Da nossa HISTÓRIA DE PORTUGAL dos finais da Monarquia, que sempre me impressionaram e mais tarde retomei, em páginas dos escritores dos finais do século XIX, a monarquia caricaturada por vezes com arreganho, embora sem a perversidade posta hoje nos virulentos combates republicanos interpartidários. O texto que coloco no final não escapou à bendita Internet, sendo aquele um exemplo da aversão antimonárquica desses tempos, que estes retomam, com os correspondentes apóstolos da virtude anti racista. Naqueles tempos, todavia, fora também a questão do “Mapa Cor de Rosa” que provocara tal reacção de ódio contra a monarquia humilhada.
D. Carlos (1863-1908), o rei e o homem
O penúltimo rei de Portugal deve ser
visto muito para além do verdadeiro assassínio de caráter que lhe foi feito em
vida.
PAULO DRUMOND BRAGA Centro de Estudos Globais da
Universidade Aberta
OBSERVADOR, 05 jun. 2025, 00:1720
Carlos Fernando Luís Maria Vítor nasceu em 28 de setembro de 1863, em
Lisboa. Era primogénito de D. Luís
(rei de Portugal há dois anos somente) e de D. Maria Pia de Saboia (filha de Vítor Manuel II, o unificador da Itália). O seu único
irmão, D. Afonso Henriques Napoleão, nasceu em 1865. Os dois jovens tiveram uma esmerada educação, que incluiu algumas
viagens pela Europa.
Em 1886, D. Carlos desposou Amélia de Orleães, bisneta de Luís Filipe I, que tinha sido
rei dos franceses, de 1830 a 1848. O casal teve três filhos, dos quais
sobreviveram D. Luís Filipe (nascido em março de 1887) e D. Manuel II (dado à luz
em 1889). Em dezembro de 1887, nasceu
prematuramente D. Maria Ana, falecida
com poucas horas de vida.
D. Carlos reinou 18 anos, de outubro de 1889 a fevereiro de 1908. Orgulhoso, por vezes altivo e
exibicionista, adorava divertir-se na caça e cultivava os prazeres da mesa.
Teve, ao que tudo indica, várias amantes. Muito inteligente e extremamente
culto, foi um pintor e um oceanógrafo de grande mérito e em ambas as áreas
pretendeu sempre ser visto como um profissional e não como um simples
diletante.
D.
Carlos numa fotografia de 1907.
Como
rei, desenvolveu uma importante actividade a nível diplomático, visitando
oficialmente vários países da Europa – Alemanha, Espanha, França e Reino Unido – e recebendo em Portugal diversos chefes de
Estado estrangeiros, nomeadamente Afonso XIII, rei de Espanha, Eduardo VII, soberano do Reino Unido,
Guilherme II, imperador da Alemanha, e Émile Loubet, presidente da República
francesa.
O
reinado de D. Carlos começou mal, com o Ultimatum inglês (1890), a crise
financeira (1891) e uma bancarrota parcial do Estado (1892). A República chegou a ser proclamada no
Porto, em 31 de janeiro de 1891, mas durou somente das sete às dez horas da
manhã e foi uma aventura feita totalmente à revelia do Partido Republicano
Português, não podendo de forma alguma ser considerada um ensaio do que
aconteceu em outubro de 1910.
O rei procurou consolidar e
aprofundar um sistema que vinha de trás, o de dois grandes partidos a quem
fosse confiada, à vez, a tarefa de governar – o chamado rotativismo. Era a cópia do modelo inglês. Entre
1893 e 1906, D. Carlos reservou a chefia do governo para Hintze
Ribeiro, líder
do Partido Regenerador, e José Luciano de Castro, que estava à cabeça do Partido Progressista.
Em 1906, com o avolumar dos escândalos e a total descredibilização das duas
grandes formações políticas, o monarca confiou o poder a João
Franco, líder do
recente e pequeno Partido Regenerador Liberal, que começou por governar
com o apoio dos progressistas. Em maio de
1907, obteve do rei autorização para entrar em ditadura. Embora tal não constituísse qualquer
novidade na monarquia constitucional (limitava-se a significar que as Cortes
estavam temporariamente encerradas, o que acontecera com alguma frequência no
século XIX), a opinião pública da época, sobretudo a
lisboeta, extremamente politizada e hipercrítica, verberou a solução encontrada. Assim se criou de João Franco
uma imagem de ferocidade que não corresponde de todo à verdade.
Praticamente desde o início do
reinado de D. Carlos que se desenvolveu uma intensa campanha contra a família
real, desencadeada por republicanos, mas também por monárquicos. Em livros,
em jornais, em caricaturas ou simplesmente em conversas de café ou de rua, o
rei, a sua mulher e a sua mãe foram sendo acusados de tudo o que se poderia
imaginar: D. Carlos, gastador, mau marido, mau pai e péssimo
rei. A rainha D. Amélia, beata e uma péssima influência para os filhos. A
rainha D. Maria Pia, igualmente gastadora.
Assim se acentuou o desgaste e
a erosão da instituição real, que, de resto, já vinha de trás, por exemplo com
a ação dos progressistas contra o rei D. Luís de 1878-1879 e de 1883-1884,
quando os regeneradores estiveram no poder. Tal nunca teve o necessário
contraponto, uma campanha a favor da família real, como se fazia no Reino Unido. Ou seja, a dinastia de Bragança nunca
dispôs de uma agenda de autopromoção e os sucessivos governos também ignoraram
por completo a questão.
Durante a ditadura
de João Franco, foi
ganhando forma uma vaga conspirativa. Uns pretenderiam somente o afastamento
de D. Carlos – havia
uma corrente cortesã que defendia a subida ao trono do príncipe
herdeiro, D. Luís Filipe –, outros
a demissão
de João Franco, outros
ainda a proclamação
da República. Os defensores desta última solução achavam-se cada
vez mais activos e agressivos, sobretudo em Lisboa, embora dentro do sistema
vigente muitos continuassem a acreditar na pouca probabilidade de mudança de
regime.
Em 28 de janeiro de 1908,
fracassou uma tentativa revolucionária de contornos pouco claros, dirigida por
republicanos, como Afonso Costa, João Chagas e Alexandre Braga, e por
monárquicos, como o visconde da Ribeira Brava e José Maria de Alpoim. Três dias
depois, D. Carlos assinou um decreto que previa o degredo para os que se
achavam pronunciados em tribunal pelo crime de conspiração.
No primeiro dia de fevereiro desse mesmo ano, com as tensões
políticas ao rubro, D. Carlos
e D. Luís Filipe foram assassinados na esquina do Terreiro do
Paço com a Rua do Arsenal. O rei sofreu
quatro tiros, um dos quais lhe foi fatal, provocando uma hemorragia por rotura
da artéria carótida primitiva esquerda. D. Luís Filipe foi alvejado duas vezes,
uma delas no lado esquerdo da face. A bala fracturou a base do crânio e saiu
pela nuca, provocando lesões traumáticas graves nas meninges, levando-o à
morte.
D. Carlos tinha 44 anos, estava obeso e precocemente envelhecido,
sofrendo de diabetes. Foi
pouco chorado, pelo menos pelos lisboetas politizados e habituados a vê-lo como
a raiz de todos os males. A monarquia ainda durou dois anos, cingindo a Coroa D. Manuel II, o filho mais novo do
rei assassinado.
Nos anos que se seguiram ao regicídio, houve pouco interesse em apurar
responsabilidades, até porque se sabia ou se suspeitava do envolvimento de monárquicos.
Segundo Rui Ramos, apenas se consegue provar a existência de um grupo de revolucionários armados que,
tendo como interlocutores o Partido Republicano Português e a Dissidência
Progressista – um pequeno partido monárquico, que havia sido criado
em 1905 por José Maria de Alpoim –, recebeu a
incumbência de um assassínio político. Ignora-se se a decisão de matar D.
Carlos foi tomada em reunião desse grupo, o que é pouco provável, ou mesmo se
teria sido dada ordem explícita para levar a efeito o crime.
Se, na época, foram comuns os assassínios de Chefes de Estado –
relembrem-se os casos de Sidi Carnot, presidente da República francesa (1894),
de Humberto I, rei de Itália (1900) e de William McKinley, presidente dos Estados
Unidos da América (1901) – não é
menos verdade que o que aconteceu em Lisboa no primeiro dia de fevereiro de
1908 foi um crime, que vitimou um dos reis mais cultos de sempre da história de
Portugal e um príncipe que, nos seus 20 anos, nada tinha que ver com as opções
políticas tomadas pelo pai.
PORTUGAL 900
ANOS HISTÓRIA CULTURA
COMENTÁRIOS (de 20)
JM Azevedo: Convém não esquecer os alicerces vergonhosos em que a
república foi construída. Ainda hoje, quando me falam em ética republicana,
fico enojado.
José Martins de Carvalho > João Floriano: O assassino era Buíça, mas tanto faz Buíça como Cuíça,
era apenas o veneno da serpente que era o republicanismo temporão, que tanto
mal causava e viria a causar a Portugal.
NOTAS
DA INTERNET:
O Caçador Simão
(A Fialho
d'Almeida)
Guerra Junqueiro
Jaz el-rei
entrevado e moribundo
Na fortaleza
lôbrega e silente...
Corta a mudez
sinistra o mar profundo...
Chora a rainha desgrenhadamente...
Papagaio
real, diz-me, quem passa? –
É o príncipe
Simão que vai à caça.
Os sinos
dobram pelo rei finado...
Morte
tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas
atónitas um brado,
Um brado
imenso d'amargura e dor...
Papagaio real, diz-me, quem passa? –
É o príncipe
Simão que vai à caça.
Cospe o
estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto
da Pátria a agonizar...
Rugem nos
corações fúrias leoninas,
Erguem-se as
mãos crispadas para o ar!...
Papagaio
real, diz-me, quem passa? –
É o príncipe Simão que vai à caça.
A Pátria é
morta! a Liberdade é morta!
Noite negra
sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a
Infâmia os sepulcros dos Heróis!
Papagaio
real, diz-me, quem passa? –
É o príncipe Simão que vai à caça.
Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola
indomitamente a multidão...
Tocam clarins
de guerra a Marselhesa...
Desaba um trono em súbita explosão!...
Papagaio
real, diz-me, quem passa?
– É alguém, é alguém que foi à caça.
Do caçador
Simão!...
Viana do Castelo, 8
de Abril de 1890
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