sexta-feira, 27 de junho de 2025

Linhas


Com que nos “cozemos“ todos, pelos tempos aquém. Jesus também, que era sábio, mas julgo que utilizou todas as cores, nas suas mensagens costureiras polivalentes.

Jesus teria linhas vermelhas?

Se há constante na vida de Jesus é a oposição à sobranceria intelectual e incompletude moral das ideias, a princípio justas, da elite do seu tempo.

P. JOÃO BASTO Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 27 jun. 2025, 00:1817

A resposta à pergunta do título é difícil. Tanto tempo depois corremos sempre o risco de estar a descontextualizar. Mas, ainda assim, é possível ter uma ideia. Em primeiro lugar, é preciso ver que Cristo viveu num tempo extremamente polarizado. Saduceus e Fariseus eram os “homens do sistema”, controlando grande parte da vida religiosa e política da região, mas sem qualquer capacidade de criarem qualquer “pacto de regime”, porque discordavam “nas questões essenciais”. De um lado e do outro estavam os extremos. Os zelotas: um grupo nacionalista radical, que possuía, inclusive, uma espécie de braço armado terrorista, os sicários. E os essénios: que tinham cortado com as autoridades, viviam em comunidades isoladas, rejeitavam a vida urbana e a corrupção do Templo de Jerusalém. Mas ainda temos que acrescentar pregadores ambulantes, que hoje apelidaríamos de populistas e demagogos, como João Batista, que proclamava uma purificação dos pecados no Rio Jordão, ou seja, fora do grande centro político e religioso da época. Sem esquecer, claro, que a região onde Jesus nasceu, viveu e morreu estava ocupada pelo Império Romano.

Neste contexto, conseguimos entender alguma coisa sobre a posição de Jesus olhando para o nome dos seus discípulos. Na lista dos 12 temos, por exemplo, Mateus, Simão e Judas. Ora, Mateus era cobrador de impostos e, por isso, um vendido ao imperialismo romano. Simão era conhecido como o zelota e, por isso, um patriota fanático, daqueles de bandeira tatuada no peito. E Judas, apelidado de Iscariotes, via a sua alcunha remontar aos sicários, ou seja, os já referidos terroristas. Não é de surpreender, assim, que às vezes até os Evangelhos falem de tensões entre os discípulos. Mas o mais curioso, só para falar destes três, é que o objectivo de Simão e de Judas era, pela sua filiação social e política, matar, sem qualquer piedade ou escrúpulo, pessoas como Mateus, que eram comumente vistos como traidores.

Isto é muito importante actualmente, porque à boleia da justa afirmação de que é incompatível com o Cristianismo o racismo, a xenofobia e o ódio, tem existido uma espécie de apartheid social das pessoas que expressam ideias algumas vezes sem qualquer sentido ou fundamento. Reparem: de modo algum é claro que Simão ou Judas tenham renunciado plenamente às suas convicções, quando seguiram Jesus. Alias, só isso explica, a título de exemplo, os contactos que terão facilitado a traição orquestrada por Judas. E, pelo menos quanto sabemos pelos Evangelhos, Jesus nunca teve nenhum discípulo saduceu ou fariseu. O primeiro que conhecemos até é Paulo, o que desmente a ideia comum de que o Cristianismo se expandiu, antes de mais, entre escravos e camadas pouco formadas da população.

Ora, Jesus não seria a favor do paradoxo da tolerância de Karl Popper. Ainda para-mais, se ele corresponde à infografia viral que invade, ocasionalmente, as redes sociais e que nada tem a ver com a obra do filósofo de origem austríaca. Cristo, aliás, tinha uma atitude estranha diante da realidade. Em certos lugares, tornava a lei mais radical do que efectivamente já era. Noutros, agilizava-a e libertava-a do fundamentalismo normativo. E se há constante na vida de Jesus é a oposição à sobranceria intelectual e incompletude moral das ideias, a princípio justas, da elite do seu tempo. E a seu lado não estavam os maoistas e os marxistas do seu tempo – muito embora estes movimentos não sejam, de todo, inocentes a nível étnico –, mas os supremacistas brancos da ocasião.

Esta é uma visão redutora, mas os companheiros de Jesus não eram só trabalhadores precários de uma região periférica da Palestina do séc. I. E isso é o que torna o Cristianismo tão difícil e desafiante. Afinal de contas, Jesus tinha linhas vermelhas. Mas elas não eram um programa político. Era a hipocrisia.

COMENTÁRIOS:

Miguel Aguiar: Há algo que nunca percebi e talvez os estimados comentadores ou o autor me possa explicar: porque a entidade divina de Cristo não tomou o caminho lógico? Ou seja ser o Messias que os judeus ansiavam! Alguém que " será ungido com óleo sagrado e governará o povo judeu durante a Era Messiânica, trazendo paz e justiça ao mundo."? Afinal paz e justiça não é aquilo que se anseia? Porquê então complicar, trazendo ainda mais desunião ao mundo?               Rafael Pelote:Genial. O que mais me assusta é pensar quem crucificaria a Cristo, se viesse à terra nos dias de hoje… Obrigado pela clarividência!                   Miguel Aguiar > Rafael Pelote: Provavelmente os mesmos que voluntariamente assassinaram os bebés Bibas.... Enquanto o de 5 anos poderia já ser um "colonizador", dificilmente tal epítomo poderia ser aplicado ao de nove (9) meses.... E no entanto....                 Kindu: A ideia que eu tenho é que Jesus tinha a mania de que ele é que sabia. Encolerizava-se se alguém discordava dele, acusava logo o outro de ter o diabo no corpo. E em tudo via diabos e demónios. Se discordavam dele, tinham o diabo. E se lhe traziam doentes mentais para curar, não tratava doenças, tirava demónios. E dizia logo quantos lá estavam dentro do corpo, um, dois, três demónios, etc.               Miguel Aguiar > Kindu: É isso que me chateia nas religiões!....Por que diabo insistem em me salvar do Inferno? Sendo que uma está disposta a matar-me para me salvar.... Com alguma excepção dos judeus que não fazem grande proselitismo e cujo inferno é mais como uma repartição de finanças ás 15h50'....                Rui Pedro Matos: D. João Lavrador deve andar fora da Diocese!                 Paulo Nunes: Jesus tinha imensas linhas vermelhas.

Já excluindo o episódio em que explode e dá que contar aos vendilhões do templo, há imensas passagens em que critica, repreende, corrige. Jesus vem com um mandamento novo, e isso, só por si, é o conjunto de linhas vermelhas e regras a cumprir. Essas linhas são um programa de vida, mas também de política e social.                       Ana Luís da Silva: Jesus Cristo é um homem da sua época,  ou melhor é o Homem do seu tempo. Mas também é o Filho de Deus, com a missão espiritual de salvar a Humanidade da sua deriva de desobediência contra Deus. Imaginemos Jesus no início da sua vida pública, a ter que escolher os doze apóstolos. Sabemos que esteve no deserto, em jejum e oração a preparar esse momento essencial do convite aos homens que seriam no futuro os seus representantes na Terra. A que olharia Nosso Senhor? Aos mais puros e bondosos, ou doutos e poderosos? Mas se todos tinham pecado… por isso, não. O Senhor teria que escolher homens como quaisquer outros, cheios de defeitos, ideias erradas ou preconcebidas, mas que tivessem em primeiro lugar um coração pronto a acolhê-lo imediatamente para desde logo largarem tudo e segui-LO. Alguém consegue imaginar-se no seu trabalho, na sua casa, no seu dia-a-dia, a largar tudo de um momento para outro e seguir Jesus? É óbvio que não. Depois, estes homens teriam que amar a Sua Palavra, que além de consoladora também coloca desafios inalcançáveis para as forças de um ser humano sem a graça de Deus, como: amar os inimigos, fazer bem aos que os perseguiam, carregar a própria cruz e segui-LO mesmo assim, tomar o Seu Sangue e e comer o Seu Corpo, etc, etc. E mais: teriam que ser homens capazes de amar tanto a Nosso Senhor que seriam corajosos ao ponto de sair dos lugares onde permaneciam escondidos com medo dos romanos e dos fariseus depois da morte e ressurreição de Jesus, para anunciarem o Evangelho a todos e em todos os lugares e fundarem a Sua Igreja, com grande risco para si próprios. Finalmente, teriam que alargar ainda mais o seu coração e, além de abraçarem um Messias que não seria vitorioso (aparentemente) aos olhos do mundo, mas perseguido, serem perseguidos e mortos como Ele isto é, de entregarem a própria vida quando desafiados a abandoná-LO pelas autoridades políticas e religiosas da época (como tinham abandonado quando do Seu julgamento e crucificação). E assim dar testemunho de sangue. Portanto, a questão não eram as linhas vermelhas. O Salvador do Mundo precisava de homens capazes de um Amor radical a ponto de darem a vida por Ele. As linhas vermelhas são uma invenção humana, de espíritos tacanhos. Em jeito de conclusão dos 12, tirando o apóstolo João, que morreu na prisão, todos os outros (menos Judas que O traiu e se suicidou). foram perseguidos, torturados e morreram dando a vida por Nosso Senhor Jesus Cristo.                     GateKeeper: Sim. Até as teve e bem sonoras, p. exemplo os "vendilhões do templo", os corruptos, etc.. Seria, aos dias de hoje, um arauto da boa autoridade, certamente.                Rosa Lourenço: Até Jesus separava a Religião da Política.         Maria Carreira: Texto histórico muito interessante. Inteligentíssima e clara transposição para o nosso tempo!                     Alexandre Barreira: Pois. Caro P. João, Não concordo com as "linhas vermelhas". Na minha "parca opinião"....e como "fruto-do-pecado-original". Julgo que Jesus...se cá voltasse. Não seria "Adepto-do-Benfica". Como "Homem Sofredor". Seria mais "Adepto-do-Porto"....! Américo Silva: Se Judas não tivesse traído Jesus não haveria salvação, se Pôncio Pilatos não tivesse lavado as mãos, não haveria salvação.                Rosa Lourenço > Américo Silva: Cada um cumpriu a sua missão. Ruço Cascais: Ter uma namorada, segundo os evangelhos, foi uma das linhas vermelhas de Jesus. Não é um assunto fácil de abordar, além disso não enobrece o Deus que existia no homem. Mas a verdade é que Jesus era um ser biológico com necessidades biológicas. Comia, dormia, urinavam e defecava, possivelmente atrás de um arbusto já que o conceito de WC só muitos anos mais tarde surgiu. A possibilidade de Jesus ter os dentes sujos e estragados era muito grande, já que a higiene oral não era prática na altura. Há um homem em Jesus. Mas a biologia de Jesus que sofreu no deserto e na Cruz, certamente que despertou para os amores carnais quando tinha 16 ou 17 anos como qualquer ser biológico, como qualquer um de nós. Quando o amor não é correspondido os miúdos aliviam-se, mas, Jesus resistiu a tudo isso tendo conseguido forçar a libido ao silêncio e à irrelevância. Jesus sabia que a sua condição divina num corpo biológico obrigava a certas linhas vermelhas que não podia ultrapassar; o álcool, a gula, a remuneração pelo trabalho, as mulheres, os prazeres carnais e as brigas. Jesus não lutava, não lutava fisicamente. Bateram-lhe e ele ficou-se. Na minha opinião, caro Padre, uma alma divina no corpo de um homem tem obrigatoriamente linhas vermelhas. Até eu, uma alma pecaminosa e que o tempo rapidamente fará esquecer tenho linhas vermelhas, quanto mais um Deus.               Rosa Lourenço > Ruço Cascais: Concordo inteiramente. As linhas vermelhas são os limites da Moral e da Ética.                Francisco Almeida > : Rosa Lourenço: Não me importava de concordar consigo se lhes chamasse outra coisa que não linhas vermelhas. Há palavras que já carregam em si uma carga ideológica e lamento que o Pe. João Basto as tenha usado para significar limites. Jesus Cristo certamente tinha limites nas Suas duas naturezas, Divina e humana.

 

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