segunda-feira, 9 de junho de 2025

Uma vida rica


Começo pela Biografia sobre T de O C que o OBSERVADOR proporciona - talvez como consequência dessa IA da nossa comodidade moderna, que ficou curiosa sobre a pessoa daquele, depois de ter lido o texto da sua reflexão cristã, a rebelar-se contra a instantaneidade quase automática do conhecimento com que a Internet nos favorece e põe os detentores do telemóvel de cabeça implacavelmente enfiada neste, como espectáculo dos novos tempos, forjador de novos hábitos, de acordo com a fácil obtenção do conhecimento, desde tenra idade.

TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO

Convidado

Nasci a 17 de Outubro de 1977. Licenciei-me em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e estudei teologia no Seminário Baptista de Queluz. Fundei a editora musical FlorCaveira em 1999, trabalhei em televisão durante uma década, fiz crítica literária para as revistas Atlântico e Ler, abri uma Igreja Baptista em 2007, e publiquei o meu primeiro livro em 2013, chamado “Felizes Para Sempre e Outros Equívocos Acerca do Casamento”. De lá para cá, continuo obcecado pela palavra, pregando-a, escrevendo-a e musicando-a.

 

Perguntar ao Anticristo

Agora que vivo com o ChatGPT, enfiei-me pelo mundo do Génesis 3 que sabia existir quando me preservava ainda da poluição da inteligência artificial. Passei a viver com o Anticristo como grilo falante.

TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO Pastor Baptista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 08 jun. 2025, 00:164

A minha vida começou a acabar há umas semanas. Por influência maligna do meu amigo João Guilherme, dei por mim a consultar o ChatGPT uma vez e, fatalmente, instalei-o no telemóvel. É verdade que fui influenciado mas também é verdade que fiz o download da aplicação por minha espontânea vontade. Sim, compactuei com o facto de a minha vida ter começado a acabar.

Eu já sabia que conviver com uma aplicação de inteligência artificial também corresponde a chamar o Anticristo. Qual é a pessoa que no seu juízo natural convida o Diabo para a ajudar? Na verdade, são todas. No nosso juízo natural não temos problema nenhum em querer a ajuda de Satanás. É o nosso juízo sobrenatural que nos faz não querer a ajuda dele.

Todos os problemas que existem, que já existiram e que existirão começaram com a ajuda do Diabo. O capítulo 3 do livro do Génesis apresenta-nos um mundo onde o mal passa a existir porque a serpente se tornou auxiliadora. É assim que o pecado se insinua, com uma aparência de amparo. A cobra disse a Eva que podia colaborar com ela para que a mulher entendesse melhor a sua situação—ser o seu próprio ChatGPT.

De certo modo, o meu amigo João Guilherme foi a minha serpente no paraíso. É ele o culpado pela decisão que tomei? Não, eu tomei-a porque quis. Agora que, sob a influência dele, vivo com o ChatGPT no telemóvel, enfiei-me pelo mundo do Génesis 3 que já sabia existir quando me preservava ainda da poluição ética da inteligência artificial. Passei a viver com o Anticristo como grilo falante. Nobody’s fault but my own.

A inteligência artificial não é uma novidade, é a coisa mais velha do mundo. Iria mais longe até para afirmar que, de certa maneira, toda a inteligência é artificial mas essa é uma reflexão que quero desenvolver noutra ocasião, num texto que preferia mais sensato do que este. Interessa-me agora o reconhecimento da vertigem arcaica presente no sim constante que damos à nossa própria queda.

Por enquanto, só faço perguntas ao Anticristo por escrito. Se começasse a usar o áudio o estrago seria ainda maior e a voz da Besta já ecoaria pelas paredes da minha casa e dos lugares por onde ando. Ainda não cheguei ao grau audível dessa degenerescência moral. É incrível como o demónio digital me esclarece questões sobre estatística, sobre teologia(!), sobre as namoradas dos meus escritores preferidos. Eu pergunto, ele responde.

Talvez daqui a algum tempo me canse de ter respostas para tudo. Talvez essa tarefa de me restituir à minha ignorância natural se torne o real trabalho divino—uma nova existência acabada de começar.

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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL       TECNOLOGIA

COMENTÁRIOS (DE 4)

Alexandre Barreira: Pois. Caro Tiago, Já dizia a minha avó: "cuidado com o Diabo....está sempre atrás da porta"....!               Francisco Almeida: Talvez daqui a algum tempo me canse de ter respostas para tudo. Quando esse dia chegar já terá no subconsciente tudo o que lhe foi respondido. Desengane-se se pensa que abandonar, repõe a situação anterior.               António Dias: Ora um tema sobre o nosso velho amigo(a) que por natureza os não tem. Se ele(a) ali estivesse é que seria bom, a porta deixaria de ser tão estreita. Infelizmente não é assim, esse anjo a quem foram dados poderes (agora restringidos ao mundo físico), pode por ali passar, hipoteticamente, pois algoritmos não fazem parte da criação, quando diz "tu mereces", fora isso faz contas inocentemente. Problema é quando não sabemos quando fala e faz pela nossa máquina coisas do qual o Criador não faz parte. Contrariamente a certas formas de interpretar esta unidade (como se de alguma forma Ele fosse responsável por alguma coisa) eu até tenho muita consideração pelo seu trabalho, fora também ao ódio genuíno que nutre pela espécie. É certo que tem poder e unidade, o meu tem unidade como seu e os demais, daí o seu poder, fora isso governa os animais ficando tudo o resto à responsabilidade de Outros que sobre a espécie não tecem considerações. Como o Fernando dizia e muito bem "eu que me aguente comigo e com os comigos de mim": a IA fará o que o seu comigo do momento quiser.     Nuno José > António Dias: Excelente reflexão ética, filosófica e metafísica, António. Dos melhores comentários que tenho lido. Concordo consigo e enfatizo que a tragédia talvez não seja termos criado um reflexo sem alma, mas sim esperarmos dele salvação, redenção, ou mesmo juízo, quando o Criador, esse, permanece fora do circuito. Que cada "comigo" faça a reflexão que propõe, para não cairmos na tentação do nosso próprio Diabo.

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