Nação valente: Um retrato complexado.
Também me parece justo, e desde há muito tempo, pobres de nós, acomodados
que somos, não mais educados em velhos valores de amor nacional, ditados por
quem tão vilipendiado foi, nos cinquenta anos anteriores. E assim prosseguirá,
os cravos aparatosos anualmente periódicos, bem sinalizadores desse “fora de
serviço” da tal valentia, para sempre ficcional, com as excepções inúteis.
Nação valente (fora de serviço)
A esquerda em peso – enfim, o possível, actualmente – saltou e lá
veio, antes que o próprio ayatollah encontre a Praia da Vitória no mapa, pedir
ela mesma satisfações ao governo.
ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista
OBSERVADOR, 26 jun. 2025, 00:206
Imagino que também tenha aparecido
nos feeds das suas redes: “Irão vai
pedir explicações a Portugal sobre uso da Base das Lajes”, ou
títulos similares. A notícia vinha, provavelmente, acompanhada por um de
dois tipos de comentário de quem a partilhava: um receoso “agora é que nos lixámos” ou um triunfal “faz lá peito agora.” Quase juraríamos, no entanto, que qualquer das atitudes, aparentemente muito
distintas, coincidiam no facto de nem terem aberto a notícia antes de a
partilhar. Se o tivessem feito, em vez de imaginarem logo mísseis
balísticos a cair entre as vaquinhas da manta de retalhos terceirense ou fatwas
decretadas contra o Nuno Rogeiro, talvez
tivessem antes achado caricato que o autor da declaração, o embaixador
iraniano em Lisboa, só tivesse sabido da notícia naquele momento, questionado pela
Rádio Renascença. Não disporá o Irão de serviços de informações? Não levará
a sério a ameaça açoriana à sua existência, ao consentir a aterragem de uma
dúzia de aviões possivelmente usados no reabastecimento de outros, envolvidos
na “Guerra dos 12 Dias”?
Mas, enfim, o senhor lá disse que iam
averiguar e que, se houvesse chatice, então sim, perguntariam ao governo
português, porque, na verdade, se tinha tratado de um ataque a “instalações nucleares pacíficas” (será só a mim
que isto soa como “moca de pregos amigável”?)
e que não costumam ter problemas com Portugal. “A última questão remonta há 500 anos, quando os portugueses estavam
na nossa região do Golfo Pérsico”, disse, revelando que a menor atenção dada à
actualidade lusitana poderá ser compensada por um apreciável conhecimento
histórico.
Claro
que isto não ficou pelas redes sociais e, rapidamente, saltou para a política,
territórios, afinal, cada vez mais tão próximos. A esquerda em peso – enfim, o
possível, actualmente – saltou e lá veio, antes que o próprio ayatollah encontre
a Praia da Vitória no mapa, pedir ela mesma satisfações ao governo.
Ora, não está em causa a justeza ou
não da intervenção americana, a questão geral da guerra Irão-Israel, que
acontece há décadas, de forma directa ou indirecta; está em causa o tuga. O português em geral, do feed da rede social
à bancada do Parlamento, e o mundo em que acha que vive.
Espera-se, do deputado do Livre ao do
PS, mas também, apesar de tudo, do anónimo utilizador das redes, que saiba que Portugal
faz parte da NATO desde a sua fundação, que é aliado dos Estados Unidos, e que
os dois países têm há 80 anos – 80, não começou agora com Trump nem Montenegro
– um acordo para a utilização da base militar das Lajes. E que, em princípio,
uma base militar não serve para organizar rifas nem bailes dos bombeiros, mas
para este tipo de coisa: apoio a intervenções militares.
Os
que se acham moralmente muito envergonhados por verem Portugal envolvido num
ataque que viola o direito internacional têm todo o direito a isso, mas
conviria que dissessem, antes de pedirem explicações para coisas óbvias, qual a
alternativa que propõem. É que, no mundo real, os países têm defesa, têm armas
e forças armadas, bombas, munições, tanques, aviões, navios de guerra,
submarinos – coisas sujas, mas que desincentivam os outros a usarem as deles
contra nós. Se não queremos estar protegidos pela NATO e pelos EUA, protecção a
troco da qual cedemos coisas como a utilização de uma base para aterragem de
aviões de reabastecimento, então temos de escolher uma de duas: aceitar a
protecção do Irão, da Rússia e da China ou investir nós mesmos na nossa própria
defesa. Mas, da
esquerda com cartão de militante ao pregador das redes sociais, não se avista
muita gente disponível para nenhuma das opções.
Não ocorre sequer a estes coros de
pretensas beatas do humanismo sugerir antes ao Governo que peça satisfações ao
Irão por vender armas e drones que a Rússia usa para destruir a Ucrânia, ou
pelo apoio que dão aos Houtis, ao Hezbollah ou ao Hamas, a quantos milhões
ajudaram a matar na Síria, ao longo de mais de uma década, para segurar Bashar
al-Assad no poder, à fome na Venezuela de Maduro ou no seu próprio país, onde
se matam mulheres à pancada por não usarem correctamente o hijab. Não.
A sua má consciência não lhes permite. Num mundo em profunda mudança, apesar de
tudo, são velhos conhecidos: são os puros, os que acham que o mundo se divide
entre bons e maus, vítimas e predadores, inocentes e culpados, virtuosos e
corrompidos. Mas, como
nunca lhes passará pela cabeça abdicar de viver no conforto do lado impuro, vão
aliviando a consciência com uns tweets e uns
cartazes, convictos de ganharem um lugar no céu dos moralistas de religião
própria.
Mas serão assim tão diferentes dos que
partilharam com preocupação genuína a notícia das “explicações” que o Irão ia
“pedir a Portugal”?
Segundo um estudo do Conselho Europeu
das Relações Externas noticiado pela Lusa também por estes dias, os portugueses são, entre os 12
países europeus inquiridos, os mais preocupados com o uso de armas nucleares
(85%), uma terceira guerra mundial (82%) e uma guerra ainda maior em solo
europeu além da Ucrânia (77%). Mais do que a Estónia ou a Polónia, que estão ao
lado da Rússia, do que a Alemanha, que sabe o que é uma guerra, ou do que
França ou Inglaterra, que também se metem em todas.
Surpreendido?
Provavelmente, não. Provavelmente já reparou, como eu, que é cada vez
mais habitual ver-nos “liderar” também este tipo de tops. Uma rápida pesquisa no Google por “Portugueses são os que têm mais medo de” dá uma
leve ideia da vasta panóplia de fobias nacionais: “Portugueses são os que têm mais medo de comprar online”, “Portugueses
são os que têm mais medo de ficar infectados com covid-19 ao mexer em notas e
moedas”, “Portugueses entre os europeus com mais medo de erros nos cuidados de
saúde”, “Um terço dos portugueses tem medo de viajar de avião” ou “Quase metade
dos portugueses têm medo que desapareça o bacalhau” são alguns dos resultados que
aparecem só nas duas primeiras páginas da pesquisa.
Não por acaso aliás, voltando
ao estudo do Conselho Europeu das Relações Externas, estamos também entre os
“mais inquietos que o Estado invista demasiado em defesa e descure outras
políticas”.
Ou
seja, isto é tudo muito simples: queremos sol na eira e chuva no nabal. Comer o
bolo e ter o bolo. Temos medo da guerra, mas também temos medo de nos defender
demais contra a guerra e depois faltar dinheiro para outras coisas, coisas como
o Estado Social que, em última instância, só uma guerra pode defender.
Tornámo-nos um país à
beira-medo plantado. Não é por acaso que apreciamos líderes
democráticos com tiques autoritários. Da última vez que tivemos problemas com o
Irão, ao menos éramos corajosos e defendíamos nós mesmos os nossos interesses.
Deve ser por isso que o embaixador, que ainda se lembra do que aconteceu há 500
anos, agora nem deu por ela.
IRÃO MÉDIO ORIENTE
MUNDO PAÍS SOCIEDADE COMPORTAMENTO
COMENTÁRIOS:
João Floriano: Tivemos 41 anos de Estado Novo, mas já antes a situação
não foi nada brilhante (não é piada ao regresso da liderança de Eurico
Brilhante à bancada do PS, porque esta escolha de brilhante nada tem). Agora
já vamos com 51 anos de revolução dos cravos. Têm sido anos dominados pela
esquerda e extrema-esquerda, sem coragem para reformar e embora seja inegável
que temos liberdade de expressão e de pensamento, a verdade é que estamos
condicionados pelo politicamente correcto da esquerda, mesmo que tenha sido
derrotada em 2024 e em 2025. Em vez de uma nação valente temos uma nação
tímida. Maria
João Pestana: Muito bem! Tudo dito. João
Mourão: Excelente artigo que bem expressa o estado actual de alguma
"alma lusitana" Maria Cordes: Admirável a fleuma do Sr. Embaixador
face ao activismo desta esquerda, em estertor, mas que a comunicação social
insiste em exibir, como se tivesse uns expressivos 60%, em vez dos 3, por onde
ainda respiram. O alarmismo, a saloíce, foi reforçada vibrantemente, pelos
pasquins, e comentaristas que pululam, no jardim à beira mar plantado.
Imediatamente, os tais 3%, correram para debaixo da cama, com medo.
Alexandre Barreira: Pois. Caro Alexandre, Essa dos portugueses terem a
"fobia". Que desapareça o bacalhau. Está divinal. E não foi por acaso
que o Quim Barreiros, com "Mariazinha deixa-me cheirar o teu
bacalhau". Tem todo o sentido....!
José B
Dias: Talvez o aqui cronista devesse ter lido o texto do acordo de utilização das
Lajes actualmente em vigor (e que é a razão para que o estacionamento dos
aviões reabastecedores ter sido formalmente solicitada ao Governo português e
por este autorizada)... e já agora percebido também que a acção norte-americana
no Irão não foi uma acção da NATO. O que ninguém explicou é se a utilização dos referidos
aviões no reabastecimento de uma missão de ataque a infraestruturas de um
Estado terceiro foi explicitado no pedido e era conhecido aquando da
autorização ... Francisco
Ramos: De tudo
isto o que retive de mais interessante, foi a D. Mortágua a pedir que Portugal
saia da NATO. Quando se
não tem a noção do ridículo o resultado é este.
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