terça-feira, 24 de junho de 2025

É pecha antiga


Venha ele donde vier. Quem nos dera ter também um bom acesso, mesmo a esse, que outro governante rejeitou em tempos idos, muito somítico e desfazedor de sonhos. Dos seus também, de certeza, mas sem servir de exemplo, que preferimos opções mais visíveis, como muito bem descreve o nosso João de Deus, conhecedor das nossas dependências e astúcias.

O Dinheiro

O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
                          Tlim!
                          Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
É só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:

                        Tlim!
                        Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
                       Tlim!
                       Ora...

Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
                       Tlim!
                       Pois não!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

De toda a maneira, é tão escandaloso o que o Comentador PAULO FERREIRA nos  conta a respeito da dívida ao estrangeiro que nos subsidia, que apetece enfiar-nos pelo chão abaixo, na inútil interrogação sobre o porquê de sermos assim, aproveitadores e subservientes, sem que nos surgisse no horizonte governativo um alguém de orientação mais séria, de trabalho e actuação honestos, palavra, ao que parece, esta última, em desuso fatal entre nós. Quando recordo o que fui aprendendo, desde os bancos da primeira escola, sobre uma pátria onde nos integrámos mal ou bem, mas com amor por ela – e nunca esquecerei o Hino Nacional cantado com lágrimas de pena e horror, em frente à Câmara Municipal de Lourenço Marques, logo após o 25 de Abril traiçoeiro e destruidor de tais conceitos de orgulho num lato país criado por homens valentes de um outrora para sempre perdido – sinto de facto, vergonha por esta redução a pedinchões sem escrúpulo em que nos tornámos. Definitivamente. E onde existem ainda nomes da nossa veneração, Jaime Nogueira Pinto, entre outros de seriedade ainda patente, que a escola preservará. Ou talvez não.

Retrato do subsídio-dependente da Europa

O espírito dos fundos de coesão é precisamente o de ajudar países ou regiões que partem mais atrás com o objectivo de, a prazo, deixarem de precisar de ajudas. Também estamos a falhar nesta matéria.

PAULO FERREIRA Comentador, colunista do Observador

OBSERVADOR, 23 jun. 2025, 00:2034

Em Junho de 2021 Ursula von der Leyen veio a Lisboa oficializar a aprovação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Da altura, ficou célebre uma pergunta que António Costa lhe fez, em jeito de piada: “Já posso ir ao banco?”.

O objectivo era ter graça. E teve. Mas era humor negro, porque sabemos que a frase é uma boa ilustração de uma certa forma de estar na governação e de gerir as fontes de receita do Estado.

Sabemos que o investimento público foi o elo mais fraco dos últimos dez anos, sacrificado à vontade — correcta — de apresentar contas equilibradas. Ano após ano, as verbas destinadas ao investimento eram congeladas à medida que a execução orçamental avançava. De tal forma que os governos de Costa investiram menos do que o último ano de Pedro Passos Coelho, ainda na ressaca da troika.

Também sabemos que, ao mínimo sobressalto, era pedida “solidariedade europeia”. Este é o eufemismo para pedir fundos a Bruxelas. Com a pandemia veio o PRR, que arrancou atrasado e com muita dificuldade em executar. Mas, mesmo perante as dificuldades iniciais e mostrando que temos mais olhos do que barriga, era o próprio António Costa que em Outubro de 2023 sugeria “um PRR permanente”.

Pois claro. Há lá melhor coisa para um governante do que andar pelo país a anunciar obras e a distribuir cheques que, no final, são pagos em larga maioria pelos contribuintes de outros países?

Sabemos tudo isto, mas, ainda assim, não deixam de surpreender os dados conhecidos esta semana.

O Tribunal de Contas Europeu fez a avaliação do pacote de fundos de coesão entre 2014 e 2020 – em Portugal recebeu o nome de Portugal 2020 – e concluiu que:

Nesse período, Portugal foi o país europeu onde o investimento público mais dependeu dos fundos europeus;

Essa dependência foi de 90%;

A média europeia é de 14%;

Espanha, que aderiu à então CEE no mesmo dia que Portugal e com quem gostamos de nos comparar, teve nos fundos europeus 25% do seu investimento público;

Os segundo e terceiro lugares deste ranking de dependência são ocupados pela Croácia e pela Lituânia, mas a larga distância. A Croácia, com 69%, aderiu à UE em 2013. E a Lituânia, com 60%, aderiu quase 20 anos depois de nós, em 2004.

A despesa do Estado não parou de aumentar nesse período, requerendo receitas fiscais cada vez maiores para a pagar. A prioridade foi a de atribuir o essencial da despesa do Estado aos gastos correntes, sacrificando o investimento. E este, sabemos agora, foi suportado quase exclusivamente por fundos comunitários.

Isto até poderia não ser grave se a qualidade dos serviços públicos tivesse reflectido de forma notória a prioridade dada à despesa corrente. Mas sabemos que não foi isso que aconteceu, antes pelo contrário.

Outra atenuante podia ser o retorno desse investimento pago com fundos europeus. É suposto que, a prazo, o investimento se reflita em melhores condições económicas e sociais, mais competitividade, melhores salários. Também sabemos que não é esse o nosso caso. Desde o início do século que o país estagnou no PIB per capita. Umas décimas para cima, outras para baixo, mas não saímos da cepa torta.

Aliás, o espírito dos fundos de coesão é precisamente esse: ajudar países ou regiões que partem mais atrás com o objectivo de, a prazo, deixarem de precisar de ajudas.

Sabemos também que não estamos a ser bem sucedidos nesta matéria quando países que aderiram muito depois de nós e numa posição muito mais recuada se mostram já menos dependentes das ajudas de Bruxelas do que nós.

Para maximizar o encaixe de ajudas até nos tornamos peritos no redesenho das regiões estatísticas. A antiga região de Lisboa e Vale do Tejo ultrapassou os limites de PIB per capita que dão acesso a fundos? Não há problema. Partimos esta região em três para isolar zonas mais pobres que assim mantêm o acesso a fundos.

Incapazes de fazer a coesão internamente, esperamos sempre que sejam os fundos de países terceiros a fazê-lo.

E assim vamos andando. Se isto não é o retrato de um país que se tornou subsídio-dependente, então é o quê?

FUNDOS COMUNITÁRIOS     UNIÃO EUROPEIA      EUROPA MUNDO     INVESTIMENTO PÚBLICO     PAÍS     SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 34)

Silva: O MONSTRO: A designação não é minha, é do Prof. Cavaco e foi o seu alerta antigo para a total dependência do Estado de cerca de 60% das famílias Portuguesas. Uma dependência que foi cavada e aumentada cinicamente por sucessivos governos PS de forma a capturar largas franjas de eleitores durante mais de duas décadas. Por causa deste Partido Estado, o país não se reforma e por causa de ser irreformável não cresce economicamente e por isso não paga salários que hoje permitam fazer face a um custo de vida, habitação incluída, tremendamente inflacionado pelo turismo e que só se irá agravar. Chegámos a uma encruzilhada que, ou acabamos com o monstro ou o monstro acaba com o que ainda resta do país. Isso vai implicar sanear todo o sector económico do Estado, extinguir serviços e empresas públicas, reformar antecipadamente e despedir na função pública. Que políticos estarão disponíveis para o fazer?                Afonso Soares: Portugal subsidio-dependente? Subsidio-dependente é uma parte da população portuguesa. Depende de subsídios para tudo: renda de casa, IRS jovem, compra de casa jovem, isenção de propinas, habitação dos universitários, rendimento mínimo, etc, etc. K dinheiro não estica. Ou gastamos em consumo ou investimento. Infelizmente optou-se pelo consumo para se manterem no governo. Na prática é a fábula da cigarra e a formiga.                     Francisco Bandeira: É um país governado há mais de duas décadas por socialistas, e na última por o mais medíocre (em todas as dimensões, com excepção da habilidade saloia) governante.                   Ricardo Ribeiro: Está à vista de todos que o subsídio é o ópio do povo português. Desde os nossos governantes, às suas políticas, ao modo de controlarem o eleitorado, as empresas sempre muito dependentes do Estado, até ao cidadão comum, trabalhador ou não, anda tudo viciado no subsidiozinho...isto só avançará quando se fizer o desmame ou o tratamento da dependência como nas drogas... até lá um subsídio para mim, um subsídio para ti, olá olá e a vida sorri!                    Manuel Magalhaes: Artigo certeiro e verdadeiro, os nossos governantes (com Costa à cabeça) apenas sabem viver à custa dos países e dos povos que trabalham e ao que parece não têm emenda nem vergonha!!!                    Paulo Machado: Peiesse, Peiesse                Joao Cadete: E ainda me admira que escreva isso e defenda em muitas ocasiões os socialistas que nos governaram nestes anos.                  Maria Emília Ranhada Santos: O ter aparecido na política o Chega, foi a sorte de Portugal, pois o desejo dos socialistas e sociais-democratas era entregar de vez o País aos lobbies da NOM, para ficarmos escravos deles! Então sim, a subsídio dependência seria total, como na China! Se não tivesse sido o entrave de Ventura, hoje estaríamos a rezar a Alá de rabo para o ar!                       João Barreira: Há quem não tenha vergonha, talvez até orgulho, em passar a vida da mão estendida. O socialismo acaba, quando acaba o dinheiro dos outros.                  Carlos Chaves: Caro Paulo Ferreira, ainda ontem aqui neste mesmo espaço a sua colega Helena Matos denunciou o OMO-Jornalismo, exactamente o que você aqui está a fazer! O sacripanta do Costa nunca admitiu que o que orçamentava de investimento público, não era a miséria que era executada! Mentia com quantos dentes tinha na boca, tal como você está a fazer agora quando diz que foi para equilibrar as contas públicas, como se isso nos tivesse sido dita na altura! País de jornalistas e políticos mentirosos! Contudo agradeço-lhe os números vergonhoso que nos traz aqui hoje, pena é não os ter denunciado na altura, alto e bom som!                      L Faria: Mas nesse período eram dadas salvas a excelência do governo Costa e Mário centeno. Quem dizia que os números estavam todos martelado será logo catalogado de fascista. Agora é tarde camaradas. Isto é o retrato do socialismo. Fazer figura com o dinheiro dos outros. A dama de ferro é que tinha razão.                Daniel José: socialismo, é isto                 Paulo Almeida: E quem anda há anos a dizer que o Estado anda sempre de mão estendida? Que os políticos usaram todos esses fundos não em prol do país? E de que não investiram nada no interior, pois fazem mal as aplicações, são apenas palavras? Chega. Não é preciso um relatório para vir dizer isso. Durante décadas PS e PSD usaram e cultivaram uma político de fundos, de dependência, mas os serviços não melhoraram. Foi um duplo falhanço. Esses partidos deviam ser responsabilizados, nem que seja nas urnas. A subsídio-dependência corrói o ser humano e a sociedade. Mas uma certa nata safa-se sempre financeiramente.                Antonio C.: Portugal é como um drogadito - habituou-se à dose regular e à sala de xuto e não há programa de reabilitação que o salve a não ser com desintoxicação forçada e radical.              Manuel Matos: Mais um artigo pérola que devia abrir todos os telejornais                 João Das Regras: Mas já todos sabíamos isso, só que a CS resolveu branquear a governação do Costa. E esquerda actual continua q pedir mais subsídios, mais manuais gratuitos para todos, mais saúde grátis até para aqueles que cá vêm só para se tratarem e depois voltam para os seus países, mais cirurgias ao sábado pagas a peso de ouro, ou seja, continuamos a ser o país do estado social avançado com tudo gratuito só que depois não há dinheiro pra pagar a festa, mesmo sugando a riqueza criada pelos impostos.         Por8175: PF mostra mais uma vez a sua forte convicção socialista: o que lhe interessa é o investimento público, ou seja, mais estado, mais desperdício, mais incompetência, mais descontrole, mais corrupção! Ou seja, mais socialismo.                 Joaquim Silva: E depois lá andam os europeus a viver carregados de impostos pois o dinheiro europeu provém dos impostos, políticos incompetentes e do mais rasca que proliferam na Europa, um exemplo é a reindustrialização, vamos pagar para industrializar e não incentivar a industrialização, isto para haver competitividade é só mais do mesmo, é gente que não foi eleita a desgovernar como por exemplo o português " Costa o destruidor", é esta gente que nos dá cabo desta Europa que poderia ser uma economia saudável mas só que não.              Pedro Afonso: Excelente! Mais uma vez certeiro! Infelizmente é o que somos, o que temos!              GateKeeper: Tugalândia : the paradise for the "subsidiocaína traffickers" and their acomodados. As simple as that.         Jorge Espinha: Quem mais conhecedor do que eu num livro que explora as razões do atraso Português, chama aos fundos de coesão o “novo ouro do Brasil”.                  Luís Martins: Apanhámos o jeito e agora para sair daqui? Estamos tramados. Talvez fosse melhor não termos subsídios...

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