Dmytro Kuleba sobre as negociações Ucrânia-Rússia: "Não foi uma luta
por um cessar-fogo, mas por Trump"
17 jun. 2025,
00:062
Ex-ministro
dos Negócios Estrangeiros ucraniano considera que nem Kiev nem Moscovo têm
interesse em negociar agora. Em entrevista, fala da guerra, da NATO e até de um
possível regresso à política.
Índice
Foi
provavelmente o rosto mais conhecido do governo ucraniano, a seguir ao
Presidente Volodymyr Zelensky, nos primeiros dois anos após a invasão russa.
Como ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, DMYTRO KULEBA correu
o mundo em acções diplomáticas e encontrou-se regularmente com governantes
europeus — e até com o Presidente Joe Biden. Até que, em setembro de 2024, foi
o nome mais sonante a ser afastado do governo na remodelação
promovida por Zelensky.
Agora
afastado da política — Kuleba é actualmente professor na prestigiada
Universidade francesa Sciences Po —, o antigo ministro não tem problemas em
dizer abertamente o que pensa sobre a actual situação do seu país. Em
entrevista ao Observador, em Lisboa, Dmytro Kuleba sublinhou que as negociações
na Turquia entre as delegações ucraniana e russa não passaram de uma manobra
diplomática para agradar ao Presidente norte-americano, Donald Trump. “Nos últimos quatro meses, não houve um
único momento em que estivéssemos perto de um cessar-fogo, porque esse nunca
foi o objectivo dessas iniciativas”, afirma. Uma
posição do governo de Kiev que não o choca, até porque uma vitória para a
Ucrânia neste momento seria “parar a guerra sem reconhecer legalmente qualquer
perda de território, nem o direito à Rússia de decidir o futuro da Ucrânia, por
exemplo na NATO ou na UE”.
Kuleba admite que o encontro tenso de Zelensky com
Trump na Sala Oval beneficiou o Presidente ucraniano, sobretudo em termos de
popularidade interna, e reconhece-lhe mérito na forma como conseguiu remendar
as relações com os Estados Unidos. Mas não tem dúvidas de que a administração norte-americana não tem
qualquer desejo de aprovar outro pacote militar de ajuda à Ucrânia, o que
representa um particular problema para os ucranianos com os mísseis Patriot, “que
simplesmente vão acabar”. O resto, considera o antigo diplomata, será
auxiliado pela Europa, em quem deposita esperança.
“Não sei se Portugal tem feito sondagens sobre
isto, mas como acha que os cidadãos portugueses responderiam à pergunta: ‘Estão
dispostos a enviar os vossos filhos para morrer pelos países Bálticos?’“
ÍNDICE
Já a NATO não parece gozar da mesma visão benévola: “Tudo o que
sabemos sobre Trump sugere que os soldados americanos não vão morrer fora do
país”, aponta. Isso significaria que, em caso de ataque da Rússia a um país
pertencente à Aliança Atlântica, tudo ficaria nas mãos dos europeus. E aí
Kuleba prevê uma resistência firme de oposições e população: “Não sei se
Portugal tem feito sondagens sobre isto, mas como acha que os cidadãos portugueses
responderiam à pergunta: Estão
dispostos a enviar os vossos filhos para morrer pelos países Bálticos?’“,
atira.
Ainda sobre Portugal, Dmytro Kuleba agradece o apoio nas tentativas de influência
sobre os PALOP e o Brasil, mas é taxativo ao afirmar que “não funcionou”. Em
vez disso, declara que o Governo português se deve focar em aumentar o
investimento na Defesa, para que “não cometam o erro básico que todos os seres
humanos e nações cometem, de achar que o pior não pode acontecer convosco”.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
(ÍNDICE)
Gostaria de começar por falar um pouco sobre a situação actual na
Ucrânia. Temos um cenário em que o Exército russo continua lentamente a
conquistar território no Donbass. Ao mesmo tempo, a ofensiva em Kursk parece
ter estagnado um pouco. A administração dos EUA está muito focada em negociar.
Acha que a liderança ucraniana está a entrar numa nova mentalidade, em termos
de negociações, talvez até ponderando ceder em algumas das questões que antes
eram consideradas essenciais?
Apesar do avanço lento das forças
russas na Ucrânia, não existem condições para negociações, porque, em
diplomacia, negoceia-se quando há alavancas para travar a parte que está a
atacar. E não há essas alavancas. Por isso, o Presidente Zelensky continuará
a defender politicamente a ideia de negociações, sabendo que estas não
começarão, porque Putin não tem zero motivação para parar hoje em dia. Esse é o
problema. Quanto à ofensiva russa sim, está a avançar, mas já estava a
avançar lentamente há seis ou oito meses. Nenhum desses avanços constitui uma
ameaça crítica à linha da frente ucraniana. Infelizmente, ao dia de hoje, não
vejo qualquer possibilidade de cessar-fogo na Ucrânia.
Vimos a tensa reunião na Sala Oval entre
o Presidente Trump e o Presidente Zelensky. Entretanto, a Ucrânia conseguiu
ter outra reunião e alcançar o acordo sobre minerais… Acha que foi uma
vitória diplomática para Zelensky, pela forma como conseguiu recuperar de uma
situação tão tensa?
Foi
claramente um sucesso para ele, tanto nas relações bilaterais com os Estados
Unidos, como a nível interno. Depois da reunião na Sala Oval é claro que todos
estavam muito assustados com o que se viu ali. Mas na Ucrânia, na verdade, o
impacto foi o oposto, porque o apoio ao Presidente Zelensky aumentou entre a
população. Houve um
efeito de união em torno da bandeira, e neste caso, Zelensky personifica essa
bandeira.
"Desde a tomada de posse
[de Trump] até recentemente, todas as conversas e iniciativas não eram sobre um
cessar-fogo. Eram sobre manter Trump
afastado do inimigo. Para os dois lados. A Rússia estava a tentar evitar que
Trump tomasse medidas duras e a Ucrânia estava a tentar mudar a visão de Trump
sobre a Ucrânia e evitar que ele tomasse o partido da Rússia."
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Internamente houve a sensação de que
a Ucrânia tinha sido humilhada?
Claro que sim. E, a nível interno, isso beneficiou Zelensky, porque a
sua taxa de aprovação aumentou. Desde a tomada de posse [de Trump] até
recentemente, todas as conversas e iniciativas não eram sobre um cessar-fogo.
Eram sobre manter Trump afastado do inimigo. Para os dois lados. A Rússia
estava a tentar evitar que Trump tomasse medidas duras e a Ucrânia estava a tentar
mudar a visão de Trump sobre a Ucrânia e evitar que ele tomasse o partido da
Rússia. Portanto, enquanto todos falavam de
cessar-fogo, na realidade, isto foi tudo sobre Trump, não sobre o cessar-fogo.
Acha que foi apenas uma questão de imagem?
Absolutamente,
sim. Na vida, como nas relações internacionais, é importante compreender o
significado, a substância, do que está a acontecer, não apenas à superfície. Uma
coisa é ver o livro na prateleira e todos falam do livro. Ler o livro é uma
coisa completamente diferente. Todos falavam de cessar-fogo, mas, na verdade, não foi
uma luta por um cessar-fogo, mas por Trump. Nos últimos quatro meses, não houve um único momento
em que estivéssemos perto de um cessar-fogo, porque esse nunca foi o objectivo
dessas iniciativas.
Como avalia a actuação dos EUA? O
Presidente Trump mudou de posição? Recentemente, por exemplo, Steve
Witkoff disse que os chamados referendos nas zonas ocupadas eram indicador de
que as pessoas queriam juntar-se à Rússia. Ou seja, parece que há declarações
oficiais que apontam para uma administração Trump que não está totalmente
alinhada com Kiev.
Com excepção de um momento em que a administração Trump suspendeu a
partilha de informações e a assistência militar à Ucrânia, tudo o resto
foram apenas palavras. O que quer que o senhor Witkoff disse não resultou
em nenhum passo real em direcção a um acordo, seja em que condições fosse. Houve muitas declarações irritantes, algumas até
hostis em relação à Ucrânia, mas não foram acções, foram declarações. Excepto a
decisão que mencionei.
E que foi revertida.
Sim, foi revertida. Portanto é doloroso ouvir estas declarações, mas
desde que não se transformem em decisões claramente contra a Ucrânia, podem ser
toleradas.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A relação da administração Trump com a Ucrânia. “Houve muitas declarações
irritantes, algumas até hostis, mas não foram acções”
Gostaria de começar por falar um pouco sobre a situação actual na
Ucrânia. Temos um cenário em que o Exército russo continua lentamente a
conquistar território no Donbass. Ao mesmo tempo, a ofensiva em Kursk parece
ter estagnado um pouco. A administração dos EUA está muito focada em negociar.
Acha que a liderança ucraniana está a entrar numa nova mentalidade, em termos
de negociações, talvez até ponderando ceder em algumas das questões que antes
eram consideradas essenciais?
Apesar do avanço lento das forças
russas na Ucrânia, não existem condições para negociações, porque, em
diplomacia, negoceia-se quando há alavancas para travar a parte que está a
atacar. E não há essas alavancas. Por isso, o
Presidente Zelensky continuará a defender politicamente a ideia de negociações,
sabendo que estas não começarão, porque Putin não tem zero motivação para parar
hoje em dia. Esse é o problema. Quanto à ofensiva russa sim, está a avançar, mas já estava a
avançar lentamente há seis ou oito meses. Nenhum desses avanços constitui uma
ameaça crítica à linha da frente ucraniana. Infelizmente, ao dia de hoje, não
vejo qualquer possibilidade de cessar-fogo na Ucrânia.
Putin “tentado” a fazer um ataque limitado a um país da NATO. “São os
exércitos europeus capazes neste momento de lutar eficazmente contra a Rússia?
Não, não são”
Como acha que Vladimir Putin olha
para a presidência de Trump? Acha que ele espera conseguir manipulá-lo?
Ele
tem apenas um interesse fundamental nas relações com Trump: garantir que o
Presidente Trump não toma decisões que aumentem a pressão económica sobre a
Rússia, sobretudo no preço do petróleo russo, e na assistência militar à
Ucrânia. Quanto à assistência militar, penso que Putin tem melhores hipóteses
de ser bem-sucedido, porque é claro que o Presidente Trump não vai lançar o seu
próprio programa de ajuda militar à Ucrânia…
Já passaram seis meses desde o último programa.
Não
vai acontecer. Mas, no que diz respeito às sanções, a situação é frágil para
Putin. Há muitas declarações vindas de Moscovo, mas, na prática, há mais
ataques no terreno e no ar. E é assim que as coisas vão continuar.
Em termos de ajuda
militar, acha que a Europa tem capacidade para substituir os EUA?
A
Europa já interveio. Vi recentemente os dados mais recentes e a assistência dos
EUA encolheu dramaticamente, quase até zero, o que significa que Trump está
apenas na fase final de cumprimento do que foi prometido pelo Presidente Biden,
e não está a travar isso. Ao mesmo
tempo, a assistência da UE está a aumentar. O problema é que não está a ser
distribuída equitativamente entre os Estados-membros. Alguns aumentaram
significativamente o apoio à Ucrânia, outros não. Agora é uma questão de
família, cabe aos países da UE sentarem-se, olharem-se nos olhos e perguntarem:
“A Europa tem capacidade para aumentar o apoio à Ucrânia?” Tem, absolutamente.
Vai continuar a aumentá-lo? Sim. A questão é apenas quanto tempo levará até a
Europa começar a produzir armamento e a comprar mais armamento de outros
mercados.
Será suficiente para sustentar a frente militar da Ucrânia?
Penso
que se a Ucrânia e a UE agirem juntas, de forma coordenada, serão
capazes de satisfazer as necessidades na linha da frente. A área onde nem a Ucrânia nem a UE podem
substituir os Estados Unidos é na defesa aérea, mais especificamente os
mísseis Patriot que interceptam os mísseis balísticos russos e norte-coreanos
na Ucrânia. Este é o
ponto mais sensível, porque está completamente nas mãos dos Estados Unidos. Se não
encontrarmos uma forma de comprar estes mísseis aos Estados Unidos, vamos ver
muitas notícias vindas da Ucrânia sobre a destruição massiva de cidades com
mísseis balísticos. Porque simplesmente [os que temos] vão acabar.
"Putin vê que a Europa tomou a decisão de começar
a obter armamento, portanto é lógico: 'Por
que devemos esperar que eles se tornem mais fortes para os atacarmos?' Deve-se
atacar quando o inimigo está fraco."
Os
portugueses estão dispostos a enviar os filhos para morrer pelos Bálticos?'”
(CONTINUA)
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