domingo, 22 de junho de 2025

Descrença

 

E tristeza também – a da desesperança no país que ama - sobressaem neste texto naturalmente erudito de JAIME NOGUEIRA PINTO, que devia fazer conferências constantes sobre o tema – de uma nação de valores a perderem-se, graças ao zelo dos utópicos dilatadores do conceito do amor humano, apreendido no diz-se diz-se alheio…

O novo Ancien Regime

A resistência, que se exprime sobretudo nas urnas, é a revolta dos “bárbaros” que escolhem a nação, a família, a identidade e a liberdade contra o globalismo, o hedonismo e a tutela dos “iluminados".

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OSERVADOR, 21 jun. 2025, 00:1850

Estive, há dias, a falar sobre a origem dos conceitos de esquerda e direita e a sua evolução ao longo dos séculos para umas duas centenas de raparigas e rapazes do 11º e 12º ano que me fizeram perguntas articuladas e críticas. Haja esperança.

Comecei pela arrumação de lugares na Assembleia Nacional Constituinte francesa que está na origem da divisão. Dada a situação catastrófica das finanças francesas, depois da guerra dos Sete Anos e da guerra da Independência da América, o rei Luís XVI viu-se forçado a solicitar a reunião dos Estados Gerais para aprovar novos impostos. A França já era pioneira na inovação política: foi dos primeiros Estados a centralizar o poder real, com a vitória do matreiro Luís XI sobre o cavaleiro feudal Carlos, o Temerário, duque de Borgonha, uma vitória simbólica do triunfo da arte da política sobre os valores da cavalaria feudal.

E é a arte da política que vai dominar a atribulada história dos séculos seguintes: os Valois, apesar do sentido de razão de Estado de Catarina de Médicis, extinguiram-se sem sucessão; ou melhor, a sucessão veio pelo lado feminino de Margarida de Valois, que desposou Henrique de Bourbon, aquele que pôs fim às guerras religiosas, reconhecendo que “Paris valia bem uma missa”. E seria o seu neto, Luís XIV, o grande criador da monarquia absoluta na teoria e na prática. Mas os regimes precisam de pessoas que se identifiquem com o espírito das instituições, e o bondoso e o tranquilo Luís XVI não era, nem podia ser, “um bom rei absoluto”. E em 1789, teve de de convocar os Estados Gerais, que já não reuniam desde 1614o tempo de Luís XIII e de Richelieu.

Do nascimento ao baptismo

Foi nessa Assembleia Nacional Constituinte, no dia 11 de Setembro de 1789, já depois do 14 de Julho e da tomada da Bastilha que nasceram a Direita e a Esquerda. Ali, na discussão e votação da questão do veto real às decisões do Parlamento, os defensores do veto sentaram-se à direita do presidente da Assembleia, o “côté de la Reine”, e os críticos do veto do Rei, à esquerda.

É preciso lembrar que esta assembleia dos Estados Gerais representava “três Estados” – Clero, Nobreza e Povo. O Clero reunia umas 100 mil almas – bispos, párocos, religiosas e religiosos –, a nobreza umas 400 mil pessoas, e o povo, que era o resto, 23 milhões. A representação não era propriamente proporcional – o Clero tinha 291 delegados, a Nobreza, 271 e o “Terceiro Estado”, 578, perfazendo, só e mais nada, um total de 1139 representantes. O Clero e a Nobreza eram assim 1,5% dos franceses, mas juntos somavam 562 representantes para os 578 do Terceiro Estado.

A partir do fim de 1788 foi começando a haver alguma liberdade de imprensa e o Rei, no seu discurso inaugural, além de falar da dívida, falou também de “nação” e dos “representantes da nação”.

Ao longo dos séculos XIX e XX, direita e esquerda continuaram a dar pelo nome com que, a partir da geometria da Assembleia, tinham sido baptizadas, e foram assumindo e desenvolvendo os seus diferentes “carismas”: a direita mais a conservação, a esquerda mais a mudança. Houve, porém, características e valores que variaram: por exemplo “a nação”, que era, à partida, um valor de esquerda, um valor revolucionário, liberal, republicano e burguês, viria depois a ser um valor adoptado pela direita, que era reacionária (reagia à revolução), conservadora, monárquica e aristocrático-popular.

O século XIX e a questão social mudaram muito as coisas. Com os socialistas utópicosmas sobretudo com Marx e o socialismo científicoe, mais importante, com a violência das revoltas nacionais e sociais de 1848-1849 e de 1870-1871, surgiram terceiras forças. Como observaram Alexis de Tocqueville e os mais perspicazes intérpretes do tempo, incluindo os grandes romancistas, a burguesia da banca, da indústria e do comércio substituiu gradualmente a aristocracia fundiária ou misturou-se com ela e os movimentos operários radicais mantiveram-se fora do sistema.

Entrando na guerra social, o papa Leão XIII publicou em 1891 uma encíclica sobre “as coisas novas”, em que se buscava uma terceira via, entre classes, sistemas de produção e instituições político-sociais. E nesse final de século, também em França, começaram a surgir movimentos nacionais-populistas, justicialistas e identitários.

Um século depois do fim das guerras da Revolução e do Império, a Grande Guerra tinha trazido para milhões de jovens europeus um quotidiano de violência; jovens que, chegada a Paz, partiam para outras guerras com bandeiras mais radicais, sob o impulso da guerra social e na sequência da revolução bolchevique.

Foi aquilo a que Ernst Nolte chamoua guerra civil europeia”. Tal como outras guerras civis,a guerra civil europeia” acabou por permitir a hegemonia no Leste ou no Ocidente das forças que, a partir de 1945, dividiram a Europa em zonas de influência. Com a Europa de Leste submetida aos soviéticos, a esquerda ocidental tornava-se mais próxima dos bolcheviques de Leste, e a direita mais próxima dos americanos, com quem a Europa Ocidental faria o pacto do Atlântico. Depois de 1991 e do fim dessa Guerra Fria, a divisão passou a ser entre os que queriam as fronteiras, as identidades e a política a mandar na economia, contra os que queriam o governo-mundo, a Confederação Europeia, o mercado global, a atomização hedonista e o experimentalismo biológico e social dos “novos direitos humanos”.

Os recursos do regime

Os anti-globalistas têm vindo a ser pintados como os bárbaros antidemocráticos e antiliberais que, de dentro das muralhas, querem assaltar a cidade e a civilização dos iluminados. No entanto, o que temos pela frente em termos de “cidade” e “civilização” é um muito pouco admirável mundo, dominado por velhas elites que não souberam ou não quiseram perceber as consequências políticas e económicas do seu domínio prolongado e desvirtuado: uma desigualdade nunca vista desde os anos cinquenta, uma ordem regida pelos interesses cegos de uma plutocracia financeira errática que parece ter feito um pacto tácito com as vanguardas da nova esquerda, entregando-lhes o poder cultural num mundo ao contrário, a troco de neutralidade benevolente em relação ao seu domínio económico.

Ou seja, o grande capital globalista, à solta, parece convergir com o que resta das esquerdas utópicas radicais na guerra às nações, às religiões, às identidades e às fronteiras, enquanto fomenta a vinda de escravos baratos das periferias. O Centrão sobrevivente governa onde ainda pode, e na luta desesperada contra “a extrema-direita”, mobilizam-se os aparelhos culturais e informativos: a “academia”, os media e agora, como última ratio regum, também os tribunais (fizeram-no com sucesso na Roménia e em França).

Não parece estar a funcionar. Talvez só uma mudança radical do sistema criado nos últimos 35/40 anos possa parar o dito crescimento dos populismos e da “extrema-direita”, mudança a que os criadores, senhores e beneficiários da ordem estabelecida não querem ou não podem proceder. Por isso, ao que tudo indica, a revolta vai continuar, vai crescer e vai também tornar-se cada vez mais consciente e convicta, passando, inevitavelmente, do puro protesto às convicções e às alternativas.

Já não temos um veto do Rei para arrumar os representantes populares à direita ou à esquerda; apesar disso, por estarem banalizadas na linguagem corrente, direita e esquerda são referências intuitivas e substantivas que permanecem. Mas fica a consciência de que são dois lugares relativos que vão mudando, e que mudaram muito nestes dois últimos séculos. E mudaram também porque, quando muda a realidade e a geopolítica, muda a política.

No mundo multipolar de hoje, na nova ordem internacional, ou no presente interregno para uma nova ordem internacional e perante o declínio político e estratégico da Europacujas elites esvaziadas, deslumbradas ou desesperadas subscrevem e prescrevem as extravagâncias decadentistas das novas esquerdas –, assistimos à reacção de povos acordados pelas consequências económicas e sociais das políticas dos últimos anos.

A resistência, que se exprime agora sobretudo nas urnas, é a revolta dos “bárbaros” que escolhem a nação, a família, a identidade e a liberdade contra o globalismo, o hedonismo e a tutela dos “iluminados”, instalados no poder. Iluminados” que deixaram há muito de ser a revolução para serem agora “o sistema”, “o regime”, o novo Ancien regime.

A SEXTA COLUNA      HISTÓRIA      CULTURA     POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 50)

Mario Figueiredo > MCMCA A: Esperemos pois que o novo Império não seja o do Chega e o imperador André Nero Ventura.                 Mario Figueiredo > maria santos: Isso inclui o preto da Guiné, o mulatinho de Angola, o muçulmano de Moçambique e o indiano de Goa?        Ricardo Ribeiro > Ricardo Ribeiro: Eu até assinava uma petição, com todo o gosto, para que este Senhor fosse o representante dos "bárbaros" na eleição para PR nas próximas eleições presidenciais. Nós os "bárbaros"(suspeito que não somos tão poucos como isso) não nos sentimos representados em qualquer das candidaturas até agora apresentadas...             Ricardo Ribeiro: Texto factual, conhecedor, baseado em dados históricos e concretos e não em teorias da conspiração. Coisa rara nos dias de hoje...Eu por mim escrevo convictamente, sou um "bárbaro"…, revejo-me em todos os pontos dessa definição!                        José B Dias: Absolutamente de acordo!           Isabel Amorim: Que lição tão bem explicada como é habitual em Jaime Nogueira Pinto. Identifico-me não como bárbara mas como barbaríssima até a dormir...                   Jose Inacio Rodrigues: Sublime como é habitual.        Coxinho: Eu, bárbaro, me confesso. E já com muito escassa paciência para aturar palermices esquerdopáticas arvoradas em dogmas sagrados.                      maria santos: Brilhante, Jaime Nogueira Pinto, brilhante. Uma Nação, um Território, um Povo. Há 900 anos.         Tim do A: Sou um bárbaro com orgulho. Contra as elites opressoras. Aconselho a leitura do livro brilhante, de JNP, "Bárbaros e Iluminados".                            Ana Bosque: JNP baseando-se na história faz uma leitura da sociedade política de hoje por mais evidente. Em meu entender é reflectida no estatismo do poder dominante, a incapacidade de se adaptar à nova realidade económica mundial, a muralha de legislação a proteger os grupos económicos instalados, a destruição da sociedade atacando o núcleo familiar, manipulação da população mantendo-a iletrada (apesar de propagar o contrário), manipulação estatistica escondendo a realidade e para mim mais grave utilização da CS para condicionar a realidade e ditar as linhas de pensamento.                     Rui Lima: Mesmo que a direita radical chegue ao poder fica bloqueada pelo poder judicial - os tribunais nacionais ou europeus são na verdade os detentores do poder. Para escapar desta sociedade bloqueada, desta democracia confiscada, o referendo será a única solução, mas mesmo isso parece que não é possível em vários países por contrariar as normas constitucionais.                         Maria Nunes: Muito bom. JNP à PR.   João Diogo: Excelente crónica mais uma , com factos indesmentíveis.              Maria Emília Ranhada Santos: Claro como a água! É mesmo assim que somos considerados, "bárbaros"! Mas a culpa não é deles, é dos poderosos lobbies, que não sabendo mais como devem sobrepor-se à humanidade que eles acham que está a mais, querem tornar-se deuses, mas para isso têm de matar o único Deus verdadeiro que é Jesus Cristo! Conseguem comprar tudo! Pessoas, governantes, a maioria dos jornalistas, a quase totalidade dos comentadores, etc.! Até o País que não é deles, mas usando o poder das trevas, ficam mais fortes e convencem-se que conseguem tudo! Vejam em França, este fim de semana, diz-se por aí, que já começou a decorrer um grande festival de adoração a Satanás! O que pode esta entidade maligna fazer de bom? Nada certamente! É o mês do Coração de Jesus tal como Ele se mostrou e identificou em França, nesse mesmo país, a santa Margarida maria Alacoque! Está claro que a luta é das trevas contra Deus que é a Luz! Adoremos nós, "os bárbaros" o Deus verdadeiro, que já venceu o mundo segundo as Escrituras que não mentem! Afinal eles todos, não passam de anjos caídos, ressabiados, libertinos, desenfreados, assassinos, terroristas, corruptos, antipatriotas, que se opõem à vida, à verdade e ao bem!                  Nuno José: Excelente! Muito, muito clarividente. Obrigado.                   Luís Valentim: Brilhante, como sempre. Como disse um personagem no romance "Il Gattopardo", "é preciso que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma". Chegados a este ponto a questão é simples: ou o PSD reforma o país ou ou país reforma o PSD. Alguém acredita na vontade/capacidade reformadora do PSD? E o PS? Esse fica para os livros de história.                    Frederico Teixeira de Abreu: Excelente análise. Serão os "bárbaros" capazes de se organizar? Ou contemplamos uma queda do regime sem outro que o substitua, levando à anarquia?                    João Angolano: Ou seja, o grande capital globalista, à solta, parece convergir com o que resta das esquerdas utópicas radicais na guerra às nações, às religiões, às identidades e às fronteiras, enquanto fomenta a vinda de escravos baratos das periferias’.

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