Desde sempre, os de Israel mantêm uma aura
de superioridade intelectual que os torna vítimas – embora imunes - de ódios e
mesmo de perseguições. Felizmente, há sempre um “ALBERTO GONÇALVES”, sem receio
de o apontar, com a respectiva seriedade ou decidida ironia…
“Je suis ayatollah”, dizem eles
Falta-nos informação e falta-nos
sobretudo a neuropatologia congénita que leva indivíduos a preferir cultos da
morte a uma sociedade democrática e livre – se tiver uma percentagem excessiva
de judeus.
ALBERTO GONÇALVES COLUNISTA DO OBSERVADOR
OBSERVADOR, 21 jun. 2025, 00:2021
Viram? Não foi
difícil transformar o Irão numa “causa”:
bastou que se iniciasse o confronto directo com Israel. É óbvio que o aval do sr. Trump também
ajuda, mas Israel sozinho chega e sobra para converter inúmeras cabecinhas à
veneração dos seus inimigos. Logo
que Israel esteja envolvido num conflito, o lado oposto adquire imediatamente
múltiplas qualidades e indefectível razão.
De um dia para o outro, de acordo
com o que especialistas afirmam nas televisões e no Instagram, o Irão
tornou-se um lugar pacífico, que, consoante as versões, ou nunca sonhou
enriquecer urânio ou apenas o faz com objectivos científicos e amigos do
progresso (em ambas as hipóteses, o país
observou sempre com cristalino rigor o direito e os acordos internacionais).
Além disso, uma semana
foi o suficiente para a proliferação de propaganda isenta e que desmente categoricamente os mitos difundidos
acerca da vida iraniana, incluindo a peregrina ideia de que lá as mulheres
possuem um estatuto muito abaixo do das osgas no Alentejo. E não se
ouve uma palavra sobre a matança de apóstatas e opositores políticos, duas
sílabas alusivas ao financiamento do terrorismo, uma letrinha dedicada ao
racismo, ao tráfico humano e à escravatura. Não tarda,
seremos abençoados com a informação de que, para lá das virtudes referidas,
Teerão é hospitaleiro para com homossexuais, em vez de os chicotear e enforcar
(de preferência) de seguida. No fundo, aquilo é um espaço de liberdade e civilização, gerido por
uma junta de moderados. Uma Suíça soalheira, enfim.
De resto, com frequência a propaganda
é desnecessária: uma razoável parte dos que abominam
Israel não sente necessidade de legitimar a sua escolha. Mesmo
que o Irão fosse aquilo que, na nossa ignorância, julgávamos ser, uma espécie
de consagração da selvajaria idêntica à dos respectivos “franchises” em Gaza,
no Líbano e no Iémen, o importante é condenar Israel dê por onde der.
Uns ainda tentam arranjar
justificações para relativizar as inúmeras e comprovadas ocasiões em que os
tiranos, perdão, os líderes teocraticamente eleitos do Irão juraram exterminar o “tumor cancerígeno”
[sic] do Médio Oriente (“Ai e
tal, eles não disseram bem isso, e se disseram recorreram a figuras de retórica
e à liberdade poética que é tão típica do Alcorão, e se não recorreram é porque
‘exterminar’ e ‘tumor cancerígeno’ têm um significado diferente na cultura
persa…”).
Porém, uns tantos nem se perdem com
minudências: às segundas, quartas e
sextas, choram a desumana agressão perpetrada pelos israelitas, que na sua
infinita iniquidade ousam bombardear instalações militares e, imagine-se, os
estúdios da idónea televisão local. Às
terças, quintas e sábados, são entusiástica e sinceramente a
favor de que o Irão aniquile o “estado sionista”, e exibem
com alegria vídeos reais ou falsificados da destruição provocada nas cidades
israelitas, com as merecidas ruínas de prédios de apartamentos de hospitais
autênticos. E congratulam-se com as baixas civis.
E “demonstram” a superioridade bélica do Irão com bonecos requisitados à
inteligência artificial. E garantem que Netanyahu, o “genocida”, já ultrapassou
Hitler em crueldade. E escrevem IsraHELL, trocadilho ao alcance de iluminados.
E reproduzem as velhas “teorias” que culpam os judeus pelas desgraças da Terra. Ao Domingo
vão à bola.
Para efeitos de arrumação, gostava de
poder afirmar que as alucinações acima provêm exclusivamente da esquerda. Não
posso. Certa direita, ou um pedaço do que se convencionou chamar direita,
participa com zelo no ódio irracional e ancestral a Israel. Não falo de embaraços notórios do calibre de Marcelo e
Marques Mendes
ou, depois de Badajoz, dos lúgubres senhores e senhoras da “Europa”. Falo de
gente relativa ou completamente obscura, eleitores confessos da AD ou
equivalente que se espumam com os sucessos da Mossad e experimentam orgasmos a
cada míssil que atinge Telavive. A
coisa vai a ponto de haver cristãos mais empenhados em abjurar Israel do que em
afligir-se com a tragédia dos seus parceiros de fé na Nigéria, na Somália, no
Paquistão, no Afeganistão, na Líbia e, entre barbáries diversas, no Irão. Que
interessam os massacres e a discriminação de cristãos se não se consegue
imputá-los a Israel? A
título de exemplo do transtorno, na página do Facebook de um ex-deputado do CDS
explica-se a um céptico a peculiar relação das autoridades israelitas com os
cativos: “Em Israel todos os presos são violados! A sua falta de
informação é indesculpável!”.
Pois é: falta-nos informação e falta-nos sobretudo a
neuropatologia congénita que leva indivíduos a preferir cultos da morte a uma
sociedade democrática e livre –
logo que essa sociedade possua uma percentagem excessiva de judeus, esses
biltres que ousam habitar um território que rouba 0,07% do espaço disponível às
nações de maioria muçulmana (sem contar com o Reino Unido, a França, a Alemanha, a
Suécia, etc.).
A terminar, e em abono da verdade, não é exacto que os “anti-sionistas”
defendam qualquer inimigo dos judeus: raramente
defendem o Terceiro Reich, por exemplo, e no limite alguns
até simpatizam com as vítimas do Holocausto. No
fundo, os judeus só são maus quando não morrem. E detestáveis quando resistem.
ISRAEL MÉDIO ORIENTE MUNDO IRÃO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 21):
Pedro Correia: Por cá, continuamos a estar,
quase sempre, do lado dos que não respeitam as sociedades livres e
democráticas. É normal a esquerda estar desse lado. Mas esta semana, com as
declarações do Ti Celito e o seu imitador, o grande Marques Mendes, fiquei
siderado. Não há mesmo limites para a estupidez e falta de noção. Levem-nos
daqui para fora, por favor. Ricardo
Ribeiro: Aplauso sentido! Vivemos claramente num mundo ao contrário em muitos aspectos e este é um
deles. É incrível o nível baixíssimo da qualidade dos governantes actuais (que
reflectem a sociedade em que vivemos), inclusive e principalmente, no dito
mundo ocidental e "democrático"...aproveita-se muito pouco, Meloni e
Milei e pouco mais (dou o benefício da dúvida ao novo Chanceler Merz)... Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns. Albino Mendes: Por cá, a malta do bem e do
amor, posiciona - se, invariavelmente, do lado errado. Porque será? Pedro Moura de Sá: Lucidez!! Rui Lima: A cartilha dos direitos muito
falada na Europa serve acima de tudo para proteger quem não os pratica, ainda
agora atacam Israel para protegerem o Hamas , espero que na reunião dos
primeiros ministros tenham juízo e saiba estar do lado certo da barricada .
Porque os direitos nunca são em benefício dos europeus que veem a sua vida
alterada obrigados na Europa a viver como estivem se no 3.º mundo . Vitor Batista: Excelente crónica ! Paulo Rangel deveria ler isto,
é que ele sempre foi muito bem acolhido em Teerão, quando para lá se deslocava
com o "amigo" das borgas. "Ironia". Helena Oliveira: Em cheio José B Dias: Subscrevo! Rosa Graça: Excelente.
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