sexta-feira, 13 de junho de 2025

Um autêntico prato


Feito do sabor a fina sátira, este de disputa alimentar que nos conceitua não ao nível de uma qualquer abstracção de intelectualidade enaltecedora, mas antes nos precipita no grotesco da definição gastronómica abrangente de todo um povo, até aqui estagnada no “lá vai a jibóia esmoer” queirosiano de orientação, então, puramente sacerdotal. Bem sardónico o descritivo do P. João Basto, que assim vinga a sua classe, generalizando-o a todo um povo comilão de sarrabulho - e assim corroborando a opinião displicente de MARIA FILOMENA MÓNICA no livro da oferta do Ricardo ao Vitorino, pelo seu recente aniversário, e que ando a ler com entusiasmo –“Uma longa viagem com MFM” de JOÃO CÉU E SILVA – o qual bem patenteia os traços do nosso incorrupto atraso espiritual de todo o sempre, (segundo o pensamento de MCG), cingidos, no caso presente, ao sarrabulho da nossa predilecção glutona.

Sarrabulho é melhor que Paella

Afinal de contas, a vida acarreta um sacrifício. Cozinhamos o que se mata. Comemos o que sobra. Portugal - talvez - não nasceu em Guimarães, em Aljubarrota ou no Largo do Carmo. Mas numa cozinha.

P. JOÃO BASTO Sacerdote, membro da equipa formadora do Seminário Diocesano de Viana do Castelo

OBSERVADOR, 13 jun. 2025, 00:18

 

1A história está cheia de polarizações e guerras culturais. Sócrates combateu os sofistas. O Capitalismo, o Marxismo. O Protestantismo, o Catolicismo. Do mesmo modo, consta que os epicuristas e os estoicistas não morriam de amor uns pelos outros. E que correntes como o averroísmo, o neoplatonismo e o nominalismo eram tidas como “ideologias” radicais, abraçadas por algumas elites, enquanto seduziam “o povo”, contra o status quo. O próprio Cristianismo promoveu e desenvolveu disputas intelectuais importantes, e a isso devemos, por exemplo, as obras de Justino, Tertuliano ou Orígenes, fruto do confronto com o paganismo. Está, por isso, errado quem atribui à polarização a origem de todos os males do mundo, ou se apressa a condenar as guerras culturais como fonte de violência.

Tal como nos confrontos já citados, o problema não é, nem nunca foi, a tensão, mas a simplificação. O perigo não está na polarização, mas na sua esterilização. Se os insultos entre epicuristas e estoicistas, no mundo clássico, nem sempre derivaram de leitura mútua, mas de panfletos e ressentimentos pessoais, as actuais problematizações sobre o género, a cultura de cancelamento, o racismo e a liberdade assentam, o mais das vezes, num conjunto de lugares-comuns, de generalizações e condensados cheios de bolor. Muitas vezes não se tratam de guerras culturais, mas de falsificações da humanidade. Ela e o Mundo – essa prestigiada entidade filosófica, que adorna títulos e coroa discursos – são, também, um combate, uma dissensão, um duelo e um embate. E esse, não é o problema.

2No passado Domingo, durante a final da Liga das Nações, um adepto levou para o estádio um cartaz que se tornou popular. Nele não se pedia uma camisola ou um gesto de proximidade de um qualquer jogador. Dizia-se, simplesmente, “sarrabulho é melhor que paella”. Algo ainda mais curioso, quando estamos na semana em que comemoramos o 10 de Junho.

Sobre Portugal, atribui-se a Eduardo Lourenço a ideia satírica de que se trata de um país com excesso de identidade; com demasiada psicanálise. E eis que aquele cartaz, erguido no Allianz Arena, parece suspenso contra essa febre nacional. Nele não há o “labirinto da saudade”, a exaltação ou desmerecimento de feitos pátrios, ou a citação sem contenção de poetas e pensadores. Há, ao invés, um Portugal acessível, directo, provocador. Um país imediato, sem discussões, sem tempo para lérias e remoques. Um “deixem-se de tretas”. A possibilidade de uma identidade sem polarizações encomendadas ou vícios de linguagem. O Portugal que é, finalmente, “três sílabas”.

Ao longe, aquela frase parece um disparate. De perto, é tão poderosa como um desarmamento.

3O sarrabulho, sabemo-lo bem, não é um prato de turistas. É escuro, espesso, com cheiro à morte do porco, à navalha na garganta e ao sangue escorrido para o alguidar. A paella é vistosa, flexível, cosmopolita, inclusiva. É feita num recipiente largo, aberto. O sarrabulho, ao invés, naquele tacho estreito, fechado, também escuro, colocado ao fundo do armário. A paella aceita o improviso, admite variações, acomoda-se. O sarrabulho há que merecê-lo, impõe -se, e “se não gostas, paciência”. Não é sol. É dia de nevoeiro, que nos esfrega na cara, a sobrevivência. É um modo de cuidar da natureza. Pressupõem uma morte preparada, ritualizada, tão grande como um funeral. Rejeita o comércio e a transformação industrial da criação. Ordena que nada se estrague.

Afinal de contas, a vida acarreta um sacrifício. Cozinhamos o que se mata. Comemos o que sobra. E a mais filosófica das afirmações começa, na verdade, numa colher de pau, num tacho ao lume. Porque, talvez, Portugal não nasceu em Guimarães, em Aljubarrota ou no Largo do Carmo. Mas numa cozinha.

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