“O coração tem razões que a própria razão desconhece”,
e tal duplicação ergueu-nos o moral, por vezes céptico a respeito da tal razão
atribuída ao pensamento humano, descobrindo outras argumentações justificativas
da aparente sem-razão de que a razão se compraz, confiadamente orgulhosa de si,
tantas vezes contra a incredulidade alheia, em todo o caso, fixada exclusivamente
na pura animalidade humana. É, pelo menos, o conceito expresso no texto infra, em
que a razão humana parece ofuscada pela animalidade, que àquela se sobrepõe,
provocando, naturalmente, a zanga daquele que escreveu, na expectativa de
juízos de valor mais consentâneos com a humanidade a que se julga pertencente, e
para mais com a possibilidade de alargamento da leitura, dada a expansão ledora
trazida pela Internet. Daí a ironia, traduzida a racionalidade em pura animalidade
humana, ainda quando esta possa beneficiar do acto de leitura.
Vê-se,
assim, que o Pastor Baptista TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO, que subscreve o
texto, usa o sarcasmo do seu desapontamento de escritor fracamente lido, para
retratar com trocadilho truculento a escassez de leitores que os seus escritos
merecem: não esperes que os leitores
sejam pessoas; contenta-te se as pessoas forem leitores, e acrescido
ainda do designativo de animalidade – naturalmente provocador de alheia animosidade
comentadora.
Para
amenizar, contudo, a indignação dos que se sentiram ofendidos com os argumentos
“ferozes” do Sr. Prior, acrescentarei (no final da página) o conhecido excerto de
um sermão do Padre António Vieira, como “estátua física”, impecavelmente
traçada, do tal ser humano por vezes avesso a leituras, embora.
Leitores que são animais
Não é um mau conselho a dar em 2025 a quem goste de escrever e ser
lido: não esperes que os leitores sejam pessoas; contenta-te se as pessoas
forem leitores.
TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor Baptista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 15 jun. 2025, 00:158
Quem escreve gosta de ser lido.
Quem escreve gosta de, ao ser lido, ser lido por pessoas. E quando falo em
pessoas, falo em leitores que reagem com humanidade ao que lêem. Quando
quem lê reage com animalidade em vez de humanidade, quem escreve não fica
geralmente feliz. Quem escreveu gosta de ser lido com humanidade, não
com animalidade.
A internet aumentou o número
de leitores além do papel. A internet tornou possível até para quem não
esperava escrever para muita gente que isso conseguisse. O fenómeno não acontece, claro está, sem
que uma maior animalidade se possa manifestar também. Logo, quem gosta de ser lido concretiza
através da internet um aumento dos seus leitores, mas sempre com uma
superior latente possibilidade de animalidade neles.
É o que é, que é como quem diz
em português o célebre “it is what it is”. Sem
internet pessoas como eu não seriam tão lidas, mas a animalidade com que somos lidos vem junto. Quem
não quer essa animalidade pode sempre deixar de escrever.
No fundo, trata-se de quem escreve desejar que os seus leitores sejam
pessoas. Trata-se de quem escreve desejar que os seus leitores resistam a uma
forma de animalidade que interfere com o prazer de escrever. Não é só que quem
escreve goste de ser lido; quem escreve gosta de que os seus leitores sejam
pessoas mesmo.
A literatura portuguesa conhece a
figura do escritor que se sente tão abandonado pelos leitores que passa a
escrever para seres alternativos. No “Sermão de Santo António aos peixes” do Padre António Vieira existe
esse elemento de persistir a mensagem quando os receptores desistem dela.
Ou seja, é como se a teima do escritor
fosse maior do que a teima de quem o lê mal. A ironia é que, se comecei este texto lamentando a
animalidade dos leitores, no caso do sermão de Santo António celebra-se o
encontro dos animais como substitutos das pessoas. A animalidade de que me
queixo é o que alivia o Santo António.
Não é estranha a experiência de frustração para quem, gostando de
escrever e de ser lido, já provou a animalidade dos seus leitores. Talvez se vá
desistindo dessa expectativa elementar de que os leitores sejam pessoas.
Passa-se a escrever também para que eventualmente os animais as substituam, ao
estilo do Padre António Vieira. Escreve-se, ponto final. Leia quem ler.
Eu próprio, escrevendo e
pregando, vou também desistindo de contar com o ovo na galinha. Afinal, os leitores podem não ser tão
pessoas assim e mais facilmente mostrar animalidade do que humanidade. Tenho
vindo a achar mais realista e preferível esperar que, se as pessoas forem
leitores, já não é mau.
Não é um mau conselho a dar em
2025 a quem goste de escrever e ser lido: não esperes que os leitores sejam
pessoas; contenta-te se as pessoas forem leitores.
PESSOAS SOCIEDADE LEITURA LIVROS LITERATURA CULTURA CRÓNICA OBSERVADOR
COMENTÁRIOS (de 8):
RUÇO CASCAIS: Apesar de a Igreja ter alguma dificuldade em
admitir, a verdade é que somos todos
animais. Pertencemos à família dos primatas, dos grandes primatas. Um cão
reconhece-nos como grandes macacos apoiados nos membros de trás, os chamados
bípedes. Dizem que nos diferenciamos por sermos racionais, dizem, mas quem o
diz somos nós, na mentalidade de um cão somos macacos barulhentos que nos
diferenciamos de outros animais pelo odor. Um cão pode nos achar simpáticos e
amistosos mas nunca racionais... e um cão pensa, garanto-vos. É instinto dizem,
chamem o que quiserem, o meu é inteligente.
Aqui chegados podemos dizer que somos todos animais, os que lêem e os que
escrevem. Imaginemos um gorila a chamar gorila a outro gorila, nunca poderia
ser considerado ofensivo porque
eram ambos gorilas. O mesmo se passa quando um animal chama animal a outro da mesma
espécie, não faz sentido. Deixemos a biologia e vamos à consciência. Há
quem a identifica como uma nova palavra para a alma; consciência. É a consciência
que escreve, é a consciência que lê, é a consciência que comenta. A
parte animal não escreve nem lê, só é responsável por manter o organismo a
funcionar, na verdade só come e kaga. Entremos então no capítulo
religioso. Há consciências que são animais a ler e a escrever. São as almas más que vão para
o Inferno. As consciências que escrevem e
lêem com consciência e respeito vão direitinhas para o Céu. A verdade é que não é bem assim, porque, o julgamento
das consciências dos outros não depende de nós. Portanto, mesmo que eu
identifique uma consciência como má, Deus pode ter
uma opinião diferente. Conclusão: somos todos animais
conscientes e o julgamento que fazemos dos outros pode estar errado. A possibilidade de Deus nos diferenciar
uns dos outros pelo odor é muito grande, já que Ele dispensa a biologia no
Reino dos Céus. Além disso o Reino dos Céus é muito maior que a Terra e
consequentemente a força da gravidade esmagar-nos-ia contra a superfície do
Reino. Se formos apenas consciências, até o Sol podia ser a nossa moradia
celestial. Komorebi
Hi: Que
artigo animalesco Sr Pastor!
TEXTO (da Internet):
(…)“…Arranca
o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe e, depois
que devastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um
homem; primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda:
ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o
nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoç o.
estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os
vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama e fica um homem perfeito,
talvez um santo, que se pode pôr no altar…”
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