domingo, 22 de junho de 2025

Realmente

 

Desde sempre, os de Israel mantêm uma aura de superioridade intelectual que os torna vítimas – embora imunes - de ódios e mesmo de perseguições. Felizmente, há sempre um “ALBERTO GONÇALVES”, sem receio de o apontar, com a respectiva seriedade ou decidida ironia…

“Je suis ayatollah”, dizem eles

Falta-nos informação e falta-nos sobretudo a neuropatologia congénita que leva indivíduos a preferir cultos da morte a uma sociedade democrática e livre – se tiver uma percentagem excessiva de judeus.

ALBERTO GONÇALVES COLUNISTA DO OBSERVADOR

OBSERVADOR, 21 jun. 2025, 00:2021

Viram? Não foi difícil transformar o Irão numa “causa”: bastou que se iniciasse o confronto directo com Israel. É óbvio que o aval do sr. Trump também ajuda, mas Israel sozinho chega e sobra para converter inúmeras cabecinhas à veneração dos seus inimigos. Logo que Israel esteja envolvido num conflito, o lado oposto adquire imediatamente múltiplas qualidades e indefectível razão.

De um dia para o outro, de acordo com o que especialistas afirmam nas televisões e no Instagram, o Irão tornou-se um lugar pacífico, que, consoante as versões, ou nunca sonhou enriquecer urânio ou apenas o faz com objectivos científicos e amigos do progresso (em ambas as hipóteses, o país observou sempre com cristalino rigor o direito e os acordos internacionais).

Além disso, uma semana foi o suficiente para a proliferação de propaganda isenta e que desmente categoricamente os mitos difundidos acerca da vida iraniana, incluindo a peregrina ideia de que lá as mulheres possuem um estatuto muito abaixo do das osgas no Alentejo. E não se ouve uma palavra sobre a matança de apóstatas e opositores políticos, duas sílabas alusivas ao financiamento do terrorismo, uma letrinha dedicada ao racismo, ao tráfico humano e à escravatura. Não tarda, seremos abençoados com a informação de que, para lá das virtudes referidas, Teerão é hospitaleiro para com homossexuais, em vez de os chicotear e enforcar (de preferência) de seguida. No fundo, aquilo é um espaço de liberdade e civilização, gerido por uma junta de moderados. Uma Suíça soalheira, enfim.

De resto, com frequência a propaganda é desnecessária: uma razoável parte dos que abominam Israel não sente necessidade de legitimar a sua escolha. Mesmo que o Irão fosse aquilo que, na nossa ignorância, julgávamos ser, uma espécie de consagração da selvajaria idêntica à dos respectivos “franchises” em Gaza, no Líbano e no Iémen, o importante é condenar Israel dê por onde der.

Uns ainda tentam arranjar justificações para relativizar as inúmeras e comprovadas ocasiões em que os tiranos, perdão, os líderes teocraticamente eleitos do Irão juraram exterminar o “tumor cancerígeno” [sic] do Médio Oriente (“Ai e tal, eles não disseram bem isso, e se disseram recorreram a figuras de retórica e à liberdade poética que é tão típica do Alcorão, e se não recorreram é porque ‘exterminar’ e ‘tumor cancerígeno’ têm um significado diferente na cultura persa…”).

Porém, uns tantos nem se perdem com minudências: às segundas, quartas e sextas, choram a desumana agressão perpetrada pelos israelitas, que na sua infinita iniquidade ousam bombardear instalações militares e, imagine-se, os estúdios da idónea televisão local. Às terças, quintas e sábados, são entusiástica e sinceramente a favor de que o Irão aniquile o “estado sionista”, e exibem com alegria vídeos reais ou falsificados da destruição provocada nas cidades israelitas, com as merecidas ruínas de prédios de apartamentos de hospitais autênticos. E congratulam-se com as baixas civis. E “demonstram” a superioridade bélica do Irão com bonecos requisitados à inteligência artificial. E garantem que Netanyahu, o “genocida”, já ultrapassou Hitler em crueldade. E escrevem IsraHELL, trocadilho ao alcance de iluminados. E reproduzem as velhas “teorias” que culpam os judeus pelas desgraças da Terra. Ao Domingo vão à bola.

Para efeitos de arrumação, gostava de poder afirmar que as alucinações acima provêm exclusivamente da esquerda. Não posso. Certa direita, ou um pedaço do que se convencionou chamar direita, participa com zelo no ódio irracional e ancestral a Israel. Não falo de embaraços notórios do calibre de Marcelo e Marques Mendes ou, depois de Badajoz, dos lúgubres senhores e senhoras da “Europa”. Falo de gente relativa ou completamente obscura, eleitores confessos da AD ou equivalente que se espumam com os sucessos da Mossad e experimentam orgasmos a cada míssil que atinge Telavive. A coisa vai a ponto de haver cristãos mais empenhados em abjurar Israel do que em afligir-se com a tragédia dos seus parceiros de fé na Nigéria, na Somália, no Paquistão, no Afeganistão, na Líbia e, entre barbáries diversas, no Irão. Que interessam os massacres e a discriminação de cristãos se não se consegue imputá-los a Israel? A título de exemplo do transtorno, na página do Facebook de um ex-deputado do CDS explica-se a um céptico a peculiar relação das autoridades israelitas com os cativos: “Em Israel todos os presos são violados! A sua falta de informação é indesculpável!”.

Pois é: falta-nos informação e falta-nos sobretudo a neuropatologia congénita que leva indivíduos a preferir cultos da morte a uma sociedade democrática e livre – logo que essa sociedade possua uma percentagem excessiva de judeus, esses biltres que ousam habitar um território que rouba 0,07% do espaço disponível às nações de maioria muçulmana (sem contar com o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Suécia, etc.).

A terminar, e em abono da verdade, não é exacto que os “anti-sionistas” defendam qualquer inimigo dos judeus: raramente defendem o Terceiro Reich, por exemplo, e no limite alguns até simpatizam com as vítimas do Holocausto. No fundo, os judeus só são maus quando não morrem. E detestáveis quando resistem.

ISRAEL     MÉDIO ORIENTE     MUNDO     IRÃO     SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 21):

Pedro Correia: Por cá, continuamos a estar, quase sempre, do lado dos que não respeitam as sociedades livres e democráticas. É normal a esquerda estar desse lado. Mas esta semana, com as declarações do Ti Celito e o seu imitador, o grande Marques Mendes, fiquei siderado. Não há mesmo limites para a estupidez e falta de noção. Levem-nos daqui para fora, por favor.                Ricardo Ribeiro: Aplauso sentido! Vivemos claramente num mundo ao contrário em muitos aspectos e este é um deles. É incrível o nível baixíssimo da qualidade dos governantes actuais (que reflectem a sociedade em que vivemos), inclusive e principalmente, no dito mundo ocidental e "democrático"...aproveita-se muito pouco, Meloni e Milei e pouco mais (dou o benefício da dúvida ao novo Chanceler Merz)...       Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns.                Albino Mendes: Por cá, a malta do bem e do amor, posiciona - se, invariavelmente, do lado errado. Porque será?                    Pedro Moura de Sá: Lucidez!!                  Rui Lima: A cartilha dos direitos muito falada na Europa serve acima de tudo para proteger quem não os pratica, ainda agora atacam Israel para protegerem o Hamas , espero que na reunião dos primeiros ministros tenham juízo e saiba estar do lado certo da barricada . Porque os direitos nunca são em benefício dos europeus que veem a sua vida alterada obrigados na Europa a viver como estivem se no 3.º mundo .                Vitor Batista: Excelente crónica ! Paulo Rangel deveria ler isto, é que ele sempre foi muito bem acolhido em Teerão, quando para lá se deslocava com o "amigo" das borgas. "Ironia".                 Helena Oliveira: Em cheio            José B Dias: Subscrevo!                 Rosa Graça: Excelente.

 

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