Do
Facebook da Paula.
Uma crónica de Alberto Carvalho, retrato em crescendo dramático que põe a nu a real miséria social, pontuando, afinal, a irrelevância da nossa dinâmica zelosa e castigadora dos debates televisivos, tantas vezes no puro esplendor palavroso do ataque pessoal ou da abstracção temática, que ignora os efectivos casos da realidade diária, mais acessíveis a sensibilidades de cordialidade autêntica, já perceptível nesses poetas de todas as “Calçadas de Carriche” da revolta social, provando que o neorrealismo veio para ficar, irrecusavelmente. Tranquilamente.
LIBERDADE FALSA
A Amadora e o País que não Cabe nos Debates
Televisivos
Era uma manhã como outra qualquer na Amadora.
Os prédios levantavam-se como caixas empilhadas à pressa, feridas de humidade e
grafite.
Uma rapariga de mochila aos ombros descia a correr a escadaria do bairro da
Cova da Moura para apanhar o autocarro das 7:12.
Queria chegar a tempo à faculdade, lá para os lados da Cidade Universitária, e
ainda precisava de trocar duas vezes de linha.
Não pedia muito: um curso, um trabalho decente, talvez um quarto que não lhe
levasse metade do ordenado mínimo.
Era filha de Angola e neta de Portugal - e, como tantos outros, vivia entre
duas pátrias e nenhuma casa.
Tinha nome, sonhos e dívidas.
Entretanto, numa sala climatizada da
capital, um deputado da Iniciativa Liberal citava Hayek e falava em
"meritocracia".
Defendia que o Estado não devia meter-se na vida das pessoas - deviam ser
livres.
Livres para escolher escolas privadas, médicos privados, e bancos privados.
Livres para trabalhar mais, pagar menos impostos e sair da frente.
Ninguém lhe perguntou se alguma vez esperou quase uma hora por um comboio na
Reboleira.
Ou se sabia o preço de um passe Navegante Jovem.
Ou se alguma vez fora confundido com
delinquente só por ser pobre.
Na Amadora, a liberdade era outra coisa.
Era ter luz até ao fim do mês.
Era não ter de faltar ao trabalho para levar a avó ao centro de saúde.
Era poder estudar sem fome.
Era conseguir dormir sem ouvir tiros ao fundo da rua.
Era, no fundo, tudo aquilo que os teóricos da liberdade abstracta preferem não
ver.
A Amadora é o coração precário de
um país periférico.
Habitada por quase 180 mil pessoas, é um dos concelhos com maior densidade
populacional da Europa.
E é, também, um espelho: concentra
pobreza, imigração, juventude e invisibilidade.
É Portugal visto do lado de fora.
Em 2023, mais de 15% da população
local vivia abaixo do limiar da pobreza, e um em cada quatro habitantes era
estrangeiro - a maior parte com profissões invisíveis e salários mínimos.
Aqui, a “liberdade” prometida pelos
liberais não chega em pacote algum.
Não há seguro de saúde privado que cubra o coração de um país abandonado.
Os liberais falam em empreendedorismo, mas esquecem que a grande maioria das
“empresas” abertas nestes bairros são micro-negócios de sobrevivência:
barbearias, quiosques, restauração informal.
Falam em “liberdade de escolha”, mas ignoram que a única escolha
real para muitos é entre pagar a renda ou a escola de condução.
Falam em “mobilidade social”, mas em
bairros como a Brandoa ou Alfragide Sul, a mobilidade que existe é a dos
transportes públicos que não passam a horas.
A liberdade
liberal é selectiva.
Exige dinheiro
para ser usufruída.
E quando não há dinheiro, não há escolha - apenas
resignação.
É a liberdade de deixar o Estado e cair,
sozinho, no mercado.
É o direito sagrado a não ter nada, a não pedir nada, a não incomodar.
Mas a Amadora
resiste.
Porque mesmo
ferida, sabe mais de dignidade do que muitos dos seus juízes.
Nos centros
comunitários, nos agrupamentos escolares, nas cozinhas de restauração, nos
campos de futebol, nos grupos de teatro, nos projectos de bairro - há Portugal.
Um Portugal que não cabe nos debates televisivos nem nas colunas de opinião do
Observador.
Um país feito de luta anónima, que
recusa ser apenas estatística.
E é por isso que
incomoda.
Porque revela a falência da promessa
liberal - a ideia de que basta desregular, privatizar, cortar impostos e deixar
o mercado funcionar.
Aqui, onde o mercado nunca quis entrar, essa teoria soa a insulto.
Não, senhores
liberais: não é por haver “demasiado Estado” que há pobreza na Amadora.
É por haver Estado a menos.
A menos na habitação pública.
A menos nos transportes, nas escolas, nos centros de saúde.
A menos no apoio à infância, no apoio à cultura, no urbanismo social.
A menos na justiça fiscal.
A menos na presença simbólica e política.
E no entanto, de cada vez que se propõe
reforçar esse Estado, os senhores gritam: liberdade!
A pergunta, então, não é “liberdade para quê?”, como diria Camus.
É: liberdade para quem?
A resposta ouve-se nos comboios da Linha de Sintra, nas filas do Centro de
Saúde da Damaia, nas salas de aula onde faltam professores.
E grita, todos os dias, nas ruas da Amadora.
AC
Comentários
Zélia Couto e Santos: Muito bem, Alberto
essa é a
realidade crua e dura das Amadoras deste País. Só se ouve " é preciso criar mais riqueza para
poder ser distribuída". Caramba! Criar
mais riqueza? Fartamo-nos de criar riqueza!…
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Gosto
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21
Zélia
Couto e Santos respondeu
Margarida Portugal Cunha: Muito bem.
Gosto
António Pimenta Lopes: Verdade! ...
João Silva: Excelente. Um
texto inteligente, sensível. Muito bom. Parabéns.
Gardão Silva: Este texto devia
ser divulgado na AR e nos OCS. Muitos de nós não fazemos ideia dos sacrifícios
que fazem os habitantes daqueles bairros. Eu vou divulgar no meu grupo de
amigos e espero que eles façam o mesmo
.…
Maria Da Graça Marrocano: Excelente texto,
vivo, trabalho, portanto conheço muito bem a Amadora e os bairros sociais; só
tenho uma correção a fazer, não é Alfragide Norte, mas sim Alfragide Sul, mais
concretamente o bairro do Zambujal. E o mais interessante, é que o PS voltou a ganhar
e no Chega. Os autarcas têm feito um bom trabalho, em especial a Carla Tavares.
Vários: Gosto.
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