Feito do sabor a fina
sátira, este de disputa alimentar que nos conceitua não ao nível de uma
qualquer abstracção de intelectualidade enaltecedora, mas antes nos precipita
no grotesco da definição gastronómica abrangente de todo um povo, até aqui estagnada
no “lá vai a jibóia esmoer”
queirosiano de orientação, então, puramente sacerdotal. Bem sardónico o
descritivo do P. João Basto, que assim vinga
a sua classe, generalizando-o a todo um povo comilão de sarrabulho - e assim corroborando
a opinião displicente de MARIA FILOMENA MÓNICA no livro da oferta do Ricardo ao
Vitorino, pelo seu recente aniversário, e que ando a ler com entusiasmo –“Uma longa viagem com MFM” de JOÃO CÉU E
SILVA – o qual bem patenteia os traços do nosso incorrupto atraso
espiritual de todo o sempre, (segundo o pensamento de MCG), cingidos, no caso
presente, ao sarrabulho da nossa predilecção glutona.
Sarrabulho é
melhor que Paella
Afinal de contas, a vida acarreta um
sacrifício. Cozinhamos o que se mata. Comemos o que sobra. Portugal - talvez -
não nasceu em Guimarães, em Aljubarrota ou no Largo do Carmo. Mas numa cozinha.
P. JOÃO BASTO Sacerdote, membro da equipa
formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo
OBSERVADOR, 13
jun. 2025, 00:18
1A história está cheia de polarizações e
guerras culturais. Sócrates
combateu os sofistas. O Capitalismo, o Marxismo. O Protestantismo, o
Catolicismo. Do mesmo modo, consta que os epicuristas e os
estoicistas não morriam de amor uns pelos outros. E que correntes como o
averroísmo, o neoplatonismo e o nominalismo eram tidas como “ideologias”
radicais, abraçadas por algumas elites, enquanto seduziam “o povo”, contra o status quo. O próprio Cristianismo
promoveu e desenvolveu disputas intelectuais importantes, e a isso devemos, por
exemplo, as obras de Justino, Tertuliano ou Orígenes, fruto do confronto com o paganismo. Está, por
isso, errado quem atribui à polarização a origem de todos os males do mundo, ou
se apressa a condenar as guerras culturais como fonte de violência.
Tal
como nos confrontos já citados, o problema não é, nem nunca foi, a tensão, mas
a simplificação. O perigo não está na polarização, mas na sua
esterilização. Se os
insultos entre epicuristas
e estoicistas, no mundo
clássico, nem sempre derivaram de leitura mútua, mas de
panfletos e ressentimentos pessoais, as actuais
problematizações sobre o
género, a cultura de cancelamento, o racismo e a liberdade assentam,
o mais das vezes, num conjunto de lugares-comuns, de generalizações e
condensados cheios de bolor. Muitas vezes não se tratam de guerras culturais, mas
de falsificações da humanidade.
Ela e o Mundo – essa prestigiada entidade filosófica, que adorna títulos e coroa
discursos – são, também, um combate, uma dissensão, um duelo e um embate. E esse, não é o problema.
2No passado Domingo, durante a final da
Liga das Nações, um adepto levou para o estádio um cartaz que se tornou
popular. Nele não se pedia uma camisola ou um gesto de proximidade de um
qualquer jogador. Dizia-se, simplesmente, “sarrabulho
é melhor que paella”. Algo ainda mais curioso, quando estamos na
semana em que comemoramos o 10 de Junho.
Sobre Portugal, atribui-se a
Eduardo Lourenço a ideia satírica de que se trata de um país com excesso de
identidade; com demasiada psicanálise. E eis que aquele cartaz, erguido no
Allianz Arena, parece suspenso contra essa febre nacional. Nele não há o “labirinto
da saudade”, a exaltação ou desmerecimento de feitos pátrios, ou a citação sem
contenção de poetas e pensadores. Há, ao invés, um Portugal acessível,
directo, provocador. Um país imediato, sem discussões, sem tempo para lérias e remoques. Um “deixem-se de tretas”. A possibilidade de
uma identidade sem polarizações encomendadas ou vícios de linguagem. O Portugal
que é, finalmente, “só três sílabas”.
Ao longe, aquela frase parece um disparate. De perto, é tão poderosa
como um desarmamento.
3O sarrabulho, sabemo-lo bem, não é um prato de
turistas. É escuro,
espesso, com cheiro à morte do porco, à navalha na garganta e ao sangue
escorrido para o alguidar. A
paella é vistosa, flexível, cosmopolita,
inclusiva. É feita
num recipiente largo, aberto. O sarrabulho, ao invés, naquele tacho estreito, fechado, também
escuro, colocado ao fundo do armário. A paella aceita o improviso, admite variações,
acomoda-se. O sarrabulho há que merecê-lo, impõe -se, e “se não gostas, paciência”. Não é sol. É dia de nevoeiro, que nos esfrega na cara, a sobrevivência.
É um modo de cuidar da natureza. Pressupõem uma morte preparada, ritualizada,
tão grande como um funeral. Rejeita o comércio e a transformação industrial da
criação. Ordena que nada se estrague.
Afinal de contas, a vida acarreta um
sacrifício. Cozinhamos o que se mata. Comemos o que sobra. E a mais filosófica das afirmações
começa, na verdade, numa colher de pau, num tacho ao lume. Porque, talvez,
Portugal não nasceu em Guimarães, em Aljubarrota ou no Largo do Carmo. Mas numa
cozinha.
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