Os
Lusíadas não fosse escolhido para patrocinar o dia de Portugal, face às
conotações imperialistas e colonialistas desta sua obra. No
entanto, mantém-se como o principal símbolo nacional e, por isso, festeja-se o
dia de Portugal na data em que se supõe que ocorreu o falecimento do poeta,
cujos restos mortais, segundo se julga, se conservam no Mosteiro dos Jerónimos,
que é também – a par do Mosteiro da Santa Cruz, de Coimbra, do Mosteiro da
Batalha e da Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa – um dos mais importantes
panteões reais de Portugal.
Se
é louvável que o dia de Portugal tenha, sobretudo, uma conotação cultural e
universalista, sem deixar de ser nacionalista q.b., não é menos singular que
esse dia, que é sobretudo uma festa civil, mas não laica, tenha também uma
correspondência religiosa. Com efeito, segundo o calendário
litúrgico em vigor no nosso país, o 10 de Junho é também o dia do Anjo da
guarda de Portugal. O nosso
país é um caso absolutamente singular, pois o seu dia nacional tem uma
componente religiosa própria. É muito provável que sejamos a única nação que,
no mundo inteiro, festeja o seu Anjo custódio.
A existência de espíritos puros é uma
verdade revelada que não pode ser racionalmente provada, ao contrário da
existência de Deus, que pode e deve ser conhecida pela razão. A realidade dessas criaturas espirituais
está amplamente documentada na Bíblia, que refere as suas duas modalidades: anjos e demónios. Ambos
partilham a mesma natureza espiritual, mas
enquanto os primeiros participam da visão beatífica e estão ao serviço de Deus,
a quem gostosamente adoram e servem, os segundos revoltaram-se contra o seu
Criador, tendo sido desde então precipitados no inferno. Nesta sua desgraçada condição, os espíritos
malignos têm possibilidade de tentar os homens e, até, de lutar contra a
Igreja, embora esta seja indefectível no seu todo, porque foi prometido a
Pedro, o primeiro Papa, que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela
(Mt 16, 18).
Se é pacífica, para os crentes, a
existência dos anjos e dos demónios, também
é certa, para os católicos, a realidade dos anjos ditos da guarda, que têm como
missão proteger cada ser humano desde a sua concepção e até, pelo menos, à sua
morte. Com efeito, referindo-se aos mais pequenos, Jesus disse que os
seus anjos contemplam constantemente a Deus (Mt 18, 10), o que leva a crer que
cada alma humana, uma vez criada e unida ao corpo gerado pelos seus
progenitores, goza desta protecção durante todo o tempo da sua vida terrena e
talvez também no purgatório se, para poder ser admitida no Céu, carecer dessa
ulterior expiação.
Menos comum é, contudo, a crença nos anjos da guarda nacionais,
embora o Apocalipse, o último livro do Novo Testamento, sugira que estes seres
espirituais, da mesma forma como protegem indivíduos, também assumem a defesa
de colectividades, nomeadamente das igrejas (Ap 2, 1 – 3, 21), entendidas não
apenas como construções materiais, mas, sobretudo, como comunidades de crentes.
Da mesma forma como um anjo pode
guardar uma igreja, pode também ser o celestial guardião de uma comunidade
nacional e, daí, a devoção ao chamado Anjo da Guarda de Portugal, antes
denominado Anjo Custódio do Reino, com várias representações na iconografia
religiosa nacional, nomeadamente no Museu Machado de Castro, a imagem atribuída
a Diogo Pires, o Moço, e no Mosteiro da Santa Cruz, ambas em Coimbra; a da
charola do Convento de Cristo, em Tomar; e a da Igreja da Misericórdia, em
Évora.
Pouco se sabe sobre a origem desta
devoção nacional, mas consta que
o dominicano espanhol São Vicente Ferrer (1350-1419), que pregou em Portugal,
ensinava que os anjos não só têm a missão de proteger os indivíduos, mas também
as comunidades, como os castelos e povoações. Em
1411, na cidade espanhola de Valência já se celebrava a festa do Anjo da guarda
da cidade. Atribui-se ao Frei António da Castanheira, que foi Prior de
Odivelas, a primeira referência ao “Anjo Custódio de Portugal”, ou do
Reino. D. Manuel I era devoto dos anjos da guarda, pelo que
no seu Livro de Horas consta uma iluminura do Anjo Custódio do
Reino e, conjuntamente com os prelados portugueses, pediu e obteve do Papa
Júlio II, em 1504, a institucionalização da festa litúrgica do Anjo de
Portugal, que o monarca lusitano fez que se celebrasse em todo o país com a
maior solenidade. Por
determinação do Papa Leão X, esta festa ocorria no terceiro domingo do mês de
Julho. Contudo, em princípios do século passado, a memória litúrgica do Anjo de
Portugal só se mantinha na sede bracarense, a arquidiocese primaz.
Um ano antes das aparições marianas
de Fátima, os videntes receberam, por três vezes, a visita de um anjo. Não constam as datas exactas destas
visões, talvez porque as mesmas não se destinavam a ser comemoradas, mas apenas
a preparar os pastorinhos para os encontros com Nossa Senhora. Sabe-se, no
entanto, que as três aparições angélicas tiveram lugar na primavera, verão e
outono de 1916, respectivamente. Estava então em curso a primeira
Guerra Mundial, em que participaram soldados portugueses e, por isso, na
segunda aparição, o mensageiro celestial pediu às crianças que
oferecessem “orações e sacrifícios”: “Atraí assim sobre a vossa pátria
a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal.”Nada consta quanto à
identidade do Anjo aparecido antes, nem do que, mais tarde, lhes dará a
comunhão, pelo que não é possível saber se se tratava do mesmo Anjo, nem que
este fosse o Anjo de Portugal.
A
projecção mundial das aparições de Fátima beneficiou a devoção ao Anjo de
Portugal, cuja festa litúrgica, por decreto de 1952, do Papa Pio XII, ocorre
todos os anos a 10 de Junho. Que o Santo Anjo da guarda de Portugal
nos proteja do inimigo infernal e nos defenda de todo o mal!
COMENTÁRIOS (de 11)
Lily Lx: Que assim seja! Belíssimo artigo. ummilhãoequinhentosmilfascistas nãofascistas: Artigo hilariante, mas pronto ficamos a saber que é sempre possível uns
tais anjos apanharem uma boleia do Camões. PQP.
José Bento: Esqueceu apenas o mosteiro de Alcobaça como
panteão real... um dos mais belos, no meu entender. Manuel Lisboa: Crónica bonita. E
concordo em absoluto que o Dia de Portugal celebre como figura principal o
indelével Luís Vaz de Camões, símbolo da Língua e Cultura Portuguesas. S N: Muito interessante e
instrutivo sobre temas (acho eu) pouco conhecidos Coronavirus corona: "A existência de espíritos puros é uma verdade revelada que não
pode ser racionalmente provada, ao contrário da existência de Deus, que pode e
deve ser conhecida pela razão" Uma frase inteligente e que, por essa razão, vai
criar urticária intelectual nalguns leitores. António Dias:
Quem eu sou até a
mim me repugna. Não fosse ter sido tocado, sabe-se lá porquê, palavra com
sentido alguma vez sairia da minha boca. A preguiça era o meu leme, o branco a
minha cor e o silêncio a minha música. Talvez por necessidade, o abandono a que
a seara estava dada, me foi dado um anjo que um dia ainda conhecerei. Que coisa
mais amorfa, terá dito na distribuição, apetências nenhumas, inteligente é
melhor não falar, só ele sabe a sinceridade de querer compreender e a ausência
total de entendimento que me revestia. Não há mundo sem anjos, e eles vêm aos
pares, sem polaridade não há corrente, pastaríamos todos. Pois o vida é feita
de derrotas e vitórias, as vitórias são derrotas e as derrotas são vitórias. E
no meio de tudo isto que valho eu realmente? Não fosse trabalho árduo (que eu
não pago, mas me é generosamente cedido), bem eu pastava. Para melhor, pois a
força não tem reverso, correria como louco atrás de coisas que têm como
natureza não alcançar coisa nenhuma. Naturalmente alienados assim somos,
agarrando um mote, sugerindo um mote, ninguém pode fugir dele, assim agarrados
os vemos defendendo motes com todas as suas forças, porque deles não têm a
mínima possibilidade de fugir. Não é maldade, é alienação. Se não se tem uns
trocos amealhados, qualquer coisinha onde o anjo possa negociar mais alto,
continuaremos eternos escravos.
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