Que fazem que o país fique sempre em
segundo lugar. Daí a profusão de partidos, na ambição da relevância própria, os
egotismos sobrepondo-se a um desejo real de salvar a nação dos vandalismos (cometidos
por quem se arroga desse direito), no exibicionismo das personalidades
próprias, mais do na junção de esforços em busca dos valores a desenvolver no
país. De facto, o IL sempre pareceu um partido altivamente sério e
perspicaz. Mas porque não se aliou antes a uma AD em termos de resoluções de
comum actuação em abono do país, em vez de se marginalizar altivamente, a
mostrar esquemas de superioridade governativa afinal ineficaz, com tanta
sucessividade de chefias como refere ALEXANDRE BORGES na sua arguta crónica?
Fantasmas no Liberalismo
Bem sei que o partido é liberal, mas
Carlos Guimarães Pinto, João Cotrim de Figueiredo, Rui Rocha, quem quer que se
siga, precisamos de menos desprendimento.
ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista
OBSERVADOR, 05 jun. 2025, 00:2016
É talvez dos sintomas mais preocupantes
do estado de desumanização a que chegámos. Chamam-lhe ghosting, e aqui o
estrangeirismo é autorizado porque, na verdade, dificilmente se arranjaria
termo que melhor encapsulasse o duplo significado do conceito: por um lado, a pessoa desaparece, deixa
de se apresentar como real, palpável; por outro, fica a assombrar, como
fantasma. E na latência entre as duas dimensões, acontece todo o
problema. O fenómeno dá-se cada vez por toda a parte, das redes sociais que
já vão tendo idade para que lhes chamemos “tradicionais”, às aplicações de
encontros: duas pessoas
conhecem-se virtualmente, começam a falar, a seduzir-se, fascinar-se, e, de
repente, uma delas desaparece. Sem explicações. Pura e simplesmente,
apaga o contacto; quebra a única ponte que permitiria ao outro segui-la,
perguntar-lhe ao menos: porquê?
Porque é fácil, indolor para quem
o faz. Porque se aborreceram daquela
pessoa e apareceu outra nova, mais interessante e, assim, não têm de dar
explicações, suportar o olhar desapontado ou destruído do outro. É como um
simples bater de porta, despertar de um sonho, descartar para o lixo. O
fim da empatia possibilitado pelo desastroso colapso das interacções humanas
próximas, abdicar da comunicação não-verbal, da presença, do toque. Quantas vezes somos todos apenas imagens
como outras quaisquer num ecrã? Desenho, fotografia, virtualidade gerada por uma máquina. O cérebro
parece ter cada vez mais dificuldade em distingui-los – e o coração vai atrás.
Com este requinte de maldade, inscrito algures, desde há muito, na condição
humana: que comportamento gera comportamento e, portanto, também este se
propaga cada vez mais. E, aos poucos, de chocante, passa a banal. Fazemo-los uns
aos outros porque, antes, já o fizeram a nós. O próximo que se aguente. Não
seremos nós os tansos a segurar sozinhos, no fim, o estandarte do cuidado.
Não estávamos era à espera que isto tivesse passado tão rapidamente
do Tinder para a liderança da Iniciativa Liberal.
Oito
anos de partido, quatro líderes, a caminho do quinto. Quatro meses depois de
vencer umas eleições internas, dias depois de festejar mais uma subida, mesmo
que ligeira, no número de votos e de deputados nas eleições Legislativas,
também Rui Rocha
sai, essencialmente, porque sim. Sem
aviso prévio, sem grandes explicações. Um email vago na caixa de correio dos
militantes, uma conferência de imprensa depois de uma reunião da Comissão
Executiva. Porque se “abre um novo ciclo político” – para o qual tinha acabado
de se candidatar e ser eleito –, com “uma representação parlamentar
significativamente diferente” – a sério? – e o “desprendimento de quem nunca esteve
agarrado a qualquer lugar”. Certo. Já tínhamos reparado. Mas,
Rui, estar agarrado a um lugar é quando nos querem tirar de lá e nos recusamos
a sair. É quando insistimos em ficar
para lá da hora, passado o prazo de validade. Não é quando dizemos às pessoas
que queremos o lugar, fazemos campanha, as pessoas votam em nós, e depois,
chegamos lá e damos meia-volta. Em algum momento o líder da
Iniciativa Liberal anunciou como grande objectivo destas eleições integrar o
governo? Que, se
falhasse esse objectivo, se demitia? Que, se fossem eleitos os deputados que a
direcção a que ele mesmo preside escolheu, seria melhor arranjar outro?
A Iniciativa Liberal conseguiu
o seu primeiro deputado em 2019, e o então líder, Carlos Guimarães Pinto,
demitiu-se. A Iniciativa Liberal estava em crescimento sustentável em 2022 e o
então líder, João Cotrim de Figueiredo, demitiu-se. A Iniciativa Liberal acaba
de aumentar a sua representação na Assembleia da República, depois de estar já
representada nos quatro parlamentos – nacional, regional dos Açores, regional
da Madeira e Europeu – e o líder, Rui Rocha, demite-se. Sempre,
supostamente, por boas razões. Sempre para “harmonizar ciclos
políticos”, “não ficar agarrado ao lugar”, e sempre para “continuar a andar por
aqui”, como não ocorreu com mais originalidade a Rocha dizer. Dias depois de dar sinais de querer
liderar esse novo ciclo político em Portugal e propor uma revisão
constitucional. Isto é para levar a sério?
Há quem acuse a Iniciativa Liberal de purismo ideológico por nunca ter querido, até hoje, aceitar
coligar-se com ninguém. Discordo. Se um jovem partido como a IL, ainda
para mais representante de um campo político pouco conhecido em Portugal,
tivesse aceitado até aqui apresentar-se a eleições coligado com o PSD ou, pior,
disperso numa AD ou coligação “Novos Tempos”, como a que Carlos Moedas liderou
em Lisboa, não só teria perdido as oportunidades únicas de comunicação de
protagonistas e mensagens que as campanhas eleitorais constituem, como se
teria, muito provavelmente, diluído no todo. Ou
alguém sabe se o Aliança ainda existe? Ou reparou que o PPM foi o partido menos
votado nestas eleições? Ou que mesmo o CDS trocou a sua identidade e autonomia
por uma pulseira de acesso à Assembleia e uns lugares de poder e que, no dia em
que volte a apresentar-se sozinho a eleições, corre o risco de ser levado por
uma corrente de ar?
O problema, até hoje, nunca foi esse. A IL
representa um campo político, o liberalismo, que pode e deve estar representado
no espectro nacional e que tanta falta faz a um país cronicamente burocrata,
centralista, estatizante, demagógico e entrincheirado em velhas lógicas tribais
esquerda-direita que, agora, tantos fazem por recuperar. Nos tempos que vivemos em especial, em
que a direita corre o risco de se dividir entre radicais e uns moderados que
escolham, em nome da sobrevivência, tombar ou para o radicalismo ou para a
tentação de querer equilibrar os pratos da balança abraçando o mesmo
centro-esquerda que agora, órfão, se afunda, é mesmo a direita quem mais
precisa de um partido liberal que mantenha a lucidez e não confunda o que, no
fundo, são apenas dois tipos de estatismo: um mais salazarento, outro mais
soviético. Os mesmos que, até hoje, não deixaram o país ir mais
longe. Mas para isso, Rui, Carlos, João, quem quer que seja a senhora ou senhor
que se segue, precisamos de menos desprendimento, menos ghosting e
mais de quem se queira agarrar ao lugar, sim.
Bem
sei que o partido é liberal, mas o país é antigo e o eleitor também já não vai
para novo. Era capaz de ficar mais confortável com uma relação menos aberta.
COMENTÁRIOS (de 16)
Carlos Chaves: “Bem sei que o partido é liberal,
mas o país é antigo e o eleitor também já não vai para novo. Era capaz de ficar
mais confortável com uma relação menos aberta.” Genial! Mais uma crónica sobre
política que lhe saiu muito bem! Henrique Mota: Apesar da
idade sempre votei liberal. E também apesar das mudanças na liderança , vou
continuar a votar. Não é um partido de pessoas ainda que seja para as pessoas. Coxinho: Autor do artigo com uma visão grande-angular que me pareceu bastante
certeira sobre a IL. José Tomás: Boa crónica. Creio que a principal razão para o
desapego pelos lugares é o facto de os militantes e dirigentes da IL serem pessoas
do mundo real, com profissões e carreiras reais e não ex-jotinhas, que desde os
12 anos vivem para (e, mais tarde) da actividade política". E ainda bem. Paulo Machado: A realidade é
que maioritariamente votamos em pessoas. Quando não gostamos das pessoas
torna-se mais fácil mudar o voto. A IL não
percebe ou não quer perceber este ponto. Faz mal Francisco Almeida: Um artigo bem
construído que teve e terá comentários de apoio e com que não posso estar mais
em desacordo. Pelo menos no que respeita a Rui Rocha. De Cotrim de Figueiredo
ficará sempre a suspeita que a atracção de Bruxelas foi irresistível; só para
Carlos Guimarães Pinto é que apenas sobra o "porque sim". Saltando por cima do liberalismo da IL, que tem problemas e graves, quer no
plano dos costumes quer sobretudo no plano do globalismo e cingindo-me aos
resultados, dificilmente Rui Rocha poderia lidar com o "poucochinho".
Tinha precipitado a saída de Carla Castro sem nada fazer para a segurar. Entre
os 44% que nela votaram contra a indicação de Cotrim de Figueiredo, muitos o
iriam responsabilizar por esse poucochinho. Tanto mais que o activismo
mediático, entre os que queriam enfraquecer a AD e os que queriam diabolizar o
Chega, a IL acabou por ter boa imprensa. Por outro lado, a estratégia de Rui Rocha
foi claramente propor-se para o governo com a AD e antecipar a proposta da
revisão constitucional, tirando protagonismo ao Chega. Montenegro inviabilizou
ambas. Por tudo, ao contrário do que diz o cronista, salientando apenas o
crescimento, que na realidade foi anémico, Rui Rocha falhou em tudo e ficou com
uma liderança vazia e fragilizada. Fez bem em sair. José Paulo Castro: A IL entrou no parlamento na mesma altura que o Chega. O crescimento foi
menor, apenas 1% ao ano face aos 3,5% ao ano do Chega. Para um partido novo que
pretendia ocupar um mesmo espaço político, isto é um certo falhanço,
especialmente porque tiveram um congresso em que separaram as águas e correram
com pessoas da corrente mais conservadora e que foram, muitas delas, engrossar
as fileiras do Chega. Feita essa clarificação, o ritmo de crescimento inicial
diminuiu. Talvez achem que o problema é uma questão de liderança. Daí a rotação
de líderes. A verdadeira questão foi esse purismo ideológico ter limitado o
espectro do eleitor da IL. Ficaram um nicho. A partir daqui, só podem crescer
com eleitorado liberal que ainda vote útil na AD e que eventualmente passe a
achar que isso já não faz sentido. Uma coligação com a AD seria sempre um
suicídio.
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