domingo, 15 de junho de 2025

Cala-te boca

 

Est modus in rebus, in medio stat virtus, conta peso e medida, moderação nos ditos e nos feitos, transparência mas nem tanto, amigos amigos negócios à parte, tristezas não pagam dívidas, ou a democracia é uma batata… andamos todos p’r´àqui… desiludidos, é o que é, cada um que se amanhe… não vamos a lado nenhum… mas há sempre quem vá, felizmente para esse, amores e rancores, é o que se leva desta vida, AG que nos desculpe, dele gostamos mesmo… Porque hoje é domingo, Deus nos acuda. Cancelamentos é o que mais há.

Morrissey cancelado

O mundo mudou a ponto de Morrissey ser hoje o exacto oposto do que é tolerável nesse mundo, em que mentecaptos e infiltrados nos pedem para não guardar rancor de assassinos.

ALBERTO GONÇALVES, Colunista do OBSERVADOR

OBSERVADOR, 14 jun. 2025, 00:2072

Escrevo em Madrid, onde um corrupto radical se debate para não sair da Moncloa e onde cheguei na quinta-feira para assistir a um espectáculo do (desculpem a familiaridade) Morrissey. Nos espectáculos recentes, Morrissey costuma falar do que sucedeu num espectáculo realizado na sua Manchester natal, a 22 de Maio de 2017. Nessa data, após a actuação de uma cançonetista chamada Ariana Grande, um mancuniano filho de pais sírios, Salman Abedi, explodiu uma traquitana que matou 22 pessoas e feriu mais de mil. O sr. Abedi, que estudou na universidade e era um rapaz “normal” para alguns, tinha um longo e vistoso historial de “radicalismo”, que as autoridades conheciam e desprezaram. Dias depois do atentado, realizou-se uma vigília pelas vítimas numa praça local. Uma das participantes principiou a cantar “Don’t Look Back in Anger”, dos Oasis. Aos poucos, a multidão seguiu a deixa. O vídeo do momento espalhou-se pela internet e, com a ajuda dos “media” tradicionais, a musiquinha tornou-se um símbolo do que se designou por, cito, “a recusa em ceder ao medo ou à divisão”. “Don’t Look Back in Anger” significa “não guardes rancor”.

Em 2020, Morrissey gravou em Los Angeles o disco “Bonfire of Teenagers”, cujo tema-título, sobre o referido crime, inclui a seguinte estrofe: “A fogueira de adolescentes/Que brilha tão alta no céu do noroeste de Maio/Oh, devias tê-la visto/Partir para a arena/Apenas para ser vaporizada. E o refrão: “E os tontos cantam/‘Não guardes rancor’/E os idiotas balançam e dizem/‘Não guardes rancor’/Posso garantir-vos/Que guardarei rancor/Até o dia da minha morte”. O disco foi anunciado em 2021. Em 2025, ainda não existe e não se sabe quando, e se, existirá. Aliás, Morrissey não edita um álbum desde 2020, época em que a associação ao movimento For Britain, as críticas à gestão da Covid e os sucessivos louvores a Israel agravaram a sua aura de proscrito. Uma canção, por acaso arrepiante, acerca do horror perpetrado a pretexto do Islão, além de comentários avulsos e de orientação similar, consagrou o “cancelamento”. Do que se vê nos concertos que distribui pelos dois hemisférios e estão no YouTube, Morrissey tem público. O que Morrissey não tem é editora que arrisque a conotação com ele, e um jornalismo que não se limite a tratá-lo de “racista” para baixo.

Não vou desenvolver aqui o que Morrissey, então nos The Smiths, representou para a cabecinha de um certo garoto de 14 anos. Na idade em que comecei a perceber que as canções podiam dizer coisas, a iniciação dera-se com Leonard Cohen, Jacques Brel, Bob Dylan, Lou Reed e os inícios de David Byrne nos Talking Heads, tudo gente de gerações anteriores que cantava para adultos. Em 1983, Morrissey era legal e ligeiramente adulto mas dirigia-se a fedelhos, fedelhos com acne que liam nas letras dele uma espécie de diário premonitório e colectivo, um roteiro das angústias da primeira juventude, uma cartilha enfim. No meio do ridículo “pop” alternativo britânico, era estranho descobrir quem dissesse frases com sentido, graça e acidez. Morrissey dizia-as abundantemente nas canções e nas entrevistas, o que cedo lhe valeu a preguiçosa etiqueta de “polémico”. Morrissey é “polémico” há décadas, mas só recentemente a virtude lhe saiu cara.

Fora do infantilizado universo da imprensa musical londrina, que há muito marginaliza a dissidência, só para aí em 2017 ou 2018 é que as opiniões públicas de Morrissey, outrora um maná para os “media” famintos de “controvérsia”, o afastaram de vez do convívio e do apreço das criaturas “de bem”. Morrissey não mudou, o mundo sim. O mundo mudou a ponto de Morrissey ser hoje o exacto oposto do que é tolerável nesse mundo, um mundo em que mentecaptos e infiltrados nos pedem para não guardar rancor de assassinos. O mundo mudou tanto que já não é apenas alguém como Morrissey que é polémico: agora, polémicos somos todos ou quase todos. O Reino Unido é apenas um exemplo, embora particularmente brutal, dessa mudança.

Dúvidas? Não tenham dúvidas: tenham medo. O Prevent, criado em 2003, é um programa governamental que procura intervir precocemente para lidar com os “factores ideológicos e pessoais” que podem levar alguém ao terrorismo. Talvez porque não esteja a ser eficaz na prevenção do terrorismo propriamente dito, talvez porque nem haja grande interesse em prevenir o terrorismo propriamente dito, o governo de lá decidiu alargar a definição ao terrorismo imaginário. Doravante, o Prevent passou a achar que as preocupações com a imigração constituem uma “potencial ideologia terrorista”. Ou seja, se um sujeito não aprecia as consequências das fronteiras escancaradas, o sujeito é um terrorista em formação. Se um sujeito receia a desagregação do famoso “tecido social”, o sujeito é um terrorista encartado. Se um sujeito  se aflige com o terrorismo, o sujeito é tratado abaixo de bombista, e sem sequer direito a cantilenas de “harmonia” e “perdão”.

Na verdade, o UK, que em nome da “harmonia” permite que redes de violadores estrangeiros fiquem largamente impunes, já prendia anualmente dois ou três mil desgraçados por delito de opinião (ou, cito, “discurso de ódio”), com centenas de julgamentos e condenações. A partir do momento em que o poder político equipara dois terços da população a puros homicidas, não tarda haverá uma dramática sobrelotação das cadeias. E uma declaração de guerra ao próprio povo por parte da democracia fundadora do parlamentarismo ocidental. Não admira o estado do Ocidente.

Entretanto, Morrissey imitou os que o cancelam e cancelou-se a si mesmo: não houve concerto em Madrid. Por se calar, e nunca por falar, devia ser preso.

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COMENTÁRIOS (de 72)

Novo Assinante: Como é que alguém pode ser um "corrupto radical" se nem investigado foi? Será que o Observador pode fornecer umas aulinhas de direito, economia, etc aos seus colunistas? É só para dar alguma credibilidade àquilo que eles escrevem e para o qual são pagos, também com as nossas assinaturas.                 Antonio Serrano: Esperam ventos difíceis aos que ficarem; eu estou de partida e vou temendo pelos meus Netos! Bela e aterradora Crónica!                   João Floriano: O politicamente correcto tem sido pior que o E 605 Forte para «matar» a Europa, com os resultados que todos nós conhecemos. Adivinha-se o endurecimento na imposição do discurso politicamente correcto, porque a direita avança no Ocidente cansado, exausto da esquerda caviar e de cancelamentos. Em Portugal já se percebe o que se avizinha: todos os que não concordarem com a extrema-esquerda virtuosa vão ser rotulados de fascistas e nazis. A esquerda comporta-se como um réptil venenoso e peçonhento que na hora da morte concentra toda a sua luta na produção de mais veneno. Acabará por ser uma das vítimas dessa overdose de peçonha. Outra frente de combate dos apoiantes do politicamente correcto foi agora aberta com o ataque de Israel ao Irão. Lá teremos novamente os discursos de pacifismo contra Israel, se bem que não sei como se poderá defender um regime que condena os seus cidadãos à pena de morte, espanca mulheres por causa de um lenço e não teria o mínimo problema de consciência de lançar a sua primeira bomba atómica sobre Israel. Mas não vamos desistir porque a esquerda tem sido muito criativa a dar a volta para defender regimes autoritários que matam homossexuais e acham a violação de mulheres um acto aceitável.              Eduardo Cunha: excelente crónica. Parabéns. E já agora, de quem tinha também 14 anos quando os começou a ouvir, The Smiths forever... 

Carlos Chaves: Querem obrigar-nos a viver num Mundo ao contrário! Resistiremos e nunca nos calaremos! Obrigado Alberto, um agradecimento de um “bombista” quase encartado! P.S. Já prenderam o Sánchez?                Antonio Araujo > Novo Assinante: Com as NOSSAS assinaturas. A sua não serve para nada.                    Paulo Maio: Excelente! Como (quase) sempre. Carlos F. Marques: Excelente. Fez-me lembrar os "bons velhos tempos do Bairro Alto (80's)". Boa música e ambiente frequentável. Acredito que o "atraso mental e civilizacional" que nos querem impor, tem os dias contados, porque a paciência, mesmo a dos mais pacatos, tem limites. Os "inquisidores" que se cuidem!                 Jose Almeida: Pena que tenha cancelado - o Spotify também cancelou o Bonfire of Teenagers mas no youtube há umas gravações live - vale a pena ouvir... e ler os comentários que lá há... enquanto não o cancelam lá também                Isabel Amorim: É absolutamente arrepiante verificarmos que o que aconteceu na Alemanha há pouco mais de 100 anos (105) com o Nacional Socialismo nos está a acontecer agora com o socialismo adaptado e "renovado" tendo somente perdido a sigla contraproducente de Nacional. Estão precisamente a actuar da mesmíssima maneira com as ferramentas e atitudes adaptadas aos ares da nossa época. Os cancelamentos, as acusações e prisões já começaram. A propaganda agressiva e intimidadora está presente em todo o lado, a lembrar a toda a hora que estão atentos ao que se diz e ao que se faz sob pena de darem cabo da vida a quem tem que pagar a casa ao banco no fim do mês. Mas também há 100 anos nasceu uma resistência à corrupção que aí viria e que depois das muitas atrocidades que praticaram vingou e pôs finalmente a descoberto toda a verdade da mentira que sobreviveu à força durante décadas. A História repete-se com retoques de photoshop. Aqui ao lado, na vizinha Espanha tão perto e tão longe como convém e graças à complacência corrupta da comunicação social e seus criados fieis que continuam a trabalhar para que a figura do moderno tirano espanhol do séc XXI na figura de Sanchez continue no poder para que a equipa destacada da qual ele é o gestor dê cabo de vez da nação. Não venham depois dizer que não sabiam que foram enganados porque também sabemos como é que isto vai acabar. Vai implodir e vai haver responsáveis e consequências e seja feita justiça. E isto só se aguenta porque está preso por fios, artificialmente. Aguentemos firmemente porque vai valer a pena.                  Manuel Magalhaes: Bom exemplo do que é a actual idiotia ocidental, estão a cavar a nossa própria desgraça, e chamam a isso “elites inteligentes”… querem maiores idiotas!!!                Cupid Stunt: Como já foi dito... "there is a light that never goes out" e por alguns ventos que ultimamente têm soprado arrisco mesmo em dizer que "the times, they are changing"...                     paulo mariano: Antonio Sebastiano Francesco Gramsci. É o ideólogo que abriu o caminho à doideira.               José Paulo Castro: Cancelado ? There is a light that never goes out...                Isabel Amorim > Carlos Chaves: O Sanchez se não conseguir escapar para a Republica Dominicana aonde lá comprou casa para se refugiar com os milhões que amealhou nas sucessivas golpadas, penduram-no na Praça de Espanha, e bem!                    Maria Paula Silva: o mundo gerido por psicopatas - diz a esquerda (onde se inclui tudo: políticos, partidos, CS): se pensas igual a mim és democrático, se não, és homofóbico, racista, fascista, e outras coisas acabadas em ista, como alpista. o polvo é gigante e a agenda muito perigosa.                  Rui Almeida: Mas esta malta, pelo menos cá em Portugal, não levou o corretivo no passado dia 18 maio? Eu quero que se f... o politicamente correto e os ayatolas e os seus proxys. Porrada para cima deles, e porrada cá para cima de quem já não representa os Portugueses e que se julgam superiormente moralistas.         Coxinho > Isabel Amorim: Comentário "perigosamente" lúcido !! Vivemos um tempo em que se tornou perigoso pensar e expressar o pensamento. A não ser que aquilo que pensamos coincida com aquilo que "eles" pensam. Porque aquilo que "eles" pensam é que está correcto e merece ser aceite e divulgado. Eles, os iluminados, por contraposição a nós, a massa amorfa e estúpida que tem de ser tocada como se tocava antigamente a parelha de bois. Tocada e corrigida, ou até suprimida, porque a todo o momento é passível de cometer erros.                  João Bilé Serra: Crónica muito fiel à realidade e assustadora de um dos dois últimos de mente sã neste manicómio q é o mundo. Ps: o outro, obviamente, sou eu                     Lily Lx: Grande Morrisseyz                      Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!                 Fernando Marques: É triste ver que o país que era o exemplo de liberdade cultural e criativa se tornou numa ditadura de costumes. Já agora AG fique a saber que só renovei a minha assinatura neste jornal por sua causa (e da HM) e é até os cancelarem, o que espero nunca acontecer.               José B Dias: Os alertas vão sendo dados ... pena que tantos continuem a assumir que ainda vivem em Democracia e Liberdade. Mas é sempre tudo para o nosso bem e o "inimigo" é sempre o "outro" e está sempre "lá fora"!               Mario Figueiredo: Não percebo. O Morrisey esgota concertos onde quer que os faça e o concerto foi cancelado por causa de problemas de saúde. Entretanto inúmeras editoras independentes pegariam no seu trabalho com imenso agrado. É só ele querer. Vamos retirar agora qualquer valor à palavra cancelamento também?                         vitor gonçalves > Manuel Magalhaes: Ver Douglas Murray, " O Suicídio da Europa".                    Carlos Chaves > Isabel Amorim: Espero que não tenha essa sorte... a de fugir! E já agora, está um “brother” socialista em Bruxelas a quem havia de acontecer o mesmo, pelos enormes danos causados a esta Nação quase milenar! Também temos uma praça de Espanha em Lisboa! Ou muito me engano ou ambos os comentários não duram aqui muito, por incitação à violência”!                 Renato Pedro Milheiro Ribeiro: Permito-me sublinhar o excerto "Salman Abedi, explodiu uma traquitana que matou 22 pessoas e feriu mais de mil. (…) Dias depois do atentado, realizou-se uma vigília pelas vítimas numa praça local. Uma das participantes principiou a cantar “Don’t Look Back in Anger”, dos Oasis. Aos poucos, a multidão seguiu a deixa.” Como é que o que vemos tão impressivamente à nossa frente é tão rapidamente transmutado numa outra coisa que apaga o que se viu? Este mecanismo tem sido muito vulgar... na comunicação política, por exemplo           observador censurado: Excelente artigo. Em Portugal, às 2h56 de 14.06.2025, existiam, indubitavelmente, 65 270 "terroristas em formação": https://peticaopublica.com/?pi=PT125676.

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