quinta-feira, 26 de junho de 2025

Honestidade nos dizeres


Donde o medo arredou, mas a sedução da escrita de traço certeiro permanece, o que nos traz felicidade, na ânsia, jamais perdida, de uma nova escola de retoma de valores. Pátrios. Mas os comentadores, rígidos no preconceito e tantas vezes deselegantes na sua expressão, preferem lançar a pedrada da sua virtude parcelar.

Impressões

Luís Montenegro sente-se politicamente confortável no seu “centro” e no seu enlevo com o centro-esquerda. Mas daí até à direita radical do Chega... quem está? Ninguém, pois não?

MARIA JOÃO AVILLEZ, sJornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 25 jun. 2025, 00:2254

1Saiu-se bem, já se antecipava. O parlamento é o seu palco. Poucos se movem tão bem no jogo parlamentar como Luís Montenegro, a troika encarregou-se de o treinar, a verve fez o resto. E além disso – já se tomou nota – tem sorte: estreia-se no seu governo “verdadeiro” (o outro também foi um treino) com um PS desfeito; com Ventura a tomar o pulso a si mesmo e a valsar entre as suas duas peles, a de grande sabotador e a de líder da oposição; e uma extrema-esquerda a quem já só resta o sempre generoso oxigénio da media, agora já com um ranço de 50 anos.

Ficou igualmente claro que na nova “aliança do meio” – que designação, credo continua a simpatizar-se muito com o PS, a ignorar a direita e a detestar a direita radical do Chega. São escolhas. Só não sei se serão politicamente as mais acertadas. Sei apenas que não parecem.

2É por estas e por outras preferências que a seis meses das eleições presidenciais não há um candidato de direita (nem de esquerda, de resto). Moram todos no centrão: convergiram para lá, com decisão, assertividade, convicção, às vezes até mesmo como uma espécie de volúpia apressada como se temessem ser “vistos” noutro lugar político que não aquele. Uma coisa esquisitíssima. Há meio século que o centrão impera muito para lá das grandes questões do Estado sempre (felizmente!) conduzidas por um naturalmente assumido consenso entre PS e PSD. Sim é verdade que também se lhe deve – ao centrão – algumas bem andadas etapas desta nossa história recente mas o que é demais é excessivo como diz o suposto sábio povo.

Montenegro devia pensar nisto e não, não estou a pensar no Chega. Há mais direita e nem uma nem outra se confundem.

3Tenho a impressão que o breve intermezzo que se segue talvez venha a propósito: a direita nunca teve direito de cidade numa democracia com 49 de idade: a “democracia” da esquerda não a contemplava e menos a merecia. E por isso a direita que verdadeiramente existiu – com Sá Carneiro e com Passos Coelho – foi sempre à sua exclusiva custa e rodeada de “inimigos” como as ilhas pelo mar: a media sempre a execrou; as oposições ou lhe fechavam a porta na cara – eram votos de “segunda” ou por “engano” – ou praticavam a suspeita como regra; a rua regurgitava de gente com uma ira orquestrada contra qualquer medida. E o ar do tempo poluía-se automaticamente com falsas narrativas, certezas inventadas, fantasiosos temores. (Por vezes, tenho até outra impressão: a de que desde Abril de 74 grande parte da comunicação social me lembra a Torre de Pisae lembra com verosimilhança: há uma torre em Itália que nunca se endireitou, há séculos que existe inclinada para o mesmo lado. Mas isto seria outra história.)

4O meu ponto é que ainda há uma parte do país que continua a olhar a direita como um estorvo ou uma intrusa. Qual Portugal? O da “esquerda-dona”. Dona da influência mediática, do pensamento, das escolhas, das nomeações”, da cultura”. E claro, dona do 25 de Abril, a direita que fique com o 25 de Novembro. (Que ignorância, santo Deus, do que foi um e o outro).

E depois, espantosamente, há ainda uma parte considerável de portugueses que “prefere” não ser de direita — sendo-oe clamando ser de “centro”: mas o que é o centro como lugar e conceito se não estiver escorado politicamente à sua direita e em articulação com ela? A sua única razão de ser no xadrez político só é justificada por essa ligação à sua direita (ou a sua esquerda, mas agora é da primeira que falo). E nada disto – mas é sempre preciso repeti-lo – tem nada a ver com o Chega, Ventura e os seus não cabem na geometria a que aludo: estão fora dela, ocupados em full time a dinamitá-la até atingir o único objectivo que os move: substituí-la. Ventura sabe que será sempre preciso ampliar mais e mais a direita radical, a que o seu partido professa e pratica, o que significa assassinar politicamente o PSD. Ou deixá-lo numa deliquescência irreversível.

5Aparentemente Luís Montenegro sente-se politicamente confortável no seu “centro” e é de lá que parte para o centro esquerda, sempre enamorado por ele. E consequentemente com os olhos (quase) só ali postos. Exagero? Admito. Mas o exagero parte sempre de uma “verdade” que intencionalmente se amplia.

Em resumo, entre o centro do PSD e o seu enlevo com o centro-esquerda e a direita radical do Chega… quem está?

6Vou ficar à janela à espera da Reforma do Estado, neste seu enésimo remake, mas baterei palmas se ela passar por mim.

No entanto, uma impressão (outra!): há gente na equipa de Gonçalo Matias para tratar da “simplificação”, da “digitalização”, da “articulação” e da “responsabilização”. Grandes objectivos, nobres tarefas. Exigem tempo, discernimento, critério. Mas onde está, que não o vejo, o “alguém” que trate por tu a tóxica máquina do Estado? Que a conheça como a palma da mão e possua a fértil experiência de saber lidar com a administração pública e o seu cortejo de horrores burocráticos de vária e pesada natureza? Que se mexa como peixe e autoridade própria na água, nadando entre os tentáculos estatais, gastos, embrutecidos, anquilosados, fora de prazo? Há? Óptimo. Fiquei com isto na cabeça, posso até estar enganada, mas foi como quem de repente repara que falta uma peça num puzzle que se dava como pronto e afinal não estava acabado.

Seja como for acredito que o maestro titular desta com dificílima peça, Gonçalo Matias, conheça as complexas partituras que vai reger; tenha a agilidade dessa regência nos seus (múltiplos) andamentos, e tudo dirija como se de cada acorde dependesse a sua vida. É pedir muito? É. Mas… e que tem feito o Estado senão pedir-nos a pele, o osso e o dinheiro?

(No último fim de semana estive com um amigo do norte cujas terras estão há doze anos para ser divididas entre a sua família, mas a grande burocracia, os poderes intermédios e os pequenos corruptos locais não têm deixado. Quantos anos mais faltam para que deixem?)

PS: Há o mérito de se ser bom, depois melhor, depois o melhor. Passando a ter lugar cativo no relvado imaginário de uma espécie de onze nacional dos “melhores de todos”. É o caso de António Pires Lima. Testemunhei profissionalmente muitos dos seus passos, entrevistei-o mais de uma vez, pude observar a marca que deixou como servidor da politica – deputado, autarca, dirigente, ministro; e reter o talento do empresário no que dirigiu, ampliou ou levou à glória. O prémio que recebeu ontem na Universidade Católica distinguindo anualmente a carreira de ex-alunos de Economia e Gestão foi o selo de garantia. Tenho a impressão de que não vale a pena acrescentar que “foi muito merecido”.

POLÍTICA      LUÍS MONTENEGRO

COMENTÁRIOS (de 54):

MIGUEL SEABRA: Votou na mudança e Montenegro dá-lhe mais do mesmo. Só é primeiro-ministro graças ao crescimento do Chega, caso contrário teríamos nova geringonça. E continua a apostar no esvaziamento do Chega, estratégia que tem falhado sucessivamente. O povo sente-se enganado….

Paulo Almeida: Maria João a afirmar logo que o Montenegro foi brilhante como parlamentar. Para tentar escrever a história. O que não tem coragem é para admitir que o Montenegro fez parceria com o Presidente da Assembleia para bloquear o projecto-lei do Chega, para ele poder anunciar com pompa a sua proposta de lei que é praticamente idêntica. Mudou uns pintelhos e acena que isso é que faz o dele robusto a nível de constitucionalidade e o do Chega não. Que meninos. E a autora assina por baixo esta forma medíocre de fazer política. Estão lá há 1 ano e nada apresentaram. No dia útil seguinte ao Chega apresentar um projecto, aparece um praticamente igual.  E só acham que o deles é melhor na parte da perda de nacionalidade porque atiram para o Tribunal a decisão de retirar a nacionalidade, ao invés de legislarem perda automática da nacionalidade. Na prática, não se querem responsabilizar por nada, mas querem anunciar. Então depois cada comarca decide à sua maneira se fulano deve perder nacionalidade ou não? Ridículo. Não há pulso nem rumo neste Governo para o controlo da imigração. No ano passado chumbaram todos os projectos-lei do Chega, até o de limitar o nº de pessoas que podem viver numa casa, veja-se bem. Chumbaram quotas, tudo. Agora saem-se com um projecto que é cópia do que o Chega tem andado a dizer. A bomba da imigração vai-lhes explodir em cima.                       Maria Emília Ranhada Santos: A Maria João faz questão de vincar que o Chega é de direita radical! Muito triste e apenas a denuncia a si, querida articulista! A direita e a direita radical! E a Maria João donde é? Da esquerda ou da esquerda radical? Sabe uma coisa? Quantas mais pessoas cuja opinião quase nada conta, como a da Maria João Avillez, melhor, pois é porque existem muitas outras pessoas que vêem o Ventura e o Chega como aqueles que chegaram para salvar Portugal! Viva o André Ventura e o Chega e todos os deputados e apoiantes deste grande grande partido!                 Pedro Correia: A senhora "jornalista", que vive numa bolha muito restrita e confinada a onde muito poucos têm acesso, continua sem perceber, que à direita do ps2 há o CHEGA. A direita, entre o ps2 e o CHEGA que ela diz existir, afinal quem é?! Onde está? Será que está a falar da IL?! Se é desses que está a falar, esses não têm força para nada. São como o CDS, de onde eu venho. A direita em Portugal é protagonizada pelo CHEGA, goste-se ou não. Queriam outros? Paciência. Habituem-se. Velhos são os trapos, mas a senhora "jornalista", devia começar a pensar em arrumar a pena. Anda sempre fora da realidade e quase sempre mal informada, basta vê-la na SIC, sempre a ser corrigida pelo mano Costa. É o que faz viver na bolha.             João Floriano > Ricardo Ribeiro: Junte-me ao grupo.               Ricardo Ribeiro: Congratula-se que os 3 candidatos principais que já se apresentaram à corrida para as presidenciais, identificam-se com o centrão. Eu suspeito que há muita gente que não se identifica com algum deles... inclusive eu.          Tim do A: Montenegro é socialista. E radicais são os Wokes da AD.               Luis Santos: Partidos radicais em Portugal só conheço os moribundos PCP -BE -LIVRE e PAN               Maria Cordes: O Chega nada tem de direita radical, pelo menos os seus votantes, que não são pobrezinhos de Cristo, são remediados, têm curso superior anterior aos mestrados, lêem jornais, viajam para longínquas paragens, lêem livros de jornalistas reputados, como o Robert Fisk, não fazem bombas caseiras, nem assassinam ninguém. Radical, era o novo santo da esquerda, o Mouta Liz. Também votou Chega uma classe trabalhadora, com estórias de emigração, e que são exemplo ético para políticos que ambicionam ter várias casinhas, com piscininha e elevador. Portugal, de todas as classes sociais uniu-se para votar Chega, e não gosta de ser depreciado pelo governo, e que lhe chamem epítetos, que não colam                    joão barbosa > GateKeeper: Já começa a ser habitual. Dantes valia a pena ler, agora faz dó                vitor gonçalves > António Lamas: Chega= coragem, coisa que o PS2 nunca teve.                  João Floriano: Em resumo, entre o centro do PSD e o seu enlevo com o centro-esquerda e a direita radical do Chega… quem está? Parece-me que a resposta lógica será o centro direita que se encontra como reserva, à espera, no PSD. Se Montenegro falhar, será essa reserva que entra em acção, até porque nesse caso o CHEGA vai subir novamente. Maria João Avillez insiste em classificar o CHEGA de direita radical. Neste uso da palavra aproxima-se curiosamente da extrema-esquerda que também usa o termo de forma pejorativa.               GateKeeper: Lixo.                Komorebi Hi: Não consigo por mais que me esforce, ler mais que um ou dois parágrafos dos artigos desta senhora que se apresenta como jornalista, causa náusea e cansaço, cada um igual ao anterior, sendo doentio o elogio a quem ainda nada mostrou. Ainda não percebeu que a sua opinião não conta fora da redoma onde vive. É assim o ocaso de quem não quer perceber, nem quer saber o que realmente se passa fora do seu pequeno mundo.                 António Lamas: Ao contrário MJA, Entre o PSD e o CHEGA está a maioria do país. A "Torre de Pisa" da comunicação social e do comentariado vendido, analfabeto e ignorante é que a despreza e destrata permanentemente. Montenegro está a fazer o que deve ser feito. Dar passos pequenos a ocupar esse espaço, esvaziando a extrema-direita (Chega nem sequer é isso, é um entertainer de "one man's band" ). Depois de Passos Coelho ter dado o corpo às balas para reparar as asneiras do PS, Montenegro tem as condições para reparar asneiras de 50 anos do" Centrão"                      unknown unknown: O PSD não é um partido de direita, basta este pressuposto para toda a análise ser diferente!                  Mario Figueiredo: Custa-me um bocado ver a Maria João Avillez tão empenhada da discussão da existência de uma direita em Portugal, sem fazer qualquer esforço para nos dizer que direita é essa exactamente. E por causa disso espalha-se ao comprido, vendo buracos onde não os há. Os termos Direita e Esquerda não fazem qualquer sentido nos tempos modernos. É uma categorização antiquada, provada falsa ao longo de décadas, redutora, simplória, e que hoje serve apenas para manter a narrativa binária do Nós Contra Eles. A dicotomia esquerda-direita é hoje uma ferramenta ao serviço do populismo. A verdade é que o ideário político é muito mais complexo e facetado. A IL é absolutamente de esquerda no seu liberalismo social e de direita no seu liberalismo económico. O Chega é populismo no seu estado mais puro, é sempre difícil de categorizar. Tem tantas coisas de esquerda bloquista, como de direita conservadora do, sei lá, o CDS do Manuel Monteiro. O PSD não é nada, e continua a ser o partido português sem qualquer ideologia ou consistência. O PCP é socialmente conservador, se calhar é de direita. O Bloco é o que temos mais à esquerda, prontos. O PAN é uma aberração de causa única, deveríamos ter leis contra absurdos destes. O PS é o irmão do PSD quando se sente mais à esquerda. Sei lá... Até se pode discordar do que digo. Pouco interessa, porque não existe uma definição que se aplique à organização partidária contemporânea. Portanto como etiquetas, esquerda-direita não têm qualquer utilidade. Para sentar deputados numa assembleia da república seria preciso hoje uma organização das cadeiras num sistema cartesiano. E mesmo assim iríamos encontrar dificuldades. A organização partidária moderna é um mini-forum das nações, onde cada partido se representa a si, tem alguns aliados e inimigos preferenciais, quase sempre por razões mais prosaicas de partilha de território e recursos. A ideologia partidária tem seguramente ainda o seu papel nas relações. Mas há muito tempo que não é nem Esquerda nem Direita. E aqueles partidos que mais usam estes termos como argumento político, podem-se definir como sendo também populistas, para além de qualquer outra ideologia que professem.            Americo Magalhaes > Pedro Correia: Caro Pedro , MJA tem medo de lhe faltarem as mordomias do Triangulo das Bermudas, Lisboa-Cascais-Lisboa "

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