sexta-feira, 27 de junho de 2025

Dorme

 

Nação valente: Um retrato complexado.

Também me parece justo, e desde há muito tempo, pobres de nós, acomodados que somos, não mais educados em velhos valores de amor nacional, ditados por quem tão vilipendiado foi, nos cinquenta anos anteriores. E assim prosseguirá, os cravos aparatosos anualmente periódicos, bem sinalizadores desse “fora de serviço” da tal valentia, para sempre ficcional, com as excepções inúteis.

Nação valente (fora de serviço)

A esquerda em peso – enfim, o possível, actualmente – saltou e lá veio, antes que o próprio ayatollah encontre a Praia da Vitória no mapa, pedir ela mesma satisfações ao governo.

ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista

OBSERVADOR, 26 jun. 2025, 00:206

Imagino que também tenha aparecido nos feeds das suas redes:Irão vai pedir explicações a Portugal sobre uso da Base das Lajes, ou títulos similares. A notícia vinha, provavelmente, acompanhada por um de dois tipos de comentário de quem a partilhava: um receoso “agora é que nos lixámos” ou um triunfal “faz lá peito agora.” Quase juraríamos, no entanto, que qualquer das atitudes, aparentemente muito distintas, coincidiam no facto de nem terem aberto a notícia antes de a partilhar. Se o tivessem feito, em vez de imaginarem logo mísseis balísticos a cair entre as vaquinhas da manta de retalhos terceirense ou fatwas decretadas contra o Nuno Rogeiro, talvez tivessem antes achado caricato que o autor da declaração, o embaixador iraniano em Lisboa, só tivesse sabido da notícia naquele momento, questionado pela Rádio Renascença. Não disporá o Irão de serviços de informações? Não levará a sério a ameaça açoriana à sua existência, ao consentir a aterragem de uma dúzia de aviões possivelmente usados no reabastecimento de outros, envolvidos na “Guerra dos 12 Dias”?

Mas, enfim, o senhor lá disse que iam averiguar e que, se houvesse chatice, então sim, perguntariam ao governo português, porque, na verdade, se tinha tratado de um ataque a “instalações nucleares pacíficas” (será só a mim que isto soa como “moca de pregos amigável”?) e que não costumam ter problemas com Portugal. “A última questão remonta há 500 anos, quando os portugueses estavam na nossa região do Golfo Pérsico”, disse, revelando que a menor atenção dada à actualidade lusitana poderá ser compensada por um apreciável conhecimento histórico.

Claro que isto não ficou pelas redes sociais e, rapidamente, saltou para a política, territórios, afinal, cada vez mais tão próximos. A esquerda em peso – enfim, o possível, actualmente – saltou e lá veio, antes que o próprio ayatollah encontre a Praia da Vitória no mapa, pedir ela mesma satisfações ao governo.

Ora, não está em causa a justeza ou não da intervenção americana, a questão geral da guerra Irão-Israel, que acontece há décadas, de forma directa ou indirecta; está em causa o tuga. O português em geral, do feed da rede social à bancada do Parlamento, e o mundo em que acha que vive.

Espera-se, do deputado do Livre ao do PS, mas também, apesar de tudo, do anónimo utilizador das redes, que saiba que Portugal faz parte da NATO desde a sua fundação, que é aliado dos Estados Unidos, e que os dois países têm há 80 anos – 80, não começou agora com Trump nem Montenegro – um acordo para a utilização da base militar das Lajes. E que, em princípio, uma base militar não serve para organizar rifas nem bailes dos bombeiros, mas para este tipo de coisa: apoio a intervenções militares.

Os que se acham moralmente muito envergonhados por verem Portugal envolvido num ataque que viola o direito internacional têm todo o direito a isso, mas conviria que dissessem, antes de pedirem explicações para coisas óbvias, qual a alternativa que propõem. É que, no mundo real, os países têm defesa, têm armas e forças armadas, bombas, munições, tanques, aviões, navios de guerra, submarinos – coisas sujas, mas que desincentivam os outros a usarem as deles contra nós. Se não queremos estar protegidos pela NATO e pelos EUA, protecção a troco da qual cedemos coisas como a utilização de uma base para aterragem de aviões de reabastecimento, então temos de escolher uma de duas: aceitar a protecção do Irão, da Rússia e da China ou investir nós mesmos na nossa própria defesa. Mas, da esquerda com cartão de militante ao pregador das redes sociais, não se avista muita gente disponível para nenhuma das opções.

Não ocorre sequer a estes coros de pretensas beatas do humanismo sugerir antes ao Governo que peça satisfações ao Irão por vender armas e drones que a Rússia usa para destruir a Ucrânia, ou pelo apoio que dão aos Houtis, ao Hezbollah ou ao Hamas, a quantos milhões ajudaram a matar na Síria, ao longo de mais de uma década, para segurar Bashar al-Assad no poder, à fome na Venezuela de Maduro ou no seu próprio país, onde se matam mulheres à pancada por não usarem correctamente o hijab. Não. A sua má consciência não lhes permite. Num mundo em profunda mudança, apesar de tudo, são velhos conhecidos: são os puros, os que acham que o mundo se divide entre bons e maus, vítimas e predadores, inocentes e culpados, virtuosos e corrompidos. Mas, como nunca lhes passará pela cabeça abdicar de viver no conforto do lado impuro, vão aliviando a consciência com uns tweets e uns cartazes, convictos de ganharem um lugar no céu dos moralistas de religião própria.

Mas serão assim tão diferentes dos que partilharam com preocupação genuína a notícia das “explicações” que o Irão ia “pedir a Portugal”?

Segundo um estudo do Conselho Europeu das Relações Externas noticiado pela Lusa também por estes dias, os portugueses são, entre os 12 países europeus inquiridos, os mais preocupados com o uso de armas nucleares (85%), uma terceira guerra mundial (82%) e uma guerra ainda maior em solo europeu além da Ucrânia (77%). Mais do que a Estónia ou a Polónia, que estão ao lado da Rússia, do que a Alemanha, que sabe o que é uma guerra, ou do que França ou Inglaterra, que também se metem em todas.

Surpreendido? Provavelmente, não. Provavelmente já reparou, como eu, que é cada vez mais habitual ver-nos “liderar” também este tipo de tops. Uma rápida pesquisa no Google por “Portugueses são os que têm mais medo dedá uma leve ideia da vasta panóplia de fobias nacionais: Portugueses são os que têm mais medo de comprar online”, “Portugueses são os que têm mais medo de ficar infectados com covid-19 ao mexer em notas e moedas”, “Portugueses entre os europeus com mais medo de erros nos cuidados de saúde”, “Um terço dos portugueses tem medo de viajar de avião” ou “Quase metade dos portugueses têm medo que desapareça o bacalhau são alguns dos resultados que aparecem só nas duas primeiras páginas da pesquisa.

Não por acaso aliás, voltando ao estudo do Conselho Europeu das Relações Externas, estamos também entre os “mais inquietos que o Estado invista demasiado em defesa e descure outras políticas”.

Ou seja, isto é tudo muito simples: queremos sol na eira e chuva no nabal. Comer o bolo e ter o bolo. Temos medo da guerra, mas também temos medo de nos defender demais contra a guerra e depois faltar dinheiro para outras coisas, coisas como o Estado Social que, em última instância, só uma guerra pode defender.

Tornámo-nos um país à beira-medo plantado. Não é por acaso que apreciamos líderes democráticos com tiques autoritários. Da última vez que tivemos problemas com o Irão, ao menos éramos corajosos e defendíamos nós mesmos os nossos interesses. Deve ser por isso que o embaixador, que ainda se lembra do que aconteceu há 500 anos, agora nem deu por ela.

IRÃO         MÉDIO ORIENTE          MUNDO           PAÍS           SOCIEDADE         COMPORTAMENTO

COMENTÁRIOS:
João Floriano: Tivemos 41 anos de Estado Novo, mas já antes a situação não foi nada brilhante (não é piada ao regresso da liderança de Eurico Brilhante à bancada do PS, porque esta escolha de brilhante nada tem). Agora já vamos com 51 anos de revolução dos cravos. Têm sido anos dominados pela esquerda e extrema-esquerda, sem coragem para reformar e embora seja inegável que temos liberdade de expressão e de pensamento, a verdade é que estamos condicionados pelo politicamente correcto da esquerda, mesmo que tenha sido derrotada em 2024 e em 2025. Em vez de uma nação valente temos uma nação tímida.                  Maria João Pestana: Muito bem! Tudo dito.      João Mourão: Excelente artigo que bem expressa o estado actual de alguma "alma lusitana"          Maria Cordes: Admirável a fleuma do Sr. Embaixador face ao activismo desta esquerda, em estertor, mas que a comunicação social insiste em exibir, como se tivesse uns expressivos 60%, em vez dos 3, por onde ainda respiram. O alarmismo, a saloíce, foi reforçada vibrantemente, pelos pasquins, e comentaristas que pululam, no jardim à beira mar plantado. Imediatamente, os tais 3%, correram para debaixo da cama, com medo.                      Alexandre Barreira: Pois. Caro Alexandre, Essa dos portugueses terem a "fobia". Que desapareça o bacalhau. Está divinal. E não foi por acaso que o Quim Barreiros, com "Mariazinha deixa-me cheirar o teu bacalhau". Tem todo o sentido....!        José B Dias: Talvez o aqui cronista devesse ter lido o texto do acordo de utilização das Lajes actualmente em vigor (e que é a razão para que o estacionamento dos aviões reabastecedores ter sido formalmente solicitada ao Governo português e por este autorizada)... e já agora percebido também que a acção norte-americana no Irão não foi uma acção da NATO. O que ninguém explicou é se a utilização dos referidos aviões no reabastecimento de uma missão de ataque a infraestruturas de um Estado terceiro foi explicitado no pedido e era conhecido aquando da autorização ...                   Francisco Ramos: De tudo isto o que retive de mais interessante, foi a D. Mortágua a pedir que Portugal saia da NATO. Quando se não tem a noção do ridículo o resultado é este.

 

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