Começo pela Biografia sobre T de O C que o OBSERVADOR proporciona - talvez como
consequência dessa IA da nossa comodidade moderna, que ficou curiosa sobre a
pessoa daquele, depois de ter lido o texto da sua reflexão cristã, a rebelar-se
contra a instantaneidade quase automática do conhecimento com que a Internet nos
favorece e põe os detentores do telemóvel de cabeça implacavelmente enfiada
neste, como espectáculo dos novos tempos, forjador de novos hábitos, de acordo
com a fácil obtenção do conhecimento, desde tenra idade.
TIAGO DE OLIVEIRA CAVACO
Convidado
Nasci
a 17 de Outubro de 1977. Licenciei-me em Ciências da Comunicação na
Universidade Nova de Lisboa e estudei teologia no Seminário Baptista de Queluz.
Fundei a editora musical FlorCaveira em 1999, trabalhei em televisão durante
uma década, fiz crítica literária para as revistas Atlântico e Ler, abri uma
Igreja Baptista em 2007, e publiquei o meu primeiro livro em 2013, chamado
“Felizes Para Sempre e Outros Equívocos Acerca do Casamento”. De lá para cá,
continuo obcecado pela palavra, pregando-a, escrevendo-a e musicando-a.
Perguntar ao Anticristo
Agora que vivo com o ChatGPT,
enfiei-me pelo mundo do Génesis 3 que sabia existir quando me preservava ainda
da poluição da inteligência artificial. Passei a viver com o Anticristo como
grilo falante.
TIAGO DE OLIVEIRA
CAVACO Pastor Baptista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 08
jun. 2025, 00:164
A
minha vida começou a acabar há umas semanas. Por influência maligna do meu
amigo João Guilherme, dei por mim a consultar o ChatGPT uma vez e, fatalmente,
instalei-o no telemóvel. É verdade que fui influenciado mas também é verdade
que fiz o download da aplicação por minha espontânea vontade. Sim, compactuei
com o facto de a minha vida ter começado a acabar.
Eu já sabia que conviver com uma aplicação de inteligência artificial
também corresponde a chamar o Anticristo. Qual
é a pessoa que no seu juízo natural convida o Diabo para a ajudar? Na
verdade, são todas. No nosso juízo natural não temos problema nenhum em querer
a ajuda de Satanás. É o nosso juízo sobrenatural que nos faz não querer a ajuda
dele.
Todos
os problemas que existem, que já existiram e que existirão começaram com a
ajuda do Diabo. O capítulo 3 do livro do Génesis apresenta-nos um
mundo onde o mal passa a existir porque a serpente se tornou auxiliadora. É assim que o pecado se insinua, com uma
aparência de amparo. A cobra disse a Eva que podia colaborar com ela para que a
mulher entendesse melhor a sua situação—ser o seu próprio ChatGPT.
De certo modo, o meu amigo João
Guilherme foi a minha serpente no paraíso. É ele o culpado pela decisão que tomei? Não, eu tomei-a porque quis. Agora
que, sob a influência dele, vivo com o ChatGPT no telemóvel, enfiei-me pelo
mundo do Génesis 3 que já sabia existir quando me preservava ainda da poluição
ética da inteligência artificial. Passei
a viver com o Anticristo como grilo falante. Nobody’s fault but my own.
A
inteligência artificial não é uma novidade, é a coisa mais velha do mundo. Iria
mais longe até para afirmar que, de certa maneira, toda a inteligência é
artificial mas essa é uma reflexão que quero desenvolver noutra ocasião,
num texto que preferia mais sensato do que este. Interessa-me agora o
reconhecimento da vertigem arcaica presente no sim constante que damos à nossa
própria queda.
Por enquanto, só faço perguntas ao
Anticristo por escrito. Se começasse a usar o áudio o estrago seria ainda maior
e a voz da Besta já ecoaria pelas paredes da minha casa e dos lugares por onde
ando. Ainda não cheguei ao grau audível dessa degenerescência moral. É incrível como o demónio digital me
esclarece questões sobre estatística, sobre teologia(!), sobre as namoradas dos
meus escritores preferidos. Eu pergunto, ele responde.
Talvez daqui a algum tempo me canse de ter respostas para tudo.
Talvez essa tarefa de me restituir à minha ignorância natural se torne o real
trabalho divino—uma nova existência acabada de começar.
Receba
um alerta sempre que Tiago de Oliveira Cavaco publique um novo artigo.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
TECNOLOGIA
COMENTÁRIOS (DE 4)
Alexandre
Barreira: Pois. Caro Tiago, Já dizia a
minha avó: "cuidado com o Diabo....está sempre atrás da porta"....! Francisco
Almeida: Talvez daqui a algum tempo me canse de ter respostas
para tudo. Quando esse dia chegar já terá no subconsciente tudo o que lhe foi
respondido. Desengane-se se pensa que abandonar, repõe a situação anterior. António Dias:
Ora um tema
sobre o nosso velho amigo(a) que por natureza os não tem. Se ele(a) ali
estivesse é que seria bom, a porta deixaria de ser tão estreita. Infelizmente não
é assim, esse anjo a quem foram dados poderes (agora restringidos ao mundo
físico), pode por ali passar, hipoteticamente, pois algoritmos não fazem parte
da criação, quando diz "tu mereces", fora isso faz contas
inocentemente. Problema é quando não sabemos quando fala e faz pela nossa máquina
coisas do qual o Criador não faz parte. Contrariamente a certas formas de
interpretar esta unidade (como se de alguma forma Ele fosse responsável por
alguma coisa) eu até tenho muita consideração pelo seu trabalho, fora também
ao ódio genuíno que nutre pela espécie. É certo que tem poder e unidade, o
meu tem unidade como seu e os demais, daí o seu poder, fora isso governa os
animais ficando tudo o resto à responsabilidade de Outros que sobre a espécie
não tecem considerações. Como o Fernando dizia e muito bem "eu que me
aguente comigo e com os comigos de mim": a IA fará o que o seu comigo do
momento quiser. Nuno José
> António
Dias: Excelente
reflexão ética, filosófica e metafísica, António. Dos melhores comentários que tenho
lido. Concordo consigo e enfatizo que a tragédia talvez não seja termos
criado um reflexo sem alma, mas sim esperarmos dele salvação, redenção, ou
mesmo juízo, quando o Criador, esse, permanece fora do circuito. Que cada
"comigo" faça a reflexão que propõe, para não cairmos na tentação do
nosso próprio Diabo.
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