O afecto (eu diria “falso”) dos responsáveis por uma revolução
libertadora de um regime que, por respeito pela História pátria, não pôs em
causa essa História - de efectiva perspicácia, energia e coragem em proezas de
um pioneirismo naturalmente admirável – (mas criticável por factores mais do
apetite dos que modernamente o condenaram in
limine, ou seja no momento da tal ditadura que era de bom tom
condenar, dentro dos novos preceitos apreendidos lá fora, nos países que os puseram
em voga, movidos naturalmente por um acréscimo de consciencialização nos
procedimentos humanos, pese embora, ainda hoje, a existência, em alguns deles,
da cadeira eléctrica para a complementação dessa limpeza dos bons costumes. Como
são poderosos, nós próprios não condenamos a cadeira, preferindo baixar humildemente
a cerviz a essas outras problemáticas mais do agrado condenatório dos mesmos,
problemáticas que os e nos responsabilizam, pese embora um “procédé” tão velho
como o mundo, haja o caso das divisões sociais de sempre.
Os três erros de Lídia Jorge
Lídia Jorge, ao tentar encontrar no
distante passado quem quer que se opunha à escravatura, acompanha a teoria de
que sempre houve consciência do pecado e o consequente remorso. Mas, de facto,
não houve
JOÃO PEDRO MARQUES Historiador e romancista
OBSERVADOR, 18 jun. 2025, 00:1837
Parece que há dias, no Brasil, na
abertura da Feira do Livro de São Paulo e durante uma palestra tripartida em
que participaram igualmente Fernando Rosas e o
cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, a escritora Lídia Jorge terá afirmado que “até Portugal quer voltar a ser
grande, inclusive (voltar) a esse passado colonial”. Eu
não conheço o contexto em que isto terá sido dito e não quero fazer
considerações sobre tal afirmação. Pergunto-me,
apenas, se as opiniões políticas e inclinações ideológicas da escritora não
estarão a deformar de novo a sua visão sobre os factos, como aconteceu no passado
10 de Junho.
É interessante verificar que, nesse dia e nos que se
lhe seguiram, muita gente de esquerda andou a derramar-se pelas redes sociais e
pelos jornais em hossanas a Lídia Jorge. Nessas
saudações e louvores sortidos essa gente de esquerda acentuou a justeza da sua
mensagem, a qualidade literária do seu discurso, a dimensão humana e simbólica
do que então disse, e desvalorizou os flagrantes e grosseiros erros históricos
que apontei no meu anterior artigo. E
desvalorizou-os por duas razões: em primeiro lugar porque, por norma, as pessoas
politicamente motivadas — e não apenas as de esquerda — desconsideram ou
desvalorizam erros e mentiras desde que eles sirvam um propósito que, a seus
olhos, seja politicamente útil e justo; em segundo lugar porque aqueles erros
têm, subjacentes, ideias com as quais a esquerda concorda e de que se sente
próxima.
Os erros
históricos que
Lídia Jorge cometeu podiam ter sido enganos menores, que acontecem a todos nós,
lapsos inócuos sem grande repercussão no cerne da mensagem transmitida e sem
carga política e ideológica. Por outras palavras, erros relativamente inocentes e neutros. Porém, não foi esse o caso. Cada um dos três grandes erros históricos de Lídia
Jorge fundamenta uma tese explícita ou
implícita, e é essencial para fundamentá-la. Todas as informações erradas que
transmitiu vêm ao encontro do que a escritora ou a esquerda pensam e desejam
transmitir. Não terá sido de forma consciente que Lídia Jorge faltou à verdade,
mas aqueles três erros dão muito jeito às pessoas de esquerda para fazer passar
três teorias todas elas erradas, mas politicamente electrizadas. Ora, mais do que assinalar e corrigir os erros
interessa combater a ideologia que lhes subjaz.
Vejamos, então, caso a caso.
1A tese optimista da imigração
A escritora
afirmou (erradamente) que, no século XVII, Portugal teria 10% de negros,
imigrantes forçados, e que toda essa gente se integrou num todo harmónico. Essa afirmação, remete, por portas travessas e de
forma implícita, para a actual questão da imigração e para as convicções que
Lídia Jorge tem a esse respeito. Sabemos que convicções são essas porque a
escritora as expôs num artigo que publicou no ano passado no
jornal El País. E aí censurou os portugueses por não serem
suficientemente generosos e acolhedores para os actuais imigrantes. Ao invés, os portugueses teriam até desenvolvido um
“pensamento defensivo” e de grande desconfiança relativamente a eles. Segundo Lídia Jorge o povo de emigrantes
de que fazemos parte “esqueceu o que sofreram os seus pais e avós. Perante um
sikh de turbante amarelo, pensa que se trata de um carteirista, e uma
portuguesa não entra num táxi conduzido por um jovem indiano, porque se
difundiram notícias sobre violações que nunca aconteceram.”
E, portanto, para quem tem
este tipo de visão sobre a actual onda de imigração e a atitude dos portugueses
face a ela, a imagem de gente estranha que, vinda de África, chegou a Portugal
e que teria supostamente constituído 10% da sua população sem que isso causasse
problemas é muito útil à tese da aceitação de braços abertos desta actual
imigração. Sucede,
porém, que não há paralelismo entre uma situação e a outra. Segundo
os dados conhecidos e as projecções
credíveis há, neste momento, 1,6 milhões de imigrantes
em Portugal. É um número
enorme para o total da nossa população e, mais importante, um número que
conheceu um crescimento brusco em escassos anos. Não foi isso que sucedeu com os escravos negros, que
nunca terão sido mais do que 4 ou 5% da população e que foram entrando no país
gota a gota, ao longo de décadas e séculos. Quando, em 1761, no tempo do marquês de Pombal,
chegaram em ritmo considerado demasiado acelerado e prejudicial por virem para
o país “ocupar os lugares dos moços de servir, que ficando sem cómodo, se
entregam à ociosidade e se precipitam nos vícios que dela são naturais
consequências”, a sua entrada foi pura e simplesmente proibida.
2A tese do pecado original
A segunda
afirmação errada de Lídia Jorge foi a de que terão sido os portugueses a inaugurar “o
tráfico negreiro intercontinental em larga escala”. Portugal foi, assim, uma vez mais, apresentado como o
pecador primordial, o maior infractor de todos, o país que iniciou uma prática
criminosa e que, depois, os outros povos ocidentais (ingleses, franceses,
holandeses, etc.) imitaram, imitação que talvez não tivesse acontecido se o
pecador inicial não tivesse aberto essa caixa de Pandora. Acentua-se, desse modo, a responsabilidade histórica dos portugueses. Sucede, porém, que a afirmação e a ideia subjacente
são completamente falsas pois a caixa de
Pandora estava escancarada há muito, muito tempo. Na minha anterior intervenção falei de um grande
tráfico intercontinental de escravos africanos levado a cabo a partir do século
VIII por mercadores de estados muçulmanos. Para se perceber a amplitude desse
tráfico refira-se que já nessa época existiam escravos africanos em locais tão
distantes como Java ou Cantão e como é óbvio não foi gente de Portugal, que
ainda nem existia como país, que os levou para os confins da Ásia. Mas se quisermos recuar ainda mais no tempo e ir até
ao Império Romano, então teremos de assinalar que o tráfico de escravos,
maioritariamente brancos, entre a Europa, a África e a Ásia foi, segundo os
cálculos mais minimalistas, de 100 milhões de pessoas. Como se compreende, então, que a esquerda e Lídia
Jorge, apaguem (ou se recusem a tomar conhecimento de) toda essa informação que
tem sido profusamente mostrada? Será
porque a vontade, consciente ou inconsciente, assumida ou subterrânea, é a de
acentuar a culpabilidade e a vergonha de Portugal e dos portugueses.
3A tese do remorso
O terceiro grande erro de Lídia Jorge foi ter afirmado
que “sempre houve quem repudiasse por completo a prática (da escravatura) e o
teorizasse”, e que homens como Gomes Eanes
de Zurara, por exemplo, eram contra
aquela “degradação”. Mas na
verdade não o eram, como mostrei no artigo anterior através de uma transcrição
do próprio Zurara. É verdade que o cronista se impressionava na sua
“humanal natureza” quando contemplava a angústia daqueles seres desterrados e
escravizados. E o mesmo sucedia, aliás, com António Vieira, no século XVII, e
com muitos, muitos outros. Mas não havia remorso nessas pessoas a maioria das
quais estava firmemente convencida que a salvação das
almas dos negros justificava o seu cativeiro. Houve
alguns, raros, europeus — por exemplo, Fernando de
Oliveira, um frade dominicano que viveu no século XVI — que contestaram aquela
modalidade específica do tráfico humano,
mas até ao século XVIII, e com excepção de Jean Bodin, no mundo ocidental toda
a gente aceitava a escravatura (no sentido de escravidão), desde que ela fosse
legítima, isto é, desde que resultasse do nascimento — os filhos de uma mulher
escrava herdavam a condição da mãe —; da venda de si próprio ou dos seus em
caso de extrema necessidade; da punição por crimes graves; e de uma guerra
justa.
A tentativa de Lídia Jorge e de muitas pessoas de esquerda de encontrarem
no distante passado, isto é, no passado anterior a 1750, muitas pessoas que se
opunham à escravatura visa difundir a teoria de que desde sempre houve
consciência de um enorme erro, de um gravíssimo pecado, e o consequente remorso. Mas, de facto, não houve, pela muito elementar razão
de que nos séculos XV, XVI, XVII e boa parte do XVIII, a escravatura não era
considerada um crime. Era uma prática triste e dolorosa, sim, mas
era tolerada. Difundir a ideia contrária é um anacronismo woke,
dos que tendem a olhar o passado segundo a bitola moral do presente e é, claro
está, uma grosseira falsificação da verdade histórica. Todavia, é evidentemente útil
a quem procura acentuar as razões para o arrependimento e, consequentemente, a
reparação.
Será também isso
que Lídia Jorge desejou transmitir aos seus concidadãos no passado dia 10 de
Junho?
HistóriA Cultura Escravatura
Sociedade
10 de junho
País
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