terça-feira, 10 de junho de 2025

Magnífico


Texto de uma jovem escritora – PATRÍCIA FERNANDES - sensível à panorâmica comportamental trazida pela evolução nos conceitos, a liberdade democrática colidindo com os valores de uma anterior sociedade mais severa, embora, por vezes, não menos grotesca nas suas prerrogativas sociais marginalizantes, naturalmente aceites pelos marginalizados, segundo a perspectiva de “cada macaco no seu galho”.

Recuperar a moralidade

A solução para as sociedades liberais implica recuperar um código moral – de valores, de respeito, de contenção, de responsabilidade – e um vocabulário que permita defender o certo e recusar o errado.

PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

OBSERVADOR, 09 jun. 2025, 00:2127

1A grande transformação moral do Ocidente

É, provavelmente, um dos livros mais comoventes deste novo século. O historiador britânico Tony Judt foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA) em setembro de 2008. Ao jornalista Ed Pilkington, Judt descreveu-se como um homem saudável e desportista de 61 anos, que “sentia uma ligeira falta de ar ao subir as colinas e dava por si a carregar nas teclas erradas quando escrevia, nada mais”. Faleceu em agosto de 2010.

A doença avançou com velocidade e Judt perdeu rapidamente a capacidade de escrever sozinho e, mais tarde, de falar:Nesta altura, já estamos quase quadriplégicos e condenados a longas horas de silenciosa imobilidade, estejamos ou não na presença de terceiros.” Foi neste momento que Judt recorreu aos “artifícios mnemónicos que os primeiros pensadores e viajantes modernos usavam para guardar e relembrar pormenores e descrições” e escreveu O chalet da memória.

Os vinte e cinco textos que compõem o livro são uma viagem pela sua vida e, acima de tudo, pelo século XX na Europa e pelas inúmeras transformações que ocorreram no Ocidente ao longo das últimas décadas, como o texto sobre as bedders ilustra. As bedders que Judt encontrou quando chegou a Cambridge eram uma espécie de criadas a quem cabia manter os quartos em ordemsegundo o pressuposto de que os jovens rapazes estudantes seriam incapazes de desempenhar essas tarefas em resultado da sua (elevada) condição social.

Nos anos de 1960, a instituição das bedders já estava em tensão com o espírito igualitário dos tempos, e Judt assistiu à grande mudança que ocorreu nos dez anos seguintes quando se tornou professor e lhe coube fazer a mediação entre um grupo de estudantes que tinham sido vistos nus durante a noite nos relvados da faculdade e a bedder, que ficara ofendida com esta falta de pudor:

Os alunos em questão, vim a saber, eram na sua maioria de escolas públicas: a primeira geração de estudantes de origens modestas em ascensão na escala social. Também isto incomodava a bedder. Uma coisa era ser tratada de modo condescendente por cavalheiros jovens da velha guarda – que, como era hábito, teriam pedido desculpa na manhã seguinte e manifestado o seu arrependimento (…). Mas o novo tipo de estudante tratava-a como uma igual – e era também isto que a magoava. A bedder não era igual aos estudantes; nunca seria. Mas pelo menos tradicionalmente podia exigir, mesmo que fosse apenas durante os anos de estudante, a sua contenção e respeito. De que servia ser uma criada mal paga se isto já não se verificava? Se assim fosse, a relação ficava reduzida a um mero emprego, e nesse caso ela arranjaria melhor na fábrica de conservas.

Para os jovens estudantes, com a sua mentalidade liberal e igualitária, o problema residia no facto de as bedders serem mal pagas; para a bedder, o problema era a relação ficar “reduzida a um mero emprego”:

“Sem se darem conta, os estudantes papagueavam uma visão capitalista redutora e empobrecida: o ideal das unidades de produção monádicas que maximizam a vantagem particular, indiferentes à comunidade ou à convenção. A bedder sabia que era mais do que isso. Podia ser semi-analfabeta e pouco instruída, mas os seus instintos fizeram com que percebesse, certeira, o intercâmbio social, as regras tácitas que o sustentam e a ética interpessoal a piori em que se baseia.”

É possível captar melhor do que isto a grande transformação do Ocidente no século XX? De como a obsessão com a liberdade individual e a igualdade económica destruiu o código moral comum que tacitamente mantinha o respeito e a honra, apesar das diferenças?

2O justo e o bem

Entre nós, podemos reencontrar a observação de Tony Judt quando discutimos a falta de professores no ensino básico e secundário. Sim, é verdade que os professores viram os seus rendimentos desvalorizados; sim, é verdade que muitos viram os anos de serviço congelados; e sim, é verdade que são sobrecarregados com trabalho burocrático quase sempre desnecessário e, mais recentemente, perdidos com a crise migratória em que tristemente nos mergulharam. Mas não é só isso: o problema maior foi a perda da respeitabilidade social da profissão, o desrespeito (e até a violência) permanente por parte dos alunos, a incapacidade de exerceram a sua autoridade e manterem a ordem. (Estou a generalizar, claro, mas a tentar representar um sentimento maioritariamente expresso.)

É verdade que o rendimento se tornou pouco, “mas pelo menos tradicionalmente podia[m] exigir (…) contenção e respeito. De que servia ser uma criada mal paga se isto já não se verificava? Se assim fosse, a relação ficava reduzida a um mero emprego, e nesse caso ela arranjaria melhor na fábrica de conservas.Mesmo aqueles que resistem – certamente por amor à profissão – sentem que o que verdadeiramente mudou não é capturável pelo vocabulário económico: é uma mudança fundamentalmente moral.

Essa mudança começou com a grande revolução social de meados do século XX que consagrou o princípio da liberdade individual como o valor político último, pelo que as democracias liberais não deveriam impor qualquer conceção de bem, não deviam privilegiar qualquer concepção moral – deviam ser neutras (assegurando que estruturas de liberdade seriam justas, sem impor qualquer bem).

Ao longo das últimas décadas, esta concepção de neutralidade foi apresentada como a grande virtude do liberalismo: consagrava sociedades tolerantes. Mas acabou por dar origem a um discurso permissivo, em que, como chama a atenção António Pedro Barreiro neste interessante episódio do Podcast Trivium, acabamos por ter uma sociedade que concorda em discordar, mas se limita a discutir liberdades sem ter ferramentas conceptuais para dizer que um mal é um mal.

3A necessidade de um vocabulário moral

É a este vazio moralesta situação de anomia, para usar a expressão de Durkheimque estamos reconduzidos nas sociedades ocidentais actuais. Certos valores liberais são conquistas civilizacionais inegáveis, mas temos de ter a coragem e os recursos conceptuais necessários para dizer que há certas coisas que são inaceitáveis. Que o caminho de permissividade que se fez no domínio das drogas se revelou desacertado; que creches com horário alargado sinalizam um mal social; que aquilo que Lily Philips fez é errado; que o descontrolo dos mais novos – sobretudo das raparigas e a sua sexualização precoce – com os telemóveis-espertos e as redes sociais é um problema.

Como a psicologia ensina, os seres humanos aprendem e crescem por imitação (Aristóteles já o sabia, mas, lá está, os antigos já sabiam quase tudo). Por essa razão, se esvaziarmos o espaço moral levamos os nossos jovens a imitar quem tem mais prestígio (na longa lista de “influencers” actuais) e não quem é o mais virtuoso.

A solução para as sociedades liberais passa por recuperar um código moral – de valores, de respeito, de contenção, de responsabilidade – e um vocabulário que nos permita defender o que está certo e recusar o que está errado. A melhor opção disponível parece ser o regresso aos antigos e ao religioso. Se houver alternativas igualmente boas, devemos discuti-las.

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COMENTÁRIOS (de 27):

João Amorim: Fabuloso artigo - uma vez mais                  Ana Luís da Silva: É certo que o individualismo não é bom conselheiro para estabelecer uma base moral aceitável numa sociedade, por ser uma contradição nos próprios termos. Com efeito, como o exemplo referido demonstra, a teia de valores sobre que assentam as relações dentro de uma comunidade, nacional ou outra, é bem mais complexa; e fazer o que me apetece desde que isso não ofenda ou prejudique directamente ninguém é escasso e insatisfatório e não se auto-justifica. Assim por exemplo, exibir a cruz de Cristo ou assar um porco para consumir as suas bifanas pode ser motivo legítimo de proibição para não ofender uma comunidade que claramente não se integra na cultura portuguesa? Existe um óbvio e alargado consenso de que consumir porco e transportar a cruz de Cristo não ofende a comunidade portuguesa, bem pelo contrário, faz parte da sua identidade nacional a bandeira de Cristo consumir umas bifanas no pão quentinhas agrega os estômagos dos portugueses, une a comunidade lusa em algo que sempre valorizou: a comida partilhada em são convívio. No entanto, para não ofender muçulmanos, estranhos à nossa identidade portuguesa, um presidente da Câmara proibiu-o. Não quis chatices. Pergunto: até que ponto é lícito proibir que simplesmente sejamos aquilo que somos para que outros possam ser eles, na nossa terra, e logo na capital de Portugal? O mesmo presidente da Câmara que defendeu inspirado e motivadíssimo a realização do EuroPride em Lisboa, evento que vai invadir uma cidade portuguesa com comportamentos e modos de estar que ofendem qualquer português que se preze e todas as famílias com crianças pequenas e a integridade dessas mesmas crianças, obrigando as famílias a não frequentar durante dias seguidos lugares públicos de circulação livre, sob pena de serem confrontadas e ofendidas a toda a hora nos valores identitários dos portugueses por pessoas coloridas e sem freio social e ético. Ou seja, o critério do sr Moedas não é não ofender os sentimentos das pessoas, porque ofender os sentimentos dos portugueses já não faz mal, não são uma comunidade estrangeira, são só e apenas o povo deste país Falta de coluna vertebral, falta de bom senso e sentido do cargo que desempenha. Poderá a moralidade basear-se no bom senso? É pouco, mas seria o mínimo exigido. Mas o sr Moedas, que gosta de circo, não o tem, de todo. Coloco ainda à reflexão um importante choque de valores prestes a acontecer neste país, com o reagrupamento familiar que o governo promete: mulheres a circular de cara tapada em espaços públicos. Se tal acontecer significa que a nossa sociedade irá tolerar um código de valores que reduz o sexo feminino a uma inferioridade social e até humana perante o sexo masculino. Neste caso não serão apenas “sentimentos” que serão ofendidos, mas o respeito pela igual dignidade entre homem e mulher, na raiz não apenas da identidade nacional mas também de toda a estrutura ética, social, política, económica da sociedade ocidental! O que farão as autoridades portuguesas perante isto? Desconfio que não vai haver nem moralidade, nem bom senso nem coisíssima nenhuma. Ficarão mudos e quedos os nossos políticos medíocres. E não temos, infelizmente, uma Meloni que nos salve!         Fernando Faria de Oliveira: Artigo ao nível dos anteriores: excelente ! Com uma proposta imperiosa, a levar muito a sério : recuperar um código moral e um vocabulário que permita defender o certo e recusar o errado             Carlos Chaves: Cara Patrícia Fernandes, obrigado. Não poderia estar mais de acordo com a sua opinião sobre o assunto que aqui nos traz. Isto não é mais do que o resultado das políticas de esquerda que nos têm (des)governado nas últimas décadas. Tenho esperança que uma contra-corrente a este estado de coisas venha a aparecer, e venha pôr um “terminus” a estes desvarios.

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