E tristeza também – a da desesperança no país que ama - sobressaem
neste texto naturalmente erudito de JAIME NOGUEIRA PINTO, que devia fazer
conferências constantes sobre o tema – de uma nação de valores a perderem-se,
graças ao zelo dos utópicos dilatadores do conceito do amor humano, apreendido
no diz-se diz-se alheio…
O novo Ancien Regime
A resistência, que se exprime sobretudo nas urnas, é a revolta dos “bárbaros”
que escolhem a nação, a família, a identidade e a liberdade contra o globalismo, o hedonismo e a tutela
dos “iluminados".
JAIME NOGUEIRA
PINTO Colunista do Observador
OSERVADOR, 21 jun.
2025, 00:1850
Estive, há dias, a falar sobre a
origem dos conceitos de esquerda e direita e a sua evolução ao longo dos
séculos para umas duas centenas de raparigas e rapazes do 11º e 12º ano que me
fizeram perguntas articuladas e críticas. Haja esperança.
Comecei
pela arrumação de lugares na Assembleia Nacional Constituinte francesa que está
na origem da divisão. Dada a
situação catastrófica das finanças francesas, depois da guerra dos Sete Anos e da guerra da Independência da América, o rei
Luís XVI viu-se forçado a solicitar a reunião dos Estados Gerais para aprovar novos impostos. A França já era pioneira na inovação
política: foi dos primeiros Estados a centralizar o poder real, com a vitória
do matreiro Luís XI sobre o cavaleiro feudal Carlos, o Temerário, duque de
Borgonha, uma vitória simbólica do triunfo da arte da política sobre os valores
da cavalaria feudal.
E é a arte da política que vai dominar a atribulada história dos
séculos seguintes: os Valois, apesar
do sentido de razão de Estado de Catarina de Médicis, extinguiram-se sem sucessão; ou melhor,
a sucessão veio pelo lado feminino de Margarida de Valois, que
desposou Henrique de Bourbon, aquele
que pôs fim às guerras religiosas,
reconhecendo que “Paris valia bem
uma missa”. E seria o seu
neto, Luís XIV, o grande criador da monarquia absoluta na teoria e na prática. Mas os
regimes precisam de pessoas que se identifiquem com o espírito das
instituições, e o bondoso e o tranquilo Luís XVI não era, nem podia
ser, “um bom rei absoluto”. E em 1789,
teve de de convocar os Estados
Gerais, que
já não reuniam desde 1614 – o
tempo de Luís XIII e de Richelieu.
Do nascimento ao baptismo
Foi nessa Assembleia Nacional Constituinte, no dia 11 de Setembro de 1789, já depois do 14 de Julho e da tomada da
Bastilha que nasceram a Direita e a Esquerda. Ali, na
discussão e votação da questão do veto real às decisões do Parlamento, os
defensores do veto sentaram-se
à
direita do presidente da Assembleia,
o “côté de la Reine”, e os críticos do veto do Rei, à esquerda.
É preciso lembrar que esta assembleia dos Estados Gerais
representava “três Estados” – Clero, Nobreza e Povo. O
Clero
reunia umas 100 mil almas – bispos, párocos, religiosas e religiosos –, a
nobreza
umas 400 mil pessoas, e o povo, que era
o resto, 23 milhões. A representação não era propriamente proporcional – o
Clero tinha 291 delegados, a Nobreza, 271 e o “Terceiro Estado”, 578, perfazendo, só e mais nada, um total de 1139 representantes. O
Clero e a Nobreza eram assim 1,5% dos
franceses, mas juntos somavam 562 representantes para os 578
do Terceiro Estado.
A partir do fim de 1788 foi começando a
haver alguma liberdade de imprensa e o Rei, no seu discurso inaugural, além
de falar da dívida, falou também de “nação” e dos “representantes da nação”.
Ao longo dos séculos XIX e XX,
direita e esquerda continuaram a dar pelo nome com que, a partir da geometria
da Assembleia, tinham sido baptizadas, e foram assumindo e desenvolvendo os
seus diferentes “carismas”: a direita mais a conservação, a esquerda mais a
mudança. Houve, porém, características e valores que
variaram: por exemplo “a nação”, que era,
à partida, um valor de esquerda,
um valor revolucionário, liberal, republicano e burguês, viria depois a ser um valor adoptado pela direita, que era
reacionária (reagia à revolução), conservadora, monárquica e
aristocrático-popular.
O século XIX e a questão social
mudaram muito as coisas. Com os
socialistas utópicos – mas sobretudo com Marx e o socialismo científico – e,
mais importante, com a violência das revoltas nacionais e sociais de
1848-1849 e de 1870-1871, surgiram
terceiras forças. Como observaram Alexis de Tocqueville e os mais perspicazes intérpretes do tempo, incluindo os grandes romancistas, a burguesia da banca, da indústria e do
comércio substituiu gradualmente a aristocracia
fundiária ou misturou-se com ela e os movimentos operários radicais
mantiveram-se fora do sistema.
Entrando na guerra social, o papa Leão
XIII publicou em 1891 uma encíclica sobre “as coisas
novas”, em que se
buscava uma terceira via, entre classes, sistemas de produção e instituições
político-sociais. E nesse final de século, também em França, começaram a surgir
movimentos nacionais-populistas,
justicialistas e identitários.
Um século depois do fim das guerras da
Revolução e do Império, a Grande Guerra tinha trazido para milhões de
jovens europeus um quotidiano de violência; jovens que, chegada a Paz, partiam
para outras guerras com bandeiras mais radicais, sob o impulso da guerra social
e na sequência da revolução
bolchevique.
Foi aquilo a que Ernst Nolte
chamou “a guerra civil europeia”. Tal como outras guerras civis, “a guerra civil europeia” acabou por
permitir a hegemonia no Leste ou no Ocidente das forças que, a partir de 1945,
dividiram a Europa em zonas de influência. Com a Europa de Leste submetida aos
soviéticos, a esquerda ocidental tornava-se mais
próxima dos bolcheviques de Leste, e a direita
mais próxima dos americanos, com quem a Europa Ocidental faria o pacto do Atlântico. Depois de 1991 e do fim dessa Guerra Fria, a divisão
passou a ser entre os que queriam as fronteiras, as identidades e a política a
mandar na economia, contra os que queriam o governo-mundo, a Confederação
Europeia, o mercado global, a atomização hedonista e o experimentalismo
biológico e social dos “novos direitos humanos”.
Os
recursos do regime
Os anti-globalistas têm vindo a ser pintados como os bárbaros antidemocráticos e antiliberais que, de
dentro das muralhas, querem assaltar a cidade e a civilização dos iluminados. No
entanto, o que temos pela frente em termos de “cidade” e “civilização” é um
muito pouco admirável mundo, dominado por velhas elites que não souberam ou não
quiseram perceber as consequências políticas e económicas do seu domínio
prolongado e desvirtuado: uma desigualdade nunca vista desde os anos cinquenta,
uma ordem regida pelos interesses cegos de uma plutocracia financeira errática
que parece ter feito um pacto tácito com as vanguardas da nova esquerda,
entregando-lhes o poder cultural num mundo ao contrário, a troco de
neutralidade benevolente em relação ao seu domínio económico.
Ou seja, o grande capital globalista,
à solta, parece convergir com o que resta das esquerdas utópicas radicais na
guerra às nações, às religiões, às identidades e às fronteiras, enquanto
fomenta a vinda de escravos baratos das periferias. O Centrão sobrevivente governa onde ainda pode,
e na luta desesperada contra “a
extrema-direita”, mobilizam-se os aparelhos culturais e informativos: a “academia”,
os media e agora, como última ratio
regum, também os tribunais (fizeram-no com sucesso na Roménia
e em França).
Não parece estar a funcionar. Talvez
só uma mudança radical do sistema criado nos últimos 35/40 anos possa parar o
dito crescimento dos populismos e da “extrema-direita”, mudança a que os
criadores, senhores e beneficiários da ordem estabelecida não querem ou não
podem proceder. Por isso,
ao que tudo indica, a revolta vai continuar, vai crescer e vai também tornar-se
cada vez mais consciente e convicta, passando, inevitavelmente, do puro
protesto às convicções e às alternativas.
Já
não temos um veto do Rei para arrumar os representantes populares à
direita ou à esquerda; apesar
disso, por estarem banalizadas na linguagem corrente, direita e
esquerda são referências intuitivas e substantivas que permanecem. Mas fica a consciência de que são dois
lugares relativos que vão mudando, e que mudaram muito nestes dois últimos
séculos. E mudaram também porque, quando muda a realidade e a geopolítica, muda
a política.
No
mundo multipolar de hoje, na nova ordem internacional, ou no presente
interregno para uma nova ordem internacional e perante
o declínio político e estratégico da Europa – cujas
elites esvaziadas, deslumbradas ou desesperadas subscrevem e prescrevem as
extravagâncias decadentistas das novas esquerdas –, assistimos
à reacção de povos acordados pelas consequências económicas e sociais das
políticas dos últimos anos.
A resistência, que se
exprime agora sobretudo nas urnas, é a revolta dos “bárbaros” que escolhem a
nação, a família, a identidade e a liberdade contra o globalismo, o hedonismo e a tutela dos “iluminados”, instalados no
poder. “Iluminados”
que deixaram há muito de ser a revolução para serem agora “o sistema”, “o
regime”, o novo Ancien regime.
A SEXTA COLUNA HISTÓRIA CULTURA POLÍTICA
COMENTÁRIOS (de 50)
Mario Figueiredo > MCMCA
A: Esperemos
pois que o novo Império não seja o do Chega e o imperador André Nero Ventura. Mario Figueiredo > maria santos: Isso inclui o preto da Guiné, o mulatinho de Angola, o
muçulmano de Moçambique e o indiano de Goa?
Ricardo Ribeiro > Ricardo
Ribeiro: Eu
até assinava uma petição, com todo o gosto, para que este Senhor fosse o representante
dos "bárbaros" na eleição para PR nas próximas eleições
presidenciais. Nós os "bárbaros"(suspeito que não somos tão poucos
como isso) não nos sentimos representados em qualquer das candidaturas até
agora apresentadas... Ricardo
Ribeiro: Texto
factual, conhecedor, baseado em dados históricos e concretos e não em teorias
da conspiração. Coisa rara nos dias de hoje...Eu por mim escrevo
convictamente, sou um "bárbaro"…, revejo-me em todos os pontos dessa
definição! José B
Dias: Absolutamente
de acordo! Isabel Amorim: Que lição tão bem explicada como é habitual em Jaime
Nogueira Pinto. Identifico-me não como bárbara mas como barbaríssima até a
dormir... Jose
Inacio Rodrigues: Sublime
como é habitual. Coxinho: Eu, bárbaro, me confesso. E já com muito
escassa paciência para aturar palermices esquerdopáticas arvoradas em dogmas
sagrados. maria
santos: Brilhante, Jaime Nogueira Pinto, brilhante. Uma Nação,
um Território, um Povo. Há 900 anos. Tim do A: Sou um
bárbaro com orgulho. Contra as elites opressoras. Aconselho a leitura do livro
brilhante, de JNP, "Bárbaros
e Iluminados". Ana
Bosque: JNP baseando-se na história faz uma leitura da sociedade política
de hoje por mais evidente. Em meu entender é reflectida no estatismo do poder
dominante, a incapacidade de se adaptar à nova realidade económica mundial, a
muralha de legislação a proteger os grupos económicos instalados, a destruição da
sociedade atacando o núcleo familiar, manipulação da população mantendo-a
iletrada (apesar de propagar o contrário), manipulação estatistica escondendo a
realidade e para mim mais grave utilização da CS para condicionar a realidade e
ditar as linhas de pensamento.
Rui Lima: Mesmo
que a direita radical chegue ao poder fica bloqueada pelo poder judicial - os
tribunais nacionais ou europeus são na verdade os detentores do poder. Para
escapar desta sociedade bloqueada, desta democracia confiscada, o referendo
será a única solução, mas mesmo isso parece que não é possível em vários países por contrariar as
normas constitucionais.
Maria Nunes: Muito bom. JNP à PR. João Diogo: Excelente crónica mais uma , com factos indesmentíveis. Maria
Emília Ranhada Santos: Claro como a água! É mesmo
assim que somos considerados, "bárbaros"! Mas a culpa não é deles, é
dos poderosos lobbies, que não sabendo mais como devem sobrepor-se à humanidade
que eles acham que está a mais, querem tornar-se deuses, mas para isso têm de
matar o único Deus verdadeiro que é Jesus Cristo! Conseguem comprar tudo!
Pessoas, governantes, a maioria dos jornalistas, a quase totalidade dos
comentadores, etc.! Até o País que não é deles, mas usando o poder das trevas,
ficam mais fortes e convencem-se que conseguem tudo! Vejam em França, este fim
de semana, diz-se por aí, que já começou a decorrer um grande festival de
adoração a Satanás! O que pode esta entidade maligna fazer de bom? Nada certamente!
É o mês do Coração de Jesus tal como Ele se mostrou e identificou em França,
nesse mesmo país, a santa Margarida maria Alacoque! Está claro que a luta é das
trevas contra Deus que é a Luz! Adoremos nós, "os bárbaros" o Deus
verdadeiro, que já venceu o mundo segundo as Escrituras que não mentem! Afinal
eles todos, não passam de anjos caídos, ressabiados, libertinos, desenfreados, assassinos, terroristas, corruptos,
antipatriotas, que se opõem à vida, à verdade e ao bem! Nuno José: Excelente! Muito, muito clarividente.
Obrigado. Luís
Valentim: Brilhante,
como sempre. Como disse um personagem no romance "Il Gattopardo",
"é preciso que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma".
Chegados a este ponto a questão é simples: ou o PSD reforma o país ou ou país
reforma o PSD. Alguém acredita na vontade/capacidade reformadora do PSD? E o
PS? Esse fica para os livros de história. Frederico
Teixeira de Abreu: Excelente
análise. Serão os "bárbaros" capazes de se organizar? Ou contemplamos
uma queda do regime sem outro que o substitua, levando à anarquia? João
Angolano: Ou
seja, o grande capital globalista, à solta, parece convergir com o que resta
das esquerdas utópicas radicais na guerra às nações, às religiões, às
identidades e às fronteiras, enquanto fomenta a vinda de escravos baratos das
periferias’.
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