Est modus in rebus, in
medio stat virtus, conta peso e medida, moderação nos ditos e nos feitos,
transparência mas nem tanto, amigos amigos negócios à parte, tristezas não
pagam dívidas, ou a democracia é uma batata… andamos todos p’r´àqui… desiludidos,
é o que é, cada um que se amanhe… não vamos a lado nenhum… mas há sempre quem
vá, felizmente para esse, amores e rancores, é o que se leva desta vida, AG que
nos desculpe, dele gostamos mesmo… Porque hoje é domingo, Deus nos acuda.
Cancelamentos é o que mais há.
Morrissey cancelado
O mundo mudou a ponto de Morrissey ser hoje o exacto oposto do que é
tolerável nesse mundo, em que mentecaptos e infiltrados nos pedem para não
guardar rancor de assassinos.
ALBERTO GONÇALVES, Colunista do OBSERVADOR
OBSERVADOR, 14 jun. 2025, 00:2072
Escrevo em Madrid, onde um corrupto radical se debate para não sair
da Moncloa e onde cheguei na quinta-feira para assistir a um espectáculo do
(desculpem a familiaridade) Morrissey. Nos espectáculos recentes, Morrissey costuma falar do que sucedeu
num espectáculo realizado na sua Manchester natal, a 22 de Maio de 2017.
Nessa data, após a actuação de uma cançonetista chamada Ariana Grande, um
mancuniano filho de pais sírios, Salman
Abedi, explodiu uma traquitana que matou 22 pessoas e feriu mais de mil. O
sr. Abedi, que estudou na universidade e era um rapaz “normal” para alguns, tinha um longo e vistoso historial de
“radicalismo”, que as autoridades conheciam e desprezaram. Dias depois
do atentado, realizou-se uma vigília pelas vítimas numa praça local. Uma das
participantes principiou a cantar “Don’t Look Back in Anger”, dos Oasis. Aos
poucos, a multidão seguiu a deixa. O vídeo do momento espalhou-se pela internet
e, com a ajuda dos “media” tradicionais, a musiquinha tornou-se um símbolo
do que se designou por, cito, “a recusa em ceder ao medo ou à divisão”. “Don’t Look
Back in Anger” significa “não guardes rancor”.
Em 2020, Morrissey gravou em Los Angeles o disco “Bonfire of
Teenagers”, cujo tema-título, sobre o referido crime, inclui a seguinte
estrofe: “A fogueira de
adolescentes/Que brilha tão alta no céu do noroeste de Maio/Oh, devias tê-la
visto/Partir para a arena/Apenas para ser vaporizada”. E o refrão: “E os tontos cantam/‘Não guardes rancor’/E
os idiotas balançam e dizem/‘Não guardes rancor’/Posso garantir-vos/Que
guardarei rancor/Até o dia da minha morte”. O disco foi anunciado em
2021. Em 2025, ainda não existe e não se sabe quando, e se, existirá.
Aliás, Morrissey não edita um álbum desde 2020, época em que a associação ao
movimento For Britain, as críticas à gestão da Covid e os sucessivos louvores a Israel agravaram a sua aura
de proscrito. Uma
canção, por acaso arrepiante, acerca do horror perpetrado a pretexto do Islão,
além de comentários avulsos e de orientação similar, consagrou o
“cancelamento”. Do que se vê nos concertos que distribui pelos
dois hemisférios e estão no YouTube, Morrissey tem público. O que
Morrissey não tem é editora que arrisque a conotação com ele, e um jornalismo
que não se limite a tratá-lo de “racista” para baixo.
Não vou desenvolver aqui o que Morrissey, então nos The Smiths,
representou para a cabecinha de um
certo garoto de 14 anos. Na idade
em que comecei a perceber que as canções podiam dizer coisas, a iniciação
dera-se com Leonard Cohen, Jacques Brel, Bob Dylan, Lou Reed e os inícios de
David Byrne nos Talking Heads, tudo gente de gerações anteriores que cantava
para adultos. Em 1983, Morrissey era legal e ligeiramente adulto
mas dirigia-se a fedelhos, fedelhos com acne que liam nas letras dele uma espécie de diário premonitório e colectivo, um
roteiro das angústias da primeira juventude, uma cartilha enfim. No meio
do ridículo “pop” alternativo britânico, era estranho descobrir quem
dissesse frases com sentido, graça e acidez. Morrissey dizia-as
abundantemente nas canções e nas entrevistas, o que cedo lhe valeu a preguiçosa etiqueta de “polémico”. Morrissey
é “polémico” há décadas, mas só recentemente a virtude lhe saiu cara.
Fora do infantilizado universo da
imprensa musical londrina, que há muito marginaliza a dissidência,
só para aí em 2017 ou 2018 é que as opiniões públicas de Morrissey, outrora um maná para os “media” famintos de
“controvérsia”, o afastaram de vez do convívio e do apreço das criaturas “de
bem”. Morrissey não mudou, o mundo sim. O mundo mudou a ponto de Morrissey ser hoje o exacto
oposto do que é tolerável nesse mundo, um mundo em que mentecaptos e
infiltrados nos pedem para não guardar rancor de assassinos. O mundo mudou
tanto que já não é apenas alguém como Morrissey que é polémico: agora,
polémicos somos todos ou quase todos. O Reino Unido é apenas um exemplo, embora
particularmente brutal, dessa mudança.
Dúvidas? Não tenham dúvidas: tenham
medo. O Prevent, criado
em 2003, é um programa governamental que procura intervir
precocemente para lidar com os “factores ideológicos e pessoais” que podem
levar alguém ao terrorismo. Talvez porque não esteja a ser eficaz na prevenção do
terrorismo propriamente dito, talvez
porque nem haja grande interesse em prevenir o terrorismo propriamente dito,
o governo de lá decidiu alargar a definição ao terrorismo
imaginário. Doravante,
o Prevent passou a achar que as
preocupações com a imigração constituem uma “potencial ideologia terrorista”.
Ou seja, se um sujeito não aprecia as
consequências das fronteiras escancaradas, o sujeito é um terrorista em
formação. Se um sujeito receia a desagregação do famoso “tecido
social”, o sujeito é um terrorista encartado. Se um sujeito se aflige com o terrorismo, o
sujeito é tratado abaixo de bombista, e sem sequer direito a cantilenas de
“harmonia” e “perdão”.
Na verdade, o UK, que em nome
da “harmonia” permite que redes de violadores estrangeiros fiquem largamente
impunes, já prendia anualmente dois ou três mil desgraçados por delito de
opinião (ou, cito, “discurso de ódio”), com centenas de julgamentos e condenações. A partir
do momento em que o poder político equipara dois terços da população a puros
homicidas, não tarda haverá uma dramática sobrelotação das cadeias. E uma
declaração de guerra ao próprio povo por parte da democracia fundadora do
parlamentarismo ocidental. Não admira o estado do Ocidente.
Entretanto, Morrissey imitou os que o cancelam e cancelou-se a si
mesmo: não houve concerto em Madrid. Por
se calar, e nunca por falar, devia ser preso.
TERRORISMO MUNDO CULTURA CENSURA SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 72)
Novo Assinante: Como é que alguém pode
ser um "corrupto radical" se nem
investigado foi? Será que o Observador pode fornecer umas aulinhas de direito,
economia, etc aos seus colunistas? É só para dar alguma credibilidade àquilo
que eles escrevem e para o qual são pagos, também com as nossas assinaturas. Antonio Serrano: Esperam ventos difíceis aos
que ficarem; eu estou de partida e vou temendo pelos meus Netos! Bela e
aterradora Crónica! João
Floriano: O politicamente
correcto tem sido pior que o E 605 Forte para
«matar» a Europa, com os resultados que todos nós conhecemos. Adivinha-se o
endurecimento na imposição do discurso politicamente correcto, porque a direita
avança no Ocidente cansado, exausto da esquerda caviar e de cancelamentos. Em
Portugal já se percebe o que se avizinha: todos os que não concordarem com a
extrema-esquerda virtuosa vão ser rotulados de fascistas e nazis. A esquerda
comporta-se como um réptil venenoso e peçonhento que na hora da morte concentra
toda a sua luta na produção de mais veneno. Acabará por ser uma das vítimas
dessa overdose de peçonha. Outra frente de combate dos apoiantes do
politicamente correcto foi agora aberta com o ataque de Israel ao Irão. Lá
teremos novamente os discursos de pacifismo contra Israel, se bem que não sei
como se poderá defender um regime que condena os seus cidadãos à pena de morte,
espanca mulheres por causa de um lenço e não teria o mínimo problema de
consciência de lançar a sua primeira bomba atómica sobre Israel. Mas não vamos
desistir porque a esquerda tem sido muito criativa a dar a volta para defender
regimes autoritários que matam homossexuais e acham a violação de mulheres um
acto aceitável. Eduardo
Cunha: excelente crónica. Parabéns. E já agora, de quem tinha também 14 anos
quando os começou a ouvir, The Smiths forever...
Carlos Chaves: Querem obrigar-nos a viver num
Mundo ao contrário! Resistiremos e nunca nos calaremos! Obrigado Alberto, um agradecimento de um “bombista”
quase encartado! P.S. Já prenderam o Sánchez? Antonio Araujo > Novo
Assinante: Com as NOSSAS assinaturas. A sua não serve para nada. Paulo Maio: Excelente! Como (quase)
sempre. Carlos F. Marques: Excelente. Fez-me lembrar os
"bons velhos tempos do Bairro Alto (80's)". Boa música e ambiente
frequentável. Acredito que o "atraso mental e civilizacional" que nos querem
impor, tem os dias contados, porque a paciência, mesmo a dos mais pacatos, tem
limites. Os "inquisidores" que se cuidem! Jose Almeida: Pena que tenha cancelado - o
Spotify também cancelou o Bonfire of Teenagers mas no youtube há umas gravações
live - vale a pena ouvir... e ler os comentários que lá há... enquanto não o
cancelam lá também Isabel
Amorim: É absolutamente arrepiante verificarmos que o que aconteceu na Alemanha há
pouco mais de 100 anos (105) com o Nacional Socialismo nos está a acontecer
agora com o socialismo adaptado e "renovado" tendo somente perdido a
sigla contraproducente de Nacional. Estão precisamente a actuar da mesmíssima
maneira com as ferramentas e atitudes adaptadas aos ares da nossa época. Os
cancelamentos, as acusações e prisões já começaram. A propaganda agressiva e
intimidadora está presente em todo o lado, a lembrar a toda a hora que estão
atentos ao que se diz e ao que se faz sob pena de darem cabo da vida a quem tem
que pagar a casa ao banco no fim do mês. Mas também há 100 anos nasceu uma
resistência à corrupção que aí viria e que depois das muitas atrocidades que
praticaram vingou e pôs finalmente a descoberto toda a verdade da mentira que
sobreviveu à força durante décadas. A História repete-se com retoques de
photoshop. Aqui ao lado, na vizinha Espanha tão perto e tão longe como convém e
graças à complacência corrupta da comunicação social e seus criados fieis que
continuam a trabalhar para que a figura do moderno tirano espanhol do séc XXI
na figura de Sanchez continue no poder para que a equipa destacada da qual ele
é o gestor dê cabo de vez da nação. Não venham depois dizer que não sabiam que
foram enganados porque também sabemos como é que isto vai acabar. Vai implodir
e vai haver responsáveis e consequências e seja feita justiça. E isto só se
aguenta porque está preso por fios, artificialmente. Aguentemos firmemente
porque vai valer a pena.
Manuel Magalhaes: Bom exemplo do que é a actual idiotia ocidental, estão
a cavar a nossa própria desgraça, e chamam a isso “elites inteligentes”… querem
maiores idiotas!!! Cupid
Stunt: Como já foi dito... "there is a light that never goes out" e por
alguns ventos que ultimamente têm soprado arrisco mesmo em dizer que "the
times, they are changing"... paulo mariano: Antonio Sebastiano Francesco
Gramsci. É o ideólogo que abriu o caminho à doideira. José Paulo Castro: Cancelado ? There is a light that never
goes out... Isabel
Amorim > Carlos
Chaves: O Sanchez se não conseguir escapar para a Republica Dominicana aonde lá
comprou casa para se refugiar com os milhões que amealhou nas sucessivas
golpadas, penduram-no na Praça de Espanha, e bem! Maria
Paula Silva: o mundo gerido por psicopatas - diz a esquerda (onde se inclui tudo: políticos,
partidos, CS): se pensas igual a mim és democrático, se não, és homofóbico, racista,
fascista, e outras coisas acabadas em ista, como alpista. o polvo é gigante e a
agenda muito perigosa. Rui
Almeida: Mas esta malta, pelo menos cá em Portugal, não levou o corretivo no passado
dia 18 maio? Eu quero que se f... o politicamente correto e os ayatolas e os
seus proxys. Porrada para cima deles, e porrada cá para cima de quem já não
representa os Portugueses e que se julgam superiormente moralistas. Coxinho
>
Isabel Amorim: Comentário "perigosamente" lúcido !! Vivemos um tempo em que se
tornou perigoso pensar e expressar o pensamento. A não ser que aquilo que
pensamos coincida com aquilo que "eles" pensam. Porque aquilo que
"eles" pensam é que está correcto e merece ser aceite e divulgado. Eles, os iluminados, por
contraposição a nós, a massa amorfa e estúpida que tem de ser tocada como se
tocava antigamente a parelha de bois. Tocada e corrigida, ou até suprimida,
porque a todo o momento é passível de cometer erros. João Bilé Serra: Crónica muito fiel à realidade
e assustadora de um dos dois últimos de mente sã neste manicómio q é o mundo.
Ps: o outro, obviamente, sou eu Lily Lx: Grande Morrisseyz Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre! Fernando Marques: É triste ver que o país que
era o exemplo de liberdade cultural e criativa se tornou numa ditadura de
costumes. Já agora AG fique a saber que só renovei a minha assinatura neste jornal
por sua causa (e da HM) e é até os cancelarem, o que espero nunca acontecer. José B Dias: Os alertas vão sendo dados ...
pena que tantos continuem a assumir que ainda vivem em Democracia e Liberdade.
Mas é sempre tudo para o nosso bem e o "inimigo" é sempre o
"outro" e está sempre "lá fora"! Mario Figueiredo: Não percebo. O Morrisey esgota
concertos onde quer que os faça e o concerto foi cancelado por causa de
problemas de saúde. Entretanto inúmeras editoras independentes pegariam no seu
trabalho com imenso agrado. É só ele querer. Vamos retirar agora qualquer valor à palavra cancelamento também? vitor gonçalves >
Manuel
Magalhaes: Ver Douglas Murray, " O Suicídio da Europa". Carlos Chaves > Isabel
Amorim: Espero que não tenha essa sorte... a de fugir! E já agora, está um
“brother” socialista em Bruxelas a quem havia de acontecer o mesmo, pelos
enormes danos causados a esta Nação quase milenar! Também temos uma praça de
Espanha em Lisboa! Ou muito me engano ou ambos os comentários não duram aqui muito, por
incitação à violência”! Renato Pedro Milheiro Ribeiro: Permito-me sublinhar o excerto
"Salman Abedi, explodiu uma traquitana que matou 22 pessoas e feriu mais
de mil. (…) Dias depois do atentado, realizou-se uma vigília pelas vítimas numa
praça local. Uma das participantes principiou a cantar “Don’t Look Back in
Anger”, dos Oasis. Aos poucos, a multidão seguiu a deixa.” Como é que o que vemos tão
impressivamente à nossa frente é tão rapidamente transmutado numa outra coisa
que apaga o que se viu? Este mecanismo tem sido muito vulgar... na comunicação política, por
exemplo observador
censurado: Excelente artigo. Em Portugal, às 2h56 de 14.06.2025, existiam, indubitavelmente, 65 270 "terroristas em
formação": https://peticaopublica.com/?pi=PT125676.
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