Com aparência tristemente irrealista, de tal maneira foge ao equilíbrio
que a condição régia deveria pressupor. E temos pena, intimamente “rezando”
pelo ex-rei sem sorte, de que se foi sempre ouvindo falar, idosos que somos… “Pobrecito!”
Poderá
Juan Carlos voltar a viver em Portugal?
Exilado desde 2020 nos Emirados Árabes,
a imprensa espanhola acredita que o rei emérito tenha recuperado a chamada
"Operação Cascais". Terá sido visto a visitar palacetes na zona do
Estoril.
OBSERVADOR, 29 jun. 2025, 10:008
Depois
de seis dias em Sanxenxo, na Galiza, onde participou na regata do Troféu
Xacobeo de vela, a 22 de junho Juan Carlos I deixou o aeroporto de Vigo num jacto
privado rumo ao aeroporto de Cascais, uma viagem que fortaleceu os rumores que já circulam na imprensa
espanhola de que o rei emérito de Espanha esteja a planear uma mudança
definitiva para Portugal, depois de cinco anos a viver em Abu Dhabi. A caminhar com dificuldade, respondeu de
forma directa aos questionamentos dos jornalistas sobre a sua saúde: “Estou em
perfeito estado. podem dizer todas as mentiras que quiserem, mas estou óptimo.
Vejam que não vou em cadeira de rodas”, disse,
citado pelo El Mundo.
Juan Carlos já esteve em Sanxenxo
três vezes este ano. Já as visitas a Portugal também são frequentes, e uma das
mais recentes foi para o funeral de Aga
Khan, em fevereiro. Em 2020, ainda antes de ser conhecida a decisão
pelos Emirados Árabes, a imprensa
espanhola escrevia sobre a chamada “Operação Cascais”, em que
Juan Carlos estaria a receber auxílio de nomes como João Manuel Brito e Cunha,
a socialite Lili Caneças e até o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que na
altura chamou as notícias “um disparate”.
▲Juan Carlos
em Lisboa em fevereiro de 2025, no funeral de Aga Khan MIGUEL A.LOPES/LUSA
Agora, fala-se que a operação
poderá ter sido retomada. O recente interesse por mudar-se para Portugal,de acordo com o tabloide espanhol El
Nacional, estaria relacionado como desgastado
estado de saúde do rei emérito e potenciado pela escalada no conflito no Irão,
que para Juan Carlos representava um perigo, já que vive num país próximo.
O jornal avança ainda que o antigo rei de Espanha terá sido visto com a filha
mais velha, a infanta Elena, e outros familiares, a visitar casas no Estoril.
Já o Ok Diário diz mesmo que amigos
próximos poderão ter
disponibilizado palacetes em Cascais ou em Azeitão. Entretanto, nem a Casa Real espanhola nem o rei emérito confirmam a
possível mudança.
Infância no Estoril
Juan Carlos poderá estar a procurar casa em Cascais e Estoril, onde a família viveu entre os anos 1940 e
1950, durante o exílio. O rei emérito nasceu em 1938 em Roma, mas mudou-se para a Vila Giralda, no alto do Monte
Estoril, quando tinha oito anos. Foi onde conheceu Jorge
Arnoso, neto do Conde de Arnoso. “Tínhamos uma vida normal de crianças dessa idade no Estoril e Cascais
da época: passeios de barco na canoa do meu pai, jogos de futebol, etc. Quando
o príncipe, que nós tratávamos por D Juanito, fez dez anos, houve um acordo
entre o Sr. Conde de Barcelona e o Generalíssimo Franco para o Príncipe ir
estudar para Espanha. A partir dessa altura nós só o víamos nas férias”, contou ao Observador em 2014.
▲ A princesa
Maria das Mercedes com os quatro filhos na casa no Estoril; Juan Carlos quando
tinha 16 anos Gamma-Keystone via Getty
Images
“Quando ele vai para Espanha pela
primeira vez, que era o sonho do pai, vai no Lusitânia Expresso à noite, cheio
de frio, e tem todos os fidalgos e grandes de Espanha à espera e nem lhe deram
um copo de água ou uma refeição quente”, diz
em entrevista ao Observador em 2024 José Bouza Serrano, autor da biografia
O Rei Sem Abrigo. Chegou
a Espanha para estudar e terminou o bacharelato no Instituto San Isidro, em
Madrid, em 1954. No ano seguinte ingressou na academia militar e depois
licenciou-se em Direito Político e Internacional, Economia e Tesouro Público,
na Universidade Complutense. Contudo, ao longo da adolescência o então
príncipe regressou muitas vezes a Portugal.
Golf, vela, festas e uma tragédia
Bouza Serrano, que
desenvolveu atividades diplomáticas em Espanha, conta que conheceu Juan Carlos
no golf do Estoril quando ainda era criança.”Estava num grupo de pessoas e às tantas o Rei, que na altura era
príncipe, veio e falou a uma série de pessoas e apresentaram-me.” Quem também relata momentos da juventude de Juan Carlos
é o príncipe Vittorio Emanuele de Sabóia,
que viveu exilado em Cascais na mesma altura. “Tenho muitas coisas para contar,
mas não posso. Coisas sobre Juan Carlos”, disse, na
série documental O Príncipe Sem Trono, realizada
por Beatrice
Borromeo em 2023. “Eu
estava ali! Estávamos no exílio e costumávamos atirar jarras e garrafas na
praia de Cascais”, revela Vittorio Emanuele, que recorda um dos episódios
trágicos da família real espanhola. “Juanito fez um grande alarido. Disparou
contra o irmão e matou-o. Chamava-se Alfonsito. Não disparou diretamente contra
ele, mas sim através de um armário. Eu estava lá. Foi um acidente. A 100% eh?
Escondi a minha arma imediatamente. Se não, tinham-me culpado novamente.”
▲ O funeral de Alfonso, a 2 de
abril de 1956, em Cascais Getty
Images
O
irmão mais novo de Juan Carlos, Alfonso, morreu quando tinha 14 anos, na Vila
Giralda. Também Bouza Serrano fala do episódio na biografia do monarca. “Há uma
coisa que é dramática e que creio que em português nunca se tinha escrito, é
que foi ele que matou o irmão. Ele tinha a arma e foi um acidente. Também
me custou escrever. Lembro-me, era miúdo, lá em casa lia-se O Século, e
apareceu naqueles dias, que eram feriados, uma fotografia a preto e branco, os
príncipes no Estoril e a família real e tudo muito discreto, [com a informação
de que era] um disparo acidental quando estavam a limpar uma arma”, conta o
antigo embaixador português. Até hoje há diferentes teorias sobre o que
verdadeiramente se passou. O que se sabe é que Alfonso, de 14 anos, participou
numa competição no Clube de Golf a 29 de março de 1956, uma quinta-feira santa.
Mais tarde, já em casa, com o irmão Juan, de 18, praticava pontaria com um
revólver caliber 22 na sala de jogos no primeiro piso quando a arma disparou. O
irmão mais novo do rei emérito foi enterrado num cemitério em Cascais e a arma
foi lançada ao mar pelo próprio pai.
“Fomos uma vez juntos a
Alfama com um grupo de amigos, e lembro-me da princesa estar muito espantada
com o à vontade do marido no meio das multidões alfacinhas.” Jorge
Arnoso, amigo de infância de Juan Carlos
Aos 23 anos Juan Carlos ficou noivo da princesa Sofia da Grécia e o
casal esteve alguns dias no Estoril, quando apresentou a noiva a Jorge Arnoso.
Quando já eram casados, numa nova visita, o amigo do então príncipe recorda:
“Fomos uma vez juntos a Alfama com um grupo de amigos,
e lembro-me de a princesa estar muito espantada com o à vontade do marido no
meio das multidões alfacinhas.” Jorge Arnoso lembra que Juan
Carlos, “durante a revolução, ainda como
Príncipe de Espanha, esteve sempre atento e preocupado com o desenrolar dos
acontecimentos, o que demonstra o carinho que sempre teve por Portugal.”
Proclamado
Rei de Espanha pouco depois, manteve sempre contacto com o seu companheiro de
juventude, que o visitava em Madrid, umas duas vezes por ano, para almoçarem ou jantarem.
Aos 87 anos, Juan Carlos continua a
praticar vela, desporto que conheceu ainda na infância e que desenvolveu ao
longo da juventude no Clube Naval de Cascais, fundado em 1938. Em 1978, quando já era Rei de Espanha,
numa visita oficial a Portugal, foi homenageado e eleito sócio comodoro
honorário do clube. Em retribuição, Juan Carlos ofereceu um barco da classe
olímpica de vela 470 para os treinos da Seleção Nacional de Portugal, que foi
batizado pela Rainha Sofia, como mostram as imagens da reportagem da
RTP da época. Já na década de 1990 o Rei
ofereceu um troféu ao clube, quando foi
criado o H.M. King Juan Carlos Trophy, evento da Classe Dragão. Na segunda Gold Cup, em 1998, Juan Carlos voltou a Cascais para assistir à
competição, ao lado do príncipe consorte da Dinamarca, Henrik.
▲Juan
Carlos na regata em Sanxenxo em 2022
Europa Press via Getty Images Monumentos
de Cascais homenageiam os Borbón
Além da Vila
Giralda, há outros monumentos em Cascais a destacar a
presença dos Borbón. Em 2000 a
Câmara Municipal inaugurou uma estátua em homenagem aos condes de Barcelona,
pais de Juan Carlos, numa rotunda no Estoril. “Homenagem
do Municipio de Cascais aos Condes de Barcelona D. Juan de Borbon e Dª Maria de
las Mercedes de Borbon e seus filhos Pilar, Juan Carlos, Marguerita e Alfonso
que viveram no Estoril, no período de 1946 a 1977 legando aos cascalenses
perene recordação de simpatia, simplicidade e humanismo”, diz a placa que acompanha a estátua.
Já
em 2022 uma parte do passeio que circunda o Casino Estoril recebeu a placa em
homenagem a Margarita de Borbón. Acompanhada do marido, filhos e netos, a irmã do rei emérito participou na cerimónia de inauguração e, à revista Caras, recordou o tempo em que viveu no exílio, chamando
Portugal o seu “país do coração”. “Cheguei cá quando tinha sete anos, em meados do século passado.
Nunca deixei de vir a Portugal e sempre que estou cá venho ao meu cantinho, de
que tanto gosto. Casei-me na Igreja de Santo António do Estoril e a celebração
foi no Hotel Palácio.”
“Agora, guiado pela convicção de
prestar o melhor serviço aos espanhóis, às suas instituições e a ti como Rei,
comunico-te a minha ponderada decisão de me trasladar, nesta altura, para fora
de Espanha.” - Juan
Carlos I em carta a Felipe VI em 2020 sobre a decisão de autoexilar-se
A vida no
exílio
Em junho de 2014 Juan Carlos abdicou
a favor do filho Felipe, ao fim de 39 anos de reinado.
Entretanto, foi só em agosto de 2020 que tomou a decisão de deixar o país,
depois de uma onda de
escândalos pessoais e fiscais. “Agora,
guiado pela convicção de prestar o melhor serviço aos espanhóis, às suas
instituições e a ti como Rei, comunico-te a minha ponderada decisão de me
trasladar, nesta altura, para fora de Espanha.”, escreveu o rei emérito numa
carta ao filho. Alguns dias depois soube-se que o destino do exílio seria Abu
Dhabi.
Durante
estes últimos cinco anos, o antigo monarca teve de lidar com as polémicas que
vieram à tona em diferentes momentos, repescando episódios do passado que
continuam a pairar sobre a reputação do antigo soberano. Em 2021
Corinna Larsen, que foi a sua amante durante anos, processou Juan Carlos, no Reino
Unido, por assédio e vigilância ilegal, mas um tribunal de Londres pôs fim ao
processo em 2023 por considerar que a jurisdição britânica não
era adequada para julgar o caso. Já em setembro de 2024, outra amante do
passado, Bárbara Rey, voltou a assombrar a vida da família real espanhola. A revista holandesa Privé publicou
fotografias comprometedoras tiradas em 1994, onde o rei emérito de Espanha
aparecia a beijar a actriz. A 12 de junho a estrela da televisão espanhola
lançou a sua autobiografia, com excertos
reveladores sobre a relação com Juan Carlos.
▲Juan Carlos e Corinna num
evento em Madrid em 2006 Getty Images
Já os processos abertos sobre o património no estrangeiro, como os
presentes recebidos pelo multimilionário mexicano Allen Sanginés-Krause ou a
fortuna ocultada na ilha de Jersey, foram todos arquivados em 2022 devido à condições de inviolabilidade do
monarca enquanto chefe de Estado, à prescrição dos alegados crimes e à falta de
indícios em outros casos. Em maio do mesmo ano, depois do arquivamento, o
antigo rei de Espanha declarou em outra carta ao filho que havia decidido fixar residência nos
Emirados Árabes. “Prefiro,
neste momento, por razões que são de âmbito privado e só a mim dizem respeito
continuar a viver de forma permanente e estável em Abu Dhabi onde
encontrei tranquilidade, especialmente neste período da minha vida. Ainda que,
como é normal, voltarei com frequência a Espanha, que trago sempre no coração,
para visitar a família e amigos”, escreveu. A
primeira visita ao país seria alguns
dias depois, na ocasião de uma regata na qual
pilotou o iate Bribón. Desde
então, o rei emérito viaja a Espanha com frequência, mas não fica em residências
da realeza — é habitualmente recebido em casa do velejador espanhol Pedro
Campos, em Sanxenxo, na Galiza.
Este amigo e outras pessoas
próximas do rei, como o dono do restaurante Flanagan, em Maiorca, Miguel Arias;
o advogado Jerónimo Páez e o dentista Eduardo Anitua; organizaram juntos em
2024 uma festa de aniversário em Abu Dhabi para comemorar os 86 anos de Juan
Carlos. A festa, que foi acompanhada de perto por uma
equipa de reportagem da revista espanhola Hola!, teve a presença de membros
da família real, como as filhas Cristina e Elena, e os netos Irene, Pablo,
Victoria e Felipe. Já em janeiro de 2025 a comemoração repetiu-se,
com as mesmas presenças familiares e desta vez com uma videochamada dos Reis Felipe e Letizia e das netas Leonor e
Sofia, directamente do Palácio de Zarzuela, Outra
surpresa da festa dos 87 foi um espectáculo de drones, que criaram no céu de
Abu Dhabi a figura do monarca, o escudo e a bandeira de Espanha e mensagens de
felicitações, além dos fogos de artifício.
O rei sem túmulo e a visita secreta
ao Escorial
Em setembro de 2024 o rei emérito
visitou em segredo, junto da sua equipa de segurança, a cidade de San Lorenzo de
El Escorial, onde fica a cripta real e estão enterrados os reis e as suas mães
desde há quatro séculos. Contudo,
o túmulo já está cheio, devido à decisão do próprio Juan Carlos de, nos anos
1990, enterrar no local os pais, os condes de Barcelona. “Se ele morre fora, têm que o trazer para
o Escorial, onde não tem túmulo. Portanto, toda a família real, não tem sítio“,
diz Bouza Serrano, que explica que “se [Juan Carlos] morrer vai para o
“pudridero” 20 anos até que o corpo fique consumido para entrar nos maravilhosos
sarcófagos de bronze, mas nem esses tem, porque eram só 26.”
"Pergunto-me,
será que quando sopram ventos de mudança e de República o património nacional
pode arranjar dinheiro para fazer uma nova cripta de reis do Escorial?" José
Bouza Serrano, autor da biografia "O Rei sem Abrigo"
De acordo com a directora de comunicação do Grupo
Escuela Internacional de Protocolo, Marina Fernández, em declarações ao El
Español, “mesmo que Juan Carlos não seja reinante, ele mesmo
criou um precedente ao aprovar que o seu pai, D. Juan de Borbón, fosse
enterrado na cripta sem ter sido formalmente rei de Espanha”. Contudo,
com o túmulo cheio, “há que se
buscar outro sítio e não há nada definido. Fala-se a possibilidade de ampliar o
panteão, fazer uma espécie de cripta adjacente para que caibam Juan Carlos,
Sofía, e até Felipe e Letizia”, sugere a especialista. Também José Bouza Serrano questiona:
“Pergunto-me, será que quando sopram ventos de mudança e de República o
património nacional pode arranjar dinheiro para fazer uma nova cripta de reis
do Escorial?”
Certo é que, caso não considere voltar a viver em Espanha, Portugal
é um lugar ao qual o rei emérito chama casa desde a infância, além de muito
mais próximo da família e dos amigos. Resta saber se, com o avançar da idade,
estará mesmo a considerar regressar de vez.
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COMENTÁRIOS (de 8)
GateKeeper: E
porque não?!
Cisca Impllit > GateKeeper: Também julgo
que era bom para ele, para a família e para nós uma alegria que connosco se
sinta bem
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