Com poesia no olhar. E doçura no
sentimento. Apareceu no meu Google. É de FERNANDO GUERRA.
Na televisão, mostram-se imagens de
guerra. E ameaças de continuidade.
Como um murro que atordoa e faz erguer
tristes questões sobre a Vida, sobre o Mundo. Sobre os Mundos…
A natureza apaziguando, por vezes,
alheia. A Vida elástica, para felicidade de todos.
Há 30 anos que passo férias no mesmo local.
A minha filha veio, no primeiro ano,
dentro da barriga da sua mãe.
Conheço o pó alaranjado destas falésias
e os pinheiros mansos empoleirados,
os meandros das estradas
entre alfarrobeiras e laranjais.
As conchas que nos cortam os pés
escaldados pela areia grossa
são outras mas iguais às dos outros anos.
Aqui a minha filha cresceu todos os verões
e eu envelheci com ela ao meu colo
até já não caber
até já não querer.
Lembro-me da tarde em que desapareceu com a irmã
e foram descobertas no topo da falésia, ela com 5, a
irmã com 10,
e eu dei-lhes um castigo de irem para casa
que me custou mais a mim que a elas.
30 anos de mar muito salgado
de águas mansas e por vezes mornas
onde saciávamos o calor debaixo dos toldos azuis.
Há 30 anos eu achava que a vida era longa
e que o meu amor de pai era renovado
em cada viagem da cidade para as alfarrobas.
Acho que amo esta areia que a viu crescer,
fazer-se mulher e, como as gaivotas,
levantar voo quando me aproximo.
30 anos para não esquecer
para me lembrar de cada fim de tarde,
de cada manhã que acordámos juntos,
naquele festejar a vida com cheiro de pão fresco e
café,
um misto de perfume de relva molhada
e seiva de pinheiros e de figos bravos.
30 anos de felicidade em cada anoitecer
que nos faz sonhar com mais 30
mesmo sabendo da (im)possibilidade
de isto acontecer.
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