Texto de uma jovem escritora – PATRÍCIA FERNANDES
- sensível à panorâmica comportamental trazida pela evolução nos conceitos, a liberdade
democrática colidindo com os valores de uma anterior sociedade mais severa,
embora, por vezes, não menos grotesca nas suas prerrogativas sociais
marginalizantes, naturalmente aceites pelos marginalizados, segundo a
perspectiva de “cada macaco no seu galho”.
Recuperar a moralidade
A solução para as sociedades liberais
implica recuperar um código moral – de valores, de respeito, de contenção, de
responsabilidade – e um vocabulário que permita defender o certo e recusar o
errado.
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola
de Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 09 jun. 2025, 00:2127
1A grande transformação moral do Ocidente
É, provavelmente, um dos livros mais
comoventes deste novo século. O historiador britânico Tony Judt
foi diagnosticado com esclerose lateral
amiotrófica (ELA) em setembro de 2008. Ao jornalista Ed Pilkington, Judt
descreveu-se como um homem saudável e desportista de 61 anos, que “sentia uma
ligeira falta de ar ao subir as colinas e dava por si a carregar nas teclas
erradas quando escrevia, nada mais”. Faleceu em agosto de 2010.
A doença avançou com velocidade e
Judt perdeu rapidamente a capacidade de escrever sozinho e, mais tarde, de
falar: “Nesta altura,
já estamos quase quadriplégicos e condenados a longas horas de silenciosa
imobilidade, estejamos ou não na presença de terceiros.” Foi neste momento
que Judt recorreu aos “artifícios mnemónicos que os primeiros pensadores e
viajantes modernos usavam para guardar e relembrar pormenores e descrições” e
escreveu O chalet da memória.
Os
vinte e cinco textos que compõem o livro são uma viagem pela sua vida e, acima
de tudo, pelo século XX na Europa e pelas inúmeras transformações que ocorreram
no Ocidente ao longo das últimas décadas, como o texto sobre as bedders ilustra. As bedders que Judt encontrou quando chegou a Cambridge eram uma
espécie de criadas a quem cabia manter os quartos em ordem – segundo o pressuposto de que os jovens
rapazes estudantes seriam incapazes de desempenhar essas tarefas em resultado
da sua (elevada) condição social.
Nos anos de 1960, a instituição das
bedders já estava em tensão com o espírito igualitário dos tempos, e Judt
assistiu à grande mudança que ocorreu nos dez anos seguintes quando se tornou
professor e lhe coube fazer a mediação entre um grupo de estudantes que tinham
sido vistos nus durante a noite nos relvados da faculdade e a bedder, que ficara ofendida com esta
falta de pudor:
“Os
alunos em questão, vim a saber, eram na sua maioria de escolas públicas: a
primeira geração de estudantes de origens modestas em ascensão na escala
social. Também isto incomodava a bedder. Uma coisa era ser tratada
de modo condescendente por cavalheiros jovens da velha guarda – que, como era
hábito, teriam pedido desculpa na manhã seguinte e manifestado o seu
arrependimento (…). Mas o novo tipo de estudante tratava-a como uma
igual – e era também isto que a magoava. A bedder não era igual aos estudantes; nunca seria. Mas pelo menos tradicionalmente podia
exigir, mesmo que fosse apenas durante os anos de estudante, a sua contenção e
respeito. De que servia ser uma criada mal paga se isto já não se verificava?
Se assim fosse, a relação ficava reduzida a um mero emprego, e nesse caso ela
arranjaria melhor na fábrica de conservas.”
Para os jovens estudantes, com a sua
mentalidade liberal e igualitária, o problema residia no facto de as bedders
serem mal pagas; para a bedder, o problema era a relação ficar “reduzida a um
mero emprego”:
“Sem
se darem conta, os estudantes papagueavam uma visão capitalista redutora e
empobrecida: o ideal das unidades de produção monádicas que maximizam a
vantagem particular, indiferentes à comunidade ou à convenção. A bedder sabia
que era mais do que isso. Podia ser semi-analfabeta e pouco instruída, mas os
seus instintos fizeram com que percebesse, certeira, o intercâmbio social, as
regras tácitas que o sustentam e a ética interpessoal a piori em que se
baseia.”
É possível captar melhor do que isto a grande transformação do
Ocidente no século XX? De como a obsessão com a liberdade individual e a
igualdade económica destruiu o código moral comum que tacitamente mantinha o
respeito e a honra, apesar das diferenças?
2O justo e o bem
Entre nós, podemos reencontrar a
observação de Tony Judt quando discutimos a falta de professores no ensino
básico e secundário. Sim, é verdade que os professores viram os seus
rendimentos desvalorizados; sim, é verdade que muitos viram os anos de serviço
congelados; e sim, é verdade que são sobrecarregados com trabalho burocrático
quase sempre desnecessário e, mais recentemente, perdidos com a crise
migratória em que tristemente nos mergulharam. Mas
não é só isso: o problema maior foi a perda da respeitabilidade social da
profissão, o desrespeito (e até a violência) permanente por parte dos alunos, a
incapacidade de exerceram a sua autoridade e manterem a ordem. (Estou a generalizar, claro, mas a tentar
representar um sentimento maioritariamente expresso.)
É verdade que o rendimento se tornou
pouco, “mas pelo menos tradicionalmente
podia[m] exigir (…) contenção e respeito. De que servia ser uma criada mal paga
se isto já não se verificava? Se assim fosse, a relação ficava reduzida a um
mero emprego, e nesse caso ela arranjaria melhor na fábrica de conservas.” Mesmo
aqueles que resistem – certamente por amor à profissão – sentem que o que
verdadeiramente mudou não é capturável pelo vocabulário económico: é uma
mudança fundamentalmente moral.
Essa mudança começou com a grande
revolução social de meados do século XX que consagrou o princípio da liberdade
individual como o valor político último, pelo que as democracias liberais não
deveriam impor qualquer conceção de bem, não deviam privilegiar qualquer concepção
moral – deviam ser neutras (assegurando
que estruturas de liberdade seriam
justas, sem impor qualquer bem).
Ao
longo das últimas décadas, esta concepção de neutralidade foi apresentada como
a grande virtude do liberalismo: consagrava sociedades tolerantes. Mas acabou por dar origem a um discurso
permissivo, em que, como chama a atenção António Pedro Barreiro neste
interessante episódio do Podcast
Trivium, acabamos por ter uma sociedade que concorda
em discordar, mas se limita a discutir liberdades sem ter ferramentas
conceptuais para dizer que um mal é um
mal.
3A necessidade de um vocabulário moral
É a este vazio moral – esta situação de anomia, para
usar a expressão de Durkheim – que
estamos reconduzidos nas sociedades ocidentais actuais. Certos valores
liberais são conquistas civilizacionais inegáveis, mas temos de ter a coragem e
os recursos conceptuais necessários para dizer que há certas coisas que são
inaceitáveis. Que o caminho de permissividade que se fez no
domínio das drogas se revelou desacertado; que creches com horário alargado
sinalizam um mal social; que aquilo que Lily Philips fez é errado; que o
descontrolo dos mais novos – sobretudo das raparigas e a sua sexualização
precoce – com os telemóveis-espertos e as redes sociais é um problema.
Como a psicologia ensina, os seres
humanos aprendem e crescem por imitação (Aristóteles já o sabia, mas, lá está, os antigos já sabiam quase tudo). Por essa razão, se esvaziarmos o espaço
moral levamos os nossos jovens a imitar quem tem mais
prestígio (na longa lista de “influencers” actuais)
e não quem é o mais virtuoso.
A solução para as sociedades liberais passa por recuperar um código
moral – de valores, de respeito, de contenção, de responsabilidade – e um
vocabulário que nos permita defender o que está certo e recusar o que está
errado. A melhor opção disponível parece ser o regresso aos
antigos e ao religioso. Se houver alternativas igualmente boas, devemos
discuti-las.
Receba um alerta sempre que Patrícia
Fernandes publique um novo artigo.
LIBERALISMO POLÍTICA
ECONÓMICA MACROECONOMIA ECONOMIA POLÍTICA OCIDENTE MUNDO
COMENTÁRIOS (de 27):
João Amorim: Fabuloso artigo - uma vez mais Ana Luís da Silva: É certo que o individualismo
não é bom conselheiro para estabelecer uma base moral aceitável numa sociedade,
por ser uma contradição nos próprios termos. Com efeito, como o exemplo referido demonstra, a
teia de valores sobre que assentam as relações dentro de uma comunidade,
nacional ou outra, é bem mais complexa; e fazer o que me apetece desde que isso não ofenda ou prejudique directamente
ninguém é escasso e insatisfatório e não
se auto-justifica. Assim por exemplo, exibir a cruz de Cristo ou assar um porco para
consumir as suas bifanas pode ser motivo legítimo de proibição para não ofender
uma comunidade que claramente não se integra na cultura portuguesa? Existe um óbvio e alargado
consenso de que consumir porco e transportar a cruz de Cristo não ofende a
comunidade portuguesa, bem pelo contrário, faz parte da sua identidade nacional
a bandeira de Cristo consumir umas bifanas no pão quentinhas agrega os
estômagos dos portugueses, une a comunidade lusa em algo que sempre valorizou: a
comida partilhada em são convívio. No entanto, para não ofender
muçulmanos, estranhos à nossa identidade portuguesa, um presidente da Câmara
proibiu-o. Não quis chatices. Pergunto: até que ponto é lícito proibir que
simplesmente sejamos aquilo que somos para que outros possam ser eles, na nossa
terra, e logo na capital de Portugal? O mesmo
presidente da Câmara que defendeu inspirado e motivadíssimo a realização do
EuroPride em Lisboa, evento que vai invadir uma cidade portuguesa com comportamentos e
modos de estar que ofendem qualquer português que se preze e todas as famílias
com crianças pequenas e a integridade dessas mesmas crianças, obrigando as
famílias a não frequentar durante dias seguidos lugares públicos de circulação
livre, sob pena de serem confrontadas e ofendidas a toda a hora nos valores
identitários dos portugueses por pessoas coloridas e sem freio social e ético. Ou seja, o critério do sr Moedas
não é não ofender os sentimentos das pessoas, porque ofender os sentimentos dos
portugueses já não faz mal, não são uma comunidade estrangeira, são só e apenas
o povo deste país… Falta de coluna vertebral, falta de bom senso e sentido do cargo que
desempenha. Poderá a moralidade basear-se no bom senso? É pouco, mas seria o
mínimo exigido. Mas o sr Moedas, que gosta de circo, não o tem, de todo. Coloco
ainda à reflexão um importante choque de valores prestes a acontecer neste
país, com o reagrupamento familiar que o governo promete: mulheres a circular
de cara tapada em espaços públicos. Se tal acontecer significa que a
nossa sociedade irá tolerar um código de valores que reduz o sexo feminino a
uma inferioridade social e até humana perante o sexo masculino. Neste caso não
serão apenas “sentimentos” que serão ofendidos, mas o respeito pela igual
dignidade entre homem e mulher, na raiz não apenas da identidade nacional mas
também de toda a estrutura ética, social, política, económica da sociedade ocidental! O que farão as autoridades
portuguesas perante isto? Desconfio que não vai haver nem moralidade, nem bom
senso nem coisíssima nenhuma. Ficarão mudos e quedos os nossos políticos
medíocres. E não temos, infelizmente, uma Meloni que nos salve! Fernando Faria de Oliveira: Artigo ao nível dos anteriores: excelente ! Com uma proposta imperiosa, a levar muito a sério :
recuperar um código moral e um vocabulário que permita defender o certo e
recusar o errado Carlos
Chaves: Cara Patrícia Fernandes, obrigado. Não poderia estar mais de acordo com a
sua opinião sobre o assunto que aqui nos traz. Isto não é mais do que o
resultado das políticas de esquerda que nos têm (des)governado nas últimas
décadas. Tenho esperança que uma contra-corrente a este estado de coisas venha
a aparecer, e venha pôr um “terminus” a estes desvarios.
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